ANEXO 3 – TRANSCRIÇÃO DAS ENTREVISTAS
A.: Sim, sim, eu sei, obrigado [Pausa 0,3 segundos] Mas bem, isto para dizer que com
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aquelas palavras, com aquele toque na minha mão, com aquele carinho espontâneo… eu 532
já não sabia o que aquilo era, aliás, quase toda a vida que não soube, e os que achei que 533
soube, afinal fui enganada. Ou seja, tudo aquilo contribuiu para eu ter aceite dar-lhe a 534
oportunidade pela qual ela tanto pediu. Começamos a sair, pouco tempo de cada vez e 535
perto da minha casa porque eu estava ainda debilitada, depois quando fui melhorando já 536
fazíamos mais planos. Algo que me chamou à atenção era a espontaneidade dela, a 537
despreocupação do que os outros iriam pensar ao ver-nos. Em plena rua, ela puxava-me 538
para junto dela e abraçava-me. Ou dava-me a mão, com um sorriso imenso. Sem 539
qualquer medo do que pudessem pensar, ignorando qualquer coisa que fosse dita! Isso 540
fez-me ceder mais um pouco. E um dia, junto do mar, com esplanadas e isso, num dia 541
que nem era verão mas estava imensa gente lá, ela deu-me a mão, abraçou-me e depois 542
olhou-me nos olhos e disse-me: “Desculpa!”, e eu sem perceber, perguntei porquê, ao 543
que ela me diz “Por isto!”, e puxou-me para um beijo! Um beijo, lésbico, em plena luz 544
do dia, no meio da rua, isto é, num espaço público, rodeadas de gente! Imagina o 545
escândalo? O drama? A afronta? As reações!? Da forma que foi, foi assolador até para 546
mim! Claro que quem nos rodeava reagiu, e fomos embora logo dali. Quando me 547
apercebi do que tinha acontecido ao certo, caí em mim e comecei-me a rir. Começámos 548
as duas! Percebi que me estava a voltar a apaixonar. De rir passei a chorar, porque me 549
relembrei de tudo o que já tinha passado quando decidi entregar-me a alguém, e de 550
chorar voltei a rir por olhar para ela a sorrir para mim. Foi uma enorme trapalhada, foi o 551
que foi! Mas pronto, falámos sobre isso, sobre o que sentíamos, sobre o que eu estava 552
preparada ou não, sobre o que iria ou poderia acontecer, o que se fazer… Daí um mês, 553
mais coisa menos coisa, estávamos a namorar. Ao fim de uns 6 meses, decidimos 554
juntar-nos. Ela passava uns dias em minha casa, outros eu na dela. Ao fim de uns 4 555
meses daí, passámos só a ficar na minha, porque cada vez que estávamos na dela, o 556
filho dela volta e meia aparecia ressacado da droga, a querer dinheiro ou coisas para 557
vender para poder ter dinheiro para a droga. Discutiam, por vezes ele tornava-se 558
violento, eu tentava ajudar mas pronto, meter-me numa situação destas era difícil, ele 559
180 não era meu filho afinal de contas, ainda que eu já o tivesse ajudado e até gostasse dele. 560
Entretanto, ele já tinha estado duas vezes na reabilitação, mas saiu pouco tempo depois, 561
mal aguentou dois meses da primeira vez, e da segunda mal chegou a um mês. E a mãe 562
dele é que pagava tudo não é… Fazia o que podia. Mas pronto, assistindo a isto, 563
decidimos que para acabar com aquelas situações, que ela passaria a estar comigo na 564
minha casa. Tudo começou a parecer idílico, à parte do filho dela de vez em quando 565
ainda lá ir à minha, agora nossa casa. Ia lá jantar de vez em quando, tinha dias melhores, 566
em que parecia realmente motivado para mudar, outros dias piores, que realmente nem 567
sei com conseguia lá chegar. Mas sim, tornamo-nos mais íntimas, fazíamos amor mais 568
vezes, raramente discutíamos a não ser pelo filho dela e pela droga, fazíamos muito 569
