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4 REVISÃO DE LITERATURA

4.1 DESVENDANDO A VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA

4.1.3 Natureza da violência

Para sintetizar o quadro de violências contra a criança, Eisele e Campos (2005) defendem que elas podem ocorrer por omissão, incluindo-se as carências físicas (abandono, falta de higiene, falta de suprimentos alimentares, falta de proteção ao frio, calor, desidratação) e as carências afetivas (falta de carinho, afeto, suporte psicológico), ou por ações, compreendendo os maus-tratos físicos (todos os tipos de lesões mecânicas, queimaduras, intoxicação por álcool, drogas ilícitas ou medicamentos, gás de cozinha, abuso sexual) e maus-tratos psíquicos (gritos, coação, ameaça ou encarceramento). Por conseguinte, qualquer ação e (ou) omissão, incluindo o seu resultado, por parte de indivíduos, instituições, governo ou sociedade, que privar as crianças de seus direitos e liberdades, e (ou) interferir com o seu ideal de desenvolvimento, são considerados, por definição, negligentes ou abusivos (READING et al., 2009).

Quanto à natureza, a violência pode ser dividida em física, sexual, psicológica, negligência ou abandono. Essa tipologia, embora imperfeita e não universalmente aceita, fornece uma estrutura útil para a compreensão dos tipos complexos de violência praticados em todo o mundo (BRASIL, 2008; CARDOSO et al., 2013).

A violência física é o uso da força física de forma intencional, não acidental, praticada por pais, responsáveis, familiares ou pessoas próximas da criança, com o objetivo de ferir, danificar ou destruir a criança, deixando ou não marcas evidentes (BRASIL, 2009; CARDOSO et al., 2013; WHO, 2002). A Sociedade Brasileira de Pediatria (2001) mencionou duas formas especiais de violência física que, devido à extensão e à gravidade das lesões que provocam, deixam sequelas importantes e são relacionadas a uma alta frequência de óbitos de crianças:

Síndrome do bebê sacudido – consiste de lesões cerebrais que ocorrem quando a criança, em geral menor de seis meses de idade, é sacudida de forma violenta por um adulto.

Síndrome da criança espancada – geralmente ocorre com crianças de baixa idade, que sofreram ferimentos inusitados ou fraturas ósseas causadas por agressões constantes, queimaduras, múltiplos hematomas, ocorridos em épocas diversas, bem como em diferentes etapas, sempre inadequada ou inconsistentemente explicados pelos pais, cujo diagnóstico é baseado nas evidências clínicas e radiológicas das lesões.

A violência sexual consiste em todo ato ou jogo sexual com intenção de estimular sexualmente a criança, visando a utilizá-la para obter satisfação sexual. A violência sexual pode ser perpetrada por um dos seus subtipos ou pela associação deles (BRASIL, 2009, 2010a; WHO, 2002).

Assédio sexual – constrangimento da criança, com gestos, palavras ou emprego de violência, prevalecendo-se de relações de confiança, ascendência, autoridade ou de relação com vínculo empregatício, com objetivo de obter vantagem sexual.

Pornografia infantil – apresentação, produção, venda, fornecimento, divulgação e publicação, por qualquer meio de comunicação, inclusive a rede mundial de computadores (internet), de fotografias, imagens com pornografia ou cenas de sexo explícito envolvendo crianças ou adolescentes (Lei nº 11.829/2008).

Exploração sexual comercial de crianças e adolescentes – uso sexual de pessoas, independentemente de idade ou sexo, com fins comerciais ou de lucro, levando-as a manter relações sexuais (Lei nº 12.015/2009).

Pedofilia – é o ato de um adulto manter atividades sexuais com uma criança ou adolescente (Lei nº 8.069/1990).

Voyeurismo – transtorno de personalidade da preferência sexual, tendência recorrente ou persistente de observar crianças ou adolescentes em atividades sexuais ou íntimas, com o propósito de excitar-se, sem que a pessoa observada saiba ou com sua aprovação (Lei nº 8.069/1990).

