1.5. Abordagem Metodológica
1.5.2. Instrumentos e procedimentos metodológicos
Após o estabelecimento das etapas da pesquisa a partir de seu delineamento, segue o detalhamento para cada momento, com a apresentação de seus instrumentos e procedimentos metodológicos.
Na etapa de compreensão do problema, destacaram-se os momentos de embasamento teórico, a partir de levantamento bibliográfico, e embasamento empírico, a partir de coleta de dados com pesquisa de campo.
O embasamento teórico, obtido a partir da revisão crítica da bibliografia, permitiu situar o trabalho no contexto das pesquisas em andamento, partindo de uma exposição clara do conhecimento existente para gerar bases sólidas à caracterização do objeto e dos objetivos (SERRA, 2006). Os eixos de investigação selecionados consistiram nos seguintes temas: modelagem paramétrica, processo de projeto, e ensino de projeto.
Com relação à modelagem paramétrica, a intenção foi verificar suas especificidades dentro do processo projetual (parametric design) e seu potencial de aplicação no ensino de projeto, além dos principais desafios para sua adoção no meio profissional e acadêmico.
Para o processo de projeto, foram levantados métodos projetuais e habilidades desenvolvidas pelos projetistas, no intuito de perceber sobreposições ou diferenças em relação às práticas que aplicam ferramentas paramétricas, possibilitando a proposição de novos processos, caso necessário.
Por fim, para o ensino de projeto foram identificadas abordagens didáticas que envolvam o processo de projeto e/ou o uso da modelagem paramétrica. A intenção foi verificar os processos
metodológicos e práticas existentes, adquirindo o embasamento necessário para refletir e propor alterações ou inovações.
A partir da revisão bibliográfica, também foi possível estabelecer critérios para identificar as instituições a serem investigadas na pesquisa de campo, cujas práticas são referência no que diz respeito a desafios enfrentados e estratégias adotadas.
Assim, o momento seguinte da etapa de compreensão consistiu na pesquisa de levantamento (survey), que contou com os seguintes procedimentos: 1. definição da amostra e identificação de casos referência no cenário nacional; 2. definição dos instrumentos de coleta de dados; 3. estudo piloto para teste dos instrumentos de coleta; 4.visita de campo e coleta de dados no cenário nacional (casos referência) e cenário local (UFC e UFRN); 5. análise dos dados e caracterização dos cenários nacional e local.
A pesquisa survey pode ser definida como a obtenção de dados ou informações sobre características, ações ou opiniões de determinado grupo de pessoas, indicado como representante de uma população-alvo. Sua escolha é adequada quando o foco de interesse é sobre “o que está acontecendo” ou “como e por que se está acontecendo” (FREITAS et al., 2000).
As etapas da pesquisa survey consistem usualmente em: 1. definição do objetivo da pesquisa, 2. definição da população e a amostra, 3. elaboração dos instrumentos de coleta, 4. coleta de dados (ou trabalho de campo), 5. processamento e análise dos dados; 5. divulgação os resultados (DUARTE, 2010).
O levantamento com abordagem nacional foi realizado, considerando a amostra selecionada a partir de pesquisa documental, com o objetivo de investigar a aplicação da modelagem paramétrica no ensino de projeto em cursos de graduação em arquitetura e design. Dessa forma, foram identificadas referências de casos práticos para a realização de visitas em instituições e entrevista estruturada com professores e pesquisadores.
A análise minuciosa de fontes documentais serviu de suporte à investigação projetada, enquanto os contatos diretos durante a pesquisa de campo foram realizados com pessoas que pudessem fornecer dados ou sugerir possíveis fontes de informações úteis (MARCONI e LAKATOS, 2003).
A pesquisa documental teve como objetivo selecionar a amostra de instituições no cenário nacional com potencial de investigação para a identificação de melhores práticas e principais desafios para a utilização da abordagem paramétrica no ensino de projeto.
a) O Diretório dos Grupos de Pesquisas no Brasil (DGP), no intuito de identificar grupos de pesquisa científica e tecnológica que trabalhem com modelagem paramétrica e/ou temas relacionados como BIM e Fabricação Digital;
b) O banco de dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) com a lista de cursos recomendados / reconhecidos, para o levantamento dos cursos de pós-graduação em Arquitetura e Design no Brasil, e posterior verificação de suas estruturas curriculares;
c) Os sites dos cursos de pós-graduação levantados a partir do item anterior, buscando informações referentes às suas estruturas curriculares, grupos de pesquisa, projetos de pesquisa/extensão e infraestrutura;
d) Sites de eventos relacionados ao tema, para verificar instituições nacionais que tenham sediado edições passadas e pesquisadores envolvidos na organização.
