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Angelo Alves de Mattos Ângelo Zambam de Mattos

Capítulo 2

somente que os pacientes não coloquem sal em sua dieta e que evitem ali-mentos, sabidamente, com maior conteúdo de sódio.(5-7)

Quando do tratamento da ascite, é importante que o clínico esteja atento para evitar a utilização de medicamentos que prejudiquem a função renal, tais como os anti-inflamatórios não esteroides, inibidores da enzima conver-sora de angiotensina, antagonistas dos receptores da angiotensina e mesmo drogas nefrotóxicas como os aminoglicosídeos. É também importante aten-tar para o uso de contrastes radiológicos endovenosos, uma vez que podem induzir a uma insuficiência renal aguda.(2)

Como a resposta à dieta com restrição de sódio é pobre, o uso de diuré-ticos deve ser considerado desde o início do tratamento. Tendo em vista a presença de edema periférico concomitante proteger o paciente quanto ao desenvolvimento de hipovolemia, em decorrência de sua mobilização pre-ferencial e ilimitada, fica sugerido que o tratamento possa resultar em uma perda média de 1 kg/dia naqueles pacientes com ascite e edema periférico e de 500 g/dia naqueles só com ascite (reabsorção limitada).(8)

No início do tratamento são utilizados diuréticos poupadores de potássio, preferencialmente a espironolactona, em decorrência do hiperaldosteronis-mo existente no paciente com cirrose. A dose inicial é de 100 mg/dia, poden-do ser aumentada a cada 3-5 dias, até um máximo de 400 mg/dia. O intervalo de dias utilizados para a modificação da dose é baseado no fato de que o pico de ação da droga é entre o 3º e 5º dia de seu uso. Esse regime resulta em uma natriurese adequada em 75% dos pacientes. Como os principais metabólitos da espironolactona, sua porção ativa, têm uma meia vida plasmática longa, está justificada sua administração uma vez ao dia.(9,10)

Sendo o sítio de ação da espironolactona ao nível do néfron distal, a re-tenção proximal de sódio e de água explica a falha terapêutica em alguns pacientes. Nesses casos, associa-se um diurético de alça. A droga habitual-mente utilizada é o furosemida, variando a dose de 40 a 120-160 mg/dia.(11)

Nos guidelines da European Association for the Study of the Liver (EASL),(4) é sugerido que pacientes com um primeiro episódio de ascite podem ter seu tratamento iniciado primeiramente com espironolactona de forma isolada (as doses podem ser aumentadas e, de acordo com a resposta,

deve ser acrescida a furosemida), mas pacientes com ascite recorrente de-vem ser tratados desde o início com terapia combinada, ou seja, espironolac-tona e furosemida em doses crescentes na dependência da resposta.

Nos pacientes com derrame peritoneal volumoso (ascite tensa), a proposta terapêutica a ser avaliada é a paracentese com reposição de albumina.

A terapêutica através da paracentese com infusão endovenosa de 8 g de albumina por litro de ascite drenado mostrou-se mais efetiva, acarretando menos complicações e diminuindo o tempo de internação dos pacientes, quando comparada com o tratamento à base de diuréticos. Ressaltamos que a reposição com albumina tende a minorar a disfunção circulatória que pode ocorrer após a paracentese (disfunção circulatória pós-paracentese). Recente metanáliseavaliando trials prospectivos, controlados e randomizados em pacientes com ascite volumosa e que realizaram paracentese e reposição com albumina, ou com outros expansores, demonstrou que a albumina diminui a incidência de síndrome pós-paracentese, de hiponatremia e de mortalidade.(12) Ressalte-se que, em artigo de revisão, Solà et al. recomendam reposição volumétrica com albumina, independente do volume drenado, inclusive enaltecendo uma saudável relação custo-benefício quando assim procedido.(¹³)

Embora a paracentese terapêutica com reposição volêmica seja o trata-mento de eleição para os pacientes com ascite volumosa, ela não corrige a retenção renal de sódio existente, e esses pacientes devem utilizar diuréticos após a remoção do líquido de ascite.