juntas. Lembro-me de pensar que pela primeira vez sabia o que era fazer amor, ter 570
relações com carinho, com paixão, com intimidade a sério. Mas como eu estava errada. 571
Quanto mais nos aproximávamos intimamente, mais falávamos sobre o filho dela, sobre 572
o problema dele com a droga, e a necessidade dele precisar de ajuda. Dizia-me que ele 573
melhoraria se vivesse connosco duas, que estaria sob vigilância, que com ajuda deixaria 574
a droga, porque entre nós duas íamos conseguir vigiá-lo e apoiá-lo melhor, etc.. Claro, 575
eu não achava piada nenhuma a essa ideia, até porque só havia um quarto. Depois 576
dessas conversas, discutíamos sempre mais, e em seguida, aproximávamo-nos sempre 577
mais também. Era como que um ciclo. Tanto falámos e discutimos sobre isso que acabei 578
por concordar, uma vez mais toldada pelo sentimento, de que talvez fosse realmente 579
melhor para ele ficar sob a nossa vigilância. Não tinha lugar para ele, mas o sofá era 580
sofá cama, pelo que poderia servir para ele, pelo menos para se começar a endireitar. 581
Assim foi, ele veio viver connosco, e cedo começaram os problemas. Ora aparecia 582
empenhado em querer sair da droga, ora aparecia de caixão à cova. Voltámos a juntar 583
poupanças para o pormos numa reabilitação, e desta vez durou três meses e qualquer 584
coisa. Voltou para casa e voltou a consumir, cada vez mais, porque cada vez que vinha 585
da abstinência, ainda vinha pior. Pela última vez, voltámos a investir na reabilitação 586
para ele sair de vez da droga, com um programa inovador. Desta vez durou 6 meses, 587
voltou, e aparentemente tudo estava bem. Ao fim de um mês e pouco ele voltou a sair, 588
disse que ia passear, mas que já não ia ter com as antigas companhias, e quando voltou 589
notei-o diferente. A mãe dele dizia que não, mas eu percebi que sim. E tinha razão. 590
Entretanto a nossa vida continuava nisto, e eu voltei a ter problemas de saúde. 591
Enfrentava agora pela segunda vez outro cancro. Este era mais agressivo, então desta 592
vez foram mais sessões, mas mais ainda agressivas, e com perspectivas já não tão 593
181 animadoras como no caso anterior. O dinheiro começou a escassear, a intimidade 594
desapareceu, as discussões e o ambiente estavam cada vez piores, e ele tinha voltado a 595
consumir. Tudo isto no espaço dali a um ano e meio. Estava a acabar de pagar a casa, e 596
tudo estava cada vez pior. Comigo ainda nas sessões de tratamento, ela [a companheira] 597
veio falar comigo, muito preocupada, porque havia vendido a casa dela para os últimos 598
tratamentos do filho, dado que vivia comigo não havia necessidade de se suportar outra 599
casa, e estava preocupada que se me acontecesse alguma coisa por causa do cancro, 600
como eu morrer ou ficar numa cama de um hospital, algo assim, que ficaria sem ter sitio 601
onde viver, porque a casa estava em meu nome e se eu morresse ela, vá, eles, ficariam 602
sem ter sitio onde viver, e sem ter posses para causa dos tratamentos do filho. Decidi 603
então que se ela tinha abdicado da casa dela para vir viver comigo, ter vendido a dela, 604
confiar em mim sem nunca me pedir nada da casa, então também deveria confiar nela. 605
Decidi, mais uma vez burra, tratar dos papéis todos para atualizar os documentos para 606
que ela pudesse ser também proprietária da casa. Entretanto, no meio deste processo 607
todo, dentro das minhas capacidades, porque voltei a estar bastante combalida, ia 608
enfrentando as sessões e o tempo ia passando, com ela sempre dividida entre mim e o 609
