VI. 5.2-6 apresenta os dados quali-quantitativos dos táxons do zooplâncton
5.2.2 Ecossistemas de Lagoas e Lagunas
5.2.2.6 Lagoa do Açu
A - Características Gerais
A lagoa do Açu, situada nos municípios de Campos dos Goytacazes e São João da Barra, é separada do mar apenas por uma estreita faixa de areia (barra). A profundidade máxima é de 3m, onde antes se encontrava o antigo leito do antigo rio Açu (MARQUES, 2002), sendo abastecida pelos canais Quitingute e São Bento (SILVA et. al., 2008).
Atualmente é classificada como uma lagoa de restinga, separada do mar por uma estreita faixa de areia denominada barra (SEMADS, 2002). Suas águas apresentam alta salinidade pela influência direta das águas marinhas através da abertura da barra que acontece por um processo natural na época das chuvas entre novembro e março (CHAGAS & SUZUKI, 2005) ou artificialmente pelos pescadores (LIMA et. al., 2001).
A lagoa representou, por meio da pesca artesanal, uma importante fonte de renda para a comunidade local. No passado, anualmente a comunidade local rompia a faixa de areia que separa a lagoa do mar, na intenção de permitir a entrada de peixes de maior valor econômico, os denominados ―peixes brancos‖ (representados pela tainha, carapeba, carapicu e robalo) — característicos de ambientes marinhos e mixohalinos — além do camarão verdadeiro.
A lagoa do Açu (Figura 5.2-51 e Figura 5.2-52), entretanto, se manteve fechada por 11 anos consecutivos, sendo aberta em dezembro de 2003, abril de 2005 e dezembro de 2007. Com a abertura, o regime hídrico-salino foi renovado e a elevada concentração eletrolítica (caracterizada por águas hipersalinas) diminuída, com efeitos positivos ao ecossistema de manguezal situado às suas margens.
Anteriormente às aberturas de barra, ao final de 2001, foi registrado um valor de salinidade de até 44 na porção mais próxima à barra (porção norte) (SUZUKI et. al., 2002). Atualmente o ecossistema se tornou mixohalino ou salobro (de 47 para 20). Áreas anteriormente degradadas foram recolonizadas por plântulas de Laguncularia racemosa (mangue branco).
Apesar da lagoa do Açu ser uma área de Interesse Especial, por constituir um importante recurso turístico da região (Decreto Estadual nº 9.760/87), ela sofre com impactos da pesca predatória e ocupação crescente de suas margens (SILVA et. al., 2008).
Em toda a margem da lagoa do Açu encontram-se manguezais e restingas, embora ainda apresentem sinais de degradação. Apesar dos vários problemas ambientais experimentados pelo ecossistema em questão, é possível afirmar que as condições ainda suportam a sobrevivência de peixes e aves.
Estudo de Impacto Ambiental – EIA
B - Biota
B.1 - Plâncton
B.1.1 - Fitoplâncton
Em outubro de 2008 (MPX/CRA, 2009), estudos realizados na lagoa do Açu, indicaram altas densidades de cianobactérias (843.740 org.mL-1 – ponto mais ao norte; 888.047 org.mL-1 – ponto mais ao sul). Nos dois pontos analisados nesta campanha, Choricystis sp foi a espécie dominante observada. Já em julho de 2010 (OSX/CRA, 2010), foi observada uma densidade total de 254.490 org.mL-1 em apenas 1 (um) ponto. Nesta amostragem foram detectadas apenas cianobatérias (241.160 org.mL-1) e crisofíceas (13.330 org.mL-1), sendo que a cianobactéria Cylindrospermopsis raciborskii a espécie doinante
B.1.2 - Zooplâncton
Estudo realizado na lagoa do Açu em outubro de 2008 (MPX/CRA, 2009), indicou a presença de 33 táxons, com densidades que variaram de 56.010 a 83.400 org./m3, entre os três pontos amostrados, sendo observado grandes concentrações de grupos meroplanctônicos, indicando influência mais recente de águas salinas nesse local.
Os mais ao norte e ao centro desta lagoa apresentaram densidades e riquezas semelhantes, enquanto que o ponto mais ao sul apresentou a menor densidade e a maior riqueza desse ambiente, tendo em vista a menor salinidade e profundidade nesse ponto, o que proporcionou a maior contribuição de espécies principalmente dulcícolas e pseudoplanctônicas.
MPX/CRA (2009) relatou que Rotíferos da espécie Lecane luna, larvas de anelídeos poliquetos e de moluscos bivalves e gastrópodes, copépodes harpacticóides, calanóides e ciclopoides (náuplios, copepóditos e Acartia tonsa) e ostracodes ocorreram em todos os pontos analisados no estudo. Cabe ressaltar ainda que entre os copépodes, além de Acartia tonsa, foram registradas também as espécies Pseudiaptomus acutus e Euterpina acutifrons. Em julho de 2010, OSX/CRA (2010) observou riqueza 13 e uma densidade de 1.419.300 org./m3 nesta lagoa, sendo a maior parte desta composta por rotíferos Brachionus havanaensis.
