• Nenhum resultado encontrado

A convicção de ser transexual é recorrente nos processos. Ao procurarem o Programa de Transgenitalização em Brasília, todas/os as/os inscritas/os possuíam em comum a certeza de serem (transexuais) e o desejo de realizar a cirurgia de transgenitalização. No entanto, não bastam a certeza do sujeito de se identificar como (transexual) e seu desejo expresso pela cirurgia. É necessário ser outorgada a ele/a a chancela de TRANSEXUALISMO; é o diagnóstico médico que legitima a sua identidade (transexual).

O cumprimento dos protocolos, que garantem aos profissionais a existência de uma transexualidade, adquire para os/as candidatos/as uma perspectiva inversa; anteriormente à procura pelos programas elas/es realizaram um autodiagnóstico. Elas/es estão seguros/as da posição de (transexuais). A realização dos exames, entrevistas e testes determinados pelas especialistas funcionaria como uma necessidade de convencimento do outro. As pessoas interessadas em se submeter ao processo para realizar as cirurgias não colocam em dúvida a posição de transexual, mas a sua capacidade de convencer a equipe. É um jogo espelhado. Enquanto o profissional acredita fazer emergir a verdade da transexualidade, as/os candidatas/os procuram se adequar ao script do verdadeiro transexual que os especialistas desejam identificar. Alexandre Saadeh (2004, p.83) refere que o autodiagnóstico é uma característica comum desde os primeiros pacientes de Harry Benjamin.

Ao trabalhar com os processos criminais de homicídios passionais ocorridos em

108 Durante o XIV Entlaids, a representante da Rede Latino Americana e Caribe de Pessoas Trans - REDLACTRANS –, Marcela Romero, enfatizava a necessidade de se divulgar o termo transfobia em detrimento do termo homofobia, que segundo a mesma, contribuiria para invisibilizar as violências vividas pelas pessoas trans incluindo as travestis e transexuais. (Anotações do Caderno de Campo, São Paulo, 29/06/2007). Segundo Ruspini (2008, p. 89), transfobia é uma reação de pavor, desgosto e atitude discriminatória nas interações com pessoas cuja identidade de gênero não corresponde ao modo socialmente estabelecido para o sexo atribuído ao nascimento.

Campinas, Mariza Corrêa aponta o constante silenciamento dos acusados nos processos, “em termos reais o acusado, desde que entra na polícia até o momento em que sai livre ou passa para outra esfera, a penitenciária, só fala através desses agentes e é sempre referido na terceira pessoa do singular e no passado” (1983, p. 40). Guardadas as diferenças entre os tipos de procedimentos, percebo a imposição de um silêncio das/dos (transexuais) nos processos analisados por mim. Exemplifico, neste momento, uma das estratégias deste apagamento através de um fragmento extraído do laudo psiquiátrico em que três quesitos foram apresentados pelo Promotor aos peritos:

O paciente é transexual? RESPOSTA: Não.

Se a cirurgia de redesignação sexual lhe é recomendada RESPOSTA: Não.

Se ele tem capacidade de cognição (consciência) e voluntariedade (liberdade plena para decidir) para receber esclarecimentos e autorizar a mencionada cirurgia.

RESPOSTA: Sim.109

No quesito formulado sobre a capacidade de cognição e voluntariedade da examinanda para receber esclarecimentos e autorizar a mencionada cirurgia a resposta afirmativa dos peritos foi supostamente invalidada pelas negativas anteriores do diagnóstico e da indicação da cirurgia. A postura dos peritos evidencia que apresentar competências para decidir sobre sua vida não é condição suficiente para decidir; assim, a retirada do poder de decisão das mãos da/o transexual e sua transferência para os especialistas é ponto central na relação estabelecida como identificou Mariza Corrêa (1983, p. 303):

A sua relação, pessoal e infinitamente complexa, sofre a interferência de um aparato externo que vai servir de mediador entre seus atos e as normas sociais vigentes, marginalizando-o neste caminho e reduzindo-o ao silêncio, a um silêncio de quem não possui os instrumentos necessários para dirigir seu próprio destino.

Nos processos analisados, os relatos sobre os sujeitos são escritos na terceira pessoa e, após as omissões e interpretações das falas os peritos redigem a conclusão do Laudo. O processo de EPC é um exemplo desta “tradução”. Ao solicitar sua inscrição no Programa de Transgenitalização trajando roupas consideradas “unissex” e sem nenhum investimento

corporal definitivo que demonstrasse seu pertencimento ao “mundo feminino”, EPC teve dificuldades de convencer a equipe de sua feminilidade. O uso de roupas consideradas femininas, denominado tecnicamente como teste de vida real, é um fator relevante no protocolo da transexualidade. Os argumentos de E.P.C. de que, por ser profissional da saúde, postergou o uso de hormônio através da auto-medicação e que aguardava o tratamento para “mudança de sexo”, para então modificar suas vestimentas, e que também não adotara um nome feminino, pois, para ela, estariam todos os procedimentos integrados, não foram suficientes. No indeferimento de sua solicitação, configurado no parecer do Promotor de Justiça,110 encontrei os argumentos sobre a incredulidade da equipe na “feminilidade” de E.P.C.

