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Ilustraçao 35 Loja online da FPV

4.3 MUSEU, EDUCAÇÃO E WEB

A educação é um processo fundamental da formação intelectual dos sujeitos e um fenômeno que ocorre em todas as sociedades em diferentes formas de complexidade com a tarefa de cumprir a construção e a produção de conhecimentos entre as pessoas, como cita Valente (2009). A escola é o espaço institucionalizado para essa tarefa, em primeiro plano, mas existem outros espaços que possuem dimensão educativa inerente, sendo um deles, o museu.

À medida que o museu cumpre suas funções básicas de conservar e viabilizar um patrimônio tangível ou intangível está gerando efeitos educativos e, mesmo que não conte com atividades pedagógicas, a própria instituição é um meio educativo, salienta Valente (2009). Os programas educativos, as relações com a escola e o ensino são vistos por certas instituições museológicas como funções subalternas e de menor valor hierárquico no estatuto da arte, percebendo-as incompatíveis com as demais funções de um museu.

Resistências à parte, os primeiros museus físicos com atividades educativas, no sentido de proposição de atividades pedagógicas, segundo Ott (2001), surgem nos museus

Victoria and Albert Museum, na Inglaterra e Royal College of Arte, nos EUA. No Brasil, os primeiros passos relacionados à educação museal acontecem no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, na década de 1960 e no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP) na década de 1970, sob direção de Walter Zanini. Em 1987, segundo Barbosa (2005, p. 87), o MAC-USP passa a ter como meta “dar (este) status à arte- educação”47, através da educação superior, com o propósito voltado para a pesquisa, experimentação e prática. E toma o cuidado de não eliminar os programas que visavam aproximar a arte das classes populares, montando uma equipe com uma metodologia de trabalho fundamentada na história da arte, na crítica de arte e no fazer artístico48.

As atividades educativas nos museus estão acontecendo de maneira lenta e em pequena escala, porém, de forma qualitativa, expondo uma problemática maior no âmbito dos

47 Esta arte-educação que Ana Mae Barbosa se refere não corresponde ao ensino de arte formal e sim aos museus, mas serve como parâmetro para estudos sobre o ensino de Arte, formação de professores e museus virtuais.

48 A Abordagem Triangular é uma metodologia contemporânea de ensino de arte criada por Ana Mae Barbosa que compõe três eixos fundamentais: a história da arte e a contextualização, a leitura da imagem como fruição e apreciação e a produção artística. No início denominava-se Metodologia Triangular, mas com o tempo Ana Mae Barbosa mudou sua nomenclatura para Proposta Triangular e atualmente para Abordagem Triangular,

entendendo-a como uma metodologia aberta e não hermética em si mesma, possibilitando maior liberdade ao professor de Arte na condução do processo pedagógico.

museus virtuais, no que tange às práticas institucionais que apoiem a construção e a consolidação de propostas educacionais para a formação de professores de AV.

Se Munro (1952) apud Ott (2001, p. 117) afirma que o “papel do arte-educador de museu deve ser o de catalisador e mediador”, em relação aos museus virtuais, a presença do professor de AV se faz relevante para que o processo de ensino-aprendizagem ocorra com efeito através da mediação e da troca de conhecimento que o aluno alia às ferramentas disponíveis, tais como as de ordem material, o computador e demais ferramentas concretas, e as de ordem virtual, a internet (online), ou CD-ROM e DVD (off-line), ou programas instalados relacionados aos museus virtuais e às próprias ferramentas interativas que possam oferecer.

Obviamente o museu virtual não tem a pretensão de substituir o museu físico, pois a arte produzida anterior à arte contemporânea configura-se basicamente nas artes clássicas ou tradicionais - pintura, escultura e desenho - e a elas o espaço físico deve existir para que a preservação material esteja garantida. Com o advento da arte contemporânea, surgem algumas modalidades de arte que se utilizam das TIC, como videoarte, arte eletrônica, e-arte, dentre outras, e o espaço virtual é importante para salvaguardá-las. Não obstante, temos, na arte contemporânea, produções artísticas que podem configurar-se no mundo virtual, mas que pertencem ao mundo físico, pois são objetos tangíveis, e outras, que são específicas do mundo virtual.

