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O patrimônio industrial na cidade de São Paulo

IMÓVEIS TOMBADOS: ENDEREÇO T

4.1 Industrialização e configuração urbana (1889 a 1930):

O desenvolvimento da cidade de São Paulo está em grande parte relacionado com o processo de industrialização iniciado em fins do século XIX que teve o primeiro grande impulso até a década de 1930.

O Estado de São Paulo se beneficiou com a descentralização política proveniente da Proclamação da República, consolidada pela constituição de 1891. Como é apontado por Paul Singer, nesse momento foram tomadas duas medidas que, a princípio, ampararam a cafeicultura mas, posteriormente, foram cruciais para o desenvolvimento do setor industrial: a construção das estradas de ferro e o incentivo à imigração (SINGER, 2004, p.189).

A partir daí, alguns elementos determinantes para esse primeiro impulso industrial podem ser destacados. A própria localização geográfica da cidade próxima ao porto de Santos

consistindo em rota obrigatória para a exportação do café e para a chegada de produtos importados. A substancial infra-estrutura já estabelecida a partir da Proclamação da República como a implantação da malha ferroviária iniciada pela São Paulo Railway ainda em 1867 e o estabelecimento da The São Paulo Light and Power Company limited em 1899, marco fundamental para a modernização da cidade tanto em relação ao transporte público (bondes elétricos) quanto em relação à substituição do vapor como fonte de energia para as indústrias. Outro fator relevante é a diversidade de comércio e serviços na cidade, já que havia muitos profissionais liberais (advogados, médicos, engenheiros, dentistas, redatores de jornais, etc.) e muita atividade bancária, pois vários bancos nacionais e estrangeiros tinham sede ou agência na cidade devido ao crescente interesse de investidores.

Além disso, o grande fluxo migratório no final do século XIX que não só aumentou o mercado consumidor potencial - os operários, embora mal remunerados, também eram consumidores - como também trouxe alguns investidores, importantes capitais que concentrados em alguns grupos fechados de famílias 1, constituíram sociedades anônimas e fomentaram o desenvolvimento industrial em São Paulo. Com estes atrativos, o investimento no setor industrial provinha tanto da participação direta do capital estrangeiro que vinha em busca de novos mercados, quanto do nacional proveniente do crescente acúmulo do capital gerado pela cafeicultura, que, aos poucos, foi transferido para a industrialização, como alternativa aos períodos de crise do café. Durante as duas primeiras décadas do século XX, os setores industriais mais expressivos foram o têxtil (fiação e tecelagem de algodão, juta, lã) e o de alimentos (moagem de trigo, bebidas, refino de açúcar).

De um modo geral a configuração do processo de industrialização no Brasil, incluindo a cidade de São Paulo, embora tenha sido mais tardio, ocorreu nos mesmos moldes europeus, em que a linha férrea, terrenos planos e a proximidade de cursos d´ água atuaram como os principais elementos estruturadores, conforme os estudos de Langenbuch (1971). Os grandes complexos industriais exigiam grandes áreas para implantação e a construção de edificações de enormes dimensões para abrigar toda a linha de produção. Sendo assim, as indústrias de maior porte começaram a ser implantadas fora do núcleo da cidade de São Paulo, dando preferência às margens de estradas de ferro, estendendo-se ao longo dos trilhos da São Paulo Railway, da Estrada de ferro Sorocabana e da Estrada de ferro Central do Brasil (importantes

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Dentre essas, fazem parte imigrantes como: Rodolfo Crespi (Cotonifício Crespi), Alexandre Siciliano (Companhia Mecânica e Importadora), Giuseppe Martinelli, Francesco Matarazzo, Nami Jafet, Roberto Simonsen, Giuseppe Puglisi Carbone (Companhia União de Refinadores), Egídio Gamba (Grandes Moinhos Pinotti Gamba), dentre outros (MAFFEI, 1982, p.26-27).

no escoamento da produção agrícola e industrial do Estado), e aos terrenos planos próximos aos cursos d` água, utilizados tanto para a produção industrial quanto para a disposição de efluentes. Com isso, desenvolveram-se uma série de bairros que abrigavam não só as fábricas como também os operários, como Brás, Belenzinho, Mooca, Água Branca e Lapa iniciando sua caracterização tipicamente industrial (GRILLO, 1997, p.21).

Nessa periferia industrial, se desenvolveram muitas vilas operárias, em terrenos próximos ou adjacentes às indústrias. A construção de casas pelas fábricas visava superar as dificuldades de atração e retenção de mão-de-obra pela indústria. Além disso, havia preocupações como o incremento do controle sobre o operário e o aumento da produtividade. Distantes do núcleo central da cidade, muitas dessas vilas 2 padeciam de isolamento. Paulatinamente, os bairros operários se configuraram, na medida em que serviços e demais residências foram surgindo em decorrência da demanda das unidades fabris.