É importante enfatizar que o transplante hepático é a forma de terapia definitiva à ser ofertada aos pacientes com ascite, principalmente quando ela for considerada refratária.(14)

Tendo em vista a PBE ser uma complicação frequente nos pacientes com ascite, é fundamental que a paracentese diagnóstica seja realizada em todo paciente com ascite de início recente, de volume moderado ou grande, ou naqueles pacientes hospitalizados com piora da ascite ou com complicação da hepatopatia.(4,5)

A PBE e suas variantes constituem uma complicação que se desenvolve com frequência em cirróticos com ascite, principalmente quando de etiologia alcoólica. Sua incidência oscila entre 4 e 27%. Tem prognóstico reservado,

com mortalidade variando de 20 a 30%.(15) Em estudo realizado no nosso meio, entre 1.030 internações hospitalares de pacientes com cirrose e ascite, foram documentados 114 episódios de PBE, o que correspondeu a uma prevalência de 11,1%. A mortalidade associada foi de 21,9%.(16)

A PBE é uma infecção caracteristicamente monomicrobiana. As bactérias mais frequentemente isoladas são bactérias gram-negativas (E. coli) e cocos gram-positivos (estreptococos e enterococos). Os germes mais comuns na PBE de origem comunitária são bacilos gram-negativos (isolados em aproxi-madamente 65% dos casos), entretanto, cocos gram-positivos desempenham importante papel nas infecções nosocomiais (atualmente estão presentes em aproximadamente metade dos casos de PBE hospitalar).(17)

Embora o diagnóstico seja dado pelo exame bacteriológico, em decor-rência dos resultados falso-negativos e da demora para obter seu resultado, o grande parâmetro prático no diagnóstico da infecção do líquido peritoneal parece ser o exame citológico do fluido de ascite, por meio da contagem dos polimorfonucleares (PMN). Assim, quando o número de PMN é igual ou superior à 250 células/mm3, estamos autorizados a pensar em PBE e iniciar um tratamento.(4,5)

Classicamente, era recomendada a utilização de uma cefalosporinas de terceira geração, mais especificamente a cefotaxima.(4,5) Após 48 horas do início do tratamento, era realizada uma paracentese diagnóstica de controle, na qual se deve observar uma redução de pelo menos 25% no número de PMN quando o tratamento for efetivo. Caso contrário, deverá ser considerada a possibilidade de infecção por germe resistente à terapia inicial ou de peritonite bacteriana secundária.(18) A despeito do uso até então “rotineiro” da cefotaxima quando da suspeita de PBE, hoje em dia é fundamental que se avalie o papel das bactérias multirresistentes (BMR) em pacientes com cirrose. Entre as bactérias multirresistentes, as enterobactérias produtoras de ESBL (β-lactamase de espectro estendido) são as mais frequentes em pacientes com cirrose e infecção. Essas bactérias são isoladas em mais de 30% dos casos de PBE e a mortalidade é significativamente maior do que quando outros germes estão envolvidos.(19)

Fernández et al.(17) publicaram estudo com 223 pacientes e 507 episódios de infecção, 18% dos quais com BMR (esta foi mais frequente nas infecções nosocomiais). Nestas infecções, é óbvia a baixa eficácia da antibioticoterapia empírica tradicional. Em metanálise demonstraram que a origem nosocomial de uma infecção, a infecção recente por BMR, a profilaxia com norfloxino e o uso recente de β-lactâmicos são fatores independentes que favorecem a infecção por BMR. Há autores que também sugerem como fator de risco uma história recente de hospitalização (principalmente se tiver ocorrido nos últimos três meses e se o paciente esteve em unidade de tratamento intensivo).(20)

O local de aquisição da infecção também está relacionado ao risco de infecção por bactérias multirresistentes.(17,21,22,23) Dessa forma, tem sido su-gerida uma nova classificação epidemiológica em relação ao local de aquisi-ção das infecções: comunitárias, nosocomiais e associadas aos cuidados de saúde. As infecções comunitárias são aquelas diagnosticadas nas primeiras 48 horas de internação, enquanto as infecções nosocomiais são aquelas diag-nosticadas após esse período.

