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O agricultor familiar no Brasil

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2. REVISÃO DE LITERATURA 1 A Inovação Tecnológica Rural

2.3. A Cadeia do Leite

2.4.2. O agricultor familiar no Brasil

A terminologia sobre agricultura familiar no Brasil não pode ser definida como um conceito, uma vez que não há uma concordância comum que a mesma teria em comparação ao diferente conceito da agricultura em geral, como observa o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA (2000, p. 10):

“Existe uma multiplicidade de metodologias, critérios e variáveis

para construir tipologias de produtores. Nenhuma dela é inteiramente satisfatória em parte, porque o comportamento e a racionalidade dos vários tipos de produtores respondem a um conjunto amplo e complexo de variáveis com peso e significado diversos de acordo com o contexto, e em parte devido às dificuldades de aplicação empírica de tipologias conceituais que levam em conta um número grande de variáveis [...]”.

No entanto, conforme Souza (2007) existem características comuns, que podem ser observadas como sendo igual às propriedades familiares brasileiras, em maior ou menor grau, tais como: a utilização do trabalho da família na propriedade (residindo inclusive), o tamanho reduzido da propriedade (quando comparado ao aspecto fundiário brasileiro) e a renda obtida mensalmente para subsistência da propriedade e da família.

Ocorre que, os agricultores familiares não se diferenciam apenas em relação à disponibilidade de recursos e capacidade de geração de renda e riqueza. Também se diferenciam em relação às potencialidades e restrições associadas tanto à disponibilidade de recursos e de capacitação ou aprendizado adquirido, como à inserção ambiental e socioeconômica que podem variar radicalmente entre grupos de produtores em função de um conjunto de variáveis, desde a localização até as características particulares do meio ambiente no qual estão inseridos (SOUZA, 2007).

Para Guanziroli et al. (2001) os agricultores familiares não se diferenciam apenas em relação ao tamanho da terra e capacidade de produção, mas também em relação às condições de acesso à tecnologia, infraestrutura e nível de organização.

60 Assim, em 2006, veio a consolidação atual do conceito de “agricultor familiar” com a Lei n. 11.326. A agricultura familiar foi assim definida:

Art. 3º. Para os efeitos desta Lei, considera-se agricultor familiar e empreendedor familiar rural aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos:

I – não detenha, a qualquer título, área maior do que 4 módulos fiscais84;

II – utilize predominantemente mão de obra da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento; III – tenha renda familiar predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento85;

IV – dirija seu estabelecimento ou empreendimento com sua família. Seguindo na mesma linha, no Brasil, muitas terminologias foram empregadas historicamente para se referir ao agricultor familiar: camponês, pequeno produtor, baixa renda, lavrador, agricultor de subsistência. A substituição de termos obedece, em parte, à própria evolução do conceito do contexto social e às transformações sofridas por esta categoria, mas é resultado também de novas percepções sobre o mesmo sujeito social (IICA, 2007).

Conforme se pode verificar na tabela 19, o Censo Agropecuário 1995/1996 registrou 4.859.865 estabelecimentos rurais que ocupavam uma área de 353,6 milhões de hectares e foram responsáveis, naquela safra, pela geração de um Valor Bruto da Produção - VBP Agropecuária próximo a R$48 bilhões. Do total de estabelecimentos, 85,2% enquadrava-se na categoria de agricultores familiares. Esses estabelecimentos familiares ocupavam uma área de 107,8 milhões de hectares (30,5% da área total) e responderam pela geração de R$18,1 bilhões do VBP (37,9%). Os agricultores patronais eram titulares de 554.501 (14,8%) estabelecimentos e ocupavam 240 milhões de hectares.

