• Nenhum resultado encontrado

Qualquer curva de qualquer destino que desfaça o curso de

qualquer certeza

183

Carolina se constituiu na interlocutora principal deste trabalho, não apenas pela disposição em compartilhar sua experiência, mas, sobretudo, pelas particularidades de sua história, marcada pelo trânsito entre os gêneros. Ao se inscrever no Programa de

182 Inspirado na música: Há uma história triste. Composição de Niquinho e Othon Russointerpretada por Elis Regina no álbum O Bem do Amor, 1963.

183 Música: Qualquer. Composição de Arnaldo Antunes / Hélder Gonçalves / Manuela Azevedo. Interpretada por Arnaldo Antunes. CD: Qualquer (Biscoito Fino, 2006)

Transgenitalização, ela abriu brechas nos protocolos, pois, no passado, quando era reconhecida como homem, havia sido casada e tido uma filha, menor de idade quando iniciei a pesquisa. O ofício de militar, a realização da cirurgia após os quarenta anos de idade, a autorização para alteração de nome e sexo, os novos documentos e a continuidade do processo, que não se encerrou aí, são os motivos que transformaram os seus relatos na urdidura para que outros fios fossem tramados compondo o texto que apresento a seguir.

Estava em Brasília e a primeira visita era, como de costume, à casa de Carolina. Almoçamos juntas e, pela primeira vez em quatro anos, ela permitiu que a entrevista fosse gravada.184 Eu estava com a mão edemaciada em função de uma queda, e ela se mostrou solidária, pois eram comuns os registros de duas, três horas de entrevista anotados à mão em uma caderneta. No dia seguinte, Carolina me telefonou solicitando que eu a acompanhasse ao Hospital Militar na consulta agendada para a próxima manhã. Ela chorava muito e me dizia que, naquela manhã, fora destratada no Hospital ao tentar a marcação de um exame e que estava receosa de que o novo episódio ocorresse.

Cheguei bem cedo à sua casa, um apartamento funcional na cidade satélite de Brasília, que foi o cenário de muitas entrevistas, muitas conversas e reflexões que contribuíram de maneira fundamental na construção desta tese. Enquanto ela terminava de se arrumar, eu observava as medalhas na parede que testemunhavam uma carreira marcada pelas estratégias de sobrevivência. Foram 22 anos de serviço militar, trabalhando num universo eminentemente masculino, Carolina suportou uma vivência no gênero masculino por um período pouco comum para a maioria das mulheres (transexuais).

Não seria a primeira vez que eu acompanharia Carolina em suas consultas. Ela colocou a faixa no cabelo da mesma forma com que foi fotografada pela Revista Marie Claire.185 No carro, ela contou o ocorrido no HRAN (Hospital Regional da Asa Norte) e as situações de constrangimentos a que foi submetida em função do nome de registro. Eu me lembrei do pedacinho de papel que muitas vezes a vi entregar para os/as atendentes no qual estava escrito em letras cursivas, legível, mas em tom de súplica: “por favor, me chame por Carolina”. Ela parecia mendigar o que era direito. Num dos nossos encontros anteriores, eu

184 Brasília, 7 de maio de 2007.

185 Revista da Editora Globo edição nº. 187 de outubro de 2006. Reportagem intitulada “Como é realmente...” escrita por Ana Holanda disponível em: http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML1289922- 1740-2,00.html consultada em 05 de maio de 2007.

havia dado a ela um exemplar da Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde.186 Eu me sentia impotente diante da situação e o que consegui fazer foi entregar a caixa de lenços de papel que havia comprado para ela.

