CAPÍTULO 3 – Instrumentos, processos e ações: da fonte documental à
3.2 O acompanhamento das atividades dos alunos
Uma das ações que também merece destaque neste processo de (re)organização das atividades na escola é o acompanhamento das atividades dos alunos. Em 2008, como parte do planejamento de atividades de estudo em HTPC e de registro do semanário, relatei que acompanharia mensalmente as produções desenvolvidas pelos alunos.
Inicialmente, senti que os professores estranharam tal ação, mas enfatizei que, como coordenadora da Rede Municipal de Marília, uma de minhas atribuições era analisar o processo de desenvolvimento dos alunos, através das atividades. Ressaltei que os registros e acompanhamento das atividades forneceriam indícios para repensarmos o trabalho em sala de aula, auxiliando os alunos na realização das propostas.
A ação de impor a utilização de uma ficha de acompanhamento e o ato de ler as atividades dos alunos representavam, de certa forma, um mecanismo de controle do trabalho pedagógico realizado na escola. A avaliação é instrumento de construção e de desenvolvimento das potencialidades, bem como instrumento de orientação das ações. No entanto, se coloca como instrumento de maior visibilidade, mais controle, mais perseguição. Esse é um dos motivos por que os professores nem sempre estão dispostos a avaliação (LIMA, 2005). No processo de avaliação das atividades, os professores são avaliados. O eu (professor) coloca-se frente a um outro (Orientador Pedagógico) que pode tecer considerações sobre seu trabalho em função da experiência e da posição ocupada.
Em 2008 a ação de analisar as atividades ficou extremamente centrada em mim. Agendava as datas de entrega, alternando as propostas de escrita e de matemática, priorizando o Ensino Fundamental. Estas eram verificadas e, concomitantemente, registrava considerações sobre cada aluno e sobre o desenvolvimento geral da turma.
Este procedimento causou espanto, pois os professores consideravam extraordinária a atitude de uma orientadora ler textos de cada aluno. Conforme analisava as atividades de cada turma, registrava orientações e sugestões aos
professores, buscando auxiliá-los no planejamento de intervenções que possibilitassem o avanço nas produções escritas. Alguns professores desconsideravam os apontamentos, contudo havia aqueles que observavam neste procedimento uma oportunidade de interlocução e (re)organização do trabalho pedagógico. A partir do diálogo com cada professor, subsidiado pela verificação dos registros de cada turma, traçávamos algumas propostas que estavam articuladas ao movimento de estudo em HTPCs.
O acompanhamento das atividades dos alunos nos ajuda no planejamento das propostas, porque você vê algumas coisas que sozinha não consigo ver. (P29) Precisamos conversar sobre o que você colocou sobre os textos. Tem coisa que nem tinha percebido. (P31)
Esses relatos apontam um novo olhar sobre o trabalho de acompanhamento das atividades dos alunos. A interlocução e o processo de observação sobre a aprendizagem de cada aluno adquirem novo significado e sentido, a partir dos modos de participação dos sujeitos (BRAGA, 2002). Os professores reconhecem nessa ação a possibilidade de (re)organizar o trabalho e (re)pensar a atividade com cada aluno.
O acompanhamento representou umas das vertentes planejadas para repensarmos as ações de sala de aula e, por isso, ao final de 2008 os professores de Educação Infantil apontaram a necessidade de estendê-lo a essa modalidade de ensino: “a gente acha que você também poderia pegar as atividades dos nossos alunos, porque assim vai nos ajudar também”. (P17)
Dessa maneira, em 2009, sistematizei uma ficha de acompanhamento dos desenhos desenvolvidos pelos alunos de Educação Infantil, dando continuidade ao processo de análises das atividades dos demais alunos da escola. Durante este ano, solicitei que os professores também realizassem a observação de cada proposta, a fim de traçarmos pontos em comuns e divergentes neste processo. Todavia, nem todos os professores procediam dessa maneira e as análises continuavam centradas em minha atuação.
