“[...] O pensamento complexo não rejeita o pensamento simplificador, mas reconfigura suas conseqüências através de uma crítica a uma modalidade de pensar que mutila, reduz, unidimensionaliza a realidade (Morin, Ciurana e Motta, 2003, p.52-59)”.
Para o estudo em questão optou-se pelo Pensamento Complexo defendido por Edgar Morin por considerar que o mesmo seja indispensável para todos os que trabalham com educação e que possuam preocupações referentes à produção do conhecimento multidimensional em saúde.
De acordo com Morin, Ciurana e Motta (2003, p.43) complexidade do ponto de vista etimológico, tem origem latina. Provém de complectere, cuja raiz
plectere significa trançar, enlaçar. A presença do prefixo “com” acrescenta o
sentido da dualidade de dois elementos opostos que se enlaçam intimamente, mas sem anular sua dualidade. Por isso, a palavra complectere é utilizada tanto para designar o combate entre dois guerreiros, como o abraço apertado de dois amantes. Em francês, a palavra “complexo” aparece no século XVI. Vem do latim
complexus, que significa que “abraça”, particípio do verbo complector, que
significa eu abraço, eu ligo.
Podemos dizer que o Pensamento Complexo surgiu para questionar a fragmentação e o esfacelamento do conhecimento, em que o pensamento linear oriundo do século XVI, colocava o desenvolvimento da especialização como supremacia da ciência, contrapondo-se ao saber generalista e globalizante. Da mesma forma, podemos dizer que o pensamento complexo é essencialmente um pensamento que trata com a incerteza, que pode esclarecer as estratégias do nosso mundo incerto e que é capaz ao mesmo tempo de conceber a organização (Morin e Le Moigne, 2000).
A base da epistemologia da complexidade desenvolvida por Edgar Morin advém de três teorias que se inter-relacionam: a teoria da informação, a cibernética e a teoria dos sistemas (Petraglia, 2002), que nos ensina que o processo comunicacional funciona como um sistema relacional, que não pode ser
reduzido à lógica causal linear, no qual o todo é ao mesmo tempo maior que as partes, mas também menor, pois há qualidades emergentes das partes que não aparecem no todo e são inibidas.
O Pensamento Complexo integra os diferentes modos de pensar, opondo-se aos mecanismos reducionistas, simplificadores e disjuntivos. Esse pensamento considera todas as influências recebidas, internas e externas e, ainda enfrenta a incerteza e a contradição, sem deixar de conviver com a solidariedade dos fenômenos existentes. É um pensamento desprovido de certezas e verdades científicas. Morin (2002c, p.103) escreve que: “o conhecimento complexo
necessita do diálogo retroativo, ininterrupto das aptidões
complementares/concorrentes/antagônicas que são análise/síntese, concreto/abstrato, compreensão/explicação”.
Dessa forma, o que é complexo recupera, por um lado, o mundo empírico, a incerteza, a incapacidade de se atingir a certeza de formular uma lei eterna, de conceber uma ordem absoluta. Por outro lado, recupera alguma coisa que diz respeito à lógica, ou seja, à incapacidade de evitar contradições (Morin, Ciurana e Motta, 2003).
Morin (2003b) acrescenta dizendo que há complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo e, há um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre o objeto do conhecimento e seu contexto, as partes e o todo, o todo e as partes, as partes entre si.
O pensamento complexo é aquele em que todo o conhecimento e as informações ou de dados é contextualizado, globalizado, tem caráter multidimensional, liga e enfrenta a incerteza, une e substitue a causalidade linear e unidirecional por uma causalidade em círculo e multirreferencial. Corrige a rigidez da lógica pelo diálogo capaz de conceber noções ao mesmo tempo complementares e antagonistas. É a união entre a unidade e a multiplicidade. Enfim, o cerne da epistemologia da complexidade é justamente distinguirmos os diferentes aspectos do nosso pensamento, sem isolá-lo ou separá-lo.