Estupro – constrangimento de alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique ato libidinoso (Lei nº 12.015 de 2009).

A violência psicológica pode ser manifestada por atos de rejeição, depreciação, cobranças exageradas, discriminação, desrespeito, punições humilhantes e utilização da criança para atender às necessidades psíquicas de um adulto. (BRASIL, 2010a; OMS, 2002, 2006).

Negligência – corresponde à omissão de cuidados básicos para o desenvolvimento físico, emocional e social, provocada por falta de atendimento aos cuidados necessários com a saúde, descuido com a higiene, ausência de proteção contra inclemências do meio, como o frio e o calor, não provimento de estímulos e de condições para frequentar a escola. O abandono é considerado uma forma extrema da negligencia (BRASIL, 2009, 2010a; WHO, 2002, 2006).

A Síndrome de Munchauseu é uma forma especial de manifestação da violência, na qual a criança é levada para cuidados médicos, porém os sinais e sintomas são inventados ou provocados, geralmente por um dos pais. Assim, algumas consequências dessa condição “forjada” serão incluídas no grupo das violências físicas (exames complementares desnecessários, uso de medicamentos, ingestão forçada de líquidos) e outras enquadradas como violência psicológica (inúmeras consultas e internações) (SBP, 2001).

Figura 1 - Tipologia e natureza da violência

4.1.4 O contexto familiar e a violência doméstica (intrafamiliar) contra a criança

A violência contra a criança, cometida por adultos, dentro da família, é uma das formas menos visíveis da violência, como muito do que acontece na intimidade da vida doméstica, mas não deixa de ser muito prevalente em todas as sociedades (WHO, 2006).

Para Thomazine, Oliveira e Vieira (2009), a violência doméstica ou intrafamiliar é definida como toda ação ou omissão contra a criança cometida por algum membro da família, incluindo pessoas que passam a assumir função parental, ainda que sem laços de consanguinidade, o que implica transgressão do poder ou dever de proteção do adulto, além de coisificação da infância, isto é, uma negação do direito que as crianças têm de ser tratadas como indivíduos em condição peculiar de desenvolvimento. Aguiar e colaboradores (2002) mencionam que a violência intrafamiliar independe do espaço físico onde ocorra a ação ou omissão que prejudica o bem-estar, a integridade física, psicológica ou a liberdade da criança. A violência infantil intrafamiliar, que também é denominada na literatura especifica de maus-tratos ou abuso infantil, envolve aspectos socioculturais, psicossociais, psicológicos e até biológicos, tamanha é a sua complexidade (THOMAZINE; OLIVEIRA; VIEIRA, 2009).

Iarskaia-Smirnova, Romanov e Antonova (2008) afirmam que, a princípio, o lugar mais seguro para as crianças deveria ser a sua própria casa e ao lado da família; entretanto, os fatos colocam essa hipótese em dúvida. Hoje se observa que, nos domicílios, a proteção que deveria ser proporcionada pela família tem sido negligenciada, já que, por um lado, a criança não revela a violência ou a sua autoria e, por outro, existe a conveniência dos adultos em manter relacionamentos familiares conflituosos (MARTINS et al., 2013).

Aguiar e colaboradores (2002) apontam o medo e a vergonha como as principais razões para a camuflagem dos atos de violência, especialmente porque esses atos, além de acontecerem no ambiente familiar, envolvem pessoas de relações muito próximas. Complementando, Apostólico e colaboradores (2012) consideram o ambiente familiar como o lócus principal da violência contra a criança, devido às relações desiguais de poder na família, as quais podem ser consideradas as determinantes da violência intrafamiliar.

Para alguns pesquisadores da área de saúde, segundo Brito e outros (2005), mesmo com a falta de integração e escassez de dados, é possível inferir que as modalidades de violência ocorridas no ambiente familiar podem ser responsáveis por grande parte dos atos violentos que compõem o índice de morbimortalidade no Brasil e no mundo.

4.2 A PERCEPÇÃO DA VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA: DO CONTEXTO