VI. 5.2-6 apresenta os dados quali-quantitativos dos táxons do zooplâncton
5.2.2 Ecossistemas de Lagoas e Lagunas
5.2.2.4 Lagoa do Veiga
A - Características Gerais
A lagoa do Veiga (Figura 5.2-33 e Figura 5.2-34) localiza-se paralelamente ao oceano e distante aproximadamente 5 km ao norte da lagoa do Açu, da qual fazia parte de um complexo lagunar. De formato alongado, encontra-se fragmentada por estradas de barro. No interior da lagoa há formações de brejos com intensa ocupação de macrófitas, com dominância da taboa (Tipha dominguensis), que cobre grande parte da lâmina de água. Pouco se conhece sobre a lagoa do Veiga e sua ictiofauna foi muito pouco estudada
Estudo de Impacto Ambiental – EIA
Outrora havia sido descrita como o rio do Veiga, como citado a seguir:
―Acima da barra do rio Açu ou Iguaçu, está assinalado o rio do Veiga, paralelo à linha de costa, vertendo no sentido norte-sul, em direção à foz do Açu. No mesmo sentido, sugerindo uma continuidade com o rio do Veiga, posicionam-se as lagoas de Iquipari e Grussaí. Dos dois canais atravessando colares de lagoas entre a restinga e a planície aluvial, restou apenas um, interligando as lagoas do Taí Pequeno, dos Jacarés, das Bananeiras e Salgada, para atingir também a bacia do Iguaçu através do rio do Colégio (BELLEGARDE & NIEMEYER, 1865).‖
B - Biota
B.1 - Plâncton
B.1.1 - Fitoplâncton
Levantamento de dados realizado em dois pontos na lagoa do Veiga, em outubro de 2008 (MPX/CRA, 2009), identificou as seguintes densidades totais: 1.208 org.mL-1 (ponto mais ao norte) e 3.372 org.mL-1 (ponto mais ao sul). Foi observado a presença dos grupos cianofíceas, bacilariofítas, criptofíceas e euglenofíceas (em ambas as estações amostradas); clorofíceas, zignemafíceas e oedogoneofíceas (apenas na estação ao sul) e dinofíceas (apenas na estação ao norte). Destacam-se, entre as cianobactérias registradas, os gêneros Anabaena, Aphanothece, Geitlerinema/Jaaginema, Planktothrix e Pseudanabaena que possuem espécies produtoras de toxinas (hepatotoxinas ou neurotoxinas).
A campanha amostral realizada em fevereiro de 2010 (MPX/CRA, 2010) indicou densidade fitoplanctônica de 251 org.mL-1, com presença de cianobactérias (21 org.mL-1), bacilariófitas (126 org.mL-1), criptofíceas (83 org.mL-1) e zignemafíceas (21 org.mL-1).
Em julho de 2010 (OSX/CRA, 2010) foram observadas as seguintes densidades (Figura 5.2-35) nos três pontos amostrados na lagoa do Veiga:
Veiga 1 (mais ao norte – 910); Veiga 2 (mais ao centro – 728); e Veiga 3 (mais ao sul – 1.229).
Cabe ressaltar que o ponto Veiga 2 é o mesmo ponto utilizado na coleta de fevereiro de 2010.
Estudo de Impacto Ambiental – EIA
FIGURA 5.2-35:DENSIDADE FITOPLANCTÔNICA NAS ESTAÇÕES
DE COLETA LAGOA DO VEIGA, EM JULHO DE 2010.FONTE: OSX/CRA(2010).
Cabe ressaltar que nesta campanha foi observada a presença dos seguintes grupos: cianofíceas, bacilariófitas, clorofíceas; criptofíceas; dinofíceas e zignemafíceas (apenas no ponto Veiga 1) e euglenofíceas (apenas nos pontos Veiga 1 e 3). A Figura 5.2-36 apresenta a densidade relativa destes grupos nos pontos amostrados.
FIGURA 5.2-36:DENSIDADE RELATIVA DOS GRUPOS
FITOPLÂNCTONICOS NA LAGOA DO VEIGA, EM JULHO DE 2010. FONTE:OSX/CRA(2010).
Já em agosto de 2010 (TERNIUM/ECOLOGUS, 2010), verificou-se a presença dos seguintes grupos fitoplanctônicos na lagoa do Veiga: cianofíceas, clorofíceas, zignemafíceas, bacilariófitas, crisofíceas e dinofíceas; ressalta-se que as cianofíceas foram os organismos mais abundantes e com maior riqueza de espécies (Figura 5.2-37).
FIGURA 5.2-37:REPRESENTATIVIDADE DOS DIFERENTES TAXA
DE FITOPLÂNCTON NA LAGOA DO VEIGA, EM AGOSTO DE 2010. FONTE: TERNIUM/ECOLOGUS (2010).
