O ensino interdisciplinar abrange perspectivas para superação de fronteiras em uma situação de componentes curriculares nas escolas. Assim, adentrando às possibilidades de auxílio da Geografia para as outras disciplinas escolares, vemos, uma vez que a Geografia atente as noções sociais, culturais, históricas e políticas dos seres humanos e sujeitos, uma ampla e possível associação às práticas de ensino das outras disciplinas. A abrangência, portanto, é possível, capaz de contribuir para as perspectivas de letramento escolar do aluno, auxiliando, portanto, na efetivação da interdisciplinaridade.
É importante que discutamos o conceito de letramento. De acordo com Scribner e Cole SOHWUDPHQWRp³um conjunto de práticas socialmente organizadas que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, para produzi-la e disseminá-OD´ Desse modo, entende-se que ser letrado não significa necessariamente saber ler e escrever (a SURSRVWD GD DOIDEHWL]DomR PDV VDEHU XWLOL]DU WRGRV RV ³FRQKHFLPHQWRV GH PXQGR´ HP diversos contextos sociais, sendo sempre regulamentadas pelo uso da língua.
Na escola, o letramento deve ser colocado em prática a partir de inúmeros mecanismos que propõem o desenvolvimento do aluno, de uma forma com que o próprio aluno seja e saiba que está inserido em uma sociedade que possui diversas formas de socialização pela linguagem (RODRIGUES, 2014).
A sociedade atual, fruto de um desenvolvimento que teve seu boom tecnológico na segunda metade do Século XX, com avanços na robótica, medicina, informação e indústria de um modo geral, permitiu que inúmeras outras formas de letramento estivessem em curso, principalmente através das Tecnologias da Informação ± as TIC ± que trouxeram formas de comunicação e interação diferentes conforme o ritmo de progresso de tais tecnologias, criando, dessa forma, o multiletramento. Rojo e Moura (2012) constroem um breve histórico sobre o surgimento do multiletramento. Segundo os autores, um grupo de pesquisadores (Grupo de Nova Londres ± GNL) que tinham como foco de estudo o letramento, afirmou a necessidade de haver uma pedagogia dos multiletramentos. Publicou-se então a obra A
pedagogy of multiliteracies ± designing social futures (Uma pedagogia dos multiletramentos
± desenhando futuros sociais), em 1996. Esta obra, entre outros postulados, responsabilizava a escola como o principal ambiente para a execução das práticas de novos letramentos, que surgiam conforme o desenvolvimento tecnológico. Além disso, segundo Rojo e Moura (2012, p. 12), seria necessário incluir as diferentes culturas emergentes na globalização no contexto
escolar, criando vertentes para o estudo de diversidade cultural, como suportes de aprendizado em diálogo com o mundo.
O multiletramento é, desse modo, uma forma relativamente nova de se trabalhar em sala de aula, levando em consideração as novas tecnologias que surgem conforme a modernização, além da busca de outras formas de diversificação cultural de massa que podem ser exploradas em sala de aula. Segundo Rojo e Moura (2012, p. 8, grifo do autor),
Trabalhar com multiletramentos pode ou não envolver (normalmente envolverá) o uso de novas tecnologias de comunicação e de informação µQRYRV OHWUDPHQWRV¶ PDV FDUDFWHUL]D-se como um trabalho que parte das culturas de referência do alunado (popular, local, de massa) e de gêneros, mídias e linguagens por eles conhecidos, para buscar um enfoque crítico, pluralista, ético e democrático ± que envolva agência ± de textos/discursos que ampliem o repertório cultural, na direção de outros letramentos.
Desta forma, o ensino com multiletramentos deve buscar práticas que englobem não somente atividades que envolvem tecnologia, mas também saber que tais conhecimentos podem servir de ponto de partida para outras atividades culturais, fazendo uma reflexão acerca do papel de diversos discursos e textos na sociedade, sua função e como eles podem ser utilizados para um maior desenvolvimento na questão do ensino. Cabe ao professor utilizar tais mecanismos e ser, como orientam os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998), o mediador para a construção do ensino/aprendizagem.