Fig. 30: Bairro tipicamente industrial: Brás. Vista panorâmica, 1925.

Fonte: SAES, 2004, p.237

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Na região leste destacam-se as vilas operárias na Mooca, construídas para fábricas como a Cervejaria Bavária instalada em 1892 e a do Cotonifício Crespi em 1897. Entretanto, foi no Belenzinho que surgiram as mais expressivas vilas operárias como a Vila Maria Zélia erguida pelo industrial Jorge Street num terreno contíguo a Fábrica Maria Zélia e a Vila Boyes erguida pela Fábrica São Simão e posteriormente comprada pelo grupo Matarazzo para a Tecelagem Belenzinho (GUNN & CORREIA, 2004, p.84). Na região oeste as vilas operárias também acompanharam a instalação de algumas fábricas como a Companhia Antártica Paulista em 1891 e a Vidraria Santa Marina em 1897, pois interessava manter os empregados perto da fábrica sem prejudicar os ciclos de produção.

As várzeas e planícies do Tietê e de seu afluente o Tamanduateí, configuraram um importante eixo no desenvolvimento dos bairros fabris da cidade de São Paulo. Em direção a zona oeste o eixo prolongado pela Av. Água Branca e pela Rua Guaicurus permitia a ligação com a estrada que levava a Campinas. Bairros industriais como Água Branca, Pompéia e Lapa, são iniciados pela implantação de algumas empresas diversas entre as várzeas do Tietê e a linha férrea. Dentre elas uma unidade da fábrica Matarazzo (produtos alimentícios e óleos vegetais), a Companhia Antártica Paulista em 1891, as oficinas da ferrovia São Paulo Railway em 1898 e a Vidraria Santa Marina, em 1897. Em direção leste uma outra artéria foi configurada pela Av. Celso Garcia que se ligava com a estrada rumo ao Rio de Janeiro. No Belenzinho, em direção ao Tatuapé, diversas fábricas se instalaram como a Cia Nacional de Tecido e Juta (Fábrica Maria Zélia) em 1913, a Tecelagem Belenzinho do grupo Matarazzo também da década de 1910, a S.A. Moinho Santista, em 1924, dentre outras. Verifica-se, portanto, que há uma estreita relação entre a implantação do parque industrial e a evolução urbana da cidade de São Paulo já que a estruturação dos bairros operários se desenvolveu em função das fábricas.

É importante destacar que a desigualdade marcava profundamente a configuração da cidade nesse período. O centro e os bairros nobres procuravam ignorar a aglomeração industrial e operária que se expandia ao longo do cinturão ferroviário nas várzeas. Com o crescimento urbano de fins do século XIX, a elite do café procurava construir suas casas em novos bairros (Campos Elíseos, Higienópolis) enquanto as ferrovias e suas estações eram instaladas nas áreas de várzeas e planícies, que constituíam um elemento repulsivo, um fator de isolamento para o sítio urbano central localizado na colina (MONBEIG, 2004, p.20). Enquanto os bairros nobres passaram por intervenções com preocupações urbanas mais estruturadas, em contrapartida, bairros proletários como Brás, Mooca, Bexiga, Barra Funda, possuíam ruas ladeadas por longas fileiras de casas baixas, sem jardins, abertas ao fundo para pequenos quintais longos, estreitos e murados, havia falta de água e esgoto e as ruas eram escuras e enlameadas (ANDRADE, 2004, p.179).

Conforme aponta Langenbuch, o adensamento dessa faixa tipicamente industrial vai se intensificando progressivamente, sendo que até a década de 1930 é possível detectar uma fileira contígua de fábricas e armazéns estendendo-se desde a Lapa até um pouco depois da estação do Ipiranga. O perfil tipológico se mantém nos grandes conjuntos fabris, muitos,

emblematizados pelos tijolos aparentes, coberturas em duas águas, ou em lanternins ou ainda em shed 3 (dente de serra) e a grande chaminé, símbolo incontestável.

Esse denominado primeiro impulso industrial na cidade de São Paulo termina na década de 1930. A quebra da bolsa de Nova York em 1929 proporcionou um colapso mundial que repercutiu no contexto dos cafeicultores na medida em que retraiu as vendas e influênciou a queda dos preços do café (QUEIROZ, 2004, p.33). Além desse importante fator internacional a política nacional do “café com leite” era mais um elemento da crise que se vinha gestando e que culminaria com a Revolução de 30. O presidente Washington Luís foi então deposto e Getúlio Vargas assumiu. O panorama político no país mudou após a Revolução de 30, a elite cafeicultora de São Paulo não conseguiu mais retomar ao poder com a mesma intensidade dos anos anteriores. A crise de 1929 mostrara a fragilidade de economias exportadoras fundamentadas num só produto. O governo de Getúlio passaria então a canalizar esforços no sentido de diversificar a indústria principalmente durante o período da Segunda Guerra Mundial, como conseqüência, o setor industrial se expandiu e se diversificou.