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MITOS PARA O FIM DO MUNDO: LUTO E PERDA COMO PROCESSO

3. REQUEBRANDO ARQUÉTIPOS E CONSTRUINDO HEROÍNAS

3.9 MITOS PARA O FIM DO MUNDO: LUTO E PERDA COMO PROCESSO

Nenhuma peça de teatro pode por si resumir todas as complexidades da perda pelas quais se está passando, mas talvez o simples ato de chorar a perda da natureza pode servir aos humanos, que vivem cada vez mais desconectados dela e de si mesmos, como ponto de partida para enxergar esse sistema vital. Como qualquer processo de despertar, o primeiro passo é sentir a falta do que se sacrifica no estado dormente - a “dor” da catástrofe do qual Macy fala - para, em seguida, ter a

possibilidade de despertar a empatia62. Ao contraponto do impulso da negação, o impulso empático está também programado nos seres humanos biologicamente, como, por exemplo, o desejo de esvaziar o estômago ao ver alguém vomitar. Essa sinestesia é empatia no nível físico e tem associações emocionais, como, por exemplo, ao ver alguém chorar em uma situação de sofrimento, a perda ou sentimento de tristeza não tem que ser nosso para nos provocar lágrimas e experiência da perda alheia como se fosse nossa. Reflexivamente, junta-se à catarse de águas salgadas que a tristeza humana produz. É a partir dessa premissa da empatia ou sinestesia que as lágrimas de sereia funcionam simbólica e dramaturgicamente neste projeto: forjam canais de sensibilidade para levar o público a perceber o prejuízo na sua carne, ainda que seja estrago alheio e não racional.

A conexão humana emocional (aqui separada da compreensão cognitiva) com a perda da natureza é complicada, em parte, porque o biocentrismo orienta os seres humanos a simpatizar primeiro com os seus, como nos exemplos da empatia. É uma questão biológica de sobrevivência e também do “especismo” da Scala Naturae (FERRANDO, 2014). Não quer dizer que o ser humano não tem empatia para com a dor ou a perda de outras espécies, mas a nossa tendência biológica e sociológica é de subvalorizar o não humano, fazendo mais difícil a defesa da saúde ou direitos dos organismos que não falam ou não têm a configuração humana, apesar do impacto negativo que sua eventual falta ou ausência terá em nossa saúde. Se tivesse que escolher entre salvar um bebê humano ou um bebê rinoceronte que esteja ameaçado de extinção, o ser humano escolheria salvar o bebê humano, de uma espécie que soma 7,5 bilhões de espécimes63. Se colocados uma árvore, um cogumelo ou uma formiga nessa escala de valores, eles saem posicionados entre os últimos seres a serem salvos, depois do rinoceronte (RIFKIN, 2009). Coloca-se essa ideia da empatia junto ao conceito de perda não identificável.

Naomi Klein cita o fenômeno de solastalgia, termo cunhado por Glenn Albrecht, filósofo e professor de sustentabilidade da Universidade Australiana de

62 Jeremy Rifkin, em Empathic Civilization (Civilização Empática), estuda o mecanismo da empatia humana que, segundo ele, é nossa disposição essencial diante dos outros seres. A tese dele demonstra como a humanidade tem aptidão enorme de proteger organismos alheios, e que essa empatia está sendo acentuada com a capacidade conectiva da tecnologia - a mesma tecnologia que está proporcionando desgaste também acelerado da biosfera. Ele propõe o que ele chama da questão mais importante do século XXI para a humanidade: “Podemos alcançar e espalhar a empatia global a tempo para evitar o colapso da civilização e salvar a Terra?” (RIFKIN, 2009).

63 World Census data for 2017 from United States Census Bureau. Diponível em: <https://www.census.gov/population/international/data/idb/worldpoptotal.php>.

Newcastle. Esse termo indica uma “forma particular de distúrbio psicológico que nos afeta quando as nossas terras maternas que amamos e das quais subsistimos e adquirimos conforto são transformadas pela extração e industrialização, tornando-se irreconhecíveis” (KLEIN, 2015, p. 165). Essas transformações podem acontecer de maneira abrupta ou lenta, mas o efeito colateral emocional a longo prazo é semelhante.

Considere-se o acontecimento do rompimento da represa na cidade de Mariana, localizada adjacente a zona de grandes atividades mineiras junto ao Rio Doce, em Minas Gerais, no dia 5 de novembro de 2015. Segundo o relatório oficial do Governo brasileiro

“O rompimento da barragem do Fundão, localizada na cidade histórica [...] foi responsável pelo lançamento no meio ambiente de 34 milhões de m³ de lama, resultantes da produção de minério de ferro pela mineradora Samarco - empresa controlada pela Vale e pela britânica BHP Billiton”64.

Os efeitos foram desastrosos e inimagináveis, eliminando, instantaneamente, a infraestrutura da maior parte das áreas povoadas por onde a lama se espalhou. Os habitantes sobreviventes desse “acidente” não somente perderam entorno construído pelo humano, que constituía sua segurança básica e identidade, mas todos os rastros da paisagem ao redor que os conectava com a grande biosfera, sem falar dos outros danos químicos e ambientais no sistema fluvial da zona. Esse evento constitui talvez a maior catástrofe ambiental da história do país. Não há medida para calcular os danos psicológicos e emocionais dessa perda.

