2 DESENVOLVIMENTO DA CIÊNCIA JURÍDICA
2.10 Princípio da Proporcionalidade
2.10.4 Multidimensionalidade da Proporcionalidade
É necessário entender que o princípio da proporcionalidade é multidimensional pois é um direito fundamental, no sentido material, enquanto norma que consagra, como um princípio, a própria ideia do direito, simbolizada pela balança que sopesa os argumentos. Assim como tem também, como se estrutura, ou seja, na forma de uma proposição normativa para se aplicar à situação de conflito entre os demais princípios, a natureza de regra, estabelecendo ainda, em uma dimensão processual, um procedimento para dirimir tal conflito. Eis que nele encontra-se sintetizados os aspectos fundamentais de uma ordem jurídica, que são aqueles materiais, formais e, dentre estes últimos, os processuais (e procedimentais), necessariamente vinculados a instituições que com eles operam.
O reconhecimento dessa multidimensionalidade, não só do princípio da proporcionalidade, mas também de todos os demais direitos e garantias fundamentais normatizadas no texto constitucional, resulta da percepção da tarefa básica a ser cumprida por uma comunidade política, que é a harmonização dos interesses de seus membros, individualmente considerados, com aqueles interesses de toda a comunidade e, sendo assim, tem-se o compromisso básico do Estado Democrático de Direito na harmonização de interesses que se situam em três esferas fundamentais: a esfera pública, ocupada pelo Estado, a esfera privada, em que se situa o indivíduo, e um segmento intermediário, a esfera coletiva (ou metaindividual), em que se tem os interesses de indivíduos e coletividades enquanto membros de determinados grupos, formados para a consecução de objetivos econômicos, políticos, culturais e outros.
Realmente somente essa harmonização possibilita o melhor atendimento dos interesses situados em cada uma das esferas citadas pois o excesso de privilegio de um em detrimento das demais gera a instabilidade da ordem normativa e só a proporcionalidade pode gerar a circunstância de atender a todos os interesses, sem perder de vista que interesses coletivos, na verdade, são o somatório de interesses individuais, assim como interesses públicos são o somatório de interesses particulares, individuais e coletivos, não se podendo, realmente, satisfazer um sem contemplar o outro.
Talvez por essa tarefa afetar diretamente o tratamento dos grupos na sociedade, o centro de decisões politicamente sensível sofre um deslocamento dos outros poderes e instâncias para o judiciário que passa a ser um instrumento privilegiado de participação política e exercício permanente da cidadania. O reconhecimento de uma multidimensionalidade, não só do princípio da proporcionalidade, mas também de todos os demais direitos e garantias fundamentais, resulta da percepção da tarefa básica a ser cumprida por uma comunidade política, que é a harmonização dos interesses de seus membros, individualmente considerados, com aqueles interesses de toda a comunidade, ou de parte dela. Em sendo assim, tem-se o compromisso básico do Estado Democrático de Direito na harmonização de interesses que se situam em três esferas fundamentais: a esfera pública, ocupada pelo Estado, a esfera privada, em que se situa o indivíduo, e um segmento intermediário, a esfera coletiva, em que se tem os
interesses de indivíduos enquanto membros de determinados grupos, formados para a consecução de objetivos econômicos, políticos, culturais ou outros. Note-se que apenas a harmonização das três ordens de interesses possibilita o melhor atendimento dos interesses situados em cada uma, já que o excessivo privilégio dos interesses situados em alguma delas, em detrimento daqueles situados nas demais, termina, no fundo, sendo um desserviço para a consagração desses mesmos interesses, que se pretendia satisfazer mais que aos outros. Para que se tenha a exata noção disso, basta ter em mente a circunstância de que interesses coletivos, na verdade, são o somatório de interesses individuais, assim como interesses públicos são o somatório de interesses individuais e coletivos, não se podendo, realmente, satisfazer interesses públicos, sem que, ipso facto, interesses individuais e coletivos sejam contemplados.
Compreende-se, então, como o centro de decisões politicamente relevantes, no Estado Democrático contemporâneo, sofre um sensível deslocamento do legislativo e executivo em direção ao judiciário. O processo judicial que se instaura mediante a propositura de determinadas ações, especialmente aquelas de natureza coletiva e/ou de dimensão constitucional - ação popular, ação civil pública, mandado de injunção etc. - torna-se um instrumento privilegiado de participação política e exercício permanente da cidadania – como entendem Ada Pellegrini Grinover e Fábio Konder Comparato.
Especial atenção merece, assim, o problema do estabelecimento de formas de participação suficientemente intensiva e extensa de representantes dos mais diversos pontos de vista a respeito da questão a ser decidida no âmbito de ações constitucionais. Procedimentos instaurados por ações coletivas, como a ação popular e a ação civil pública, funcionam como verdadeiros instrumentos processuais de participação política, que permitem aos cidadãos o exercício da cidadania ativa, isto é, permitem uma participação pluralística dos representantes dos mais diversos segmentos da sociedade, com a interpretação que lhes é peculiar, inclusive do texto
constitucional, formando o que o constitucionalista alemão Peter Häberle131 chamou de "sociedade aberta dos intérpretes da Constituição".
As decisões a respeito de problemas envolvendo conflitos sociais sobre interesses coletivos da natureza daqueles acima mencionados não só encontram uma regulamentação insuficiente, como também, por sua novidade, não seria de se ver aí algo de muito inconveniente, pois é melhor mesmo que eles sejam inicialmente tratados e resolvidos no âmbito de procedimentos judiciais. Esses procedimentos devem ser estruturados de forma a permitir a mais ampla participação de "sujeitos coletivos", com a integração do maior número possível de pontos de vista sobre a questão a ser decidida, havendo ainda de se prever a possibilidade de a decisão se tornar, a um só tempo, vinculante para casos futuros semelhantes e passível de ser modificada, diante da experiência adquirida em sua aplicação.
Ocorre, então, que em geral os interesses coletivos, conquanto respaldados em normas de nível constitucional, não o são por leis regulamentadoras dos direitos fundamentais, delas advindos, e não é por isso que se vai admitir o seu desrespeito. Caberá, assim, ao Judiciário suprir a ausência completa e os defeitos da produção legislativa, no sentido da realização dos chamados "Direitos fundamentais de terceira geração", ou "direitos de solidariedade", precisamente os direitos sociais, econômicos e culturais, relativos à preservação do meio ambiente, das peculiaridades culturais de minorias, étnicas ou "éticas" etc. Vê-se, portanto, como efetivamente se pode sustentar a tese de que o Judiciário deve assumir, na atualidade, a posição mais destacada, dentre os demais Poderes estatais, na produção normativa.