3 SURGIMENTO DO MOVIMENTO SEM TERRA
4.9 Longa caminhada
O processo de instalação da Escola Itinerante inicia com a ocupação da terra feita pelas famílias de trabalhadores. Entre as muitas tarefas que se impõe nesse momento, à questão da educação é prioritária, pois as crianças e jovens precisam de escolarização ali no acampamento. Assim:
A cada novo acampamento vêm a organização do povo por equipes, coletivos, setores, núcleos, coordenação e direção do acampamento. Entre tantas preocupações, a escola e a educação das crianças, hoje aparece como prioridade. Por essa razão, um grupo passa a se ocupar da sua organização. Primeiramente, vem um diagnóstico da realidade, levantamento do número de crianças em idade escolar e identificação de educadores. Depois vem a criação e formação do Setor de Educação. Tendo presente a importância do estudo e da escola na vida dos sem terra, passa a estudar os materiais pedagógicos disponíveis, organizar a escola, fazer o planejamento. A discussão de como fazer essa escola com toda a comunidade acampada. (MST, 2001, p. 10).
O acampamento de lona-preta que muitas famílias enfrentam por anos seguidos, se torna um desafio e uma superação, pois desde os primeiros anos, essa forma de se organizar vai lhes mostrando que não basta só ocupar a terra e cultivá-la. O Movimento inicia um processo de constituição de um novo homem e uma nova mulher, um jovem, uma criança com identidade cultural distinta, porque nascida da luta e com sua ideologia reconhecida, no boné vermelho, na bandeira, nas músicas, criando um novo processo cultural, onde se cultiva o que é de raiz do homem do campo, o sujeito sem terra forjado no enfrentamento da luta de classes, na busca da terra para o trabalho, através da ocupação da propriedade privada para a reforma agrária e a transformação social.
A Escola Itinerante Caminhos do Saber foi criada devido a necessidade das crianças sem terra estudarem e da luta por escola pública no e do Campo nos acampamentos da reforma agrária. Algumas dessas famílias do acampamento Maila Sabrina, organizadas na Brigada “Che Guevara”, vêm de uma longa caminhada juntas, enfrentando a lona preta dos acampamentos há mais de seis anos, ocupando e sofrendo despejo na luta por reforma agrária.
Vivendo o processo de ocupar a terra para o trabalho, serem despejadas e acamparem novamente em um movimento contínuo, buscando acumular forças, estudar e se organizar para ocupar de novo outro latifúndio improdutivo; essas famílias não possuem perspectiva de vida na cidade, onde o emprego praticamente inexiste para absorver a população em idade produtiva. Numa dessas ocupações, tentaram organizar a primeira Escola Itinerante no norte do Paraná e não deu certo porque quando tudo estava pronto, as famílias foram despejadas e levadas para outro município. Esta primeira tentativa diverge da que é foco deste estudo, por ter sido conduzida a partir de outros procedimentos, como esclarece a colaboradora Maria Luíza, 11/10/2007:
Numa fazenda que morávamos antes de vir pra cá, Fazenda Três Marias, as crianças estudavam no município e lá foi diferente daqui. Aqui primeiro começamos a estudar para depois construirmos as salas de aula. Lá nas Três Marias, eles construíram as salas de aula e foram formando os educadores para começar as aulas na Itinerante, tinha muita ajuda do prefeito, mas quando a Escola Itinerante começou a funcionar, fomos despejados e foi tudo perdido.
O ambiente que se pretende formar nessa comunidade, funda-se no princípio da igualdade, do bem-estar das famílias e da solidariedade, em que se organiza a parcela mais pobre da sociedade, excluída do trabalho pelo capitalismo, essa parcela da classe trabalhadora rural organizada no Movimento, está atrás de um trabalho permanente na terra, razão pela qual a educação, constitui uma dimensão importante para o Movimento, pois todos os trabalhadores/as sem terra precisam saber ler, escrever, calcular e se transformar em quadro político capaz de dirigir as bases trabalhadoras.
A escolarização, a alfabetização e o conhecimento, são fundamentais para o sucesso e ou o fracasso de uma organização, pois “sem a formação de quadros” lembrada pelo professor Celso Furtado, quadros a que tanta
falta fizeram às Ligas Camponesas, os “intelectuais orgânicos” de Gramsci (1978, p.4), a organização estagnaria. Portanto, a educação é um quesito fundamental à luta de classes e para todas as organizações que estejam interessadas na realização da conscientização social e política, para mudar o modelo econômico com a organização política e da luta social. Permeada pela tensão no processo de conquistar a terra, esta organização visa acarretar ao trabalhador uma vida digna, onde a família terá emprego permanente na agricultura, os filhos serão criados com dignidade e cidadania, principalmente se desenvolverem o trabalho coletivo e cooperativo desde o acampamento.
Quando se adota o trabalho cooperativo desde o acampamento, o assentamento geralmente se projeta como empresa de pequeno e até médio porte, onde se diversifica a produção e socializam-se os lucros entre os trabalhadores. Um assentamento onde se desenvolve o trabalho cooperativo e nasce uma nova comunidade de trabalhadores sem terra, organizada em torno do princípio da solidariedade e funcionando como empresa socialista: é a COOPAVI18 – Cooperativa Vitória – em Paranacity, exemplo de uma agroindústria que está dando certo ao desenvolver o trabalho coletivo e cooperativo.