Não era injustificada a sua insegurança, mas fundamentada em episódios anteriores de recorrentes constrangimentos. Entre os anexos de seu processo na Promotoria de Justiça, encontrei o relato sobre o episódio de discriminação ocorrido no Hospital Militar – e que durante aquela manhã foi recuperado com detalhes:

Cumprimentei a atendente da recepção e apresentei a ela o comprovante de consulta, o meu cartão do hospital e um papelzinho no qual estava escrito meu nome feminino e solicitei que quando me chamasse para ser atendida pelo médico, que me chamassem por este nome. (...) O doutor me chamou “Carolina”, levantei e fui em sua direção e o cumprimentei, mas ele não respondeu ao cumprimento. De uma forma grosseira e em tom áspero, ele dirigiu sua fala à minha pessoa. “Quem é este aqui?” Apontando para o meu nome masculino no prontuário médico. Eu disse “Sou eu”. Ele disse, “e quem é esse aqui?” apontando para meu nome no papelzinho, e eu disse: “sou eu”. O médico apontando para o nome no prontuário e em seguida para o nome no papelzinho, nessa ordem disse: “Eu atendo este aqui, mas não este aqui”. Mesmo percebendo a agressividade e a falta de respeito do médico para comigo, eu mantive o bom senso e disse a ele: “Doutor, tudo o que for documental, receitas, exames etc., o senhor faz como se deve, ou seja, usa o nome que está registrado no prontuário médico, mas, por respeito a minha pessoa, o senhor, por favor, me trate no feminino. O doutor me deu a seguinte resposta: “Você não entendeu! Eu atendo o XXX XXX, mas você eu não te atendo.187

Carolina conta que, ainda perplexa com a situação, perguntou sobre seu atendimento, momento em que o médico, indicando com um gesto de mão a saída do consultório, sem olhar para ela, finalizou dizendo a ela que fosse em casa, trocasse de roupas e assim seria atendida. O relato minucioso no prontuário, a cópia do relato que ela mantém em casa e o rubor de sua face quando relembra o episódio dizem do seu significado, que Carolina identifica como “cicatriz”. Acredito, assim como Butler (2004), que, se não fôssemos seres lingüísticos, a linguagem não seria capaz de nos ferir ou causar danos. A autora alerta para o fato de utilizarmos metáforas de dores físicas para traduzir esse dano em algo inteligível, indicando a dimensão materializada da relação entre corpo e linguagem.

186 Portaria MS n. 675 de 30 de março de 2006 que aprovou a Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde e consolidou os direitos e deveres do exercício de cidadania na saúde em todo o País – e que estabelece no terceiro princípio a necessidade da existência, em todo documento de identificação do usuário, de um campo para registrar o nome pelo qual prefere ser chamado, independente do registro civil.

187 Consta no processo que Carolina procurou o diretor do hospital e foi atendida por outro médico no mesmo dia. No entanto, foi dissuadida de persistir com a queixa contra o primeiro médico que a atendeu sob a “orientação” de que, num processo, a situação poderia ser revertida contra ela.

El lenguaje preserva el cuerpo pero no de una manera literal trayéndolo a la vida o alimentándolo, más bien una cierta existencia social del cuerpo se hace posible gracias a su interpelación en términos de lenguaje. Para entender esto uno debe imaginarse una escena imposible en la que un cuerpo al que no le ha sido dada aún una definición social, un cuerpo que es, estrictamente hablando, inaccesible, se vuelve accesible en el momento en que nos dirigimos a él, con una llamada o una interpelación que no “descubre” el cuerpo, sino que lo constituye fundamentalmente. Podríamos pensar que para que se dirijan a uno, uno debe ser primero reconocible, pero en este caso la inversión althusseriana de Hegel parece apropiada: la llamada constituye a un ser dentro del circuito posible de reconocimiento y, en consecuencia, cuando esta constitución se da fuera de este circuito, ese ser se convierte en algo abyecto. (2004, p. 21)

No relato de Carolina, o interlocutor a desloca do lugar de pessoa para um status de figuração, através do não reconhecimento de sua legitimidade. Embora no decorrer do texto do qual foi retirado este excerto, a autora se contraponha ao conceito de interpelação desenvolvido por Althusser, nesse momento, a utilização se faz no sentido do compartilhamento de que é a chamada do outro que inauguraria o reconhecimento do sujeito. O insulto proferido pelo médico impediu Carolina de ocupar um lugar, através da recusa deste outro em interpelá-la. Essa recusa do olhar do outro me remeteu à passagem do livro de Toni Morrison:

