CAPÍTULO II – A mínima diferença
2. Mateus e a perda real do objeto de amor
Mateus também tem cinco anos quando sua mãe me procura para atendê-lo. Seu pai tinha sido assassinado em uma troca de tiros enquanto viajava, quatro meses antes de sua mãe me procurar. O disparo que matou o pai de Mateus, filho único do casal que havia se separado poucos meses antes do assassinato, proveio da arma de policiais, quando estes tentavam impedir um assalto. O pai de Mateus ficou na linha de fogo e fora atingido mortalmente na região do peito e do abdômen.
Passados quatro meses da morte do pai, Mateus tem ficado agitado, anda nervoso, recusa-se a comer, tornou-se desobediente com a mãe e diz que não a ama mais. “Odeia-a”, para desespero desta. Tem também fortes dores de barriga, talvez associadas à ideia de que o pai morrera com um tiro na barriga (“um tiro no estômago” para utilizar a expressão referida por ele), e intensas dores de garganta resistentes a qualquer medicamento e sem motivação orgânica, que não o deixava “engolir nada”, deixando evidências para pensarmos em um funcionamento biológico no qual se ancora uma dinâmica psíquica totalmente expulsiva: “nada entra e tudo sai”.
Essas dores só aparecem quando Mateus não está em casa, ou seja, quando está longe da mãe. Sente-as principalmente quando está na escola em que freqüenta em período integral e estas só desaparecem quando ele dorme. O sono, aliás, corresponde a outra queixa da mãe: Mateus tem dormido bastante, não consegue se acordar para ir à escola e, quando está na escola, não consegue se acordar após o sono do período da tarde para continuar as atividades escolares. Refere cansaço constante. Sua mãe conta que, algumas vezes, quando Mateus vai para a escola, ele pede para que a diretora ligue para sua casa para que sua mãe possa ir buscá-lo: Mateus diz que está com febre e com dores no corpo. É o corpo que desfalece ante a dor psíquica de uma perda brutal.
O duro golpe da morte do pai o tornara um menino apático. Passou a adotar uma atitude mais passiva. As raras brigas com os colegas de sala se tornaram freqüentes,
com um detalhe: Mateus se envolvia nas brigas, contudo recebia as agressões dos colegas sem esboçar qualquer reação.
As primeiras sessões foram marcadas por esta postura mais apática. Mateus se mostrava totalmente indiferente à minha presença. Entrava com cara de sono e se sentava em cima de sua caixa lúdica. Passava a maior parte do tempo absorto em silêncio, um silêncio que calava, fechava-se ao contato. Falava apenas o necessário. Se eu perguntasse se queria ver o que tinha dentro da caixa, ele dizia que não e pronto, ‘fim de papo’. Calava-se apoiando a cabeça nas mãos até minha próxima pergunta ou intervenção.
Seu silêncio mais pronunciado durou algumas sessões. Um silêncio resistente. Não se tratava de um silêncio desafiador, daquele tipo de silêncio que representa o triunfo sobre o analista, ou do silêncio que se constrói em nome de um sentimento de perseguição muito intenso do paciente. Aquele era o silêncio do luto, da apatia, um silêncio que não quer saber de nada e de ninguém. Contratransferencialmente, eu ficava muito mobilizada nas primeiras sessões. Queria muito ajudá-lo e achava que, para ajudá-lo, era necessário que ele falasse, o que era sentido por ele como uma intrusão. Por mais incômodo que fosse o seu silêncio, eu sabia que era fundamental que eu pudesse suportá-lo.
Trabalhando estas questões, pude aprender a compartilhar o silêncio, um silêncio que encontra o outro e que acolhe. Muitas vezes, foi isso o que fizemos: compartilhamos os nossos silêncios, era o que eu podia oferecê-lo: uma companhia silenciosa. Depois de algumas sessões, Mateus parecia mais disposto para falar.
Gostaria de dar relevo aqui a um tipo de situação transferencial, que se manifestara nessa análise, em que eu era colocada no lugar de um objeto de amor que não podia falhar nunca, um lugar fantasiado de uma relação ideal com o objeto cuja comunicação com outro seria tão íntima que não era preciso que ele falasse o que queria ou o que pensava. Eu tinha que adivinhar.