O termo multiletramento tem sua formação, segundo Rojo e Moura (2012, p. 12), na composição entre letramento, a prática já conhecida, e a palavra multi, que por sua vez tem origem em duas palavras: multimodalidade e multissemiose. Tanto uma quanto a outra são características abrangentes dos novos letramentos, que propõem, como já dito anteriormente, uma visão mais ampla do mundo. A multimodalidade e a multissemiose dos textos contemporâneos que, segundo Rojo e Moura (2012, p. VmR³WH[WRVFRPSRVWRVGHPXLWDV linguagens (ou modos, ou semioses) e que exigem capacidades e práticas de compreensão e SURGXomRGHFDGDXPDGHODV´UHTXHUHPHPVXDSHUSHWXDomRRVPXOWLOHWUDPHQWRV
Destarte, os textos com contexto multimodal podem ser entendidos como gêneros que SRVVXHPGLYHUVDVOLQJXDJHQVVHQGR³DTXHOHFXMRVLJQLILFDGRVHUHDOL]DSRUPDLVGHXPFyGLJR VHPLyWLFR´ (FERRAZ apud KRESS; VAN LEEUWEN, 1996). Eles, desta forma, estão inseridos em nosso cotidiano.
Na perspectiva da Geografia Cultural, como vimos, é claramente possível identificar os multiletramentos em métodos de ensino. Os únicos instrumentos do professor de Geografia
visto de uma forma estereotipada, tradicional e errônea, são o globo terrestre e os mapas. Porém, cabe à criatividade do professor e aos recursos escolares disponíveis na escola, além das possibilidades de formação docente, haver uma assessoria de formações metodológicas, envolvendo, por exemplo, a tecnologia e recursos de outras disciplinas.
Também podemos inserir neste contexto dos multiletramentos a leitura literária, uma vez que os estudos dos gêneros textuais também podem ser explorados, do ponto do texto de ficção. Cosson (2009, p. 29) explica que o letramento literário é uma forma de humanização, de conhecimento da arte. Segundo o autor:
[...] devemos compreender que o letramento literário é uma prática social e, como tal, responsabilidade da escola. A questão a ser enfrentada não é se a escola deve ou não escolarizar a literatura, como bem nos alerta Magda Soares, mas sim como fazer essa escolarização sem descaracterizá-la, sem transformá-la em um simulacro de si mesma que mais nega do que confirma seu poder de humanização.
É comum à inserção da prática de leitura de textos literários, portanto, o uso de apenas colocá-lo como pretexto para uso gramatical. Segundo Vieira (2015, p. 120- ³2XWUR engano reside no fato de associar a leitura literária ao prazer. Ninguém nasce gostando ou não de ler. É preciso despertar nos sujeitos a habilidade de leitura, uns irão gostar, outros entender TXH p QHFHVViULR H DVVLP R IDUmR´ 'HVVD IRUPD p HVVHQFLDO REVHUYDU D SHUVSHFWLYD GH letramento literário, tendo a literatura uma prática significativa, com perspectivas sociais. Assim, Paulino (1998, p. 16) compreeQGHFRPROHWUDPHQWROLWHUiULRp³FRPRRXWURVWLSRVGH letramento, continua sendo uma apropriação pessoal de práticas de leitura/escrita, que não se UHGX]HPjHVFRODHPERUDSDVVHPSRUHOD´$HVWDDVVRFLDomRDTXHVWmRGDSUiWLFDGDOHLWXUD do texto literário na escola passa a ser essencial.
Infelizmente, ainda se perpetua o discurso de que muitas pessoas não têm capacidade de leitura, justificando-se pelo fato de que ou não sabem ler ou não gostam de ler. Rodrigues (2009) afirma que estes discursos infelizmente englobam o preconceito linguístico e social que se associam às pessoas de baixa escolaridade ou analfabetas, perpetuando uma memória de modelo de cultura que leva em consideração apenas a forma elitizada de modelo de leitura e de leitores, associando geralmente ao culto, ao erudito, sem variação de perfis de leitores e até do próprio texto e outras manifestações literárias. Cabe ao letramento literário a capacidade e a competência de ressignificar e compreender os textos, observando o meio e a motivação dos estudantes e do professor para a contextualização do meio escolar.
Em nossa pesquisa, a Literatura de Cordel, uma manifestação literária, é utilizada como objeto de mediação de aprendizagem, onde, através das temáticas levantadas nos folhetos, os alunos poderão ressignificar, compreender, relacionar e criar intertextualidades através do conhecimento do senso comum e conhecimento científico. Cosson (2009), neste contexto, apresenta estratégias de aplicação de uma sequência básica, construída com as etapas de motivação, introdução e leitura. Em nosso trabalho, considerando a construção das etapas, levamos em consideração também esta sequência, observando a concepção de letramento literário também como ponto de interdisciplinaridade com a disciplina Geografia e, principalmente, na corrente Cultural/Humanista.