Ela ergue os olhos para ele e enxerga o vácuo onde deveria haver curiosidade. E algo mais. A total ausência de reconhecimento humano – a vitrificada separação. Não sabe o que mantém o olhar dele suspenso. Talvez o fato de ser adulto, ou homem, e ela uma menina. Mas ela já viu interesse, nojo, até raiva em olhos de homens adultos. Ainda assim, esse vácuo não é novidade para ela. Tem gume; em algum ponto na pálpebra inferior está a aversão. Ela a tem visto a espreita nos olhos de todos os brancos. Deve ser por ela a aversão, pela sua negritude. Tudo nela é fluidez e expectativa. Mas sua negritude é estática e medonha. E é a negritude que explica, que cria o vácuo afiado pela aversão em olhos de brancos. (2003, p. 52)

Carolina não era percebida em termos de marcas raciais, como no caso do texto acima, mas com outras marcas corporais, de gênero, as quais faziam com que ela vivesse, cotidianamente, ao mesmo tempo, o não reconhecimento como pessoa e a dificuldade em passar despercebida:

(...) Por mais que eu faça alterações no meu corpo, eu jamais vou me sentir completa, porque eu nasci no sexo biológico masculino, isso é fato. Não vai mudar, tem as ações dos hormônios, a gente vai fazendo as mudanças que são possíveis. Se eu pudesse escolher, queria ter nascido pronta: uma mulher

biológica.188

É perceptível a atuação do hormônio masculino no corpo de Carolina: a proeminência de face com a angulação de testa e queixo, o tamanho das mãos e pés. Carolina relata que, durante a puberdade, a ausência do surgimento dos caracteres sexuais secundários preocupou os seus pais que a levaram para a capital do Estado a fim de ser examinada por especialistas. Embora não consiga precisar a data, ela diz dos efeitos da administração de hormônios masculinos prescritos pelo médico. Ela conta com ressentimento do tratamento imposto, principalmente das alterações físicas causadas pelo uso do hormônio. Essas mudanças externas, marcadas pelo surgimento de pêlos e alteração de voz, potencializada pela raspagem das cordas vocais (sic) - produziram o efeito de “colaborar” para que a natureza encontrasse seu caminho estabelecido a partir do sexo de nascimento. Ela não culpa seus pais pelo doloroso tratamento, mas sim ao médico, porque ele saberia o mal que lhe causava, a exemplo do que pode ser visto no documentário intitulado “Changing Our Minds The Story of Dr. Evelyn Hooker”189 acerca dos experimentos médicos sobre a homossexualidade.

A experiência de Carolina não se constitui numa situação isolada. Tatiana Lionço (2006, p. 105) refere-se a casos em que dois dos sujeitos por ela entrevistados foram submetidos, na adolescência, a tratamentos endocrinológicos por seus corpos (e performances) não corresponderem às expectativas criadas a partir da genitália existente. O aspecto comum no relato das entrevistadas é a administração de “hormônios masculinos” como tratamento para um comportamento interpretado como feminino e, ainda, as pequenas ou ausentes demonstrações de masculinidades. Destaco os impactos das teorias que buscavam uma origem biológica para a homossexualidade, mais precisamente, a teoria da influência dos hormônios na orientação sexual adulta, cuja base explicativa estaria ancorada na insuficiência hormonal (testosterona) e da qual Gunther Dorner (1968, 1975) foi um dos representantes. Tais teorias parecem influenciar na prescrição de terapêutica também das entrevistadas.

No caso de Carolina, somada à aparência, à pouca desenvoltura ao andar sobre os saltos, a uma falta de harmonia no conjunto dos gestos, havia um “jeito de corpo” desejado que os anos de farda não lhe permitiram incorporar.190 A noção de incorporação que Juliana

188 Carolina, Anotações de Caderno de Campo, Brasília, junho de 2005. 189 Documentário dirigido por Richard Schmiechen, 1992.

190 A pesquisadora denomina de incorporação o aprendizado feito pelo corpo e nele observável. No seu trabalho, ela estabelece a diferença do uso de incorporação e adota a perspectiva sugerida por Eduardo Viveiros de Castro (JAYME, 2001, pp. 9-10).