Hoje, os museus são considerados como instituições permanentes, sem fins lucrativos, que abrigam coleções de variados valores e categorias, com o propósito de conservar, pesquisar, informar e exibir suas coleções para a educação, a pesquisa e a visitação pública. (OLIVEIRA, 2002, p. 4). (grifo do autor)

Dentre os quesitos necessários para a existência de um museu virtual, seu público

online precisa de muito mais que apenas informações básicas sobre o museu. Em uma pesquisa feita pelo Instituto Latinoamericano de Museos y Parques (ILAM)49 no ano de 2011, com catorze países da América Latina e Caribe, intitulada Museos y Tecnologías de

Comunicación en el Siglo XXI, investigando a relação entre os museus e as TIC, os responsáveis pelos museus selecionados responderam a uma enquete sobre diversos fatores. Dentre as questões estava a capacidade dos museus de produzirem materiais para seus

49 Centro de Documentación físico y digital -principalmente en idioma español- integrado por documentos y material audiovisual relacionados con la gestión del patrimonio cultural y natural, políticas culturales y museología en Latinoamérica. Disponível em: <http://www.ilam.org/resultados-de-la-encuesta-qmuseos-y- tecnologias-de-comunicacion-en-el-siglo-xxiq.html>. Acesso em: 01 nov. 2011.

usuários e para professores e alunos. A maioria das respostas foi de que os museus produzem material promocional e educativo, geralmente elaborados por equipes externas dos museus. No que diz respeito aos museus virtuais, a pesquisa constatou que ocorre pouca produção de materiais e atividades, pois a oferta é tímida em boa parte dos sites de museus, se comparada com a necessidade de produção de material para o professor.

Na questão sobre a presença dos museus na internet, foi detectado pela pesquisa supracitada que, passados anos de sua experiência no campo da virtualidade, apesar de haver esforços dos museus virtuais em incluir mais conteúdos e imagens para uma maior interação, o avanço da oferta para o público não reflete a capacidade tecnológica que há hoje em dia, seguindo o modelo tradicional e informativo de site. O Instituto (ILAM) detecta que falta converter o conhecimento contido nos museus virtuais em materiais e ferramentas interativas de fácil acesso, a fim de despertar maior interesse do usuário. Aponta como soluções sistemas de registro, capacitação e treinamento pessoal, bem como, produção de materiais próprios e acessibilidade à internet no museu físico.

Apesar de a pesquisa realizada pelo Instituto abarcar uma série de museus da América Latina e Caribe50, é insuficiente para servir de amostra representativa, mas pode indicar tendências que revelam informações importantes da potencialidade disponível na web para a construção de museus virtuais em toda a sua totalidade, como já anteviam estudos desde a década de 1990. Dentre as potencialidades, é importante destacar a questão educativa frente aos museus virtuais, que deve estar incluída como um recurso fundamental para a formação dos professores de AV como subsídios para o conhecimento da arte na educação e para a construção do processo pedagógico.

Um exemplo de museu virtual com algumas propostas para a educação, que Henriques (2011) apresenta, não teve seu acervo imagético todo catalogado e disponibilizado na internet na época, o Projeto Portinari, que a partir de atividades, proporcionou ao público interação com estas referências patrimoniais. Segundo o site51, o Projeto

Objetiva instrumentar a interdisciplinaridade que vem exercendo desde a sua criação, em particular sua interação constante com a área de ciência e tecnologia, no sentido de criar e adaptar novas metodologias e técnicas que possam ser úteis a outros pesquisadores e instituições empenhadas em projetos congêneres.

50A pesquisa revela que um museu no Brasil participou da enquete, no entanto, a ILAM não divulgou os nomes dos museus participantes.

