VI. 5.2-6 apresenta os dados quali-quantitativos dos táxons do zooplâncton
5.2.2 Ecossistemas de Lagoas e Lagunas
5.2.2.5 Lagoa Salgada
A - Características Gerais
A lagoa Salgada (Figura 5.2-41 e Figura 5.2-42), também conhecida como lagoa do Salgado, localiza-se ao sul da área prevista para o DISJB.
Estudo de Impacto Ambiental – EIA
Diferentemente das lagoas de Grussaí, Iquipari e Açu, é uma lagoa paralela à costa, mas sem comunicação com ela, a não ser um canal artificial que a liga à lagoa do Açu.
Possui característica hipersalina (a salinidade já apresentou valores mensurados de até 63), apresentando ocorrência de estromatólitos no seu fundo e margens expostas. Esses testemunhos são raros no mundo e únicos na América do Sul (SRIVASTAVA, 2002), ocorrendo em condições muito específicas, fazendo dessa lagoa um patrimônio geológico, paleontológico e biológico da humanidade, em processo de tombamento pela UNESCO e como sítio cadastrado na Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos - sítio 041 (SRIVASTAVA, 2002).
B - Biota
B.1 - Plâncton
B.1.1 - Fitoplâncton
Em outubro de 2008 (MPX/CRA, 2009) foram observadas densidades de 843.740 org.mL-1 no ponto mais ao norte da lagoa e 888.047 org.mL-1 no ponto mais ao sul. Em ambos, as cianobactérias e as clorofíceas foram mais abundantes.
Em fevereiro de 2010 (MPX/CRA, 2010), foi observado 19 diferentes táxons de fitoplâncton, que apresentaram uma densidade total de 259.788 org.mL-1. Nesta coleta foram anotadas a presença de cianobactérias (190.107 org.mL-1), clorofíceas (20.450 org.mL-1), crisofíceas (48.852 org.mL-1) e euglenofíceas (379 org.mL-1), sendo a espécie Scynechocystis salina a dominante no ponto amostrado (221.268 org.mL-1).
Já em julho de 2010 (OSX/CRA, 2010), foi observada densidade de fitoplâncton de 254.490 org.mL-1, compostos por cianobactérias (241.160 org.mL-1) e crisofíceas (13.330 org.mL-1). Novamente, a espécie dominante foi a Scynechocystis salina, com uma densidade de 163.197 org.mL-1.
Considerando a campanha amostral realizada em agosto de 2010 (TERNIUM/ECOLOGUS, 2010), a comunidade fitoplanctônica da lagoa Salgada esteve composta por 8 táxons distribuídos em 5 classes taxonômicas. A classe Cyanophyceae apresentou 37,5 % do total de táxons registrados, seguida pelas demais classes (Dynophyceae, Prasinophyceae, Cryptophyceae e Bacillariophyceae) e pelos fitoflagelados nanoplanctônicos não identificados, que apresentaram 12,5 % do total de táxons registrados (Figura 5.2-43).
FIGURA 5.2-43:CONTRIBUIÇÃO PERCENTUAL DO NÚMERO DE
TÁXONS POR CLASSE TAXONÔMICA NA LAGOA SALGADA, EM
AGOSTO DE 2010.FONTE:TERNIUM/ECOLOGUS(2010).
Foram registrados altos valores de densidade total nas estações amostradas, sendo o maior valor observado na estação LS01 (mais ao norte da lagoa) (255.279.144 cel.L-1) (Figura 5.2-44).
FIGURA 5.2-44:DENSIDADE FITOPLANCTÔNICA TOTAL NOS PONTOS DE
COLETA NA LAGOA SALGADA, EM AGOSTO DE 2010. FONTE:TERNIUM/ECOLOGUS(2010).
Com relação à contribuição por parte dos grupos taxonômicos, a classe Cyanophyceae (cianobactérias) constituiu o grupo mais representativo em termos percentuais (70,6 %), sendo representada principalmente por:
Synechococcus sp. (173.871.228 cel.L-1) e Merismopedia glauca
Estudo de Impacto Ambiental – EIA
O grupo dos fitoflagelados nanoplanctônicos não identificados foi o segundo mais representativo (28,4 %) nas amostras coletadas. As demais classes apresentaram juntas aproximadamente 1 % da densidade total.
