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MUDANÇAS, PERMANÊNCIAS E PARTICULARISMOS ALIMENTARES

O CONTEXTO: A CIDADE DE AMSTERDÃ

2. IMIGRAÇÃO E ALIMENTAÇÃO EM UM CONTEXTO GLOBAL: DESTERRITORIALIZAÇÃO DE HÁBITOS E

2.4. MUDANÇAS, PERMANÊNCIAS E PARTICULARISMOS ALIMENTARES

2.4. MUDANÇAS, PERMANÊNCIAS E PARTICULARISMOS ALIMENTARES

"A minha comida muda à medida que muda meu modo de viver". Essa afirmação proferida por Antônia (31 anos), que já passou por uma outra experiência migratória depois de deixar a Itália, quando permaneceu na China por dez anos, talvez sintetize de maneira precisa o quanto a alimentação está condicionada aos estilos de vida, ao mesmo tempo em que também aponta para uma certa dinâmica inerente à alimentação, a partir do movimento migratório. Embora não se restrinja a condições de deslocamento, essa afirmação é especialmente importante para se refletir sobre a desterritorialização ligada à

alimentação no âmbito migratório e o que tem provocado suas mudanças ou facilitado permanências, observando a conjuntura atual de intensificação dos fluxos relacionados à comida e levando em conta o contexto da cidade de Amsterdã.

Quando indivíduos emigram, e independente do seu país de origem, ideias de gosto, preferências alimentares, técnicas culinárias e outros aspectos relacionados ao comportamento alimentar necessariamente também passam por um processo de desterritorialização. Esse movimento pode envolver tentativas de reprodução da alimentação mais próxima à mantida no país de origem ou então o implemento de modificações de acordo com o novo ambiente, acesso a novos ingredientes e também de novas concepções de comida, alimentação e estilos de vida.

Estudos sobre migrações sugerem que os hábitos alimentares seriam aqueles a subsistir por maior tempo como referência ao local de origem, os que mais resistiriam ao abandono (CALVO, 1982, BOULY DE LESDAIN, 2002). Em contrapartida, Sydnei Mintz (2001), ao notar o fato de tantas pessoas em sociedades anteriormente concebidas como extremamente conservadoras estarem dispostas a experimentar comidas radicalmente diferentes, observa que os comportamentos relativos à comida podem, às vezes simultaneamente, ser os mais flexíveis e os mais arraigados de todos os hábitos, denotando, portanto, uma constante ambiguidade entre conservadorismo e mudança.

Essa ambiguidade foi vista como um ponto de partida para a abordagem de como imigrantes transnacionais vêm se relacionando com a comida na cidade de Amsterdã. Do mesmo modo que as migrações internacionais estão consignadas a variáveis diversas (econômicas, ambientais, políticas, culturais), o consumo alimentar, tanto no que tange à continuidade de hábitos alimentares como novas experiências ligada à comida, está atrelado às circunstâncias e possibilidades envolvidas em tal mobilidade, assim como ao contexto no qual ocorrem essas experiências.

Inicialmente, busquei algumas estratégias no intuito de entender e analisar como aquelas imigrantes de origens diversas lidavam com a alimentação cotidiana, quais hábitos alimentares relacionados ao país de origem permaneciam, quais indicavam mudanças e como os fluxos de natureza global atuavam nesse sentido. Com isso em mente, lembrava a indicação de Calvo (1982), segundo a qual, se deve abrir a geladeira de

um imigrante se quisermos identificar o grau das modificações alimentares ou mesmo persistências associadas a hábitos anteriores à migração.

Portanto, uma das estratégias consistia em também observar a dinâmica que ocorria nos armários da cozinha. Estes eram configurados em módulos, o que facilitava cada uma ter um espaço individual para armazenar os mantimentos. Tal configuração era similar ao que ocorria com as duas geladeiras, onde a divisão era feita pelo número de prateleiras para cada uma de nós. Eram espaços de uso privativo - cada uma era responsável por comprar e preparar suas comidas. Com exceção de quando decidíamos preparar uma refeição em conjunto, usualmente não compartilhávamos os ingredientes – embora nunca tivesse sido dito de maneira explícita por qualquer uma de nós, cada repartição do armário correspondia, de certa forma, a um território privado. Num primeiro momento, também podiam ser concebidos como fronteiras alimentares, no sentido de demarcarem certos traços identitários relacionados à comida, materializados nos temperos, cereais, grãos e uma gama de outros produtos que compunham aqueles estoques.

Foto 10: Armário da imigrante da Holanda

Foto 11: Armário da imigrante da Jamaica

Fonte: Arquivo pessoal

Foto 12: Armário da imigrante da Argentina

Foto 13: Armário da imigrante da Áustria

Fonte: Arquivo pessoal

Os armários eram os locais onde essas imigrantes armazenavam a maior parte de suas comidas. Geralmente os alimentos frescos, sobretudo verduras ou carnes, eram comprados um pouco antes do preparo e logo consumidos. Assim, não fazia muito sentido concentrar a atenção na geladeira. Dos produtos estocados nos armários, salvo poucas exceções, a maior parte era quase totalmente comum a todas moradoras: azeite de oliva, creme para café, café, sal, canela, macarrão, mel, cereais, pimenta preta, molho vermelho, arroz, entre outros alimentos não perecíveis, industrializados e encontrados na maior parte das cidades ao redor do mundo.

