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CARTOGRAFIA (ESQUIZOANALÍTICA) DO DESEJO – A ECOLOGIA DAS TRANSESCALAS E DA PRODUTIVIDADE

3.2 A MICROFÍSICA DO PODER: OU DE COMO AS VELHAS FORMAS DE

REVOLUÇÃO JÁ NÃO SERVEM MAIS – NOTAS SOBRE A INCOMPREENSÃO DO PROCESSO DE CAPILARIZAÇÃO DO PODER

Uma das primeiras advertências a se fazer é que o poder não está adstrito ao aparato estatal, de forma que nada mudará na sociedade caso os mecanismos de poder que funcionam à margem (fora, abaixo, ao lado) dos aparelhos de Estado a um nível muito mais elementar, cotidiano, não forem modificados.150

Essa afirmação é um ponto de partida e já também um ponto de chegada. Cabe, porém explicá-la melhor.

Foucault analisa a hipótese do poder não a partir de uma centralidade. Ao menos não resumindo o lugar do poder em um centro do qual irradiaria de forma ordenada e concatenada para as extremidades. Do mesmo modo, o poder não é algo do âmbito da posse e, via de consequência, não é algo que possa ser tomado. O Direito, por sua vez, ocupa lugar privilegiado, como campo de análise, a ponto de muitas vezes ser utilizado como figura ilustrativa de como o poder se manifesta.

As pesquisas de Foucault acerca do poder ganham destaque principalmente nos anos 1970, quando ele se dedica a pensar a genealogia do poder, lançando-se à compreensão das estruturas que conformam o poder:

Nos últimos anos, o meu projeto geral consistiu, no fundo, em inverter a direção da análise do discurso do direito a partir da Idade Média. Procurei fazer o inverso: fazer sobressair o fato da dominação no seu íntimo e em sua brutalidade e a partir daí mostrar não só como o direito é, de modo geral, o instrumento dessa dominação – o que é consenso – mas também como, até que ponto e sob que forma o direito (e quando digo direito não penso simplesmente na lei, mas no conjunto de aparelhos, instituições e regulamentos que aplicam o direito) põe em prática, veicula relações que não são relações de soberania e sim de dominação.151

Foucault não compreende essa dominação como uma dominação global de um sobre os demais, ou de um grupo sobre os outros, mas as múltiplas formas de dominação que se dão em sociedade. Não é, portanto, o rei em posição central, mas

150

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 149-150.

151

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 181.

os súditos, em suas relações entre si152, que ocuparam as análises foucaultianas. Dito de diversa forma: “não a soberania em seu edifício único, mas as múltiplas sujeições que existem e funcionam no interior do campo social.” 153

A preocupação com a analítica do poder acaba por desaguar em uma genealogia154 do mesmo. Uma forma de empreendimento para liberar a sujeição dos saberes históricos, tornando-os “[…] capazes de oposição e luta contra a coerção de um discurso teórico, unitário, formal e científico. A reativação dos saberes locais […] contra a hierarquização científica do conhecimento e seus efeitos intrínsecos de poder […].”155

Para tal investigação, Foucault propõe algumas precauções metodológicas.

A primeira delas relaciona-se com o direito e é fundamental para aquilo que se chama de microfísica do poder:

Em primeiro lugar: não se trata de analisar as formas regulamentares e legítimas do poder em seu centro, no que possam ser seus mecanismos gerais e seus efeitos constantes. Trata−se, ao contrário, de captar o poder em suas extremidades, em suas últimas ramificações, lá onde ele se torna capilar; captar o poder nas suas formas e instituições mais regionais e locais, principalmente no ponto em que, ultrapassando as regras de direito que o organizam e delimitam, ele se prolonga, penetra em instituições,

152

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 181.

153

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 181.