O Projeto, segundo a autora, foi criado em 1979, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), com o objetivo de catalogar, preservar e divulgar as obras de Candido Portinari. Posteriormente, o Projeto não permaneceu restrito ao site, sendo complementado por uma série de atividades ligadas ao espólio do artista, como exposições, pesquisa e inventário das obras localizadas, pesquisa sobre a autenticidade das obras, recolhimento de depoimentos e criação de conteúdos escolares, entre outros.

Com sua inclusão na web, o projeto cresceu e, em 1998, suas obras foram digitalizadas e catalogadas no site, tornando-se uma amostra do potencial que a web tem para oferecer na propagação da arte e na difusão do conhecimento em arte, mesmo que não se configure em um museu virtual com toda a interatividade que poderia proporcionar ao usuário. João Candido, filho de Candido Portinari, em entrevista concedida ao Departamento de Ciência da Computação/Universidade Federal de Minas Gerais (DCC/UFMG) em 2009, afirmou que “Com a ajuda da tecnologia as cinco mil obras de Portinari vem se tornando cada vez mais acessíveis a todos” (PORTINARI, 2009, s/ p.). Além do site, todas as obras foram catalogadas em formato Raissoné, editadas em catálogo impresso e DVD, e lançadas no centenário do artista, no ano de 2004. O material conta com

Textos, imagens (cor e PB) estáticas e em movimento e sons (programas de história oral e música), além de filmes de vídeo e cinema. Presta-se a uma gama variada de utilizações, da pesquisa de arte e de ciências humanas e sociais à criação de instrumentos de ação cultural dirigidas a amplas faixas de público, abrangendo desde a rede escolar primária até os especialistas (Fontes do site)52.

O site possui quatro setores (links) principais, aqui colocados em uma ordem, apenas para fins explicativos, a saber: 1 - Acervo; 2 - Candido Portinari: Catálogo Raissoné; 3 -

Guerra e Paz (o link vai direto para o site http://www.guerraepaz.org.br); 4 - Candido

Portinari para Crianças.

Ilustração 11: Homepage do site Projeto Portinari

Fonte: <http://www.portinari.org.br/>. Acesso em 23 mar. 2012.

O link Acervo contém a biografia do artista, suas obras, coleção de obras para um determinado propósito, pessoas, entidades e empresas que estão relacionadas às obras e aos documentos do acervo e documentos (audiovisuais, bibliográficos e iconográficos) relacionados ao artista, como também eventos, exposições e leilões com obras de Portinari. É possível acompanhar duas visitas guiadas, uma sobre a história dos painéis Guerra e Paz, pintados por Portinari para decorar a sede da Organização das Nações Unidas (ONU)53, e outra, sobre os murais que Portinari executou para a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, em Washington D.C.

O link Candido Portinari: Catálogo Raissoné contém informações com a comemoração do centenário do artista no biênio 2003-2004, as ações e os eventos no Ano

Portinari, como reportagens e informações veiculadas nos meios de comunicação e que foram hospedadas no site. Também expõe as imagens com reproduções de suas obras impressas em selos, moedas, medalhas e catálogos telefônicos confeccionados para homenagear o artista.

O link Guerra e Paz mostra os painéis de mesmo nome, que foram presenteados à ONU pelo governo brasileiro, como se deu o processo de construção, de doação, de restauro e de exposição dos painéis após longas décadas restritos aos chefes de Estado. O link possui uma opção de página intitulada Programa Educativo, que oferece um jogo da memória com detalhes de obras do artista e um Caderno do Professor criado a partir das visitas durante as fases do restauro dos painéis de Candido Portinari e oficinas de arte, realizadas no Ateliê Aberto, no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, de fevereiro a maio de 2011. A primeira parte do Caderno contém informações básicas sobre a vida e a obra do artista, bem como sobre a história dos painéis Guerra e Paz, e a segunda parte oferece aos professores propostas de atividades discentes, de caráter interdisciplinar, abrangendo Língua Portuguesa, Arte e História.