Retomando a noção de fronteiras culturais, rigorosamente, não havia um número expressivo de itens em cada armário que pudesse, por exemplo, dar maiores pistas sobre o país de origem de cada uma dessas imigrantes. Ou seja, algumas das comidas ali presentes, antes vistas como marcadores étnicos, já estariam "etnicamente neutralizadas" dentro do mercado global de alimentos, como defendeu Mintz (2006, p.

35)77. Todos aqueles produtos também poderiam constar do estoque de um só indivíduo, cuja alimentação talvez não envolvesse grandes curiosidades, se consideradas as possibilidades relativas à vasta oferta de produtos disponíveis associados a outras culinárias na cidade.

A partir de uma primeira observação, portanto, era possível supor uma certa homogeneização alimentar, levando em conta o panorama de difusão cada vez mais global não apenas de itens alimentares, como de hábitos e gostos relacionados à comida. Na mesma concepção, a natureza daquele sortimento de produtos indicava uma possível uniformização dos gostos vinculada a uma nova ordem mundial, onde também impera o caráter industrial da alimentação (GOODY, 1995; FISCHLER, 1995).

Mas era sobretudo na observação de como alguns daqueles produtos ganhavam centralidade nas refeições, assim como a quantidade e o modo pelo qual outros ingredientes eram combinados àqueles na hora do preparo das refeições, acima de tudo as carnes e os temperos, que podiam ser identificados tanto particularismos alimentares de cada imigrante, como também a maneira pela qual cada uma se relacionava com a comida ainda em virtude de outras experiências migratórias. Ou seja, mesmo face à diversidade representada pela industrialização da esfera alimentar e globalização acentuada, como se pode notar na cidade de Amsterdã e em sua paisagem alimentar, algumas fronteiras culturais e particularismos tanto nacionais como regionais permanecem ou mesmo são revigorados (POULAIN, 2006).

Um exemplo significativo é o de Mia (37 anos) que, por ter vivido a maior parte de sua vida fora da Holanda, se considera uma imigrante em Amsterdã. Durante os nove anos em que morou na Malásia, país de maioria islâmica, não tinha acesso fácil à carne de porco, mas somente por meios ilícitos. Embora não comesse regularmente essa variedade de carne antes de emigrar para aquele país, quando deixou a Ásia, se tornou um hábito diário. Segundo ela, o consumo de porco tornou-se quase uma compulsão, devido à restrição sofrida no país asiático. Esse consumo talvez possa também ser interpretado como uma maneira de ela se reconstruir ou se reconciliar

77 Mintz (2006, p. 35) toma como exemplos o caso do macarrão, bagels, pizza, croissants e croque monsieur.

com sua identidade holandesa, afastando-se da Malásia, ao incorporar o que lá seria uma comida tabu78. Portanto, independente dos acompanhamentos, a carne de porco era sempre o elemento central do seu prato, o que distinguia sua refeição das demais integrantes da casa79.

Em Amsterdã, na mesma medida em que há comunidades de imigrantes mais homogêneas, há também grupos fragmentados de diversos indivíduos com origens distintas. Como dito acima, os hábitos alimentares desses imigrantes não podem ser agrupados em uma mesma categoria, porque, além de dependerem de muitos fatores (preferências, valores pessoais e culturais, crenças, etc.), esses hábitos também sofrem diferentes formas de modificação no decorrer da experiência migratória. Além disso, no âmbito de alguns particularismos nacionais, se tomarmos o exemplo do continente europeu, a noção mesma de refeição varia entre os países (POULAIN, 2004). Um exemplo nesse sentido é a resistência de alguns destes imigrantes em adotarem sanduíches, sopas, frutas ou saladas como almoço, conforme é de regra na Holanda, onde o jantar é considerado a principal refeição.

2.5. CULTURA ALIMENTAR: FRONTEIRAS ALIMENTARES?

78 Assim como os judeus, muçulmanos condenam o consumo da carne porco pelo seu caráter impuro. Ao abordar os tabus alimentares na obra Pureza e Perigo (1976), Mary Douglas explorou as interdições alimentares dos judeus, observando que as definições acerca do que é considerado puro e impuro para comer são orientadas pela realidade social de acordo com uma sistema social de classificação - o que não se encaixa no sistema social de categorias sobre a realidade é considerado puro ou poluído.

79 As interdições alimentares foram analisadas sob diferentes pontos de vista, dos quais ainda cabe destacar aqui os enfoque de Marvin Harris (1985) e Marshal Sahlins (2003). Olhando pela perspectiva do materialismo histórico, Harris (1985) considera a variabilidade do consumo alimentar como dependente de determinismos naturais, isto é, estaria relacionada à adaptação e a ajustes de ordem ecológica e econômica. De um ponto de vista distinto e culturalista, Sahlins (2003) atribui o consumo da carne antes a uma intenção cultural do que a uma eficiência material.