CAPÍTULO I DESIGN CÊNICO 41
1.1 O ASPECTO DO DESIGN 49
Parte da fundamentação teórica usada para o entendimento da iluminação cênica como campo de aplicação do
design gráfico foi encontrada na obra Sintaxe da Linguagem
Visual, na qual Donis A. Dondis46 (2007) apresenta o conceito de alfabetização visual. Para ela, toda mensagem visual é considerada como forma de comunicação e resulta do cruzamento entre os elementos, técnicas e estratégias visuais. A organização que faz desses conceitos básicos da comunicação visual permite compreender os diferentes níveis de elaboração, compreensão e interpretação de mensagens visuais.
Outra importante descoberta nessa incursão teórica acerca da relação entre teatro e design, sobretudo no âmbito acadêmico, está no trabalho desenvolvido pelo professor Stephen Di Benedetto47, que apresenta de forma precisa a atividade do design trazida para os palcos na atuação da equipe de criação de um espetáculo (BENEDETTO, 2012, tradução nossa). Abordando o conceito geral de design, seus princípios, fundamentos e similaridades com o fazer teatral, fornece um material didático prático e objetivo acerca do design teatral ou cênico, desenvolvido
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Considerando o design gráfico original na transposição de seus conceitos e fundamentos para o universo teatral e as relações com o design cênico (performance design).
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Donis A. Dondis (1924-1984) – Designer e professora americana, formada pelo Massachussets College of Art, lecionou na Escola de Comunicação Pública da Universidade de Boston. Em 1973 publicou o livro A Primer of Visual Literacy, pelo Massachussets Institutre of Thechnology, publicado em seguida pela Editorial Gustavo Gilli com o título La Sintaxis de la Imagen, e no Brasil pela Ed. Martins Fontes como A Sintaxe da Linguagem Visual, cuja 3ª edição foi lançada em 2007 e é considerada referência fundamental em qualquer estudo da comunicação e alfabetização visual. Biografia disponível no site da Editora Martins Fontes: www.martinsfontespaulista.com.br, no site da Universidade da Pensilvânia http://www.personal.psu.edu e no site da Editora Gustavo Gili: http://ggili.com/es, acessados em 16/8/2013.
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Stephen Di Benedetto – Professor associado de História e Teoria do Teatro na Universidade de Miami, nos EUA, especialista em scenography design e os sentidos na performance. É autor do livro The Provocation of the Senses in Contemporary Theatre (2010). Biografia no livro An Introduction to Theatre Design, de sua autoria.
para introduzir a disciplina em cursos de graduação. Nesta obra, o autor não somente apresenta os conceitos e esclarece as teorias, estratégias e ferramentas do trabalho prático do design cênico como também oferece aos leitores depoimentos e estudos de caso que ilustram a atividade do design no teatro, expondo resultados em casos reais e reflexões de profissionais americanos e europeus acerca do fazer teatral.
Benedetto (2012) classifica como atividades do design cênico a cenografia, o figurino, a iluminação e a sonoplastia48, destacando que todos fazem uso dos mesmos princípios e elementos de composição. Depois de apresentar um panorama histórico do design cênico, o autor introduz os elementos e princípios do vocabulário próprio ao pensamento do design para explicar individualmente cada uma das áreas de atuação e os diferentes procedimentos de trabalho dos designers cênicos.
Apesar das divergências e discussões a respeito da terminologia usada para designar, em português, cada uma dessas atividades 49, o importante é compreender que todas concentram, no exercício de criação, muito mais do que apenas conceber os aspectos visuais e sonoros da cena ou executar tecnicamente determinadas tarefas. É no conjunto de todas as ações artísticas e técnicas envolvidas que encontra-se a complexidade da atividade do design, da atuação do designer. Silvio Zamboni (1998) distingue o artista intuitivo do que classifica como artista pesquisador, aquele que tem consciência dos parâmetros teóricos em que atua, reflete cientificamente sobre sua prática e obtém seu trabalho artístico como resultado de seus estudos e pesquisas (p. 52).
Paralela à relação entre teoria e prática encontra-se também a cisão entre arte e técnica. Dondis (2007, p. 8-9) cita o
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Termos traduzidos por mim do original ainda sem tradução: theatre design - design cênico, set design - cenografia, costume design - figurino, lighting design - iluminação e sound design – sonoplastia. Também é possível encontrar, em português, a tradução para cada uma dessas atividades como design de cenário, de figurino, de luz e de som.