(...) Manifesta desejo em submeter-se à cirurgia de redesignação sexual, porém, ao longo de toda a sua vida não assumiu social e psicologicamente seu desejo de mudança, sugerindo um conflito ambivalente sobre sua sexualidade e revelando forte insegurança, ansiedade e dificuldade em estabelecer relações interpessoais.111

Uma das entrevistadas por Elisabetta Ruspini (2008, p. 89) critica essa exigência do teste de vida real, argumentando e elencando as várias situações cotidianas em que, frente à necessidade da apresentação de documentos, e que não estão em consonância com a aparência, ela deixa de ser real para se tornar uma farsante de si mesmo.

A diversidade dos inquéritos utilizados no estabelecimento de um diagnóstico explicaria o sentimento de vitória encontrado no depoimento de uma integrante do Programa: “Fui avaliada, examinada, testada e graças a Deus aprovada”.112 Considerando que todos seguem os mesmos pré-requisitos (estabelecidos pelas normas gerais do CFM e os critérios do DSM IV e CID 10), seria previsível o resultado, mas é o contraponto entre as decisões que negam e aquelas que autorizam o procedimento cirúrgico que permite explorar como se produz um “transexual verdadeiro”. A incerteza construída ao longo de um processo e a arbitrariedade com que se produzem as decisões, desencadeia uma (im)previsibilidade; percurso já estabelecido por Mariza Corrêa, demonstrado também nas análises de Karla Bessa (1994).

Berenice Bento (2006) discute com propriedade o processo vivido pelas pessoas

110 Despacho do Promotor de Justiça, Autos nº. 001600/00-1 de 25 de setembro de 2002. 111 Laudo nº. 042/2001 de E.P.C..

(transexuais) ao reivindicarem o diagnóstico de transexualismo nos Programas. Destaca os rituais, o infindável vai-e-vem através dos diferentes especialistas determinados pela equipe coordenadora do projeto. Problematiza também os tempos vividos e as relações estabelecidas durante o longo processo de acompanhamento imposto aos “candidatos/as”.

Do universo de 22 processos em que os/as inscritos/as não haviam cumprido nenhuma das exigências, apenas oito processos possuem os laudos respondidos pelos peritos das áreas de psiquiatria e psicologia do IML. Os encaminhamentos “exame com objetivo de fornecimento de laudo psicológico” foram realizados no período compreendido entre dezembro de 2000 e junho de 2001. Após esse período, as/os inscritas/os foram encaminhadas/os para profissionais ou projetos que possuíam profissionais para atender a essa demanda específica. Entre os 14 processos restantes, em três não encontrei referência quanto ao encaminhamento para o IML ou para outros serviços; em outros dois as solicitantes estavam em acompanhamento psicológico e anexaram o laudo ao processo. Em seus processos, duas inscritas contam com o encaminhamento do Promotor para atendimento em clínica da Universidade Católica de Brasília; posteriormente, com a implantação do Programa de Transexuais do Hospital Universitário de Brasília (HUB), os três encaminhamentos seguintes foram destinados a este serviço. Considero relevante ressaltar a existência de relação entre os dois programas, sendo que o mesmo professor da Universidade Católica integrava a equipe do HUB naquele momento. Nota-se um movimento de aproximação entre a equipe do HUB e a Promotoria, sendo que consta em dois processos o encaminhamento da coordenadora do grupo solicitando o ingresso das duas candidatas no Programa de Transgenitalização da Promotoria. As duas últimas inscrições aceitas na Promotoria foram de mulheres (transexuais) que informaram estar vinculadas ao Grupo de Transexuais do HUB, mas sem o encaminhamento da coordenadora.

Os laudos psiquiátricos e psicológicos, em sua maioria, foram elaborados a partir de uma determinação do Promotor para que o serviço do IML indicasse os peritos para procederem aos exames. Na visita realizada ao IML, entrevistei especialistas importantes para esse debate: o responsável pelas perícias psiquiátricas e uma das psicólogas que passou pela experiência de responder aos laudos. O desconforto sentido por eles ao receberem a determinação de que deveriam proceder ao exame solicitado pela Promotoria de Justiça fica evidente logo no início do encontro. Referiram-se à dificuldade em desempenhar tal tarefa em razão da especificidade estabelecida na Resolução do CFM de que o acompanhamento deve ser realizado por uma equipe multidisciplinar por um período de, no mínimo, 02 anos.

Ressaltaram também a particularidade da demanda, uma vez que este foi o primeiro contato estabelecido por eles com a temática da transexualidade. A limitação identificada pelos próprios peritos parece ter também sido objeto de reflexão da Promotoria que, após junho de 2002, buscou parceria com programas institucionais – em Universidades – para acompanhamento psicológico dos/as inscritos/as.113

Se para Berenice Bento a construção dos laudos psiquiátricos e psicológicos é questionável, porque resultam de um fragmento de realidade recortado no momento da consulta e promovem a universalização de toda a diversidade vivida na transexualidade (2003, p. 19), neste contexto, a relação entre os sujeitos se torna ainda mais vulnerável, posto que tal procedimento é realizado através de um dispositivo jurídico que imputa aos peritos a obrigatoriedade de realizar o exame.

As (in)certezas que se encontram no lugar onde as verdades são