As infecções associadas aos cuidados de saúde são aquelas diagnostica-das nas primeiras 48 horas de hospitalização de um paciente que apresen-tou contato recente com o sistema de saúde. Bactérias multirresistentes são causadoras de aproximadamente 4% das infecções comunitárias, 14% das infecções associadas aos cuidados de saúde e 35% das infecções nosoco-miais em pacientes com cirrose. O tratamento empírico com cefalosporinas de terceira geração é eficaz em 83% das infecções comunitárias, em 73% das infecções associadas aos cuidados de saúde e em somente 40% das infecções hospitalares.(17) Uma mortalidade hospitalar de até 37% foi evidenciada nas infecções nosocomiais.(17,22)

Em nosso meio, recentemente, realizamos um estudo onde avaliamos a suscetibilidade bacteriana de 5.839 isolados de pacientes, com ou sem cirrose, admitidos em um hospital terciário. Observamos multirresistência bacteriana em 37,5% e 44,1% dos pacientes com e sem cirrose, respectivamente.

A E. coli foi a bactéria multirresistente mais frequente em ambos os grupos.

Aproximadamente 20% dos isolados de E. coli e Klebsiella sp eram produtoras ESBL e 44% dos isolados dos S. aureus eram resistentes à meticilina nos

pacientes com cirrose. Nos isolados dos pacientes com cirrose, 36,2% eram resistentes à cefalosporina de terceira geração.(24)

A escolha da terapia empírica deve ser baseada no tipo, na gravidade, na origem da infecção e nos dados epidemiológicos sobre resistência bacteriana local.(18)

Em geral, as cefalosporinas de terceira geração continuam sendo a terapia preconizada para as infecções comunitárias.(5,18,25) Entretanto, o tratamento empírico de infecções associadas aos cuidados de saúde e nosocomiais deve ser guiado de acordo com os padrões epidemiológicos de resistência bacteriana observada.(18,26)

Devido à atual alta frequência de germes multirresistentes, um grupo es-panhol de estudiosos implementou em sua prática clínica um novo protocolo de tratamento empírico das infecções nos pacientes com cirrose, que con-sistiu fundamentalmente no uso de carbapenêmicos associados ou não a um glicopeptídeo nas infecções nosocomiais. Novas e semelhantes recomenda-ções também começaram a ser feitas para o tratamento das infecrecomenda-ções asso-ciadas aos cuidados à saúde em decorrência das evidências de semelhanças entre seus perfis microbiológicos.(26)

A Conferência Especial sobre Infecções Bacterianas da EASL(18) sedi-mentou as novas orientações para o tratamento empírico das infecções nos pacientes com cirrose. Nos pacientes com PBE adquirida na comunida-de, seguem sendo recomendadas as cefalosporinas de terceira geração ou amoxicilina-clavulanato. No caso dessas infecções serem de origem hos-pitalar, recomenda-se o tratamento empírico com meropenem, associa-do ou não a um glicopeptídeo ou piperacilina-tazobactam. Quanassocia-do essas infecções forem associadas aos cuidados de saúde, devem ser tratadas de acordo com a gravidade da infecção (se sepse severa, utilizar o esquema preconizado para as infecções nosocomiais) e com a prevalência local de bactérias multirresistentes.

Um outro aspecto a ser considerado nos pacientes com PBE é a avaliação da função renal. Insuficiência renal ocorre em aproximadamente um terço dos pacientes com diagnóstico de PBE e é um forte preditor de mortalidade durante a hospitalização. Em estudo realizado no nosso meio, no qual foram

avaliados 114 episódios de PBE, houve perda de função renal em 24% dos casos. A mortalidade associada aos pacientes com e sem insuficiência renal foi de 36,1% e 6,3%, respectivamente.(27)

Sort et al.,(28) com base no fato da PBE poder estar associada com um déficit da função renal e ao partirem da premissa de que a expansão do vo-lume plasmático preveniria essa disfunção, realizaram estudo multicêntrico, prospectivo e randomizado, com infusão de albumina endovenosa (1,5 g/

kg de peso no primeiro dia e 1 g/kg de peso no terceiro dia) na profila-xia nestes doentes. Constataram menor presença de hipovolemia e de défi-cit da função renal, bem como queda na taxa de mortalidade no grupo que usou albumina, quando comparado ao grupo-controle, com o qual só foram utilizados antibióticos.