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A questão da terminologia foi abordada também em outras passagens desse trabalho dissertativo, como no início desse capítulo e na pág. 122.
tema da falsa dicotomia entre arte e função que acometeu artistas e
designers, no início do século XX, com questionamentos e dúvidas
sobre a função prática da arte e uma possível função estética do design. Igualmente, Vilém Flusser50 (2012) destaca o que chama de desastroso momento histórico em que se desvinculou a técnica e a arte, novamente reunidos, no início do século passado, pelas iniciativas nos domínios do design:
A cultura moderna, burguesa, fez uma
separação brusca entre o mundo das artes e o mundo da técnica e das máquinas, de modo que a cultura se dividiu em dois ramos estranhos entre si: por um lado o ramo científico, quantificável, “duro”, e por outro o ramo estético,
qualificador, “brando”. Essa separação
desastrosa começou a se tornar insustentável no final do século XIX. A palavra design entrou nessa brecha como uma espécie de ponte entre esses dois mundos. E isso foi possível porque essa palavra exprime a conexão interna entre técnica e arte. E por isso design significa aproximadamente aquele lugar em que arte e técnica (e, consequentemente, pensamentos, valorativo e científico) caminham juntas, com pesos equivalentes, tornando possível uma nova forma de cultura. (FLUSSER, 2007, p. 183-84).
Entender que a função e o caráter utilitário ou técnico de uma obra não reduzem, de forma alguma, seu valor artístico ou estético permite comprovar o possível equilíbrio entre as abordagens objetiva e subjetiva da criação. Para Santaella (2005), desde o Renascimento a cultura esteva dividida entre a cultura superior das “belas artes” e a cultura popular. Nesse segundo
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Vilém Flusser (1920-1991) - Filósofo, escritor e jornalista tcheco-brasileiro, autor do livro O mundo codificado. Judeu, estabeleceu-se no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, onde foi membro do Instituto Brasileiro de Filosofia . Seu pensamento, na origem marcado pela influência de Heidegger, fundava- se no existencialismo e na fenomenologia. Desenvolveu o que foi chamado de filosofia do design, tendo elaborado uma teoria da comunicação, tema recorrente em suas conferências. Biografia disponível no site Flusser Studies: http://www.flusserstudies.net/pag/flusser.htm e no página da Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Vilém_Flusser, consultados em 12/12/2013.
grupo estaria o artesanato, as manufaturas utilitárias e os artefatos cotidianos. Nas primeiras décadas do século XX, as vanguardas estéticas desencadearam “um alargamento crítico das categorias da arte que teve seu prosseguimento no desmantelamento das fronteiras entre arte e não-arte, arte e cultura popular [...]. Esse período, agitado pelo desfile incessante de novas tendências, foi acompanhado pela intensificação do acesso dos artistas às tecnologias de comunicação” (SANTAELLA, 2005, p. 12-3) nos chamados meios de comunicação de massa. Foi também nesse mesmo período que a escola alemã da Bauhaus introduziu o conceito de design e promoveu a reconciliação entre a arte e a técnica.
Paradoxalmente, diferentes estudos da história do teatro demonstram quando, na transição do século XIX para o século XX, em que os avanços tecnológicos permitiram que a visualidade do espetáculo adquirisse novas funções simbólicas e informativas aliadas ao desempenho estético. Isso elevou o espetáculo e suas linguagens ao status de “obra de arte”, sem contudo eximi-lo do aspecto técnico ou simbólico. Surgiu, com isso, o entendimento e a análise do espetáculo teatral como meio de informação e comunicação, que Béatrice Picon-Valin51 (2013) denomina “teatro da visão”. O teatro da visão, para ela, é o teatro do pensamento numa forma sensível, em constantemente processo de pesquisa, “capaz de superar a palavra que, além do mais, também utiliza” (PICON-VALIN, 2013, p. 133). A encenação se torna uma manifestação artística una e indissolúvel que constitui, além da obra poética, o resultado das habilidades técnicas do criador. Segundo Picon-Valin, “hoje em dia não se busca mais dar ao público a impressão de que ele vê o que está ouvindo, mas busca- se fazê-lo ouvir o que lhe é dado a ver.” (p. 133). O teatro passa a exigir, no processo de criação que aspira ao de recepção, domínio
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Béatrice Picon-Valin (1946- ) – Professora e pesquisadora francesa, é diretora de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e diretora das coleções Arts du Spectacle (CNRS, Paris), thXX (L’Âge d’Homme, Lausanne) e Mettre en Scène (Actes Sud-Papiers, Arles). Professora de história do teatro entre 1999 e 2008 e especialista em teatro do século XX, sua pesquisa abrange o teatro russo e as questões relativas à encenação. Biografia do livro de sua autoria (2013).
sobre a percepção, a interpretação e a comunicação, todos focos de estudo e interesse do design.
Do diálogo literário com todos esses autores que compartilham da acepção da iluminação cênica como atividade do
design e das reflexões decorrentes, entendo que exercer o design
no teatro é fazer escolhas e tomar decisões, buscando na cisão entre criação e recepção as razões e as justificativas para cada uma delas. Considero, assim, cada elemento do espetáculo como instrumento de linguagem que deve ser elaborada por um designer e experenciada pelo espectador. Além disso, a retomada da boa relação entre artes e ofícios agrega as habilidades e o conhecimento das técnicas, materiais e processos ao labor de cada especialidade do design cênico. No desenvolvimento das diferentes configurações de conteúdo e procedimento metodológico para o ensino da iluminação cênica, procurei sempre traçar um paralelo entre os embasamentos teóricos do design e os recursos técnicos da iluminação cênica.