Arnaldo Passarin1
1 União de Vinhos do Rio Grande Ltda. E-mail: [email protected]
O Rio Grande do Sul produziu nos últimos três anos uma média 240 milhões de litros de vinho de mesa/ano. Desse total, 40% foi engarrafado na origem e 60% foi comercializado a granel, para ser engarrafado fora da zona de produção. Desses 60% uma pequena parte é destinada para a elaboração de derivados, tais como: vinagres, vermutes e outros produtos. Estou me referindo ao Rio Grande do Sul, pois somente este estado dispõe de dados estatísticos para este acompanhamento. Estima-se que a produção do Rio Grande do Sul corresponda a mais de 90% da produção brasileira.
Os vinhos de mesa são produzidos quase na sua totalidade com uvas americanas e híbridas. Estas uvas não são consideradas como ideais para a produção de vinhos, porém como elas foram introduzidas no começo da vitivinicultura, os consumidores estão habituados com este tipo de vinho. Embora os técnicos e os consumidores mais apurados considerem que seja um defeito o aroma destas variedades, a maioria dos consumidores acham uma virtude. Entendemos que os produtores de vinho deverão colocar a disposição do mercado também vinhos produzidos com uvas de outras variedades e com preços acessíveis.
Os números acima citados da comercialização do vinho a granel, por si só, já são um convite para uma reflexão da cadeia produtiva da uva e do vinho.
No início da atividade vitivinícola do nosso estado, o plantio de uvas e a elaboração de vinhos eram destinados ao consumo dos próprios agricultores e dos vizinhos mais próximos. Com o passar dos anos, nossos antepassados perceberam que essa atividade poderia se transformar em uma boa oportunidade econômica, porém, a dificuldade maior era como transportar o vinho para fora da zona de produção.
As primeiras investidas foram feitas utilizando tropas de mulas e usando vasilhames de madeira e outros materiais como o barro, confeccionados artesanalmente. O esforço foi grande, porém a quantidade que se conseguia transportar era mínima. Bem mais tarde, iniciou-se o transporte por via marítima com os vinhos acondicionados em bordalezas, quartos e décimos com capacidade 200 – 100 e 40 litros, respectivamente. Os recipientes eram feitos de pinho, pois era a madeira mais barata e abundante na época.
Esse tipo de transporte, largamente utilizado na década de 40 até a década de 70, contribuiu para a distribuição dos vinhos em todo o território nacional, todavia causava gravíssimos problemas para a qualidade, pois o tempo de viagem era longo podendo se estender até 40 dias. Os recipientes de pinho transmitiam ao vinho um gosto desagradável de resina. Além disso, devido a exposição demorada ao sol, as duelas se abriam provocando o vazamento e como conseqüência permitindo a entrada exagerada de oxigênio, aumentando significativamente a acidez volátil. Portanto, os vinhos se tornavam de péssima qualidade. Este poderá ter sido um dos fatores preponderantes para a criação de preconceitos tais como: vinho brasileiro não é bom; é ácido e assim por diante.
Na década de 50 com o asfaltamento da Br 2, atual BR 116, esse panorama melhorou um pouco pois foi substituído o transporte marítimo pelo transporte rodoviário. O tempo passou a ser menor porém, o preço do frete era muito alto. O custo do frete de 1 litro de vinho era equivalente a 2 litros de vinho do local de produção.
Na década de 60, iniciou-se a mudança no recepiente de transporte e a introdução do carro tanque, já bem melhor que os barris porém também deixava muito a desejar. Os tanques eram construídos de madeira e muitas vezes trafegavam vazios na volta da viagem, ocasionando eventualmente problemas de contaminação, contribuindo para piorar a qualidade dos vinhos.
Atualmente, este problema foi totalmente superado pois os tanques são construídos de aço inox, com acabamento sanitário e podem ter revestimento térmico, proporcionando um transporte seguro e podem ser mantidos com temperatura de cave climatizada. Podemos dizer com segurança que o meio de transporte não tem mais influência negativa para a qualidade dos vinhos. Além de o preço do frete ter se tornado mais acessível, sendo equivalente a aproximadamente l0% do preço do vinho a granel da região de produção de São Paulo e Rio de Janeiro.