Jayme utiliza na sua pesquisa pareceu-me sugestiva para somar ao que Judith Butler chamaria de repetição estilizada de atos:

El género no debe interpretarse como una identidad estable o un lugar donde se asiente la capacidad de acción y de donde resulten diversos actos, sino, más bien, como una identidad débilmente constituida en el tiempo, instituida en un espacio exterior mediante una repetición estilizada de actos. El efecto del género se produce mediante la estilización del cuerpo y; por lo tanto, debe entenderse como la manera mundana en que los diversos tipos de gestos, movimientos y estilos corporales constituyen la ilusión de un yo con género constante. Esta formulación aparta la concepción de género de un modelo sustancial de identidad y la coloca en un terreno que requiere una concepción del género como temporalidad social constituida. Es significativo que si el género se instituye mediante actos que son internamente discontinuos, entonces la apariencia de sustancia es precisamente eso, una identidad construida, una realización performativa en la que el público social mundano, incluidos los mismos actores, llega a creer y a actuar en la modalidad de la creencia (2001, p. 172).

O aprendizado mimético feito pelo corpo que performa e constitui a plasticidade e transitoriedade do sujeito é um dos caminhos para a compreensão da indissociabilidade do corpo/mente e corpo/cultura. Ancorada na relação que Miguel do Vale Almeida (1996) estabelece entre corpo e incorporação, entendo que corpo faz sentido, expressa, atua e experimenta identidades e diferenças.191

O primeiro local externo à Promotoria e ao Hospital Universitário em que acompanhei Carolina foi a feira de importados. Em três ocasiões, fomos a essa feira, e ela gentilmente me ensinava sobre os eletro-eletrônicos. Acompanhamos a chegada de produtos como DVD portátil, Mp4 e outros. Nessas ocasiões, não observei nenhuma agressão verbal ou física. No entanto, nós duas percebemos as agressões veladas, que eram constantes. Desde a insistência do garçom em se reportar somente a mim para anotar os pedidos, passando por um vendedor que fingiu não ouvir a sua pergunta sobre o preço de um produto. Nessa ocasião, ela desistiu da compra porque não queria (podia) alterar o tom da voz para que a mesma não se tornasse ainda mais grave. O silêncio do vendedor silencia Carolina. Compartilho a percepção de Butler (2004, p.30) no que se refere a considerar que o ato de fala é um ato corporal e se redobra no momento da fala, atribuindo a existência ao que se diz. Nesse sentido, o silêncio do vendedor pode ser entendido como um instrumento corporal que enuncia e realiza a inexistência de Carolina.

191 O autor traduz o termo embodiment por incorporação, aqui adoto essa mesma nomenclatura por entender que o contexto do trabalho distancia a possibilidade de que o leitor possa associar incorporação com o sentido de um transe mediúnico, mas reafirma a perspectiva do que se torna material (VALE ALMEIDA, 1996).

Durante todas essas situações externas, eu permanecia atenta aos olhares dos outros. Esses olhares também são flagrados por outra das minhas entrevistadas, Rita:

(...) Eu tenho aprendido nas minhas vivências que o olhar do outro é múltiplo: Tem aquelas pessoas que não percebem, não percebem mesmo. Tem outras pessoas que não; elas percebem que tem alguma coisa estranha, não identificam exatamente o que é; ficam te observando não com olhar de deboche, é um olhar de curiosidade. E tem aquelas pessoas que percebem e percebendo tem diferentes posturas: ela vai agredir, enfim ter alguma atitude negativa que você percebe que ela te identificou.192

Os relatos de Carolina e Rita mostram a percepção de que a vida é cuidada e mantida diferencialmente, em processos nos quais há uma distribuição desigual de vulnerabilidades. Apontando para uma das possibilidades de bandeiras de luta dos movimentos gay e lésbico, que deve ser o questionamento das noções normativas do que deve ser considerado e protegido como humano.

No Hospital Militar, logo no portão da entrada, repetia-se o olhar. Passamos pela guarita, lugar onde o documento de identificação deve ser apresentado e, como habitualmente ocorria conosco, o militar da portaria foi consultado. Todos olharam, dentro e fora da guarita, trocaram olhares e fomos autorizadas a seguir em frente. Para surpresa de Carolina, naquele dia, tudo transcorreu sem nenhum atropelo.

