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2. ESTUDO DAS PAISAGENS DAS ENCOSTAS SOB A ÓTICA DA ABORDAGEM

2.2 NUANCES HISTÓRICAS DO CONCEITO DE PAISAGEM

Desde o século XIII até a contemporaneidade, a Geografia apresentava e ainda apresenta diversas correntes de pensamento geográfico que deixaram uma vasta herança como discurso ordenador do mundo, a partir de estudos e análises das formas operadas pela natureza e pelo homem, buscando explicar suas conexões. Para tanto, o geógrafo também vem fazendo o uso de diferentes categorias ou unidades de análise espacial denominadas de espaço, região, território, lugar e paisagem, as quais lhes dão maior suporte para a compreensão do objeto que se pretende estudar.

Tradicionalmente, a paisagem tem sido escolhida como objeto de observação e de estudo da Geografia Física. Dentro desse contexto, Nascimento e Sampaio (2004/2005, p. 167) entende que a Geografia Física é

O estudo da organização espacial dos geossistemas, de vez que essa organização se expressa pela estrutura conferida pela distribuição e arranjo espacial dos elementos que compõem o universo do sistema, os quais são resultantes da dinâmica dos processos atuantes e das relações entre os elementos.

O estudo integrado na Geografia não é algo recente, Guerra e Marçal (2006) Freitas e Cunha (2004) e Freitas (2002), sinalizam que a Geografia tem a sua formação diretamente relacionada com a busca de uma visão integrada entre a natureza e a sociedade. No contexto, podem ser elencados exemplos de obras consagradas nas escolas geográficas clássicas da Alemanha, França e Rússia respectivamente aos seus autores: Humboldt e a influência romântica da Natur Philosophie; Reclus e Sorre, com o uso de métodos ecológicos de análise e Vernadsky na Ciência da Paisagem com suas noções de biosfera e noosfera. Deve-se ressaltar que é a partir dos anos 60 e 70 do Século XX que a construção de um conhecimento mais conjuntivo, tomando como base uma abordagem sistêmica, com o objetivo de promover uma análise integrada do espaço geográfico, toma força.

32 Neste sentido, a Geografia tem se encarregado de fazer este tipo de estudo que abarca variáveis físicas, ecológicas e sociais, elegendo a categoria paisagem como objeto de aplicação para os estudos com métodos sistêmicos (CUNHA e FREITAS, 2004). Partindo do conceito de sistema, chega-se ao conceito de geossistemas, os quais podem ser definidos como formações naturais que experimentam o impacto dos ambientes: social, econômico e técnico. Segundo Penteado (1978, p. 155) “este é o conceito mais amplo de geossistemas”. Ross, chama a atenção para a origem da base teórica do conceito de geossistema ao expor que

O suporte teórico de geossistema, tanto para os russo-soviéticos como para os franceses, está na noção de “paisagem ecológica”, introduzida por Troll a partir do final da década de 1930 e na ampliação do termo e conceito de ecossistema de Tansley em 1935, que se desenvolveram nas décadas de 1940/1950 e alavancaram a Geografia Física dos russos e franceses nas décadas seguintes (ROSS, 2006, p. 28).

Autores como Bertrand (1971), Tricart (1977), Bólos (1981), Rougerie e Beroutchachvili (1991), Christofoletti (1999), entre outros apontam que, para os estudos de Geografia Física, nos últimos anos, a visão geossistêmica como abordagem metodológica, vem-se evidenciando como seu objetivo fundamental, considerando que os geossistemas correspondem a fenômenos naturais (fatores geomorfológicos, climáticos, hidrológicos e vegetação). Porém, englobando os fatores econômicos e sociais, que, juntos, representam a paisagem modificada, ou não, pela sociedade. Nessa linha de raciocínio, Nascimento (2004/2005, p. 168) contribui, afirmando que “o estudo geossistêmico considera os subsistemas naturais e todas as influências dos fatores socioeconômicos. Atua ainda em planejamentos (territoriais e regionais), no planejamento socioambiental e também no ensino”.