Com relação à riqueza de táxons, nas estações amostradas foram registrados baixos valores. As duas estações (LS01 e LS03) apresentaram o mesmo valor de riqueza (4) (Figura 5.2-45).
FIGURA 5.2-45:DISTRIBUIÇÃO DOS VALORES DE RIQUEZA NOS PONTOS DE
COLETA NA LAGOA SALGADA, EM AGOSTO DE 2010. FONTE:TERNIUM/ECOLOGUS(2010).
B.1.2 - Zooplâncton
Em outubro de 2008 (MPX/CRA, 2009) nos pontos 9 e 10 foram assinalados 22 táxons e valores relativamente elevados de densidade (211.178 e 565.956 org./m3), apesar de terem sido coletados em água turva, o que desfavorece o desenvolvimento da comunidade zooplanctônica, especialmente de cladóceros.
Brachionus plicatilis foi a espécie dominante e representou 91 % da densidade média. As menores riquezas em espécies de rotíferos e a ausência de cladóceros, e consequentemente menor competição por alimento, provavelmente contribuíram para o grande crescimento populacional desta espécie de rotífero. De acordo com BRANCO et. al., (2007), Brachionus plicatilis, juntamente com outras espécies de rotíferos, é uma espécie eurialina típica de lagoas costeiras com influência do mar no Estado do Rio de Janeiro. Além de B. plicatilis, ocorreram B. cf. urceolaris, Brachionus sp.1, Synchaeta sp. e Bdelloidea, larvas de anelídeos poliquetos, náuplios de ciclopóides, náuplios e copepóditos de calanóides, Acartia tonsa e copépodes
harpacticóides nos dois pontos de coleta. A porcentagem relativamente alta de táxons coincidentes entre os pontos (45 %), especialmente de táxons euplanctônicos, indicou que a lagoa Salgada apresentou-se homogênea, com uma maior circulação e mistura de águas entre os pontos de coleta no período de estudo. Desta forma, a abundância elevada do zooplâncton no ponto 9 (565.956 org./m3) foi devido basicamente ao aumento da densidade do rotífero Brachionus plicatilis, e não a diferenças na comunidade zooplanctônica.
A lagoa Salgada possui conexão com o oceano através lagoa do Açu (SILVA E SILVA et. al., 2007) e a presença de táxons meroplanctônicos refletiu a influência recente de águas marinhas MPX/CRA, 2009). Foi registrada também neste local, a ocorrência dos copépodes Halicyclops sp. e Parvocalanus crassirostris, e que ocorrem frequentemente em ambientes oligo-mesohalinos da costa brasileira.
FIGURA 5.2-46:PROPORÇÃO (%)ENTRE AS DIFERENTES CLASSES DE
ORGANISMOS ZOOPLANCTÔNICOS PRESENTES NA LAGOA SALGADA. FONTE:MPX/CRA(2009).
B.1.3 - Ictioplâncton
Em janeiro de 2009 (MPX/CRA, 2009), ao avaliar a presença de larvas de peixes nos corpos hídricos na região em que será implantando o Distrito Industrial, constatou-se uma ocorrência muito mais significativa de larvas quando comparada à de ovos da ictiofauna. Foi verificado um total de 104 larvas de espécies ícticas, sendo que os pontos de amostragem 1 (mais ao norte) e 3 (na porção mais ao sul) apresentaram as maiores densidades (84,5 e 95,2 larvas. 10m-3, respectivamente).
Estudo de Impacto Ambiental – EIA
Foram encontrados 64 exemplares das famílias Atherinopsidae (peixes-rei), seguida de Clupeidae (sardinhas) com 39 táxons e apenas 1 espécime de Engraulidae (manjubas), sendo que 3 larvas não foram identificadas. A diversidade de Shannon foi de 0,96, valor este considerado muito baixo.