No Censo Agropecuário 2006 houve um registro de 5.204.130 estabelecimentos rurais, ocupando uma extensão de 330 milhões de hectares, gerando um VBP de aproximadamente a R$144 bilhões. Deste número total de estabelecimentos rurais, 84% é constituído pelos agricultores familiares, ocupando uma área menor de 80,3 milhões de ha (24% da área total) e que responderam pela geração de R$54,4 bilhões do VPB (38%). Houve um pequeno aumento na participação dos agricultores patronais para 16% com 807.587 estabelecimentos rurais.

84 Modulo fiscal é uma medida de área expressa em hectares, fixada para cada município pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agraria (INCRA) por meio da Lei 6.746/79, levando-se em conta alguns fatores, tais como, a exploração predominante no município e sua renda obtida na exploração econômica. Corresponde a área mínima que uma propriedade deve possuir para que sua exploração seja economicamente viável. A depender do município um módulo varia de 5 até 110 hectares. Para o Rio de Janeiro os limites dos módulos vão de 5 a 35 contando com a variação de cada módulo fiscal entre 5 e 10 hectares.

85 O governo alterou o conceito de agricultura familiar. É permitida a chamada pluriatividade cujas atividades “não agrícolas” sejam exercidas fora do estabelecimento rural inserido no Manual de Crédito Rural em 2011.

Tabela 19: Dados comparativos da agricultura familiar entre censos. Censo Agropecuário 1996 % Censo Agropecuário 2006 % Total de estabelecimentos rurais 4.859.865 100 5.204.130 100 Área ocupada (milhões de hectares) 353,6 100 330 100 Valor Bruto da Produção (bilhões de reais/ano) 48 100 144 100 Agricultores familiares 4.139.369 85,2 4.367.902 84 Área ocupada (milhões de hectares) 107 30,5 80,3 24 Valor Bruto da Produção (bilhões de reais/ano) 18,1 37,9 54,4 38 Pessoal Ocupado* 13.780.201 76,5 13.048.855 78,5

Fonte: *FAO/INCRA – Censo Agropecuário (1995/1996 e 2006) acessado em http://www.bb.com.br/docs/pub/siteEsp/agro/dwn/CensoAgropecuario.pdf

Alguns produtos básicos como feijão, arroz, milho, hortaliças, mandioca e pequenos animais chegam a ser responsáveis por 60% da produção. Em geral, são agricultores com baixo nível de escolaridade que diversificam os produtos cultivados para subsistência, para diluir custos, aumentar a renda e aproveitar as oportunidades de oferta ambiental e disponibilidade de mão de obra. Este setor da agricultura está relacionado com a multifuncionalidade, que além de produzir alimentos e matérias primas, gera mais de 80% da ocupação no setor rural e favorece o emprego de práticas produtivas ecologicamente mais equilibradas (IICA, 2007).

Segundo os dados do Censo Agropecuário 1995/1996, embora ocupasse apenas 30% da área total, a agricultura familiar era a principal fonte de postos de trabalho no meio rural brasileiro, sendo responsável pela ocupação de 13,7 milhões das 17,9 milhões de pessoas então ocupadas na agricultura brasileira, equivalente a 76,5% do total de pessoal ocupado, sendo a grande maioria integrada por membros da família dos agricultores. No censo de 2006, a ocupação foi de 13 milhões de postos de trabalho em um universo de 16,3 milhões de trabalhadores no setor rural nacional aumentando para 78,5% a participação da agricultura familiar na composição da mão de obra no setor agropecuário brasileiro.

Ainda assim, não se pode afirmar que este segmento tenha sido totalmente reconhecido como prioridade pelo governo do Brasil, visto que a agricultura patronal tem concentrado, nos últimos anos, mais de 70% do crédito disponibilizado para financiar a agricultura nacional (IICA, 2007).