A partir de tais fontes, buscou-se estabelecer uma amostra de instituições e pesquisadores no cenário nacional que tenham experiência com modelagem paramétrica e/ou temas relacionados, como BIM e Fabricação Digital, e seu reflexo nos cursos de graduação.
Depois de selecionada a amostra de instituições, foram realizadas visitas de campo para observação e descrição de cenários, além de levantamento de opinião com professores e pesquisadores, através de entrevista estruturada.
A técnica de observação pode ser muito útil para a obtenção de informações, porém, destaca-se a importância de que seja planejada e registrada de forma sistemática, além de servir a um objetivo pré-estabelecido pelo pesquisador (PRODANOV e FREITAS, 2013). Assim, antes da pesquisa de campo propriamente dita, foi estabelecido um roteiro de visita com os aspectos a serem observados e suas devidas finalidades, além dos instrumentos a serem aplicados para levantamento de opinião (entrevista estruturada).
A entrevista estruturada é aquela em que o entrevistador segue um roteiro previamente estabelecido e as perguntas feitas ao indivíduo são predeterminadas. Ela deve ser realizada de acordo com um formulário e efetuada com pessoas selecionadas de acordo com um plano (MARCONI e LAKATOS, 2003).
A pesquisa de campo local foi realizada nas instituições onde também se aplicaram as etapas de proposição e validação (UFC e UFRN), com o objetivo de compreender o contexto em que se pretende interferir. Para tanto, foi realizada a aplicação de questionários com os alunos dos cursos de arquitetura e design, a partir do semestre em que eles encerram as disciplinas de representação e adquirem embasamento sobre as diferentes ferramentas analógicas e digitais.
O questionário é um instrumento de coleta de dados, constituído por uma série ordenada de perguntas, que deverão ser respondidas por escrito pelo informante. Após ser redigido, o questionário precisa ser testado antes de sua utilização definitiva, aplicando-se alguns exemplares em uma pequena população escolhida para a detecção de possíveis falhas.
Considerando-se essa necessidade, foi realizado um estudo piloto no cenário local, buscando uma maior segurança e precisão para a execução posterior da pesquisa. O universo de observação consistiu nas disciplinas de projeto arquitetônico onde os alunos adquirem sua primeira experiência de aplicação dos processos BIM. Essa escolha se deu pelo fato do BIM ser a tecnologia mais próxima à modelagem paramétrica abordada em disciplina obrigatória para ambas as instituições (UFC e UFRN).
Os critérios utilizados como base para a definição dos instrumentos de coleta (roteiro, entrevista e questionário) e desenvolvimento da pesquisa de campo (nacional e local) abordaram aspectos referentes às atividades de ensino, pesquisa e extensão, incluindo:
a) Identificação do tema da pesquisa na estrutura curricular dos cursos, e sua abordagem nas disciplinas, com destaque para o ensino de projeto;
b) Habilidades a serem desenvolvidas por professores e alunos junto às disciplinas;
c) Grupos e projetos de pesquisa/extensão, somados à participação de bolsistas e monitores; d) Atividades propostas nas instituições, além das disciplinas (cursos, workshops, eventos); e) Infraestrutura e apoio técnico (laboratórios);
f) Demandas externas (escritórios modelo, prestação de serviços).
Após realizadas as visitas e coletas de dados, a etapa de compreensão foi encerrada com a análise dos dados e caracterização dos cenários nacional e local. Nessa etapa, também foram considerados documentos oficiais das instituições, com destaque para seus Projetos Pedagógicos, de acesso público pelos sites dos respectivos cursos.
A etapa de proposição consistiu no desenvolvimento de uma primeira versão das diretrizes metodológicas pretendidas e realização de uma etapa de testes, para verificar a necessidade de possíveis adequações.
