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6. O fabrico de cachimbos

6.4. Marcas de produtor e outras

As marcas de produtor mostram-se uma ferramenta bastante útil para localizar a proveniência e datação aproximada de um cachimbo, e são relativamente comuns. Porém, existem inúmeros casos em que foram copiadas, reproduzidas, compradas ou herdadas. Isto quer dizer que podemos ter vários produtores com marcas iguais ou semelhantes. Apenas em casos excecionais possuímos marcas únicas, que nos remetem para um fabricante específico. À medida que entramos nas produções mais recentes, de meados do século XIX até ao século XX, torna-se mais fácil identificar oficinas.

Estas marcas podem, ao longo da história dos cachimbos, ser encontradas praticamente em qualquer ponto da peça, porém, determinadas épocas tiveram posições de preferência para a colocação das mesmas (Hissa, 2018:113-114).

Devido à vastidão do tema e variações regionais, iremos abordar de forma mais ou menos simplificada o assunto. Começamos pelas produções inglesas, baseados no artigo

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de Oswald, que define os pontos do cachimbo marcados e a respetiva cronologia aproximada.

Tabela 2: tabela de colocação de marcas de produtor e cronologias aproximadas, fonte: Oswald,1961:55-56

Bases de assentamento (achatadas)

Todo o século XVII.

São comuns marcas incisas em Londres. A partir de 1630, as marcas são em relevo (carimbadas). Exemplos: corações, folhas de carvalho, roda de sol, ou iniciais como: WB; IR.

Fornilhos Meados do século XVII até meados do século XIX. Podem aparecer na traseira do fornilho, impressas ou carimbadas. Exemplos: E.R (Elisabeth Regina?); E.C (Edward Carrington?). Marcas carimbadas: IB.

Pedúnculos Marcas em pedúnculos parecem surgir em meados do século XVII carimbadas. Nos finais de 1600 os moldes já possuem marcas em relevo nas laterais do pedúnculo. Exemplos: letras como: A; J; outros elementos: trevos; brasões.

Hastes Ocorrem inicialmente marcas incisas c. 1650. Alguns nomes completos são identificados, desde 1670. A partir de 1800, surgem nomes completos moldados nas hastes, normalmente a par com o local de produção. Exemplos: GRAVESEND/BISHOP (um nome em cada lado da haste).

Temos assim noção de que não apenas importa identificar o fabricante associado às marcas, como é necessário avaliar o local onde estas estão colocadas, se são incisas ou carimbadas, ou se pelo contrário, já fazem parte do molde, surgindo então em relevo na decoração. Só assim conseguimos suportar-nos das marcas de fabricante para estabelecer uma baliza cronológica. Existem igualmente elementos que vão ser exclusivos de determinados centros de produção, como o caso das armas de Londres ou Gouda, símbolos como a «manopla» (gauntlet) específica das produções inglesas, ou a «roda de fiar» e a «leiteira», exclusivas das oficinas holandesas.

Tabela 3: distribuição simplificada de marcas, fonte: Hissa, 2018:119-127

Base/pedúnculo Século XVII. Marcas normalmente carimbadas na base. A partir do século XVIII, tornam-se comuns os numerais, podendo aparecer incisos. No século XIX aparecem moldadas nas laterais do pedúnculo. Como exemplos encontramos a Rosa Tudor, âncoras, tesouras, iniciais coroadas ou não etc.

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fornilho, ou elementos carimbados nas traseiras do mesmo, como heráldica ou iniciais. As marcas carimbadas nos fornilhos mantêm-se até ao século XIX. Exemplos: iniciais como L (coroadas ou não), números coroados, leões, etc.

Haste Século XVII, as marcas são normalmente incisas. A partir do século XIX torna-se comum as marcas moldadas. Como exemplo de marcas incisas/carimbadas encontramos IAN IACOBSZ VA.; B.VAN DER MAAS; P.GOEDEWAAGEN & ZOON;

J. Van der Muelen fez um extensivo trabalho onde separa as marcas por símbolos, letras ou números, e lista todos os produtores identificados em Gouda. No caso dos números podemos encontrar carimbos circulares, até três números, a maior parte deles coroados. Estes números surgem igualmente, mais tarde, moldados nas laterais ou parte de trás do fornilho. A numeração como marca mantém-se desde o século XVII até ao século XX.

Figura 15: carimbo metálico com a marca «Goedewagen/Gouda». Fonte: ClayPipes.Nl.

