2 A NOVA YORK DE KOOLHAAS
2.1 Início, a primeira conquista
Pré-História, o primeiro dos 5 capítulos/quadras, é sobre o nascimento da
cidade desde a colônia Nova Amsterdã, fundada em 1623 por holandeses (como Koolhaas). Como a Holanda é toda feita pelo homem, “para os holandeses não
existem acidentes”,17 já traziam instruções detalhadas de como deveria ser a cidade:
uma parte de sua terra natal a ser replicada. Para Gorelik a citação da filiação holandesa no começo da argumentação de Koolhaas objetiva explicitar que, já ali, se
pensava em construir um mundo completamente artificial.18
O objetivo seria conseguido em 1811, quando uma Comissão, formada para regular a ocupação final e conclusiva de Manhattan, entrega desenho propondo doze avenidas no sentido norte-sul e 155 ruas no sentido leste-oeste, gerando 2.208
quadras (Fig. 2.2).Nasce a retícula, ou grid, de Manhattan.
[...] é a previsão mais corajosa da civilização ocidental: ela divide uma terra desocupada, descreve uma população hipotética, situa edifícios fantasmagóricos, abriga atividades inexistentes. […] A retícula é, acima de tudo, uma especulação conceitual […] ela implica um programa intelectual para a ilha: com sua indiferença à topografia, ao que existe, ela afirma a superioridade da construção mental sobre a realidade [...] 19
15 GARGIANI, Roberto, Rem Koolhaas | OMA: The Construction of Merveilles, tradução para inglês de Stephen Picollo, EPFL Press, Second Edition, 2011. p. 63.
16 MONEO, Rafael. Inquietação Teórica e Estratégia Projetual na obra de oito arquitetos contemporâneos. Editora Cosac Naify, 2008, p. 284.
17 KOOLHAAS. Rem. Nova York Delirante: um manifesto retroativo para Manhattan, Tradução de Denise Bottmann, Cosac Naify, São Paulo, 2008. p. 34.
18 GORELIK, Adrián. “Arquitetura e Capitalismo: os usos de Nova York”. Introdução de Nova York Delirante. São Paulo: Cosac Naify, 2008. p. 11.
47 Voltando à frase sobre o que a retícula permitiria: o controle seria dado pela disciplina restritiva, em plano ou bidimensional, da malha, enquanto o descontrole surgiria verticalmente (a multiplicação do solo), quando toda anarquia e toda fantasia pode ser erguida (The City of the Captive Globe é esse discurso representado graficamente de forma teórica e metafórica), já que as construtoras seriam obrigadas a novas estratégias formais para diferenciar uma quadra da outra.
Para que a liberdade permitida pelo descontrole acontecesse e, portanto, o arranha-céu, foi preciso uma invenção antes, a apresentada na Primeira Feira Internacional de 1853.
Entre os itens expostos […] há uma invenção que, mais que todas as outras, mudará a face de Manhattan (e, em menor grau, a do mundo): o elevador.21
A importância do elevador, esse dispositivo libertador, será levantada muitas vezes por Koolhaas, que a usa como símbolo de um modo de pensar arquitetura. Nos conta Kipnis uma passagem onde Eisenman argumenta: “por quatro séculos os valores da arquitetura surgiram da mesma fonte humanista, hoje isso precisa mudar visto novas percepções atingidas graças a filosofia”. Koolhaas responde: “hoje em dia tudo isso tem mudado fundamentalmente graças aos elevadores.” Kipnis usa esse discurso como uma mostra que a arquitetura de Koolhaas nasce de uma pragmática e “franca reflexão sobre arquitetura” e não da filosofia contemporânea ou alguma teoria cultural. 22
O modo que Elisha Otis apresenta seu dispositivo também interessa Koolhaas, uma encenação (Fig. 2.4) onde o inventor sentado numa plataforma elevada corta a corda que a sustenta. O sistema de segurança de Otis (a essência do invento) impede a queda e nada acontece a ele ou à plataforma. O não desastre seria o triunfo, o anticlímax.23
21 KOOLHAAS. Rem. Nova York Delirante: um manifesto retroativo para Manhattan, Tradução de Denise Bottmann, Cosac Naify, São Paulo, 2008. p. 43.