O Pensamento Complexo apresenta sete princípios para um pensamento que une. Segundo Morin (2003b) são complementares e
interdependentes. São eles: princípio hologramático, princípio dialógico, princípio do circuito recursivo, princípio sistêmico ou organizacional, princípio do circuito retroativo, princípio da autonomia/dependência (auto-organização) e princípio da reintrodução do conhecimento em todo conhecimento.
Para esta pesquisa, elegemos os: dialógico, recursivo e hologramático, por serem os princípios reitores do Pensamento Complexo e de acordo com Almeida (1997, p.33) “são indissociáveis e, nas palavras de Morin, a idéia de holograma está ela mesma ligada à recursividade, que por sua vez supõe a idéia dialógica”. Estão intimamente entrelaçados, mas cada um mantém a sua especificidade e se explica por si só.
Conforme Morin (2002 a, p.94-96):
“O princípio hologramático põe em evidência este aparente paradoxo das organizações complexas, em que não apenas a parte está no todo, como o todo está inscrito na parte;
O princípio do circuito recursivo ultrapassa a noção de regulação com as de autoprodução e auto-organização. É um circuito gerador em que os produtos e os efeitos são eles mesmos, produtores e causadores daquilo que o produz; O princípio dialógico une dois princípios ou noções que deviam excluir-se reciprocamente, mas são indissociáveis em uma mesma realidade. Deve-se conceber uma dialógica ordem/desordem/organização desde o nascimento do Universo: a partir de uma agitação calorífica (desordem), onde, em certas condições (encontros aleatórios), principalmente de ordem vão permitir a constituição de núcleos, átomos, galáxias e estrelas. Sob as mais diversas formas, a dialógica entre a ordem, a desordem e a organização via inúmeras interretroações, está constantemente em ação nos mundos físico, biológico e humano. Este princípio permite assumir racionalmente a inseparabilidade de noções contraditórias para conceber um mesmo fenômeno complexo. A complexidade incorpora as noções de ordem, desordem e organização, presentes em todos os sistemas. Ordem-desordem é uma relação inseparável que tende a estabelecer a organização. É um processo fundamental para a evolução do universo e é norteador da relação dialógica e ao mesmo tempo una? complementar, concorrente e antagônica”.
O pensamento complexo só pode ser entendido por um sistema de pensamento aberto, abrangente e flexível, que não reduz a multidimensionalidade às explicações simplistas ou esquemas fechados de idéias. Este configura uma nova visão de mundo, que aceita e procura compreender as mudanças constantes do real e não pretende negar a multiplicidade, a aleatoriedade e a incerteza e, sim conviver com elas.
Dessa forma, o marco conceitual da Complexidade nos embasa na compreensão do nosso objeto de estudo, que possui dupla face: a compreensão do processo ensino-aprendizagem e do fenômeno da aids na contemporaneidade, para isso, Morin nos auxiliou a:
1) Compreender a aids na sua condição pluridimensional desconsiderando conseqüências redutoras e unidimensionais.
2) Compreender o processo ensino-aprendizagem como sistema comunicacional, aberto e relacional, sem se ater a uma visão reducionista, mas sim, como um sistema integrado com as demais instâncias do sistema de saúde.
4. OBJETIVOS
“[...] Seria impossível saber-se inacabado e não se abrir ao mundo e aos outros à procura de explicação, de respostas a múltiplas perguntas[...] (Freire, 2003a, p.136)”.
4.1 Geral
- Compreender o processo ensino-aprendizagem em HIV/aids em Cursos de Graduação em Enfermagem, contemplando uma formação do enfermeiro nas dimensões biopsicossociais, com vistas ao Pensamento Complexo.
4. 2 Específicos
- Identificar os conteúdos de ensino teórico sobre HIV/aids nos currículos de Graduação em Enfermagem;
- Descrever a compreensão de docentes sobre sua prática pedagógica em HIV/aids;
- Analisar a interdependência das dimensões biopsicossociais relacionadas ao HIV/aids na prática pedagógica dos docentes de Enfermagem.