No material coletado pela rede de plâncton, além de ovos e larvas de peixes, também foram coletados juvenis e adultos de outras espécies. A espécie mais capturada foi Atherinella brasiliensis, com 16 exemplares, sendo a maioria no ponto 1. Houve também a presença de um exemplar adulto de Phalloptychus januarius, coletado no ponto 3 dessa lagoa. Esta captura acidental ressalta o observado, já que as larvas da espécie A. brasiliensis foram observadas em grande quantidade principalmente no ponto de amostragem 3.
Constatou-se também que a área em que se localiza o ponto 3 na lagoa Salgada, apresentou as maiores densidades observadas, o que caracteriza esta região como uma área destinada ao desenvolvimento inicial da ictiofauna.
B.2 - Zoobentos
Em fevereiro de 2010 (MPX/CRA, 2010) foram observados 10 táxons (Figura
5.2-47), sendo as famílias Nereididae e Hydrobiidae as mais expressivas dessa
comunidade.
FIGURA 5.2-47:DENSIDADE DE ZOOBENTOS NA LAGOA SALGADA, EM FEVEREIRO DE 2010.
FONTE:MPX/CRA(2010).
Já em julho de 2010 (OSX/CRA, 2010) foram observados apenas 4 táxons na lagoa Salgada (todos já evidenciados em fevereiro de 2010), sendo que os anelídeos da família Nereididae apresentaram importância elevada na comunidade deste corpo hídrico (Figura 5.2-48). Este resultado foi bastante similar ao observado em amostragens anteriores, seguida da família Hydrobiidae, que também foi encontrada em abundância elevada nas lagoas Salgada. Algumas espécies deste grupo podem apresentar elevada resistência
1 10 100 1000 C h ir o n o m id ae N e re id id ae T an ai d ae H y d ro b ii d ae S p h ae ro m at id ae O st rac o d a S p io n id ae B e lo st o m at id ae A ran e ae G o m p h id ae D e n si d ad e ( in d .m -2) .( lo g )
à dessecação (BEMVENUTI, 1992), e serem encontradas em altas densidades em planos rasos (BEMVENUTI et. al., 1978).
FIGURA 5.2-48:DENSIDADE DE ZOOBENTOS NA LAGOA
SALGADA, EM JULHO DE 2010.FONTE:OSX/CRA(2010).
B.3 - Ictiofauna
Nas margens da lagoa Salgada ocorrem extensos bancos de macrófitas, que funcionam como abrigo para a ictiofauna juvenil. Alguns pescadores locais têm a prática de deixar suas redes pesca por tempo intermitente cercando essas macrófitas. Esta prática tem impossibilitado alguns organismos, principalmente as formas ícticas, de transitarem livremente. O que por sua vez, prejudica a própria pesca local, sobretudo a efetuada no interior da lagoa, já que provoca à morte de inúmeros indivíduos que são capturados pelas redes, mas não retirados para serem aproveitados como pescado. Uma explicação para este fato observado pela equipe de campo seria o baixo valor nutricional e econômico de determinadas espécies, tornando desinteressante a sua coleta, tanto para comercialização quanto para consumo (OSX/CRA, 2010).
A ictiofauna observada em julho de 2010 (OSX/CRA, 2010) na lagoa Salgada se caracterizou pelo predomínio de espécies dulcícolas, com a ocorrência de apenas duas espécies marinhas: Xenomelaniris brasiliensis (peixe rei) e Centropomus parallelus (robalo). Segundo moradores locais, uma ligação artificial entre a lagoa Salgada e a lagoa do Açu, permite que peixes marinhos provenientes da abertura da barra no Açu migrem para a lagoa Salgada.
