CAPÍTULO I: NÓS, O MUNDO E O SOCIAL
1 O que somos e o que estamos fazendo na modernidade?
1.2 Necessidade e servilismo
Outro problema político colocado por Arendt relacionado à sobrevivência humana: o servilismo. A necessidade escraviza; e o escravo é inumano, porque sujeito à necessidade, não pode exercer as faculdades de deliberar e de decidir nem as de prever e de escolher, transformado que está, por ela, num animal. A prisão do animal laborans à esfera da necessidade significa, portanto, acima de tudo, “estar privado de coisas essenciais a uma vida verdadeiramente humana: (...) privado da possibilidade de realizar algo mais permanente que a própria vida” (ARENDT, 2010, p. 71). Significa não poder imortalizar-se. A privação da privatividade residirá, deste modo, na ausência de outros;
40 “para estes, o homem privado não aparece, e, portanto, é como se não existisse” (ARENDT, 2010, pp. 71-72)20.
No tempo de Sólon, relembra Arendt, considerava-se a escravidão pior que a morte, porque amor à vida e covardia confundiam-se com servilismo. Para falar de servidão, em “A condição humana”, Arendt relembra a discussão entre Sócrates e Euterus na “Memorabilia” de Xenofonte, em que Euterus, em razão de necessidade, é forçado a trabalhar com seu corpo. Certo de que não suportará o esforço exigido por este tipo de vida e de que será indigente na velhice, ainda assim, dizia ele, preferia o trabalho à mendicância. Sócrates, ao ouvir isso, teria proposto que procurasse alguém que precisasse de um ajudante; mas, Euterus lhe diz que não suportaria a “servidão”.
A escolha pela escravidão ao invés da morte era para Platão a forma de demonstrar o servilismo. Como os escravos gregos geralmente tinham a mesma nacionalidade de seus senhores – ao contrário dos escravos romanos que eram em sua maioria inimigos derrotados na guerra –, possuíam “natureza escrava” por não terem cometido suicídio. “O excessivo amor à vida era um obstáculo à liberdade e sinal de servilismo” (ARENDT, 2010, p. 43), na Grécia Antiga.
Arendt anota, também, da obra de Hesíodo, a convicção de que “o trabalho de nosso corpo”, exigido por suas necessidades, é servil. Teria sido, segundo Hesíodo, porque Prometeu, “o astuto, o traiu”, que Zeus lhe impôs o trabalho como punição, momento a partir do qual “os deuses esconderam dos homens a vida”, e sua maldição passara a atingir “os homens comedores de pão”. Para Hesíodo, o ideal é o fazendeiro- cavalheiro, e não o trabalhador que fica em casa e mantém-se afastado tanto das aventuras do mar quanto dos assuntos públicos da ágora, cuidando apenas de sua vida (ARENDT, 2010, p. 102). Assim é que Arendt quer denotar o servilismo que há na atividade do animal laborans.
De Aristóteles, a este respeito, Arendt registra que a alteração na condição do escravo como a alforria ou alguma mudança na circunstância política geral que o elevasse a algumas ocupações de relevância pública, acarretava-lhe uma mudança de natureza. Às certas funções públicas que, aliás, já estavam afetas a escravos públicos
20 É o processo ao qual se referirá noutro ponto, mais adiante, com Heiddeger e Agamben, como
esquecimento do ser. Esquecimento do ser que, a propósito, articula-se exclusivamente com a ideia de
exclusão identitária, ou, em outras palavras, com a ideia de não contemplação de uns, pela institucionalidade, em face de sua desconsideração enquanto sujeito constitucional titular de direitos.
41 nos primeiros séculos do Império Romano, foi possível passar-se a dar um tratamento mais digno e com maior importância: “esses ‘servi publici’ – que, na verdade, cumpriam tarefas de funcionários públicos, [e que] receberam permissão de usar toga e desposar mulheres livres” (ARENDT, 2010, p. 103).
Em toda a história antiga, também os serviços “intelectuais” da burocracia eram realizados por escravos. Atendendo a necessidades do domínio público ou do domínio privado, esses escravos eram classificados conforme suas respectivas condições. Nesse contexto, haviam os operários, empenhados no acréscimo de mais uma coisa, se possível durável, ao artifício humano, diferentemente do intelectual, tido como um assemelhado do “criado doméstico”.
Ainda que a sua função não fosse tanto manter intacto o processo de vida e proporcionar sua regeneração, o trabalho intelectual consistia, antes, de cuidar da manutenção das várias máquinas burocráticas gigantescas, cujos processos consomem os seus serviços e devoram seus produtos tão rápida e impiedosamente quanto o processo biológico da vida. Antes do enaltecimento dos serviços públicos, anota Arendt, os escribas eram classificados na mesma categoria dos vigias de edifícios públicos ou mesmo daqueles que conduziam os gladiadores à arena; o enaltecimento dos “intelectuais” coincidiu, aliás, com o estabelecimento de uma burocracia: “Somente a burocratização do Império Romano e a concomitante ascensão política e social dos imperadores levaram a uma reavaliação dos serviços intelectuais” (ARENDT, 2010, p. 114).
Daí podermos perquirir se deste servilismo descrito por Arendt – mormente o associado à burocracia do corpo político e aos serviços ditos “intelectuais”, que parece relacionar o animal laborans diretamente com a estruturação do corpo político – já não poderíamos depreender a descrição do primeiro como peça, e, do último, como máquina da qual o primeiro é parte integrante. Se já não poderíamos depreender uma associação entre o animal laborans e a execução irrefletida das ordens dos governantes realizando o modelo fabricado pelos idealizadores do corpo político.
E, igualmente, perquirir se Arendt, com tudo isso, não estaria a dizer de uma espécie de servilismo que há na conduta de cada operador do Direito, na modernidade. Dos advogados; mas, também, dos juízes. E não só destes. Dos “legisladores” membros de partidos políticos representantes, não do povo, mas dos interesses de seus líderes. Ou
42 de cada um de nós enquanto peça essencial ao funcionamento da grande máquina estatal. E se essa associação já não seria, portanto, uma primeira aproximação que Arendt faz entre o servilismo e o mecanicismo que caracterizou a conduta de Eichmann durante a “solução final”; e, porque não dizer, com a estrutura de bando de Agamben. Com o “público” que invade a esfera “individual”. Com o “público” que se apropria do “privado” sob a estrutura ambígua da “esfera social” a nos “normalizar”.