B.1.2 - Zooplâncton
Em outubro de 2008 (MPX/CRA, 2009) foram registrados 59 táxons zooplanctônicos na lagoa do Veiga, o que conferiu a este ambiente riqueza de espécies significativa quando comparado a outras áreas analisadas na ocasião. As densidades do zooplâncton nos pontos 4 e 5 foram 135.760 e 228.560 org./m3, respectivamente.
Não foi constatada a presença larvas de crustáceos cirripédios e de anelídeos poliquetos, provavelmente por ter apresentado características de ambiente de água doce em ambos os pontos de coleta.
Os principais grupos do zooplâncton observados, e que representaram 73 % do total, foram:
Rotíferos (Brachionus caudatus var. personatus, Lecane luna e Plationus patulus macracanthus);
Copépodes ciclopóides (Mesocyclops longisetus curvatus, Microcyclops anceps anceps e Tropocyclops prasinus meridionalis), principalmente em suas formas larvais (náuplios); e
Copépodo calanóide (Acartia tonsa).
Não foram assinalados copépodes ergasilídeos na lagoa do Veiga, o que pode sugerir ausência ou uma menor população de peixes no local. Este fato deve ter contribuído para a ocorrência da maior riqueza de cladóceros na lagoa do Veiga, devido à menor pressão de predação.
Ao todo foram encontrados 9 táxons de cladóceros. Sabe-se que a maioria das espécies água doce (assim como os rotíferos) vivem preferencialmente na região
79% 10% 3% 6% 1% 1% Cyanophyceae Chlorophyceae Zygnemaphyceae Bacillariophyceae Chrysophyceae Dinophyceae
Estudo de Impacto Ambiental – EIA
litorânea. São frequentes na região limnética os representantes dos gêneros Bosmina, Bosminopsis, Daphnia, Bosmina, Ceriodaphnia, Diaphanosoma, Moina, Moinodaphnia e Scapholeberis; já as famílias Macrothricidae, Ilyocryptidae e alguns representantes das famílias Chydoridae e Sididae, estão associados a algum tipo de substrato e por isso são pseudoplanctônicos.
Apesar da riqueza do zooplâncton ter sido semelhante nos dois pontos, apenas 25 % dos táxons foram coincidentes, evidenciando a heterogeneidade espacial na lagoa. Como foi observada dominância de táxons pseudoplanctônicos (Figura
5.2-38), uma possível explicação para as diferenças observadas na composição
do zooplâncton é a influência de vegetação aquática diferenciada nos dois pontos, o que foi observado no local: no ponto 4, foram predominantes macrófitas (Taboa sp.) enquanto que no ponto 5, macroalgas (Chara sp.).
FIGURA 5.2-38:PROPORÇÃO (%)ENTRE AS DIFERENTES
CLASSES DE ORGANISMOS ZOOPLANCTÔNICOS PRESENTES NA
LAGOA DO VEIGA.FONTE:MPX/CRA(2009).
B.1.3 - Ictioplâncton
Não foram identificados pontos de desovas de peixes ou mesmo a presença de larvas de peixes na lagoa do Veiga, durante a campanha de janeiro de 2009 (MPX/CRA, 2009). Além disso, ressalta-se a identificação de apenas um ovo de peixe da família Engraulidae, o qual não foi contabilizado pelo seu número amostral pouco representativo.
B.2 - Zoobentos
Na campanha amostral de outubro de 2008 (MPX/CRA, 2009) observou-se qualidade ambiental regular na porção mais ao norte (P4) deste ambiente, com os menores valores de densidade e de diversidade do zoobentos. A predominância das famílias Tubificidae e Chironomidae neste ponto pode estar relacionada com a menor salinidade, mas também com os níveis mais baixos de oxigênio dissolvido.
Já na extremidade mais ao sul da lagoa do Veiga (P5), foi observada a menor riqueza do zoobentos de toda a rede amostral e coliformes termotolerantes acima do estabelecido pela legislação. A presença de copépodos calanóides indicou condições mais similares à água do mar neste local.
Ainda nesta campanha, foi observada riqueza inferior a 6 (Figura 5.2-39). Tais características foram similares às da campanha realizada em julho de 2010 (OSX/CRA, 2010), a qual apresentou 5 diferentes táxons de zoobentos e densidade variável (Figura 5.2-40).
FIGURA 5.2-39:DENSIDADE E RIQUEZA DE TÁXONS DAS
COMUNIDADES DE ZOOBENTOS NA LAGOA DO VEIGA, EM
Estudo de Impacto Ambiental – EIA
FIGURA 5.2-40:DENSIDADE DE ZOOBENTOS NA LAGOA DO VEIGA EM JULHO DE 2010.