O geossistema apresentado por Sotchava, na antiga União Soviética no início da década de 1960, marca um novo período de análise sobre a paisagem. De acordo com Cunha e Freitas (2004, p. 90), os geossistemas para Socthava são “unidades espaciais integrando os aspectos físicos, ecológicos e sociais da paisagem, com uma dinâmica relacionada aos fluxos termodinâmicos de matéria e energia”. Todavia, houve críticas sobre a definição de Socthava para o geossistema, por conta do caráter pouco dialógico e, sobretudo, pela ausência de uma maior precisão espacial (NASCIMENTO, 2004/2005). Os geossistemas foram divididos em duas categorias, “os geômeros, quando definem espaços territoriais homogêneos, e os geócoros, que definem espaços territoriais com conjuntos de unidades heterogêneas” (ROSS,

33 2006, p. 26), Em suma, o termo geossistema não apresenta escala de grandeza definida, podendo ser aplicado em qualquer das dimensões de análise. Neste sentido, Nascimento (2004/2005), corrobora dizendo que de forma geral, Sotchava os conceituou em homogêneos ou diferenciados em três níveis: planetário, regional e topológico, de sorte que qualquer desses níveis pode ser chamado de geossistema, sem maiores critérios. Quanto às categorias, são inter-relacionadas, mas também, ponto a ponto, autônomas.

A outra corrente de pensamento ligada aos estudos do geossistema, pertencente à escola francesa, focaliza o geossistema de forma diferente da escola russa, considerando o geossistema como um nível na escala espaço-temporal da análise das paisagens, sendo esta, por sua vez, resultante da integração de seus elementos. Este estudo foi adaptado em 1972 por Bertand, ao caso francês, inserindo-se unidades taxonômicas de escala mais compatível a influência humana (CUNHA e FREITAS, 2004). Segundo Bertrand (1971), geralmente o geossistema é formado de paisagens diferentes que representam estágios de sua evolução.

É bom frisar que na versão de geossistema proposta pelo biogeógrafo Georges Bertand, ele não eliminou o que havia sido pensado por Sotchava, mas acrescentou novos elementos que o consolidou. Neste sentido, Nascimento (2004/2005, p. 169) diz que

(...) Bertrand otimiza o conceito de Sotchava e dá à unidade geossistêmica conotação mais precisa, estabelecendo uma tipologia espaço-temporal compatível com a escala socioeconômica, enfocando os fatores biogeográficos e socioeconômicos enquanto seus principais conformadores, além de considerar a teoria da bio-restasia do pedólogo alemão Erhart, relacionando a evolução dos solos à cobertura vegetal e às condições de evolução do relevo e seus respectivos processos adjuntos.

Numa busca de sintetizar a paisagem, Bertrand estabeleceu um sistema taxonômico para o geossitema, classificando-o em função da escala. Essa classificação é composta por seis níveis, os quais de acordo com Bertand (1971) foram subdivididos em unidades superiores (zona, domínio e região) e unidades inferiores (geossistema, geofácies e geótopo). “Sendo o geossistema proporcionado pela dinâmica entre o potencial ecológico, exploração biológica e ação antrópica” (NASCIMENTO, 2004/2005, p. 169). Ressalte-se, que mesmo havendo uma hierarquia, não há exatidão da dimensão de cada unidade, variando conforme a escala de tratamento do espaço e do tempo estudados em cada caso (PISSINATI e ARCHELA, 2009).

34 É, inicialmente, por meio de Bertrand, que o Brasil, em 1971, passa a ter conhecimento do conceito de geossistema, através de sua obra intitulada “Paisagem e Geografia Física Global: esboço metodológico” (PISSINATI e ARCHELA, 2009 e ROSS, 2006). Esta “obra foi traduzida pela professora Olga Cruz, do departamento de Geografia da Universidade de São Paulo” (PISSINATI e ARCHELA, 2009, p. 6) e causou forte impacto nos estudiosos da Geografia brasileira, sobretudo, “pela deficiência dos conhecimentos prévios que estavam sendo gerados, principalmente, na Alemanha e na ex-URSS” (ROSS, 2006, p. 28).

Bertrand reelaborou seus estudos e, num passado recente, apresentou seus escritos em um curso de extensão no “VII Simpósio Nacional de Geografia Física Aplicada”, realizado na Universidade do Paraná, em Curitiba, no ano de 1997. Sua nova proposta trata a questão ambiental com base em “um sistema conceitual tripolar e interativo: o Sistema GTP – Geossistema, Território e Paisagem” (PISSINATI e ARCHELA, 2009 e ROSS, 2006). Em síntese, trata-se de uma estratégia tridimensional em três espaços e em três tempos.