154 “Chamemos provisoriamente genealogia o acoplamento do conhecimento com as memórias locais, que permite a constituição de um saber histórico das lutas e a utilização deste saber nas táticas atuais. Nesta atividade, que se pode chamar genealógica, não se trata, de modo algum, de opor a unidade abstrata da teoria à multiplicidade concreta dos fatos e de desclassificar o especulativo para lhe opor, em forma de cientificismo, o rigor de um conhecimento sistemático. Não é um empirismo nem um positivismo, no sentido habitual do termo, que permeiam o projeto genealógico. Trata−se de ativar saberes locais, descontínuos, desqualificados, não legitimados, contra a instância teórica unitária que pretenderia depurá−los, hierarquizá−los, ordená−los em nome de um conhecimento verdadeiro, em nome dos direitos de uma ciência detida por alguns. As genealogias não são portanto retornos positivistas a uma forma de ciência mais atenta ou mais exata, mas anti-ciências. Não que reivindiquem o direito lírico à ignorância ou ao não-saber; não que se trate da recusa de saber ou de ativar ou ressaltar os prestígios de uma experiência imediata não ainda captada pelo saber. Trata−se da insurreição dos saberes não tanto contra os conteúdos, os métodos e os conceitos de uma ciência, mas de uma insurreição dos saberes antes de tudo contra os efeitos de poder centralizadores que estão ligados à instituição e ao funcionamento de um discurso científico organizado no interior de uma sociedade como a nossa. Pouco importa que esta institucionalização do discurso científico se realize em uma universidade ou, de modo mais geral, em um aparelho político com todas as suas aferências, como no caso do marxismo; são os efeitos de poder próprios a um discurso considerado como científico que a genealogia deve combater.” (FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 171).

155

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 172.

corporifica−se em técnicas e se mune de instrumentos de intervenção material, eventualmente violento.156

A segunda precaução metodológica consiste na afirmação de que o poder não pode ser compreendido a partir de sua intenção, mas a partir das práticas efetivas. Portanto, não há que se indagar sobre como o soberano chegou ao topo, mas sim de procurar “[…] saber como foram constituídos, progressivamente, realmente e materialmente os súditos, a partir da multiplicidade dos corpos, das forças, das energias, das matérias, dos desejos, dos pensamentos, etc.”157

Prossegue Foucault evidenciando a terceira precaução metodológica, que possui caráter antibinário, isto é, que não aceita a simplória afirmação de que o poder é algo do qual se pode apropriar como um objeto, e que uns teriam contra os outros. O poder se dá em relação (ou em rede). Eis a observação do filósofo:

não tomar o poder como um fenômeno de dominação maciço e homogêneo de um indivíduo sobre os outros, de um grupo sobre os outros, de uma classe sobre as outras; mas ter bem presente que o poder − desde que não seja considerado de muito longe – não é algo que se possa dividir entre aqueles que o possuem e o detêm exclusivamente e aqueles que não o possuem e lhe são submetidos. O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede.158

Já a quarta precaução é um alerta contra a tentativa de se compreender o poder dentro de uma lógica formalista e dedutiva que, “[…] partindo do centro, procuraria ver até onde se prolonga para baixo, em que medida se reproduz, até chegar aos elementos moleculares da sociedade.”159

É preciso, antes fazer uma análise ascendente do poder, seus mecanismos, procedimentos, técnicas e táticas. Não é a dominação global que se pluraliza até embaixo. É indispensável que se perquira como esses procedimentos se deslocam, se expandem e se modificam.160

156

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 182.

157

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 182.

158

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 183.

159

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 184.

160

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 185.

E por fim, a quinta precaução metodológica diz respeito ao caráter do poder. Para Foucault o poder não é ideológico, pelo contrário ele é, simultânea e paradoxalmente, muito mais e muito menos que uma ideologia. Houve provavelmente uma ideologia da educação, da democracia parlamentar ou do poder monárquico, mas não quer isso dizer que aquilo que se forma na base possa ser chamado de ideológico.161

São instrumentos reais de formação e de acumulação do saber: métodos de observação, técnicas de registro, procedimentos de inquérito e de pesquisa, aparelhos de verificação. Tudo isto significa que o poder, para exercer−se nestes mecanismos sutis, é obrigado a formar, organizar e por em circulação um saber, ou melhor, aparelhos de saber que não são construções ideológicas.162

Essa microfísica pressupõe que o poder nela exercido não é uma propriedade, mas sim uma estratégia cujos efeitos de dominação não podem ser atribuídos a um processo de apropriação, mas tão somente a táticas e estratégias.163 Em suma, práticas institucionalizadas ou reproduzidas que fazem circular o exercício do poder, sempre em rede.

Não se pode esquecer que essas práticas que Foucault traz à lume, são, em sua grande maioria, indissociáveis de uma ideia de ciência. Mais especificamente, de uma ideia de saber. É nesse sentido que ele cunhará o termo saber-poder como resultado do “[…] entrelaçamento dos efeitos de poder e de saber […].”164

Esse Foucault que se preocupa com a arqueologia do saber165 e a formação discursiva identifica a vontade de verdade166 como o mais importante dos três sistemas de

161

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 186.