ONDE:(1)INDICA A EXTREMIDADE MAIS AO NORTE DA LAGOA,(2) A REGIÃO CENTRAL E (3) A EXTREMIDADE MAIS AO SUL DA LAGOA.FONTE:OSX/CRA(2010).
B.3 - Ictiofauna
Em janeiro de 2009 (MPX/CRA, 2009) foi observada predominância de biota dulcícola, corroborando com os resultados encontrados em julho de 2010 (OSX/CRA, 2010). Nas campanhas amostrais de janeiro de 2009 (MPX/CRA, 2009) foi encontrado um único exemplar de Geophagus brasiliensis (acará) e um único exemplar de Tilapia rendalli. Assim como em julho de 2010 (OSX/CRA, 2010), foi observado um conspícuo empobrecimento quantitativo e qualitativo da comunidade de peixes na lagoa do Veiga.
O reduzido número de espécies observado em janeiro de 2009 (MPX/CRA, 2009) parece ser justificado pelo avançado estado de deterioração ambiental da lagoa do Veiga. Essa situação de degradação ambiental ilustra a fragilidade estrutural e funcional deste corpo hídrico, tipicamente raso e relativamente pequeno. Estas características geomorfologias agravam ainda mais os efeitos negativos sobre a sustentabilidade e produtividade de recursos bióticos na lagoa, sobretudo na ictiofauna local (CRA/MPX, 2009).
O levantamento realizado em janeiro de 2009 (MPX/CRA, 2009) identificou apenas um único exemplar de Geophagus brasiliensis (acará) e um único indivíduo de Tilapia rendalli (tilápia). Esse resultado contrasta com os demais corpos d’água investigados durante o mês de janeiro de 2009 (MPX/CRA, 2009), sugerindo um conspícuo empobrecimento quantitativo e qualitativo da comunidade de peixes ali presente. Ainda segundo o trabalho citado, provavelmente, o avançado estado de deterioração física (p.e. assoreamentos) e química (p.e. eutrofização) do canal do Veiga contribui ao detrimento do pescado local. Essa situação ambiental, por sua vez, ilustra a fragilidade estrutural e funcional de tais corpos d’água, tipicamente rasos e relativamente pequenos, com efeitos negativos sobre a sustentabilidade e produtividade de recursos bióticos (p.e. peixes).
Um resultado interessante observado na campanha de janeiro de 2009 (MPX/CRA, 2009) foi a coleta somente de juvenis e adultos de algumas espécies ícticas durante a amostragem de ictioplâncton (cujo objetivo era a amostragem de ovos e larvas). Na ocasião foram coletados 2 (dois) exemplares adultos de Poecilia vivipara e 1 (um) exemplar juvenil de Hyphessobrycon sp., todos no ponto 3. Esses juvenis e adultos não puderam ser considerados como representantes do ―ictioplâncton‖, daí não terem entrado no cálculo de densidade de larvas de peixes, sendo essas informações de caráter meramente ilustrativo. Na campanha amostral realizada em julho de 2010 (OSX/CRA, 2010) observou-se, neste ambiente lêntico, composição íctica predominantemente dulcícola. Na ocasião não foi capturada nenhuma espécie marinha, mesmo havendo abertura de barra nesta lagoa; tal comportamento pode ter sido influenciado pela provável influência do avançado estado de degradação ambiental que a lagoa do Veiga se encontra.
Estudo de Impacto Ambiental – EIA
Ainda nesta campanha, também foi observado que a lagoa do Veiga apresenta acentuada dominância de Typha dominguensis (taboa), a qual apresenta distribuição em praticamente toda a zona litorânea da lagoa. Este adensamento fitobêntico das margens diminui significativamente o espaço da lâmina d’àgua, ocasionando com isso uma perda de habitat para peixes maiores.
Outro problema enfrentado pela lagoa do Veiga, atualmente, é a sua fragmentação, ocasionado principalmente pela construção de estradas e loteamentos residenciais, que levam ao isolamento populacional e risco de extinção local de inúmeras espécies que naturalmente ocupam este ambiente, dentre os quais, os representantes da ictiofauna são amplamente depreciados. Podendo afetar tanto a diversidade genética quanto a biodiversidade local. Ainda abordando os prejuízos da fragmentação da lagoa do Veiga, a campanha amostral realizada em julho de 2010 (OSX/CRA, 2010) revelou que em alguns desses trechos fragmentados, situados dentro de propriedades particulares, os corpos d’águas são utilizados pelos proprietários como tanques aquícolas, principalmente de tilápias (espécie exótica, que provavelmente vem prejudicando as espécies nativas deste ecossistema).
Em julho de 2010 (OSX/CRA, 2010) foram registrados Hyphessobrycon bifasciatus, Astyanax fasciatus e Oligosarcus hepsetus.