Além dos estudos geossistêmicos de Bertrand, outra proposta relevante que merece destaque dentro dos estudos com visão sistêmica é a proposta metodológica de Tricart (1965). Expressão máxima da geomorfologia francesa, traduz-se por um manual de pesquisa em geomorfologia, publicado com o título de "Principes et Méthodes de La Geomorphologie”, em que apresenta uma das formas mais antigas de subdividir a paisagem terrestre, classificando o Globo em oito níveis de grandeza espacial. Ele considera as quatro primeiras grandezas como global sob influência da estrutura, enquanto que as demais, como formações regionais diretamente ligadas ao clima, modeladas por erosão e sedimentação (GUERRA e MARÇAL, 2006). Ross (2000, p. 45) salienta que é “um trabalho de grande importância e que jamais poderá ser deixado de lado ao se executar uma pesquisa em geomorfologia”.

As contribuições de Tricart se completam quando ele, em 1997, propõe que a paisagem seja analisada pelo seu comportamento dinâmico. Neste ano, o referido autor publicou no Brasil pelo IBGE a obra intitulada de “Ecodinâmica”, passando a ver a natureza e a sociedade no contexto do entendimento da abordagem integrada, sobretudo para as questões de natureza sob os efeitos da sociedade. Ainda conforme este autor, essa sua postura é

Uma atitude dialética entre a necessidade de análise e a necessidade contrária de uma visão de conjunto, capaz de ensejar uma atuação eficaz

35 sobre o meio ambiente, considerando-a, ainda, o melhor instrumento lógico de que dispõe para estudar os problemas do meio ambiente (TRICART, 1997, p. 19).

O termo ecodinâmica foi tencionado para avaliar as condições de estabilidade/ instabilidade dos ecossistemas e/ou geossitemas. “A Unidade ecodinâmica se caracteriza por uma dinâmica do ambiente e tem repercussões imperativas sobre as biocenoses” (ROSS, 2000, p. 46). Estas são agrupamentos de seres vivos, ligados por uma dependência recíproca, que se mantém por reprodução de maneira permanente. Neste aspecto, vale mencionar que Guerra e Marçal (2006) e Ross (2000) enfatizaram que o conceito de unidade ecodinâmica é integrado no conceito de ecossistema e baseou-se no instrumento lógico de sistemas, enfocando as relações mútuas entre os diversos componentes da dinâmica e fluxos de energia e matéria no ambiente, e, portanto, se diferenciou do inventário estatístico (GUERRA e MARÇAL 2006).

De acordo com o que assinalaram Guerra e Marçal (2006), Ross (2004) e Souza (2000), o componente mais importante da dinâmica da superfície terrestre é o morfogenético, que produz instabilidade e é um fator limitante muito importante no desenvolvimento dos seres vivos. Souza (2000, p. 13) ainda salienta que onde “a morfodinâmica é intensa, a vegetação é pobre e muito aberta, com biomassa reduzida e pouca variedade florística”. Ross (2000) confirma dizendo que a morfodinâmica é elemento determinante no entendimento do processo, o qual depende do clima, relevo, material rochoso, solos, cobertura vegetal entre outros. Guerra e Marçal sintetizam, dizendo que

A análise morfodinâmica de Tricart (1977) baseia-se: (1) no estudo do sistema morfogenético, que é função das condições climáticas; (2) no estudo dos processos atuais, caracterizando os tipos, a densidade e a distribuição e (3) nas influências antrópicas com os graus de degradação decorrentes (GUERRA e MARÇAL, 2006, p. 122).

Por sua vez, outro componente a ser considerado como salienta Souza (2000) é o pedogenético, que conduz a uma evolução dos solos, permitindo o alcance de condições ligadas à biostasia ou à fitoestasia. Devem-se considerar também as influências antrópicas e os níveis de degradação que daí decorrem. É bom frisar que “a atuação do homem como ser racional e como agente econômico gerador de riquezas, normalmente, ao intervir no ambiente natural, afeta de imediato a cobertura vegetal” (ROSS, 2000, p. 47). Ressalta-se que a vegetação exerce diversas funções, as quais estão relacionadas desde o nível da baixa

36 atmosfera até ao nível do solo. A este despeito será destacado apenas a sua função ao nível do solo, fazendo o uso das palavras de Ross (2006, p. 41/42) quando ele descreve o seguinte

No nível do solo, a presença da cobertura vegetal densa, com vários extratos vegetais, favorece o processo de infiltração da água no solo e proporciona funcionamento de matéria orgânica vegetal, que contribui com a pedogênese, ao mesmo tempo protegendo o solo contra processos erosivos laminares e lineares. A inexistência da cobertura vegetal, além de condicionar a infiltração das águas pluviais no solo, contribuindo para o seu ressecamento, favorece ao escoamento superficial, facilitando a atividade erosiva.