162

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 186.

163

ROCHA, Leonel Severo. Da soberania da ciência às formações discursivas da soberania: uma introdução transdisciplinar ao problema do poder jurídico. In: PÊPE, Albano Marcos; ROCHA, Leonel Severo. Genealogia da crítica jurídica: de Bachelard à Foucault.Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2007. p. 208.

164

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 2.

165

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. 7. ed. Trad. de Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

166 Termo tomado de empréstimo de Nietzsche, em especial da seguinte passagem: “A vontade de verdade, que ainda nos fará correr riscos, a célebre veracidade que até agora todos os filósofos reverenciaram: que questões essa vontade de verdade já não nos colocou! Estranhas, graves, discutíveis questões! Trata-se de uma longa história – mas não é como se apenas começasse? Que surpresa se por fim nos tornamos desconfiados, perdemos a paciência, e impacientes nos afastamos? Se, com essa esfinge, também nós aprendemos a questionar?Quem, realmente, nos coloca questões? O que, em nós, aspira realmente ‘à verdade’? – De fato, por longo tempo nos detivemos ante a questão da origem dessa vontade – até afinal parar completamente ante uma

exclusão que atingem o discurso, e que, ao contrário dos outros dois – a palavra proibida e a segregação da loucura – cada vez mais se reforça e se torna mais profundo e mais incontornável.167 Daí porque a vontade de verdade não se restringe ao campo epistêmico, mas transborda, toca, atravessa e é atravessada pelas relações de poder. Afinal, apoia-se sobre um suporte institucional, sendo reforçada e reconduzida pelo conjunto de práticas como a pedagogia, o sistema de livros e as bibliotecas, mas também, de modo mais profundo, pelo modo como o saber é distribuído, repartido e atribuído.168

O poder se sustenta e atravessa as relações no nível micropolítico porque se constitui a partir de práticas, mas também de discursos atrelados a um regime de

verdade169. O fato é que “a verdade não existe fora do poder ou sem poder […]. A

verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder.”170

Por tais razões, é preciso capturar a realidade não meramente a partir de um centro de poder (o poder político ou o sistema econômico, por exemplo) e contra ele tentar lutar visando a transformação (parcial ou radical). E isso por duas principais razões: i) porque se fosse plausível esse raciocínio simplório não haveria poder suficiente para se opor ao poder dominante. E a derrota seria inevitável; ii) porque o próprio saber produzido (ligados mais ou menos ao marxismo ou à teoria crítica) já estão de certa forma previstos e adaptados por esse regime de verdade. E mais: quando isso ocorre, a vontade de verdade, que é fruto da vontade de poder, torna-se capaz de neutralizar as lutas de resistência, tornando-as impotentes.

questão ainda mais fundamental. Nós questionamos o valor dessa vontade. Certo, queremos a verdade: mas por que não, de preferência, a inverdade? Ou a incerteza? Ou mesmo a insciência?” (NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Além do bem e do mal: prelúdio de uma filosofia do futuro. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 9).

167

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 5. ed. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 1999. p. 19.

168

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 5. ed. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 1999. p. 17.

169

Ver em especial as aulas dos dias 9 e 16 de janeiro de 1980 em FOUCAULT, Michel. Do governo dos vivos: curso no Collège de France (1979/1980). Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2014. Também as Conferências 1, 3 e 5 de FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. 3. ed. Trad. Roberto Cabral de melo Machado e Eduardo Jardim Morais. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2002. E, ainda: FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 14.

170

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 12.

Daí a razão para se pensar diferentemente a temática da transformação. As velhas formas de revolução (molares), já não podem ser adequadamente pensadas. Isso não porque não servem mais, nem porque não sejam importantes ou possíveis. Ocorre que pensar nesse nível (e só nele) deixa escapar inúmeras variáveis e relações rizomáticas, e sobretudo olvida ou ignora como o poder se dá nas extremidades (nas instituições, no cotidiano). E esse incapturável do poder não percebe as máquinas fascistizantes se formando, como também não permite a constituição de máquinas revolucionárias.

3.3 REVOLUÇÕES MOLECULARES VERSUS REVOLUÇÕES MOLARES: OU DE

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