Essa etapa incluiu as seguintes atividades:
a) Desenvolvimento de uma proposta inicial para as diretrizes metodológicas, considerando a sobreposição e análise dos dados levantados nos embasamentos teórico (levantamento bibliográfico) e empírico (caracterização dos cenários nacional e local);
b) Aplicação da proposta inicial para possíveis críticas e ajustes, a partir da realização de experimento pedagógico de curto e longo prazo.
Considerando os eixos de investigação vislumbrados no levantamento bibliográfico e os critérios de análise que direcionaram a coleta de dados, considerou-se que as diretrizes metodológicas deveriam vislumbrar aspectos de ensino/aprendizagem, pesquisa e extensão, além das estratégias e desafios que fossem percebidos junto às referências da etapa de compreensão.
Assim, pressupôs-se que as diretrizes metodológicas deveriam considerar, no mínimo:
a) Uma proposta de processo de implementação que preveja o uso das ferramentas e processos paramétricos no ensino de projeto, quer seja na esfera das disciplinas ou da estrutura curricular como um todo;
b) Um levantamento das possíveis dificuldades percebidas pelos estudantes/professores no uso da abordagem paramétrica durante o processo de projeto;
c) Um levantamento das habilidades que devem ser vislumbradas para os professores e desenvolvidas pelos alunos, junto às disciplinas relacionadas ao tema;
d) Um levantamento das contribuições percebidas pelo uso de ferramentas e processos paramétricas na atividade projetual;
e) Os espaços de discussão e apoio necessários para a implementação do tema, como grupos de pesquisa, projetos de extensão e laboratórios.
O desenvolvimento da proposta considerou tais aspectos e percorreu os seguintes procedimentos para submetê-la a possíveis críticas e ajustes: 1. grupo de estudos para investigação prática sobre a aplicação da modelagem paramétrica na atividade de projeto; 2. aplicação prática em experimento pedagógico de curta duração (curso de extensão com 20 horas/aula); 3. aplicação prática em experimento pedagógico de longa duração (disciplinas optativas com 64 horas/aula).
O grupo de estudos teve como objetivo realizar uma aplicação prática da modelagem paramétrica durante o desenvolvimento de um projeto, envolvendo desde a concepção à execução. A etapa de execução contou com o uso, ainda, de processos de fabricação auxiliados por computador. A etapa contribuiu para a pesquisa com uma maior compreensão sobre as ferramentas e processos, abordados em uma situação real de projeto, com a participação de docentes e estudantes.
Para uma primeira aplicação prática foi sugerida a realização de um curso de extensão de curta duração (20 horas/aula), com o objetivo de testar uma proposta inicial para a disciplina sobre o uso de ferramentas e processos paramétricos no processo de projeto.
Nesse caso, buscou-se abordar o conteúdo didático em um número de horas condensado, com uma dinâmica de maior intensidade, desde que incluídos 3 aspectos: 1. embasamento teórico- prático; 2. ensino das ferramentas; 3. mudanças na atividade projetual, a partir do raciocínio paramétrico.
A principal intenção foi que não fosse realizada apenas o ensino tutorial da ferramenta com exercícios orientados passo-a-passo, visto que essa abordagem seria insuficiente para testar as hipóteses colocadas no presente trabalho. Assim, o curso precisou abordar, no mínimo, uma introdução à abordagem sistêmica e a realização de exercícios práticos que levassem os participantes a refletir sobre a aplicação dos processos paramétricos na resolução de problemas projetuais.
A coleta de dados com os resultados do curso de extensão foi realizada a partir de observação, registro, e aplicação de questionário com os participantes para verificar se os objetivos pretendidos foram alcançados. O questionário foi definido no início da etapa de proposição, aplicado ao final do curso e revisado posteriormente para que o mesmo modelo fosse utilizado nas disciplinas optativas da etapa posterior.
Após a análise dos resultados do curso de extensão, a proposta foi revisada para a realização de disciplinas optativas, ofertadas tanto no curso de arquitetura quanto no curso de design. Visando estabelecer condições semelhantes às do curso de extensão para garantir efeito comparativo, o conteúdo programático foi mantido: embasamento teórico-prático, ensino das ferramentas, e mudanças na atividade projetual, a partir do raciocínio paramétrico.