O vinho a granel é comercializado em todos os estados da Federação para engarrafadores e fabricantes de derivados. Oitenta e cinco por cento (85%) dos vinhos comercializados a granel são engarrafados por menos de 10 estabelecimentos e os outros quinze por cento (15%) por mais de uma centena de pequenos estabelecimentos.
Os grandes estabelecimentos, de um modo geral, tem uma boa estrutura de máquinas e equipamentos e possuem no seu quadro de funcionários, enólogos e engenheiros de alimentos.
Alguns dos pequenos estabelecimentos são organizados em todos os detalhes, porém, parte deles ainda tem algumas carências de máquinas, equipamentos e assistência técnica, que normalmente é feita à distância.
O vinho recebido a granel, possui uma boa logística de venda e distribuição, principalmente em pequenos estabelecimentos tais como bares e lanchonetes; como este tipo de comércio trabalha com pouco capital de giro para estoque, as entregas são feitas semanalmente.
Outro item de logística a ser considerado é a venda e retorno do vasilhame que é usado até hoje pelo principal concorrente do vinho, a cerveja. Os principais engarrafadores estão localizados nas regiões com maior densidade demográfica em um raio de 150 a 200 km, atingindo assim boa parte da população brasileira. Como o vinho de mesa é consumido na maioria dos casos pela população de baixa renda, essa é muito sensível a alguns centavos de diferença no preço.
Nota-se que no Brasil a comercialização de vinho a granel é bem maior que em outros países produtores, levando-se em conta as seguintes proporções: 60% do vinho de mesa é vendido a granel e 40% é engarrafado na origem. Algumas das justificativas que poderão ser verdadeiras para este fato: o poder aquisitivo de nosso povo é bem menor que o poder aquisitivo da grande maioria dos países produtores de vinho, assim sendo, o custo final do produto tem grande influência na venda.
O nosso país tem dimensões territoriais imensas. Em muitos casos, um estado nosso é maior que o país grande produtor de vinhos, o que não justificaria o transporte a granel em curtas distâncias. Assim como no transporte, a fiscalização tem avançado muito, principalmente no que se refere a melhoria de laboratórios, com profissionais altamente qualificados.
Com o surgimento de equipamentos sofisticados, é possível analisar com precisão centenas de componentes que devem ser encontrados nos vinhos naturais e eventualmente algum componente que não deva fazer parte dos mesmos. Estamos a um passo de poder detectar se um vinho é elaborado, por exemplo, com uvas de Bento Gonçalves ou de Flores da Cunha, etc; saber de que região ele é proveniente.
Todos os itens indicados acima deverão auxiliar muito para a melhoria dos vinhos, sejam eles engarrafados na origem ou não. Com o alargamento das fronteiras de produção, o vinho a granel poderá sofrer uma diminuição de venda; ser substituído por vinhos regionais dessas novas fronteiras. Com a vantagem do frete quase 0 (zero) e também o grande incentivo dos tributos em alguns estados, o ICM pode ser reduzido a 0 (zero) além de outros incentivos. Para os vinhos de mesa, este fato deve ser levado em consideração pois o preço é um fator muito sensível.
Um dos pontos negativos do vinho vendido a granel, é que o mesmo perde sua identidade. Um outro fator negativo é a dificuldade de acompanhamento da qualidade do produto em todo o território nacional.
O principal ponto positivo, como já foi mencionado anteriormente, é que a logística de venda e entrega permite a colocação rápida de produtos em todos os pontos do país, nos grandes estabelecimentos bem como numa infinidade de pequenos.
Outro ponto positivo é a diminuição sensível no preço do produto, devido a baixa do frete nas entregas e a facilidade de venda a prazo em pequenas quantidades, como por exemplo, o entregador recebe o valor do produto entregue na semana anterior, ao mesmo tempo em que faz a entrega da semana. Isso seria inviável fazer pelo sistema financeiro. Com isso podemos concluir que é muito importante verificar as grandes mudanças que contribuíram para o melhoramento dos nossos produtos e, principalmente, o consumidor que cada vez mais tem ao seu alcance produtos de qualidade com preços mais acessíveis.