No consenso de Síndrome Hepatorrenal do Clube Internacional de Asci-te,(29) por se tratar de população de maior risco, foi sugerido que a albumina estaria indicada, fundamentalmente, nos pacientes com bilirrubina > 4 mg/

dL ou creatinina > 1 mg/dL. Entretanto, em recente revisão sistemática e metanálise, em que foi avaliado o papel da albumina na PBE,(30) os autores concluem ser incerto se a albumina deve ser utilizada só em pacientes de maior risco, sendo indicada em todos os pacientes com PBE.

No que tange ao tratamento, é importante salientar que a sobrevida ob-servada nos pacientes com PBE é substancialmente mais curta do que a re-latada em pacientes com cirrose submetidos à transplante hepático. Assim, o transplante hepático deve sempre ser considerado para os pacientes que sobrevivam a um episódio de PBE.

Pacientes que sobrevivem a um episódio de PBE apresentam elevado risco de recorrência (70% em um ano) e reduzida sobrevida (30 a 50% em um ano). Dessa forma, pacientes cirróticos que se recuperaram do primeiro episódio de PBE são candidatos a terapia profilática.(4,5,15)

É consenso que a profilaxia deve ser sempre realizada nos pacientes cir-róticos com hemorragia digestiva e naqueles que já tiveram um episódio de PBE. A droga de escolha elencada para a profilaxia foi o norfloxacino. No entanto, em pacientes com cirrose avançada e hemorragia digestiva, a cef-triaxona parece ser a droga mais indicada.(31)

Nos pacientes com proteínas baixas no líquido de ascite (inferior à 1 g/dL), não havia consenso sobre realizar ou não a profilaxia.

O uso de antibióticos, de forma rotineira, nesses casos, poderia favorecer o surgimento de resistência bacteriana. Quando foi avaliada a profilaxia com norfloxacino em pacientes com níveis baixos de proteínas no líquido de as-cite e hepatopatia grave (Child > 9; bilirrubinas > 3 mg/dL; creatinina ≥ 1,2 mg/dL; Na+ sérico ≤ 130 mEq/L), foi demonstrado uma menor incidência de PBE, de síndrome hepatorrenal e uma maior sobrevida.(32) Metanálise de três trials controlados e randomizados avaliou o papel da profilaxia nestes casos e demonstrou uma menor chance de PBE e uma menor mortalidade nesta população de doentes.(33)

Tanto o guideline da Associação Americana para o Estudo das Doenças do Fígado (AASLD)(5) quanto o da Associação Europeia para o Estudo do Fígado (EASL)(4) suportam a profilaxia nestas populações de pacientes.

Do que aqui foi exposto, entende-se ser fundamental um adequado trata-mento dos pacientes com ascite, bem como daqueles com PBE, enaltecendo aqui o papel das novas estratégias de antibioticoterapia, jamais negligen-ciando a função renal destes pacientes.(34)

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Introdução

N

o mês de maio de 2016 foi tornada pública a nova versão da obra Distúrbios Funcionais Gastrointestinais - Roma IV.(1,2) Como era esperado, ela traz consigo alguns novos conceitos com relação a esse grupo de enfermidades. Desde o início de sua elaboração, os seus editores já haviam antecipado que a pesquisa nessa área do conhecimento necessariamente levaria à renovação de conceitos, como consequência de pesquisas que seriam produzidas no futuro.

O seu conceito original foi modificado ao se reconhecer que a palavra

“funcional” trazia consigo problemas de entendimento e compreensão que levavam, de certa maneira, a uma estigmatização dos pacientes.

Ela foi substituída por “distúrbios resultantes das interações intestino-cérebro”. Esta definição reconhece a relevância de uma combinação de variáveis, como distúrbios da motilidade, hipersensibilidade visceral, alterações da função imune e da mucosa, alterações da microbiota e do processamento do sistema nervoso central na sua patogênese.

Distúrbios funcionais intestinais

Eles são definidos como o espectro de distúrbios intestinais crônicos caracterizado pelo predomínio de sintomas e sinais de dor abdominal, estufamento /empachamento, distensão abdominal e/ou alterações do padrão evacuatório