PRECATÓRIA
2.9 O ASSISTENTE TÉCNICO DO MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL
Da mesma forma que as partes podem recorrer à assessoria de seus assistentes técnicos na legitimação de seus interesses em um processo judicial, o Ministério Público Estadual também mantém em seus quadros funcionais psicólogos na função de assistentes técnicos da Promotoria de Justiça das Varas da Família e das Varas de Infância (em âmbito civil) e das Varas Criminais e Especiais (em âmbito criminal).
O Ministério Público é uma instituição permanente vinculada ao Poder Executivo, que, conforme art. 127 da CF/88 é “essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis”. É formada por Procuradores e Promotores Federais e Estaduais de Justiça. Sua fundamentação e atribuições constitucionais estão previstas nos arts. 127 a 130 da CF/88, bem como a Lei nº 8.625/93, que dispõe acerca de normas gerais para sua organização.
Segundo EVANGELISTA, PEREIRA, TAVARES e MENICHETTI (1999), o Ministério Público trabalha na defesa dos direitos da sociedade, atuando também como um fiscal da lei e do exercício do poder, e velando pelo uso efetivo das garantias constitucionais no cotidiano das pessoas, com a preocupação de alargar o acesso dos cidadãos à Justiça, conforme art. 129 – II – CF/88, a saber:
“Art. 129 – CF/88. São funções institucionais do Ministério Público: [...]
II – zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos e dos serviços de relevância pública aos direitos assegurados nesta Constituição, promovendo as medidas necessárias a sua garantia;
[...].”
A Área de Saúde – na qual os psicólogos se inserem, prestando serviços de prevenção e terapia médica e psicológica, além de serviços de apoio técnico ao CAEX (Centro de Apoio de Execuções) – foi criada mediante o Ato 146/98 da Procuradoria-Geral de Justiça do Estado de São Paulo.
Segundo EVANGELISTA, PEREIRA, TAVARES e MENICHETTI (1999), o trabalho dos psicólogos abrange as seguintes modalidades:
1.Assessoria técnica às Promotorias: o psicólogo é designado para participar da perícia do juízo para acompanhar, analisar e criticar a perícia, auxiliar na interpretação de laudos psicológicos para facilitar a compreensão da linguagem técnica aos profissionais jurídicos, consultoria e orientação aos promotores em assuntos da Psicologia Jurídica.
2.Assessoria técnica à Procuradoria: o psicólogo oferece suporte técnico para a avaliação psicológica dos promotores e a elaboração de seu perfil profissiográfico, indicando características
de personalidade importantes que devem possuir aqueles que almejam ingressar nesta carreira, além de sugerir instrumentos psicológicos adequados para a mensuração dessas características. 3.Assessoria técnica à Corregedoria-Geral: o psicólogo realiza exames complementares à perícia médico-psiquiatra para apurar a higidez mental do periciado, buscando elementos psicológicos que determinem a existência ou não do nexo causal entre a infração imputada e o distúrbio psicológico ou psiquiátrico diagnosticado, bem como demandar o periciado a tratamento psicoterápico e/ou encaminhamento a outros especialistas.
4.Assessoria técnica ao Centro de Recursos Humanos: o psicólogo elabora psicodiagnóstico de servidores com dificuldades de relacionamento ou de execução de suas atividades, em casos em que aparecem queixas quanto ao desempenho profissional, indicando as áreas de conflito e subsidiando a escolha de um setor ou atividade mais apropriada para desenvolver as capacidades de cada indivíduo.
5.Atuação preventiva: o psicólogo realiza palestras abordando temas relacionados à saúde física e mental e questões relacionadas ao aprimoramento pessoal e profissional, bem como dinâmicas de grupo para integração dos promotores recém-ingressos e para auxiliá-los nos aspectos referentes ao início de carreira (estresse elevado, enfrentamento dos problemas, troca de experiências).
6.Atuação clínica de atendimentos em orientação e psicoterapia: o psicólogo realiza atendimento individual, de casal e familiar, e orientação de casal e familiar a Procuradores, Promotores e servidores, em sessões semanais, sob abordagem de orientação psicodinâmica e com conhecimentos da abordagem sistêmica, objetivando promover a melhoria das relações intra e interpessoais, elaboração de conflitos e a redução de fatores estressantes decorrentes de sua atividade profissional (excessiva exigência, rigorismo, detalhismo, perfeccionismo, controle, dificuldade em aceitar as próprias falhas e limitações etc.).
Nas Varas da Família e nas Varas da Infância, o Promotor Público acompanha os processos e está presente às audiências para fiscalizar o cumprimento da lei e assegurar o exercício dos direitos fundamentais da criança ou adolescente envolvidos em questões judiciais. Assim, o Setor da Psicologia do Ministério Público pode ser chamado a intervir mediante avaliações psicológicas em casos de intensos conflitos entre os pais litigantes e/ou em situações nas quais a perícia psicológica judicial não se mostrou competente ou suficiente para atender à demanda requisitada. É importante destacar que sendo o Ministério Público um órgão do Poder Executivo e não do Judiciário, os psicólogos assessores do Ministério Público não possuem vinculação com o Judiciário, e reporta suas atividades aos Promotores e Procuradores de Justiça, e não aos Juízes.
Nesses casos, considerando que a perícia psicológica judicial não correspondeu à demanda, e o psicólogo do Ministério Público foi designado a realizar uma avaliação psicológica de um contexto familiar, cabe uma pergunta: pode-se considerar esse estudo como uma perícia? Em termos técnicos sim, porque, apesar do psicólogo do Ministério Público denominar-se “assistente técnico”, neste caso estará realizando uma segunda perícia (mas desta vez via Executivo e não Judiciário); por outro lado, como fica, então, a relação entre o assistente técnico do Ministério Público e os assistentes técnicos das partes? Entende-se que, em princípio, da mesma forma que o relacionamento cordial e cooperativo deve existir entre o perito e o assistente técnico, também deve existir entre o assistente técnico do Ministério Público e os assistentes técnicos das partes. A diferença reside no fato de que, quando o perito judicial emite seu laudo, os assistentes técnicos têm o dever legal de se manifestar
através do Parecer Técnico sob pena de preclusão do prazo, ao passo que o assistente técnico do Ministério Público emite um Parecer Psicológico acerca das observações e conclusões que obteve em seu estudo, e a manifestação dos assistentes técnicos das partes é facultativa, mas pode ser mais uma oportunidade para estes apresentarem seus argumentos sob a égide dos princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório.
Assim, para EVANGELISTA, PEREIRA, TAVARES e MENICHETTI (1999), a atuação dos psicólogos assistentes técnicos no Ministério Público estadual alarga o campo de atuação da Psicologia na interface com o Direito, contribuindo para que ocorram repercussões positivas para o sistema jurídico brasileiro.