A diferença entre desastres súbitos, como o da cidade de Mariana, e perdas lentas, como o aquecimento do oceano, manifesta-se em visibilidade e impactos percebidos de forma diversa, mas com o mesmo impacto do trauma emocional final: um é consciente, por causa da mudança indiscutível e da perda que produz no imediato; o outro é inconsciente, por causa de sua invisibilidade, o que faz com que a perda não seja reconhecida. O biocentrismo e a socialização humana fazem muito difícil reconciliar o emocional desses traumas e muito mais ainda articular atitude pró- ativa contra promotores de problemas semelhantes.

Quando se caminha numa praia alterada por lixo que tem mais detritos plásticos que matéria orgânica visível, experimentam-se aos poucos os sintomas de

64 Diponível em: <http://www.brasil.gov.br/meio-ambiente/2015/12/entenda-o-acidente-de-mariana-e- suas-consequencias-para-o-meio-ambiente>.

luto, sem poder chorar ou apontar para um responsável ou reclamar uma solução. Se, na mesma praia, se encontrasse o cadáver de um ser humano, a nossa reação seria imediata e teria o nível de alarme de perigo eminente para nossa própria vida. Embora a “violência lenta” referida por Nixon seja muitas vezes mais mortal, por não ser ainda perceptível, provoca menos alarme e resposta. Existe atualmente um reconhecimento - quase subconsciente - de um problema mortal nos sistemas da biosfera e também um potencial de empatia não desenvolvida que se precisa ativar.

No caso das mudanças climáticas, que são predominantemente invisíveis e não existem em local fixo, permanecem menos perceptíveis porque acontecem em período longo de tempo. Provocam essas perdas que são igualmente invisíveis. Naomi Klein se refere a elas como sentir uma espécie de saudade como se sentiria afastado, mas sem estar longe, da coisa da qual se sente falta. É um estranhamento novo em nossa sociedade de estar “em casa”, mas não ter certeza de que está tudo bem: o reconhecimento de que o Planeta e seus sistemas estão se transformando em algo que não tem mais estabilidade vital como antes. Presencia-se a morte de sistemas como o mar e se sofre saudade ou solastalgia sem estar mesmo consciente de onde ela vem. E se não se identifica a perda, a empatia é difícil desfechar. Essa nova ecopsicologia está sendo investigada mais e mais nas ciências humanas como espécie de ecotrauma profundo e crescente (BUZZELL& CHALQUIST, 2014), que não fica muito longe da idéia de “doença” na consciência humana enfocada nos estudos de Joanna Macy (2014).

Sirena Jones, por sua vez, procura apontar essas obviedades na sua vida e sofre por perdas invisíveis sem dar nome ao que ela mesma não consegue ver. A dramaturga Caridad Svich é crítica quanto à tentação de argumentar o perigo da degradação do Planeta, usando personagens não humanas que podem falar e ameaçar: “Precisamos algumas lições de sanar. Não tanto de intimidar” (SVICH, 2015). A Sirena Jones, com sua história, quer deixar o espectador livre para sentir o luto do seu mar sem fazê-lo responsável por tudo, o que constitui estratégia de conforto e solidariedade antes de cobrança ambientalista. As lágrimas dela são as lágrimas coletivas da espécie humana e outras: o mar é sopa de lágrimas derramadas por tudo que está morrendo.

Figura 18 - Boneca encontrada na praia da Gamboa com desenho de cauda de sereia

“Lixo Sagrado”

Fonte: Elizabeth Doud, 2014.

Além de ter as dificuldades e seduções típicas de uma sereia quanto às relações com os seres humanos (principalmente dos seres humanos homens), ela procura compreensão do ser humano e adota como causa particular a preservação da ecologia do mar, porque não tem outra espécie nesse ambiente capacitada para articular as perspectivas marítimas num espaço político atual com a palavra humana. Ela ficou adoentada porque se atrai pelos portos e espaços costeiros, encontrando-se com frequência no meio dos resíduos plásticos e outros lixos e extratos químicos, que vêm das indústrias humanas e fazem cada vez mais visíveis os problemas de saúde de que ela padece. É nesse sentido que ela se apresenta de maneira muito politizada - até antissocial, às vezes - porque não tem nada a perder.

Assim, Sirena Jones é simples sereia que decidiu alternar seu papel convencional de mulher-peixe, sedutora, quase monstro, dona de mistérios, com o da ridícula criação do imaginário, mutação horrenda do lixo real, e previsora do futuro, para lembrar que, uma vez negativado, mesmo o divino deixa de ser sagrado e passa a existir como mera pedra lançada como lixo na praia. No próximo capítulo, analisa-se em detalhe o processo criativo e a criação cênica desta pesquisa, descrevendo a evolução da ecoperformance em distintas fases da produção.

4. PROCESSOS E PRÁTICAS CRIATIVOS: A CONSTRUÇÃO DA