Como principais diferenças, considera-se que o curso de extensão apresentou uma distribuição de carga horária mais intensa por sua curta duração, enquanto a disciplina optativa requereu atividades de avaliação mais bem definidas, considerando o exigido pelo currículo de cada curso. Por apresentar uma maior carga horária, nas disciplinas optativas foi possível um maior aprofundamento tanto nas discussões teóricas quanto nos exercícios aplicados à prática projetual, através de atividades em atelier.
A coleta de dados com os resultados da disciplina optativa também foi realizada a partir de observação, registro, e aplicação de questionário com os participantes para verificar se os objetivos pretendidos foram alcançados e estabelecer comparativo com os resultados do curso de extensão.
Toda a etapa de proposição foi realizada na Universidade Federal do Ceará (UFC), devido à demanda existente, tanto para o curso de extensão quanto para a realização das disciplinas optativas, já previstas em currículo. Ressalta-se, ainda, a existência de grupo de pesquisa na área, e laboratório com equipamentos de fabricação digital, como apoio e infraestrutura.
Por fim, a validação consistiu na revisão da proposta previamente estabelecida, para a realização de uma nova aplicação e sua discussão final com especialistas na área. Como etapa final da pesquisa, buscou-se verificar seus resultados e contribuições, além de trazer novas reflexões, incluindo as seguintes atividades:
a) Análise dos resultados da etapa anterior e revisão da proposta para possíveis críticas e reajustes;
b) Aplicação prática da proposta revisada, com coleta de dados a partir de observação, registro e aplicação de questionário com os participantes. Para tanto, foi realizado um segundo curso de extensão, de média duração (40 horas).
c) Análise dos resultados da aplicação prática e possíveis refinamentos para conclusão de uma proposta final, produto pretendido pela presente pesquisa;
d) Discussão com especialistas para a reflexão sobre a aplicabilidade da proposta final, considerando o percurso traçado ao longo do estudo e definindo as contribuições teóricas e práticas.
A partir dos resultados da etapa anterior, a proposta foi revisada para a realização de uma aplicação final, com caráter de validação. Para tanto, foi realizado um curso de extensão de duração de 40 horas/aula, estabelecendo um formato intermediário entre o curso de curta duração (20 horas/aula) e a disciplina optativa (64 horas/aula). Como parâmetro de comparação, foram mantidos conteúdo programático (revisado) e método de coleta de dados (observação, registro e questionários).
Essa etapa foi realizada na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), devido à existência de demanda para o curso de extensão e apoio de laboratório com equipamentos de fabricação digital.
A discussão com especialistas na área contou com a participação de professores e pesquisadores com experiência nos eixos de investigação definidos previamente (modelagem paramétrica, processo de projeto e/ou ensino de projeto) e pertencente às instituições em que a proposta em andamento foi aplicada (UFC e UFRN). A discussão foi realizada coletivamente, com a aplicação de dois grupos focais – um por instituição, separadamente.
O Grupo Focal é definido como grupo de discussão informal e de tamanho reduzido, com o propósito de obter informações de caráter qualitativo em profundidade e revelar as percepções dos participantes sobre os tópicos em discussão (GOMES e BARBOSA, 1999).
A análise do resultado dos experimentos pedagógicos, considerando registro e feedback emitido pelos participantes (validação interna), somado ao resultado dos grupos focais, com a discussão e opinião dos especialistas (validação externa) possibilitará a confirmação da hipótese.
Para o encerramento da pesquisa, a análise dos resultados da validação, assim como uma revisão de todo o percurso traçado pela pesquisa, permitiu refinamentos e a conclusão de uma versão final das diretrizes metodológicas.
O estudo é concluído com críticas e reflexões sobre a aplicabilidade da proposta final e as contribuições teóricas e práticas alcançadas a partir de toda a investigação.
Buscando facilitar a compreensão do conteúdo apresentado ao longo desse item, a Figura 08 traça um resumo esquemático do percurso metodológico, destacando as atividades que serão realizadas para cada etapa nas instituições previamente selecionadas (UFC e UFRN).
Figura 08 – Resumo esquemático do percurso metodológico traçado, com destaque para as atividades a serem realizadas nas duas instituições previamente selecionadas: UFC e UFRN.
Fonte: Autoria própria, 2016