Estudo de Impacto Ambiental – EIA B.1.3 - Ictioplâncton
Em janeiro de 2009 (MPX/CRA (2009) foi coletado, nos três pontos de amostragem, um total de 6 larvas. A Figura 5.2-53 abaixo apresenta as densidades observadas em cada ponto de amostragem. Cabe ressaltar que o ponto 1 encontra-se mais ao norte da lagoa, o ponto 2 mais ao centro e o ponto 3 mais ao sul da lagoa do Açu. Como pode ser observado, a maior densidade de larvas ocorreu no ponto 2 (10,0 larvas.100m-3)
FIGURA 5.2-53:DISTRIBUIÇÃO DA DENSIDADE DE LARVAS DE
PEIXES (LARVAS.100M-3) NA LAGOA DO AÇU,SEGUNDO
MPX/CRA°(2009).
Ainda segundo MPX/CRA (2009), na lagoa do Açu, a única família coletada foi Atherinopsidae (peixes-rei), com 4 exemplares, além de 2 larvas não identificadas (Figura 5.2-54). Em relação à riqueza e diversidade, a riqueza foi de apenas 1 táxon.
FIGURA 5.2-54:FREQUÊNCIA ABSOLUTA TOTAL DE LARVAS
DE PEIXES NA LAGOA DO AÇU.FONTE:MPX/CRA(2009).
Lagoa do Açú 4 0 0 2 0 2 4 6 Athe rinop sida e Clu peid ae Engra ulid ae Não Iden tifica das N o de L a rv a s ( n )
B.2 - Zoobentos
Estudos realizados na lagoa do Açu em outubro de 2008 (MPX/CRA, 2009), indicaram a presença de 10 diferentes táxons de zoobentos (Figura 5.2-55). Dentre os táxons observados, Capitellidae foi a família de poliqueto mais abundante. Este poliqueto é considerado insensível às baixas concentrações de oxigênio dissolvido (CRIGGER et. al., 2005), além de apresentar alimentação baseada em material orgânico subsuperficial ao sedimento, a mesma categoria de outra família abundante nesta lagoa, Spionidae (FROJÁN et. al., 2006).
Como pode ser observado na Figura 5.2-55, o ponto central da lagoa do Açu apresentou composição taxonômica peculiar, pois foi o único com comunidade bentônica dominada pelo bivalve da família Mytilidae. Pelo tamanho dos exemplares encontrados, a associação com o ambiente marinho é mais provável. A presença de outros grupos tipicamente marinhos, como os poliquetos e os tanaidáceos, corroboram esta hipótese.
Quanto à família Idoteidae, com densidade elevada nos pontos localizados no centro e ao norte da lagoa do Açu (Figura 5.2-55), há uma única espécie descrita cujos exemplares foram encontrados em estuários, sendo que as demais estão associadas a ambientes rasos, arenosos e aqueles com presença de fanerógamas marinhas (PIRES-VANIN, 1998).
A campanha amostral de outubro de 2008 (MPX/CRA, 2009), indicou que na lagoa as mudanças na composição da fauna bentônica entre as extremidades da mesma foram importantes, com alteração nos táxons dominantes, de Capitellidae para Mytilidae e, por fim, para Tanaidacea no ponto mais distal da barra (Figura 5.2-55).
Estudo de Impacto Ambiental – EIA
A
B
FIGURA 5.2-55:DENSIDADE (A) E ABUNDÂNCIA RELATIVA (B) DO ZOOBENTOS ASSOCIADO AO
SEDIMENTO,COLETADOS NOS PONTOS 6(MAIS AO NORTE DA LAGOA),7(MAIS AO CENTRO DA LAGOA)
E 8(MAIS AO SUL DA LAGOA),ENTRE 9 E 11 DE OUTUBRO DE 2008.FONTE:MPX/CRA(2009)
Já a campanha realizada em julho de 2010 (OSX/CRA, 2010) indicou a presença de 7 diferentes táxons nesta lagoa, e uma densidade total de 115 organismos, devido principalmente à ocorrência de Hydrobiidae (Figura
5.2-56).
FIGURA 5.2-56:DENSIDADE DO ZOOBENTOS COLETADO EM JULHO DE 2010.
Nos dois estudos apresentados no ano de 2010 não foi observado a presença das famílias Capitillidae, Mutilidae, Tanaidacea, Idoteidae e Chironomidae anteriormente observadas, presenciando-se o registro de duas famílias (Calanoida e Sphaeromatidae), não observadas no ano de 2008.
B.3 - Ictiofauna
Em outubro de 2008, MPX/CRA (2009) assinalou 173 espécimes (divididos em 11 diferentes espécies) da ictiofauna da lagoa do Açu. Dentre eles o xerelete, a corvina, a carapeba, o carapicú e a tilápia (Anexo VI.5.2-5).
Já em julho de 2010, OSX/CRA (2010) observou a ocorrência de 18 espécies nesta mesma lagoa. As espécies Cetengraulis edentulus, Genidens genidens, Tilapia rendalli, Geophagus brasiliensis, Mugil curema e Caranx crysos foram observados em ambos os estudos.
Foi também constatado a dominância de espécies marinhas na lagoa do Açu, De acordo com CARNEIRO (2004), isto se deve ao processo de abertura da barra, que possibilita o acesso de peixes marinhos a essa lagoa.