filho. Com a questão da casa, a nossa relação melhorou bastante. Com o tempo cheguei 610
à última sessão, sobrevivi a mais um, e quando recuperei o mínimo possível para poder 611
trabalhar, voltei ao trabalho e ia trabalhando o que podia, porque fiquei com algumas 612
mazelas e bastante mais fraca. Trabalhava menos horas, com algumas condicionantes, 613
com cortes no salário, mas ao menos ia entrando dinheiro em casa. Com isto as 614
dificuldades iam-se fazendo sentir porque ela para nos acompanhar, a mim e ao filho, 615
acabou por ser despedida, e eu com aqueles cortes também recebia muito menos. Para 616
agravar, as poupanças que tínhamos tinham ido todas para os tratamentos do filho dela. 617
Para facilitar e porque já não aguentava aquele ritmo e o cansaço, com os problemas que 618
tinha, meti os papéis para a reforma. Sabia que ia sofrer uma penalização, mas nunca 619
pensei que fosse algo assim. Durante uns tempos só entrou a minha reforma, até ela 620
conseguir encontrar um part-time noutro lado, mas já sentíamos algumas dificuldades. 621
Entretanto o filho dela, que já havia voltado a consumir, começou a aumentar cada vez 622
mais as doses, a roubar e ser agressivo. Nisto, nessa semana ele tem de ser assistido no 623
hospital, porque estava em consumo excessivo, em risco de overdose. Quando ele vem 624
para casa, ela decide que quer vender tudo o que puder para o pôr mais uma vez na 625
reabilitação. Uma última vez porque esta era de vez. E desta vez eu não concordei, 626
opus-me logo e disse que não contasse comigo, porque afinal já tinha passado não sei 627
182 por quantas reabilitações e não tinha mudado nada, continuava a querer saber apenas da 628
droga, com ele presente. Começamos a discutir, os tons elevaram-se, e lembro-me dela 629
dizer nos seus argumentos que uma mãe no desespero, por um filho, que era capaz de 630
tudo. Eu contradisse, disse que mesmo assim tinha de haver limites, e de discussão 631
passou a gritaria. Ela começou a dizer que esta era de vez, que ia vender tudo, que não 632
queria saber, que tinha de ajudar o filho, que eu tinha de compreender, que eu tinha de a 633
ajudar e como lhe fiz frente… ela agrediu-me. Voltei a ser vítima de violência 634
doméstica pela segunda vez. A cair na mesma esparrela. E a culpa era toda minha. 635
Tentei defender-me, a dizer que ia chamar a polícia, que não tolerava aquilo na minha 636
casa, e ela começou a gritar que aquilo não era minha casa mas sim a nossa casa, e que 637
eu não a podia impedir, que tinha de a ajudar, porque o filho podia morrer se não fosse 638
ajudado como deve de ser e de vez, e que eu não podia impedir, que não ia impedir, e 639
que tinha de compreender, e começou a agredir-me violentamente ao mesmo tempo que 640
me pedia desculpa e que me pontapeava, e ainda me lembro de chamar o filho. Depois 641
disso já só me lembro de acordar no hospital. Explicaram-me que como levei uma tareia 642
muito grande e que como estava muito combalida dos problemas de saúde que tive, que 643
tinha várias zonas do corpo afectadas gravemente, como os rins, por exemplo, e que 644
como estava muito agitada, que não podia sair do hospital. Estive induzida em coma 645
durante 4 dias para o corpo recuperar minimamente e eu sem nada poder fazer, que só 646
queria voltar para casa para impedir alguma desgraça que ela pudesse fazer. E que fez. 647
Ah, neste processo, fiz amizade com a segunda enfermeira de que lhe falei no início. 648
Recorda-se? Aquela mais novinha. 649