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Nove realidades: Contrastes e semelhanças

VI PERFIS DOS ENTREVISTADOS

6. Nove realidades: Contrastes e semelhanças

De acordo com o quadro de entrevistados, e com as entrevistas com foco nos relatos das histórias de vida que connosco foram partilhadas, podemos observar que entre estas existem diferenças e semelhanças, que as afastam e as aproximam umas das outras. Do mesmo modo que diferem entre si pelas suas singularidades, pelas suas características que as tornam em histórias únicas, ao mesmo tempo assemelham-se pelos momentos similares que os nossos entrevistados passaram e exprimiram durante a obtenção destes dados.

Algo que é importante destacar a esse nível, desde já, neste «balanço» é de que todos têm uma orientação sexual não heterossexual, mas que apresentam perfis (de género, de capital escolar, de trajetória de vida, de classe social, etc.) muito diversificados. Por outro lado, a condição sexual é um marcador poderoso no modo como a velhice é narrada e representada, assim como nas fragilidades demonstradas, o que a torna, por vezes, como um ponto em comum mais poderoso que a classe social.

Posteriormente, se atentarmos nos momentos decorridos ao longo das vidas dos entrevistados, podemos igualmente fazer esta observação. Nos momentos vividos durante as suas infâncias, os entrevistados revelaram todos ter experienciado uma infância e crescimento conturbado, com problemas familiares, com negação, com intolerância, com agressões físicas e psicológicas e com humilhação, aquando da revelação das suas orientações sexuais, à exceção da entrevistada Isabel. Esta última,

123 dentro dos nossos casos, foi única que revelou ter tido uma infância e crescimento repleto de apoio, compreensão, tolerância e carinho por parte dos seus pais.

Estas relações familiares atribuladas levaram a que alguns dos parentes mais próximos dos nossos entrevistados (como pais, filhos ou irmãos/irmãs) os tentassem “curar” da sua orientação sexual – “Praying to heal someone of their sexual identity”22

. Para o alcançarem, por vezes através da humilhação e da invasão de privacidade, expuseram-nos a pessoas alheias aos seus círculos de confiança, retirando-lhes o poder de decisão no que diz respeito à exposição das suas orientações sexuais. Para alguns dos nossos entrevistados, de acordo com as suas histórias, se estes já apresentavam dificuldade em assumir a sua preferência sexual e em ter relações com alguém da mesma orientação sexual (nalguns casos já bem tardia), esta exposição involuntária transforma-se num duro golpe no que concerne às suas privacidades e decisões.

Do mesmo modo, as constantes partilhas de histórias alheias sobre outras pessoas LGBT, das notícias dos mass media sobre acontecimentos que envolvam a temática LGBT, as ameaças e agressões por parte do outro (nestes casos, familiares, amigos e desconhecidos), moldaram, durante os seus crescimentos, as suas noções sobre aquilo que acham que devem recear ou não no mundo que os rodeia. Tal ainda é visível nas suas velhices, pela forma como encaram as instituições de velhice – grande parte das representações dos nossos entrevistados provieram dos mass media e das referidas histórias partilhadas pelos familiares /amigos, estas maioritariamente negativas, sobre a forma como as pessoas LGBT eram tratadas nestas instituições. As representações que obtiveram sobre estas, ainda que pudessem ser verdadeiras, foram associadas a ideias de medo, discriminação, intolerância, agressões, humilhação, entre outras, conferindo assim uma representação maioritariamente negativa sobre estas instituições. Ainda que estas representações pudessem não se materializar, esta imagem predomina em cinco dos nossos entrevistados.

Os quatro casos que sobram (Francisco, Paula, Manuel e Maria) partilham o inverso, leia-se, uma imagem positiva sobre as instituições. Estas noções, inicialmente, foram construídas de igual modo aos entrevistados anteriores, com a diferença de que, na velhice, através da experiência própria (não só, mas principalmente), essas

22 Conclusões de um programa piloto que recorreu a consultores comunitários LGBT na Inglaterra: “Developing inclusive environments for older lesbian, gay, bisexual and trans (LGBT) people in care homes: Findings from a pilot scheme using LGBT Community Advisors in England”.

124 representações negativas que detinham anteriormente, foram desconstruídas, dando lugar a uma noção positiva das mesmas. Destes quatro casos, dois associaram o poder económico à melhoria destas representações, no sentido em que investiram em instituições privadas com características de luxo, alegando sentirem-se como se residissem no seu próprio domicílio. Os outros dois casos, por sua vez, associaram à melhoria destas representações o fator ajuda, no sentido em que foram estas instituições em que agora residem que os ajudaram em momentos difíceis das suas vidas, a fazê-los sentirem-se felizes e livres para exprimirem as suas orientações sexuais sem receio.

De acordo com estas representações negativas, influenciados por estas – excetuando os quatro casos referidos em que estas representações são positivas –, os nossos entrevistados revelaram, assim, renitência numa possível institucionalização. Para estes, esta hipótese ocorreria em último lugar e, de acordo com as suas estratégias de exposição numa situação desse tipo, prefeririam ocultar a sua orientação sexual, por sentirem medo das consequências que daí pudessem advir, receio de lidar com as dificuldades que os rodeiam. Nos casos das representações positivas, em que os entrevistados residem em instituições, as suas estratégias de exposição da orientação sexual não passam pela ocultação, mas sim pelo assumir e pela naturalização desta, revelando-se satisfeitos com o ato.

Outro ponto que podemos observar nestas nove entrevistas com foco nas histórias de vida passa pela sexualidade e pela importância que esta tem para os mesmos. Apesar de ter mais importância para uns do que para outros, esta foi reconhecida como uma componente do bem-estar do ser humano, a qual adquire uma expansão do seu significado na velhice. Para todos os entrevistados, este teve e/ou tem expressão nas suas vidas e a forma como se protegeram e/ou protegem também se equipara. Todos os entrevistados revelaram ter tido comportamentos sexuais de risco em diversas fases das suas vidas, promovidos por alguma desvalorização destes, ainda que em alguns momentos se tentassem proteger e tivessem noção dos perigos respetivos desta temática. Também aqui o peso da orientação sexual se manifesta. Ter-se uma doença sexualmente transmissível, como o HIV, que por si só já confere um certo estigma ao indivíduo em questão, e ainda ser-se LGBT (ao qual a doença é comumente associada) e sénior, traduz-se em experiências mais delicadas, que influenciaram as suas representações, do qual é o maior exemplo a história de vida da entrevistada Maria, portadora de HIV.

125 Portanto, com estas nove histórias de vida, o que podemos notar é que o peso da orientação sexual na velhice não pesa somente nessa fase. Pesa sim, desde o momento do crescimento dos entrevistados, desde o momento em que assumem para si próprios a sua orientação sexual, a qual vai pesando de diferentes formas durante toda a vida, e que se vai traduzindo em medos, desafios, dificuldades experiências marcantes (seja positiva ou negativamente). A forma como esta influencia o crescimento e a maturação do indivíduo vai, assim, influenciar a forma como este escolherá agir e interagir na velhice, de forma a procurar proteger-se mais, ou dar-se mais, de acordo com as suas representações face ao que os rodeiam, obtidas pelo que vivenciou anteriormente. Dentro destas experiências mais positivas ou mais negativas, os indivíduos, portanto, afastam-se e aproximam-se uns dos outros consoante as suas vivências e representações, caracterizando tantos outros casos que com estes se identifiquem.