22 KIPNIS, Jeffrey. A Question of Qualities: Essays in Architecture - Recent Koolhaas. The MIT Press, 2013, p.116-117.
Essa apresentação, de hora em hora, acontece em uma das duas grandes estruturas construídas para feira (Fig. 2.5): uma versão do Palácio de Cristal de Londres (um prédio em forma de cruz com enorme cúpula central).
A outra era o Observatório Latting, com 106,68m de altura, primeiro arranha-céu de Nova York onde, com telescópios, as pessoas tinham uma visão nunca vista da cidade, provocando uma autoconsciência territorial de seus moradores.
Koolhaas, em sua análise, identifica a cúpula do Palácio de Cristal como a esfera ideal, que ele chama de “Globo”, que abrigaria em seu útero as “novas genuínas técnicas e invenções destinadas a serem libertas nos prédios de Manhattan,”24 enquanto a o Observatório Latting (a torre) seria a “Agulha”, a “estrutura mais fina e menos volumosa com consumo insignificante do solo”.25 Gargiani nos lembra que esse termo foi emprestado de textos de Le Corbusier, em sua visita a
Nova York em 1935, como um sinônimo dos arranha-céus.26 Ele os interpreta como
representantes de “contraste arquetípico que surgirá e ressurgirá ao longo de toda
história de Manhattan”,27numa “evolução Darwiniana e surreal”.28 A Agulha e o Globo
aparecerão também no Trylon and Perisphere, de Wallace Harrison, novamente numa
24 GARGIANI, Roberto, Rem Koolhaas | OMA: The Construction of Merveilles, tradução para inglês de Stephen Picollo, EPFL Press, Second Edition, 2011. p. 63.
25 KOOLHAAS. Rem. Nova York Delirante: um manifesto retroativo para Manhattan, Tradução de Denise Bottmann, Cosac Naify, São Paulo, 2008. p. 44.
26 GARGIANI, Roberto. op.cit. p. 63.
27 KOOLHAAS. Rem. op. cit. 45.
28 GARGIANI, Roberto. op.cit. p. 63.
Figura 2.4 - Elisha Otis apresentando sua invenção na Feira Internacional de Nova York de 1853. Fonte: KOOLHAAS. Rem. Nova York Delirante: um manifesto retroativo para Manhattan, Tradução de Denise Bottmann, Cosac Naify, São Paulo, 2008, p.43.
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Feira Internacional em Nova York, agora em 1939 (mais uma referência citada em The
City of The Captive Globe).
Um cartaz comemorativo das duas feiras (1853 e 1939), sobrepondo suas “Agulhas” e “Globos”, é usado por Koolhaas como metáfora do ciclo que marcaria
início e fim do manhattanismo(Fig. 2.6).
Figura 2.5 - Feira Internacional de Nova York de 1853, Observatório Latting (esquerda) e Palácio de Cristal. Fonte: NEW YORK PUBLIC LIBRARY, disponível em <https://nypl.getarchive.net/media/the-new-york-crystal-palace-and-latting-observatory-0f7fb7>, acessado em 10/08/2019.
Figura 2.6 - Cartaz comemorativo das duas feiras internacionais de Nova York (o ciclo se fechando). Fonte: KOOLHAAS. Rem. Nova York Delirante: um manifesto retroativo para Manhattan, Tradução de Denise Bottmann, Cosac Naify, São Paulo, 2008, p.43.
O papel das Feiras Internacionais (ou mundiais), de experimentos tecnológicos e construtivos, será herdado pelos parques de diversões populares de Coney Island, mas também seus restos mecânicos, fragmentos futurísticos e lixo tecnológico. A esse maquinário soma-se a população de tribos da África e Ásia (atração nas feiras), peles-vermelhas e um “pequeno exército de anões e outras aberrações que migram para Coney Island”.29 A esse conjunto de máquinas e pessoas Koolhaas dá o nome de destroços.
Na visão dele, Coney Island é um fragmento de uma visão geral de Nova York
que reflete a ideia de cidade-arquipélago de seu antigo professor, Ungers.30 Como
lembra Moneo, ele já se assombra com “a cultura de congestão” que enxerga nos parques da ilha.31
E é também o tema do segundo capítulo de Nova York Delirante, intitulado
Coney Island: A “Tecnologia do Fantástico”, onde fica claro o fascínio que essa época
da ilha (meados do século XIX até primeiros anos do século XX) provoca em
Koolhaas, a ponto de se tornar protagonista de seu livro.32