Por fim, temos o link Portinari para Crianças, voltado para os alunos das Séries Iniciais, onde existe o link Viagem ao Mundo de Candinho composto de outros links, como 1 -

Galeria, com obras e as respectivas medidas e técnicas; 2 - Brincando com Candinho, composto de jogos; 3 - Histórias de Menino, com histórias do artista através de suas obras; 4 -

Guia do Professor, que o site recomenda para o primeiro ano das Séries Iniciais do Ensino Fundamental, podendo ser estendido às etapas seguintes. Este guia contém quatro obras que abordam três temas (natureza-morta, paisagem e figura humana), acompanhado de sugestão de atividades. Portella (2003) fez uma significativa pesquisa referente a este setor do site, expondo as contribuições no âmbito educativo.

Ilustração 12: Viagem ao Mundo de Candinho

Fonte: <http://www.portinari.org.br/candinho/ candinho/abertura.htm>. Acesso em 23 mar. 2012.

O site é um importante contributo para a formação dos professores de AV, bem como para o planejamento e desenvolvimento das aulas, levando em consideração os links com conteúdos que levam a conhecer o artista, os links com referências a outras áreas do conhecimento que contextualizam sua vida e obra e os links que trazem materiais educativos. O site do Projeto Portinari possui credibilidade para o professor de AV realizar suas incursões, pois sua base é sedimentada em pesquisas científicas e acadêmicas patrocinadas por empresas, universidades e instituições idôneas, tendo a frente seu filho, João Candido. O

site poderia avançar em suas potencialidades, diante do tempo de sua existência e das demandas educacionais. O professor de AV tem no site, uma substancial fonte de pesquisa sobre o artista, sendo o único na América Latina contemplado com todo seu acervo e demais temas que fazem referência a vida e a obra, catalogados e disponibilizados, em material impresso e nos formatos DVD e online, todos em edição completa.

O professor de AV poderá observar os diversos museus virtuais, utilizar-se dos que constatar mais importantes para suas aulas, proporcionando aos alunos aulas de Arte com conteúdos significativos através de recursos tecnológicos de ponta e propor atividades que possibilitam a aprendizagem de maneira contemporânea. Da mesma forma, os conteúdos expostos nos museus virtuais poderão estimular o processo didático-criativo do professor de AV, bem como contribuir para o seu repertório teórico-cultural. Como esclarece Frutos (1998), a internet permite-nos aprender de diferentes maneiras, pois o simples fato de ter acesso a uma sucessão de informações já é uma maneira de aprender, o que contribui na educação sob a perspectiva do modo como se dá o conhecimento cognitivo.

As ações educativas e atividades pedagógicas dos museus físicos geralmente acontecem no campo da educação não-formal, ou seja, não estão vinculadas a instituições escolares ou áreas do conhecimento específicas, pois não fazem parte dos sistemas de ensino regulares. Diferentemente, neste estudo pretendemos refletir sobre os sites com conteúdos de arte afro, voltados para a educação formal, no sentido de colaborar para a formação do professor de AV, como possibilidade de contribuição à construção e produção do conhecimento na escola.

5 ANÁLISE DE QUATRO SITES COM CONTEÚDOS DE ARTE AFRO- BRASILEIRA E AFRICANA

Para qualquer assunto ou área do conhecimento que queiramos investigar, existe um sem-número de sites e blogs no universo da web. Seria difícil quantificar, mesmo que apenas na língua portuguesa, o rol de opções de conteúdos que expõem e exploram a arte afro- brasileira e africana no Brasil. Neste tocante, a pesquisa tem o propósito de investigar um conjunto de sites brasileiros e os conteúdos de arte afro-brasileira e africana, através de um instrumento de análise, que oferecem ao usuário - o professor de AV- verificar a relevância para a sua formação no que diz respeito aos subsídios possíveis para compor o seu campo teórico-metodológico.