Segundo dados de campanhas amostrais realizadas em janeiro 2009 e agosto de 2010 (TERNIUM/ECOLOGUS, 2010), observou-se a ocorrência de 6 espécies de peixes, que somaram ao todo 268 organismos coletados. Destes, 199 indivíduos foram capturados na campanha de 2009, quando foram
Estudo de Impacto Ambiental – EIA
observadas todas as 6 espécies. Já a coleta efetuada em 2010 apresentou 69 organismos de uma única espécie, o acará Geophagus brasiliensis (acará). A Figura 5.2-49 apresenta a representação gráfica da abundância relativa de todos os taxa encontrados na lagoa Salgada, independente da campanha amostral. Percebe-se que há uma relativa homogeneidade entre o número de indivíduos das populações ícticas da lagoa Salgada. Tendo destaque os táxons Hoplias malabaricus (traíra), Geophagus brasiliensis (acará) e Astyanax bimaculatus (lambari).
FIGURA 5.2-49:ABUNDANCIA DAS ESPÉCIES ENCONTRADAS
NA LAGOA SALGADA, NAS DUAS CAMPANHAS REALIZADAS. FONTE:TERNIUM/ECOLOGUS(2010).
A Figura 5.2-50 apresenta os valores do índice de diversidade calculado para os três pontos amostrais, sendo neste caso somente para os resultados da campanha de 2009, pois conforme comentado anteriormente, a campanha realizada em 2010 foi prejudicada pela entrada de um sistema frontal, decorrendo em um resultado mono específico. Nota-se que o ponto 1 apresentou a maior diversidade e o ponto 2, a menor.
FIGURA 5.2-50:DIVERSIDADE DE ESPÉCIES DA LAGOA
SALGADA, NA CAMPANHA DE 2009. FONTE:TERNIUM/ECOLOGUS(2010).
Todas as espécies encontradas: Astyanax bimaculatus (lambari), Geophagus brasiliensis (acará), Hoplias malabaricus (traíra), Hoplosternum litoralle (tamboatá) e Tilapia rendalli (tilápia), podem ser consideradas como espécies possuidoras de valor comercial.
Hoplias malabaricus (traíra) foi a espécie dominante deste levantamento íctico da lagoa Salgada, ocorrendo somente na campanha de 2009, em todos os 3 pontos de coleta. Este taxa contribuiu com 30 % de todos os organismos capturados, representando uma biomassa de 11,49 kg.
Geophagus brasiliensis (acará), segunda espécie mais importante
quantitativamente durante as campanhas na lagoa Salgada foi a única que ocorreu na lagoa nas duas campanhas amostrais. Esteve presente somente no ponto 1, durante a campanha de 2010, já em 2009 foi observada nos três locais amostrados.
Assim como a traíra e o acará, outra espécie encontrada na lagoa Salgada de relevância quantitativa e de valor comercial é a Astyanax bimaculatus (lambari). Ocorreu na lagoa Salgada, somente na campanha de 2009, nos pontos 1 e 3, sendo encontrados ao todo 34 indivíduos.
Tilapia rendalli (tilápia) foi observada na lagoa Salgada, durante a campanha de 2009, nos 3 pontos. Na ocasião foram encontrados 29 indivíduos.
Xenomelaniris brasiliensis (peixe-rei) ocorreu na lagoa Salgada durante a campanha de 2009, nos pontos 1 e 3. Sendo encontrados 46 indivíduos.
Hoplosternum litoralle (tamboatá) ocorreu na lagoa Salgada na campanha de 2009, nos pontos 1 e 2. Sendo encontrados somente 2 indivíduos ao todo.
Estudo de Impacto Ambiental – EIA
Os resultados evidenciam que a ictiofauna amostrada não exibiu endemismos locais ou regionais, apenas as espécies de peixes amplamente distribuídas no Estado do Rio de Janeiro, sendo muitas das espécies encontradas presentes em praticamente todo o sudeste brasileiro.
Os resultados do índice de diversidade calculados neste estudo refletiram, em partes, o que era esperado para ambientes lênticos. Segundo SEMADS (2002), quando é realizado um levantamento dos táxons dentro de uma mesma região ictiogeográfica, espera-se identificar um padrão de baixa diversidade em lagoas e alta em rios, onde há uma maior heterogeneidade de ambientes, caracterizado pelo mosaico existente em uma bacia hidrográfica. Esta maior complexidade dos ambientes fluviais gera uma condição de maior capacidade de suporte à biodiversidade.