Os resultados da classificação dos estabelecimentos segundo a Lei n. 11.326 também confirmaram a importância da agricultura familiar na garantia da segurança alimentar (tabela 20) abastecendo os produtos típicos de consumo no mercado interno totalizando 58% da produção de leite nacional. O resultado evidencia o papel estratégico da agricultura familiar para controle da inflação nos preços do leite e dos alimentos em geral, ao mesmo tempo em que os problemas de produção, fornecimento e qualidade do leite derivam em grande parte na origem produtiva de um modelo familiar. Vale lembrar que o leite está presente em um em cada três estabelecimentos classificados como sendo da agricultura familiar (INCRA, 2000), o que demonstra sua importância para esse segmento dos produtores.

Portanto, o universo diferenciado de agricultores familiares brasileiros está composto de grupos de interesses particulares, estratégias próprias de sobrevivência e de produção, que

62 reagem de maneira diferenciada a desafios, oportunidades e restrições semelhantes e que, por isto, demandam tratamento compatível com as diferenças.

Tabela 20: Participação da agricultura familiar na produção de alguns produtos, segundo a classificação da agricultura familiar, Lei. N°. 11.362 (2006).

Cultura Agricultura Familiar % Não Familiar %

Mandioca 87 13 Feijão 70 30 Milho 46 54 Café 38 62 Arroz 34 66 Trigo 21 79 Soja 16 84 Leite 58 42 Aves 50 50 Suínos 59 41 Bovinos 30 70

Fonte: elaboração do autor a partir das informações do Censo Agropecuário de 2006. 2.5. O Programa Balde Cheio

2.5.1. A origem

As limitações dos programas de extensão para os agricultores familiares são esclarecidos no exemplo a seguir. No ano de 1997, em uma pequena comunidade da cidade de Quatis86, no Vale do Paraíba Fluminense, um especialista da EMBRAPA Pecuária Sudeste proferiu uma palestra sobre novos métodos de produção, bem como as vantagens econômicas de intensificar a produção leiteira. No final do discurso, um produtor local agradeceu o visitante e lhe perguntou quanto tempo ele pretendia ficar na comunidade, pois ele gostaria de seguir o seu conselho em sua própria fazenda (SOUZA et al., 2011).

O pesquisador da EMBRAPA Pecuária Sudeste, o Engenheiro Agrônomo Dr. Artur Chinelato de Camargo87, respondeu que ele tinha que voltar para o seu trabalho em sua

cidade, portanto não poderia ficar. O fazendeiro então perguntou: "Há mais alguém com esse conhecimento por aqui que pode ajudar-nos a melhorar o nosso sistema de laticínios?" O pesquisador respondeu: "Desculpe, eu não tenho ideia se há alguém na região que tem formação suficiente para apoiá-lo fazer tais mudanças". O fazendeiro respondeu: "Então, por que você veio?” (Isso foi recebido com um breve silêncio). Não havia alternativa, poderia ter pensado. E segue a fala: “Então você vir e dizer-nos que existem várias tecnologias e processos que podem mudar definitivamente a minha vida, mas não há ninguém aqui para me ajudar a fazê-lo. Agora me sinto muito frustrado. Você não deveria ter vindo, colocou o produtor" (FIGUEIRÓ, 2011).

Estas palavras do fazendeiro implicam que o agricultor familiar foi orientado, mas de outra forma tradicional o programa de extensão não funcionou. Foi essa crítica que inspirou uma rede de extensionistas e pesquisadores ligados à EMBRAPA Pecuária Sudeste para estabelecer uma forma alternativa de inovação tecnológica, que trabalha mais de perto com os produtores de leite, e que se destinasse a capacitar os técnicos locais ligados à extensão rural

86 A cidade fluminense de Quatis foi considerada o embrião do projeto.

87 O site do SENAR Rio também faz menção ao episódio relatado por Souza et al. (2011) incluindo o nome do pesquisador e a instituição que faz parte. Disponível: http://sistemafaerj.com.br/balde-cheio acessado em 08 mar 2013.

da região, beneficiando desta maneira os produtores rurais. Este viria a ser o programa Balde Cheio (NOVO, 2012) 88.

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