Entretanto, a ‘adivinhação’ só se manifestava como tal para mim ou para um observador externo. Do ponto de vista de Mateus, não se tratava de ‘adivinhar’ coisa alguma, eu tinha que saber naturalmente sobre os seus desejos, sobre as suas dores e sobre as suas necessidades como uma mãe que sabe intuitivamente as necessidades de seu bebê. Qualquer erro era revidado com ódio. Nada, nenhuma falha, nenhum hiato poderia se produzir entre nós dois neste plano. Do contrário se revelaria um espaço entre ele e o objeto por demais invasivo. A perda súbita do pai despertara-lhe a fantasia
de uma união simbiótica com o objeto, união em que ambos estariam relativamente seguros juntos, que se constituía como tentativa de elaborar e de se proteger da perda do objeto.
As sessões adquiriram esta dinâmica: ele entrava na sala em silêncio, pegava um papel e fazia um desenho. Um desenho qualquer. Pedia para que eu dissesse qual era o desenho. Eu dizia que não sabia do que se tratava e ele pedia para que eu tentasse. Eu tentava, não acertava. Ele rompia sua postura silente para vociferar: “você só me traz problemas”.
Ele desenhava um pequeno traço, talvez com um centímetro ou pouco mais e pedia para que eu acertasse. No começo, eu tentava bastante, pensava no que ele poderia estar sentindo, nas coisas que ele gostava ou tinha falado e arriscava uma palavra. Impossível.
Depois fui me dando conta de que era impossível adivinhar o que era. E a brincadeira era essa. Nem ele mesmo sabia o que estava desenhando e o que pedia para eu acertar. A brincadeira era mesmo a de criar a impossibilidade, “a brincadeira do impossível”, como carinhosamente nos referíamos a ela depois que isso pôde ser conversado. O que ele queria era uma relação tão próxima que não houvesse espaço entre um e outro, que não houvesse distância, e que houvesse, sim, uma correspondência máxima nesta relação. Penso que a brincadeira era uma forma que ele encontrava de elaborar essa união impossível. A agressividade então aparecia aqui como reação a frustração de descobrir essa impossibilidade: o ódio aparecia por se dar conta do impossível, por não encontrar o que desejava, pelo outro não poder oferecer o que ele precisava.
Os sentimentos de ódio dirigidos para a mãe continuavam ativos e, aqui, acredito que este ódio adquiria outra função. A análise revelou que as fantasias edípicas de rivalidade e hostilidade dirigidas para o pai estavam no auge quando este fora assassinado. Fantasias que haviam sido construídas em nome do amor pelo objeto materno. Todo sentimento de ódio então fora despertado e dirigido para sua mãe.
Certamente, neste ódio estava envolvido a frustração de não encontrar nela aquilo que ele havia perdido. Mas, inconscientemente, acredito que, em sua fantasia, era o seu amor por ela que havia provocado a morte do pai e, portanto, agora ela merecia nada além do seu ódio já que a possibilidade de seu amor continha sérios riscos. Odiando-a, ele poderia protegê-la e proteger-se da perda. Por trás desta fantasia, havia outra mais onipotente: a de que era responsável pela morte do pai.
Outra brincadeira comum, nos primeiros meses de análise, era a de fazer uma grande bola com massinha e atirá-la em mim. Eu me defendia, ao que ele não ficava satisfeito e dizia: “não pode haver defesa”. Eu tinha que experimentar me machucar sem defesa, era assim que ele me comunicava sua dor, a dor de uma perda que toma o outro de surpresa.
Penso que o seu ódio servia como possibilidade de proteger o outro, muito embora, lado a lado, houvesse o ódio que se edificava pela frustração imposta pela condição da perda real do pai e pela falta deixada por essa perda, falta que ninguém poderia obturar: nem eu, nem ele, nem sua mãe, nem uma relação simbiótica com qualquer outro.
A apatia inicial talvez fosse uma forma de lidar com o seu ódio e com a culpa, ódio pelo desaparecimento do pai e culpa pelas fantasias hostis dirigidas contra ele, sentimentos que encontravam uma saída através do amortecimento de si mesmo.