Foi somente no início de 2010 que as análises passaram a ser sistematizadas pelos professores, uma vez que organizei uma nova maneira de realizarmos os acompanhamentos. Além das devolutivas sobre cada proposta entregue à orientação pedagógica, priorizamos encontros bimestrais com cada professor, denominados “pré-
conselhos”. Nestes, cada professor deve apresentar as considerações sobre o desenvolvimento da turma, que são relacionadas às considerações da orientadora pedagógica, com a finalidade de planejamento de estratégias. Essa nova forma de organização possibilitou acompanhamento sistematizado por parte dos professores. Alguns, inclusive, elaboraram novas maneiras, utilizando gráficos e símbolos que apontam os avanços e as oportunidades de melhoramento.
Outra questão importante a ser destacada sobre os acompanhamentos é a análise das atividades de matemática. Em 2008, mesmo solicitando algumas propostas dessa área, foi possível perceber uma ênfase maior na produção de texto. No ano posterior, tentei equilibrar o acompanhamento das duas áreas, mas é possível perceber que foi somente em 2010 que conseguimos “padronizar” os parâmetros de análise na área de matemática, procedendo a acompanhamentos mais direcionados que oportunizaram reflexões sobre o trabalho, articulando-as aos estudos em HTPCs voltados para resolução de problemas.
O acompanhamento das atividades dos alunos está relacionado ao movimento de (re)organização do trabalho docente e de constituição dos sujeitos. Através do diálogo e da interlocução, as fichas puderam ser utilizadas como possibilidades de (re)elaborar a ação pedagógica, a partir dos critérios que os alunos apresentavam maiores dificuldades. Assim, a (re)construção do trabalho foi mediada pelo ato de compartilhar com um outro (Orientadora Pedagógica) os resultados e os registros produzidos em sala de aula.
Reporto-me a BAKHTIN (1997) quando cita o inacabamento do sujeito e a necessidade estética do outro, numa relação dialógica. Os lugares ocupados e as relações estabelecidas oferecem oportunidades de repensar as ações, os modos como os indivíduos se constituem como sujeitos na dinâmica interativa.
Os professores, através dos relatos “não tinha percebido”, “agora que você
registrou que eu vi”, remetem à ideia de excedente de visão. O outro, possuindo um
excedente de visão em relação a mim, me diz e me completa naquilo que não vejo. O outro fornece aquilo que do lugar particular que ocupamos não pode ser apreciado (LIMA, 2005).
Na medida em que as fichas de acompanhamento foram representando possibilidades de revisão do trabalho e (re)planejamento de atividades, constituíram-se como instrumento. As análises dos critérios de acompanhamento ampliaram as possibilidades de ação e transformação no/do trabalho realizado em sala de aula, permitindo novos procedimentos de intervenção com os alunos. Situações de revisão coletiva, análise de textos dos alunos e discussão sobre estratégias de resolução de problemas também foram inseridas nos semanários, por intermédio das reflexões compartilhadas a partir das observações das atividades desenvolvidas pelos alunos.
O trabalho de acompanhamento configurou-se como complexo e multifacetado, devido às diferentes concepções. Por vezes houve contradição nas avaliações, que representou possibilidades de diálogo, entrecruzamento de ideias e confronto de concepções. O ato de implantar as fichas de análises trouxe impactos ao trabalho docente e à organização da escola. São elas que nos permitem um olhar abrangente sobre as situações de ensino e aprendizagem dos alunos, sobre a efetivação do planejamento das atividades e, também, direcionam o trabalho (da escola, da orientadora pedagógica, dos professores), a partir das observações e interpretações.
Destaco que análise das atividades dos alunos é reveladora e fecunda em termos de avaliação do trabalho do professor. Mas este é um tema a ser refletido e ampliado, posteriormente, em outros trabalhos.
3.3 Hora de Trabalho Pedagógico Coletivo: contexto de estudo, compartilhar