As marcas alfabéticas encontram-se, tal como os números, dentro de carimbos circulares, por vezes coroadas, podendo haver até três letra, sendo as mais antigas sendo do século XVII.

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Os símbolos são muito variados, mas Muelen criou categorias onde estes podiam ser inseridos. Listamos os seguintes motivos, pela mesma ordem em que figuram na base de do autor53:

1) Antropomórficos (personen): inclui imagens descritas como Baco, sentado num barril, anjos com cachimbos na mão, justiça vendada e com balança, cavaleiros, leiteiras, etc.;

2) Elementos anatómicos (lichmaamsdelen): onde se insere braços, mãos, caveiras, corações (alguns coroados), faces e pés;

3) Fauna: podem ser carimbos com peixes, aves, animais mitológicos (dragões), equídeos, gatos, outros;

4) Flora: contém elementos vegetais como árvores, trevos, rosas, plantas isoladas, bolotas, cachos de uvas e tulipas, sendo alguns coroados.

5) Utensílios (gebruiksvoorwerpen): âncoras (que podem ser ladeadas pelas iniciais de fabricante), armários com livros, brocas manuais, machados, martelos, ferraduras, carroças, sinos, chaleiras ou cafeteiras, cântaros, coroas isoladas, sapatos, espadas ou facas, cachimbos aos pares ou isolados, escadas, chaves, espingardas etc.

6) Elementos heráldicos (Heraldiek): por exemplo armas de Gouda, Amsterdão, Delft, Groningen etc.

7) Edificado (gebouwen): como torres, edifícios, moinhos, igrejas;

8) Astros (hemellichamen): luas individuais ou aos trios, estrelas (coroadas ou não), sóis etc.

9) Outros: nós, cruzes, losangos coroados, pontos etc.

Dada a extensa lista de símbolos, números e letras não nos podemos alongar mais na valorização cronológica dos mesmos. Para isso deixamos a sugestão de consulta da obra de Muelen: «Goudse Pijpenmakers en hun Merken»54.

Terminamos referindo uma marca holandesa aposta nos cachimbos e que se torna comum e assinala a qualidade das produções, classificando-a em três categorias, a saber: «Slegte» (qualidade inferior/ordinária), «Fijn» (boa qualidade) e «porceleijne»

53 Para lista extensiva, ver: http://www.goudapipes.nl/books/Meulen/catalog/cijfermerken.php

54 «Fabricantes de cachimbos de Gouda e suas marcas», tradução do autor. Esta obra foi igualmente convertida para um catálogo online: http://www.goudapipes.nl/books/Meulen/catalog/, que pode ser rapidamente consultado para identificação de peças ou marcas.

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(muito boa qualidade), estes últimos recebiam o seu nome não por serem realmente de porcelana, mas por terem um acabamento fino, resultado de serem mergulhados em cera e depois polidos. No extremo oposto, os cachimbos «slegte» recebiam uma marca moldada, um «S» que era colocado nos lados do pedúnculo. Esta marca foi introduzida em Gouda por volta de 1740, devido a problemas de venda de cachimbos de baixa qualidade como se fossem de superior. Normalmente o «S» é acompanhado por um escudo de armas por baixo, também nos dois lados do pedúnculo, que se identifica como as armas de Gouda, selo adoptado em 1739/40, com o intuito de combater o contrabando (Caselitz, 1986:2-3).

As marcas mais comuns em cachimbos franceses são já do século XIX. Vão adotar o método de marcação na haste, através de carimbo, colocando o nome do fabricante e local, como por exemplo «NOEL/PARIS», «NOEL/LYON», (Walker, 1970:31) «L.FIOLET» ou «LF» (Hissa, 2018:79), estas a partir de 1834, «DUMERIL, LEURA, A ST. OMER» (Wilson & Kelly, 1987:16).

O caso das produções alemães é curioso, no sentido em que os produtores começam a marcar os cachimbos, não com as suas iniciais nem símbolos, mas com as iniciais do nome dos Appaltators (Mehler, 2009:271) ou seja, dos detentores de monopólio, não existindo marcas individuais identificadas. Marcas da Baviera seriam moldadas e não incisas, localizando-se no fornilho, pedúnculo ou haste, expressam-se por letras iniciais, e faziam menção à esposa do contratador, por exemplo: «I.S.C», que segundo Mehler seria a abreviatura de Johann Senser & Consorten (Mehler, 2009:271). As marcas parecem surgir primeiramente na segunda metade do século XVII, terminando em 1745, quando caducam os monopólios.