Durante os momentos em que ela se dirigia aos guichês de atendimento, eu me colocava ao alcance de seus olhos, mas também de forma que pudesse observar os transeuntes. Nosso objetivo era a marcação de exames. Mesmo assim, percorremos cada corredor de consultórios. Carolina me mostrava cada um dos consultórios. Paramos em frente à porta identificada como atendimento psicológico. Este foi o local, no hospital, por onde ela iniciou sua busca pela modificação de sua condição:

Depois dos hormônios masculinos, por causa das mudanças físicas, a parte emocional também ficou abalada. Eu nunca deixei de ser mulher internamente, mas deixei a vida para viver o papel masculino. Eu acho que da forma como fiquei com o engrossamento da voz, a estrutura muscular, o desenvolvimento da genitália eu achava que não teria mais nenhuma chance de viver no feminino. Eu passei a viver o papel masculino diante da sociedade. Mas quando saiu a reportagem de Roberta Close falando sobre a cirurgia e dizendo que os hospitais brasileiros fariam a cirurgia eu voltei a pensar... mexeu comigo. Eu comecei a pensar se apesar da minha constituição física, apesar do prejuízo que eu tive, será que eu deveria continuar nessa minha vida masculina só para a sociedade ou se eu merecia uma segunda chance. Apesar de minha forma física. A forma física para

mim é uma grande preocupação. Mesmo que eu fosse uma mulher de voz grave, ou de uma constituição problemática, eu mereço viver como eu sempre me vi. Eu precisava dar uma segunda chance para mim.193

Essa nova chance estaria marcada pelos pressupostos dos saberes médicos e jurídicos. Estar na sala de recepção do hospital era a repetição de um ritual que se instaurou em 1997. Permanecemos sentadas na sala de espera pelo tempo que Carolina considerou necessário. Para mim, havíamos terminado a nossa missão194, mas para ela ainda não. Percebi a sua

intenção de rever os colegas do tempo de atividade e ficou por ali, na tentativa de que alguém parasse para conversar. Um homem aparentando a mesma idade que ela se aproximou; sem saber ao certo como se dirigir, evitou nomes e artigos, tornando a conversa quase monossilábica; num instante, eu havia me transformado no alvo da atenção do militar. Afinal, estávamos entre desconhecidos, pois ele não sabia nada de Carolina, a quem não reconhecia como sendo o seu colega de destacamento. A conversa foi breve, nos levantamos e voltamos ao estacionamento do hospital.

Do hospital, ela me convidou para irmos até seu antigo local de trabalho. Embora estivesse no mesmo espaço geográfico, esta seria a primeira vez que me levaria até a Base. Passamos em frente à sede da administração, ela me disse: “se lembra quando eu te contei que fiquei detida quando procurei o Pró-Vida? Que sofri ameaças de prisões? Essa foi a última vez que estive aqui”.

Ao ser entrevistada na Promotoria Pública para seu ingresso no Programa de Transgenitalização, Carolina foi questionada sobre o uso de roupas masculinas. Naquela ocasião, informou ao Promotor que estava sendo ameaçada de prisão e que não poderia usar vestimentas femininas. Após orientação da Promotoria, concedeu entrevista ao Jornal Correio Braziliense e se deixou fotografar em trajes femininos.195 No dia seguinte à circulação do jornal, ela foi chamada à sede administrativa do destacamento militar e permaneceu por seis horas em uma sala. E ao me contar parecia reatualizar o constrangimento vivido naquela

193 Anotações do Caderno de Campo, maio de 2007.

194 O termo missão foi aqui utilizado pela interlocutora e, no universo militar, serve também para designar uma incumbência ou tarefa recebida de um superior sobre a qual não se tem muitas informações.

195 A entrevista circulou no Jornal Correio Braziliense, em 19 de Setembro de 2000, e está disponível apenas para assinantes no seguinte endereço: http://buscacb2.correioweb.com.br/correio/2000/09/19/A10-1909.PDF.pdf. No entanto, uma reportagem de igual teor, realizada por Cecília Maia, intitulada “Cabo XXX XXXX, mas pode chamar de XXXXX: No primeiro caso de transexualismo nas Forças Armadas, um cabo da Aeronáutica anuncia