Nos acampamentos a disposição dos trabalhadores é de incorporar- se ao Movimento como militantes, participar nas marchas, na defesa da terra ocupada, na organização da escola, da produção e quando o acampamento é bem organizado e consegue transmitir sua ideologia nos núcleos de base e organizar as famílias em cooperativas, o sucesso econômico do empreendimento é certo. A organização é para “ocupar, produzir e resistir” e comercializar.
A inserção das famílias nas atividades das instâncias no acampamento e na luta social coloca uma nova relação de companheirismo e de solidariedade entre os trabalhadores/as acampados/as. No entanto, há uma
18Há um assentamento do MST em Paranacity-PR, fundamentado no trabalho humano coletivo, onde homens e mulheres acima de 16 anos recebem salários iguais por hora trabalhada e, todos podem trabalhar na cooperativa onde há emprego. Inclusive, a Coopavi tem contratado “bóias-frias”, por falta de força de trabalho entre os próprios cooperados. O salário está diretamente relacionado com o tempo de horas que se trabalha por dia. Todos os trabalhadores/as da cooperativa recebem formação e aprendem a fazer todos os serviços, através do rodízio nas tarefas de produção, administração e venda da cooperativa, adquirindo conhecimento e capacidade de gerenciar os vários ramos de negócio desenvolvido na Coopavi. Tem restaurante comunitário funcionando de 2ª a 6ª feira, onde o almoço e o café da manhã para uma família de cinco pessoas custava mensalmente R$ 30,00 reais, em valores de 2004, quando a turma do 2º ano de Pedagogia da UEL visitou o assentamento, numa atividade orientada pela professora Adreana Plath.
tendência natural nas famílias, por viverem em uma sociedade capitalista, a olhar só para seu negócio; esquecerem que a luta é coletiva, buscando soluções individualistas, em alguns lugares, se aliam aos bandidos que entram nos acampamentos assassinando companheiros como Eli Dalemole em 30/03/2008, no Assentamento Libertação Camponesa, em Ortigueira. Essas situações levam o Movimento a buscar formas novas de trabalho, mostrando às famílias, que a produção em cooperativas, o coletivismo e a sociedade solidária, igualitária e fraterna que o Movimento pretende construir, é a utopia que se busca e é nesse processo de formar um novo homem, envolvido com a luta social e a construção de uma sociedade socialista, que a Escola Itinerante entra para contribuir na construção do sujeito sem terra.
O MST é um movimento com características heterogêneas no campo ideológico e cultural, principalmente. No campo ideológico, por um lado destaca-se a luta pela transformação social e por um modo de produção diferenciado, por outro lado há a presença de um ideário individual que move a participação social no movimento. Este ideário individual está expresso no desejo da conquista de um pedaço de terra que possibilite a retomada ou a inserção no trabalho com a agricultura, agroindústria ou pecuária. Estas duas facetas do campo ideológico são indissolúveis e são elas que dão forma à heterogeneidade que dinamiza o movimento social. O campo cultural compõe-se por atitudes que valorizam a inovação, a reconstrução de valores e, portanto, as atitudes coletivas. Compõe-se ainda pela presença de ações pautadas no indivíduo e na sua “liberdade”, o que muitas vezes está vinculado às relações tradicionais de trabalho na agricultura. (SOUZA, 2003, p.31-32).
Nos acampamentos os trabalhadores precisam participar da luta, pois a ocupação da terra continua sendo a principal forma de pressão para se realizar a reforma agrária, condição em que não há como “ficar em cima do muro”, como diz Stédile. Os trabalhadores aprendem na prática como enfrentar o latifúndio nas ocupações de terra promovidas pelo MST e na luta política que trava pela hegemonia cultural e social dos acampados. A Escola Itinerante é organizada pela participação da comunidade e proporciona escolarização às crianças, aos jovens e adultos sem terra. Essa escola além de proporcionar o conhecimento científico, propicia a auto-organização dos estudantes e sua gestão democrática, além de ser uma escola que recria na sala de aula o debate do dia-a-dia entre a comunidade.
Uma organização deve estar a serviço dos trabalhadores para atingir os objetivos que estes têm como seres humanos. Por isto a organização deve estar atualizada, acompanhando os passos da história social de seu povo. A organização que perde a noção do tempo e deixa de acompanhar os passos que a evolução da história proporciona, poderá ocupar espaços, mas estes serão insignificantes para proporcionar avanços na transformação da sociedade. Por isso, ao discutirmos o que é organicidade, devemos levar em consideração as lições que aprendemos ao longo do tempo e perceber os novos desafios colocados pela história. E a partir desse aprendizado nos organizarmos para passar por eles, e ocuparmos “novos” espaços no cenário da luta de classes. (MST, 2005, p. 6).
Os filhos precisam estudar? A escola necessita de professor para dar aulas e debater com as famílias na comunidade sem terra? Qual escola constituir no acampamento? A Escola Itinerante é da classe trabalhadora porque nasce do trabalho voluntário e se volta para a comunidade desde o início, buscando entre as famílias acampadas essa força de trabalho com mais conhecimento, para democratizá-lo e passá-lo às crianças nas escolas dos acampamentos sem terra. Essa escola de acampamento que caminha há 25 anos com o Movimento Sem Terra, conseguiu estabelecer-se como uma instituição educacional do campo, pública, laica, de qualidade, universal, do trabalho e conquistada pelo movimento social, para atuar dentro dos acampamentos e assentamentos, proporcionando escolarização às crianças, jovens e adultos em vários estados do Brasil.