Pelo excerto acima, vislumbra-se o quão importante é o papel da vegetação na cobertura do solo, mas faz refletir também o quanto cada vez mais o homem vem alterando as paisagens vegetais.

Partindo do princípio de que “o ambiente natural apresenta uma dinâmica que causa alterações, frequentemente imperceptíveis aos olhos humanos, e que isso pode se processar em diferentes velocidades – de forma harmoniosa ou catastrófica –” (ROSS, 2000, p. 48), Tricart estabeleceu meios ecodinâmicos em função do balanço entre a morfogênese, e pedogênese classificando-os em três categorias, a saber: meios estáveis, meios “intergrades” ou de transição e meios fortemente instáveis. Estes, de modo sintetizado, possuem as seguintes características

Unidades ecodinâmicas estáveis – nesse caso, a noção de estabilidade está associada ao modelado, na interface litosfera-atmosfera. Evolui lentamente, sendo dificilmente perceptível. Os processos mecânicos atuam de forma tênue e com lentidão. As condições aproximam-se daquelas que os fitoecólogos designam como estado de clímax;

Unidades ecodinâmicas intergradas – correspondem a áreas de transição entre meios estáveis e instáveis. Essa passagem do estável para o instável ou vice-versa é apresentada porque na natureza não há um corte abrupto de uma situação para outra. O que caracteriza esses meios é a interferência permanente da morfogênese-pedogênese, exercendo-se de maneira concorrente em um mesmo espaço;

Unidades ecodinâmicas fortemente instáveis – nesses meios, a morfogênese é o elemento predominante na dinâmica natural e o fator determinante do sistema natural, ao qual outros elementos estão subordinados. Essa situação pode ter diferentes origens e são suscetíveis de se combinarem entre elas. A geodinâmica interna intervém em numerosos casos, em particular no vulcanismo com efeitos mais rápidos do que nas demais atividades tectônicas. A cobertura vegetal também intervém, introduzindo influência climática, produzindo-se, por isso, instabilidade onde as condições climáticas são mais instáveis, como, por exemplo, em regiões áridas e semi- áridas. Também as intervenções humanas promovem a brusca ativação

37 morfodinâmica e contribuem para o desencadeamento de processos erosivos agressivos com rápida degradação dos solos (ROSS, 2006, p. 42/43).

O uso dessa proposta de Tricart requer que se faça obrigatoriamente um inventário do quadro ambiental, seja ele no seu aspecto natural ou antropizado. “Esse inventário se traduz, objetivamente, em um diagnóstico, à medida que as suas informações inventariadas são confrontadas e avaliadas integralmente” (ROSS, 2000, p. 49).

Com a maturidade de sua concepção, Tricart, em 1992, lança em co-autoria com Conrad Kiewietdejonge, uma obra denominada de Ecogeografia e meio rural. Nesta obra, o autor não perdeu de vista as suas contribuições anteriores, ampliou o seu entendimento acerca da relação sociedade-natureza e elaborou o conceito de Ecogeografia. Em seu conceito pode- se distinguir três âmbitos de organização do ambiente, conforme apresenta Ross (2006, p. 43):

- a organização da matéria – caracterizado pelo arranjo das partículas que as compõe (estado físico da matéria);

- a organização da vida que envolve uma disposição para reprodução, acompanhada por uma tendência de crescimento e organização de um conjunto de formas, o reverso de coisas materiais (seres vivos);

- a organização social é baseada na criação de formas de organização social e econômica a partir de uma base cultural (socioeconômica).

Os níveis apresentados são caracterizados por estruturas suportadas pelas forças específicas. Conforme relata Ross (2006, p. 43) “os níveis organizacionais pressupõem certa harmonia funcional”. Essa harmonia é baseada na interdependência que se estabelece entre elementos da natureza, elementos da sociedade e entre a sociedade e a natureza.

As obras de Tricart e Bertrand tornaram-se de grande valia nos estudos integrados do ambiente, servindo como base para os estudos desenvolvidos em Geografia Física e ciências afins. O caráter metodológico, apresentado a partir da visão sistêmica, facilitou e incentivou os estudos integrados das paisagens.