4 REALISMO DIRETO E O BAD ARGUMENT
4.2 O Bad Argument
É comum observarmos nos escritos de Searle alguns rótulos para expressar “errôneas” visões acerca de determinadas posturas filosóficas, Em sua obra A Redescoberta da Mente (1992), antes de discutir o seu posicionamento conhecido por Naturalismo Biológico, Searle lançou mão de uma antagônica postura batizando- a de dualismo conceitual, a saber, uma série de equívocos cometidos pelos filósofos ao longo dos anos ao discutirem a natureza da consciência e a relação entre mente e cérebro. Essa visão consistia na ideia de que em algum sentido importante, "físico" implica em algo "não-mental" e "mental" implica em algo "não-físico" e dessa maneira poderíamos aplicar essa concepção tanto ao dualismo quanto ao materialismo (SEARLE, 1992). Analogamente à definição de Searle para dualismo conceitual, veremos uma série de considerações acerca do que ele chamou de Bad Argument. No que consiste o Bad Argument? Prima facie, podemos caracterizá-lo como uma errônea postura (acerca da percepção) sustentada por muitos filósofos ao longo dos séculos. O Bad Argument pode ser compreendido a partir da ideia de que “nós nunca percebemos diretamente objetos e estados de coisas no mundo, mas percebemos apenas diretamente nossas experiências subjetivas” (SEARLE, 2015, p. 11). Com isto, Searle reserva ao Bad Argument o lugar de um dos maiores erros da filosofia cultivado ao longo dos séculos sobre o problema da percepção. Assim, como no caso do dualismo conceitual, temos também no Bad Argument Descartes como um dos principais expoentes deste grande erro. Searle afirma que o Bad Argument repousa numa falácia de ambiguidade. Como veremos mais na frente (seção 3.4), de acordo com Searle, essa falácia pode ser refutada a partir de uma
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adequada descrição da natureza da intencionalidade perceptual. No que diz respeito ao Bad Argument segue a seguinte passagem:
No que se segue, pela expressão "Bad Argument", eu tenho em mente qualquer argumento que tente tratar a experiência perceptiva como um objeto de experiência real ou possível. E também usarei a expressão para nomear a conclusão do argumento, que nunca vemos objetos materiais diretamente. (SEARLE, 2015, p. 29).
Mas o que significa dizer que não percebemos diretamente os objetos e estados de coisas no mundo, mas apenas nossas experiências subjetivas? Parece razoável sustentar que nosso acesso ao mundo objetivo se dá indiretamente e que tudo o que filtramos da realidade não passam de representações, que por sua vez estão relacionadas ao modo como percebemos as coisas, isto é, nossa constituição cognitiva. Contudo, é justamente esta visão que Searle pretende erradicar com sua teoria da percepção, mas para isso uma série de protocolos anteriores devem ser cumpridos, uma vez que sua teoria dispõe de um grande arcabouço conceitual para explicar minuciosamente todo o itinerário filosófico do fenômeno da percepção visual. Este arcabouço conceitual preserva muitas explicações que já estavam presentes em Intencionalidade, porém, na medida em que o texto for avançando, veremos que Searle recorre a muitos outros conceitos advindos de outras fases de seu pensamento, como a ontologia social, racionalidade e etc. e que foi brevemente apresentado no primeiro capítulo sobre o conceito de intencionalidade nas diversas fases do pensamento de Searle.
Para introduzir o ponto de vista searleano vamos pensar a seguinte situação: suponha que estamos em um ambiente com boas condições de luz na qual podemos discriminar adequadamente cada objeto percebido. Se por exemplo, estivermos numa sala de estar, podemos ver objetos comuns a este tipo de ambiente, tais como mesa, cadeiras, sofá, tapete, livros e etc. Poderíamos descrever esses objetos juntamente com suas propriedades além de alguns fatos óbvios acerca do estado de coisas desses mesmos objetos, suas relações etc. Em termos perceptuais é razoável supor que estamos percebendo de maneira direta esses objetos e estados de coisas do ambiente, e também, parece razoável supor que esses mesmos objetos e estados de coisas possuem uma existência independente da percepção que temos deles. Em outras palavras, ao sairmos desse ambiente, os objetos nele contidos não deixarão de existir, pois “os objetos e estados de coisas
tem uma existência independente, no sentido que eles existem independentemente de serem experienciados por nós” (SEARLE, 2015, p. 12). O fato mais óbvio sobre isto é que se decidirmos fechar os nossos olhos a única coisa que irá cessar será a nossa percepção visual destes objetos, e não a existência dos mesmos. Nesse sentido, duas noções são imprescindíveis para entender a relação entre existência e percepção. Searle chama de ontologicamente objetivos (ontologically objective) os estados de coisas que percebemos diretamente no mundo e possuem uma existência que independe de nossa percepção. E Searle chama de ontologicamente subjetiva166 (ontologically subjective) a experiência que temos desses objetos e estados de coisas. Vimos no primeiro capítulo (seção 1.4), que estes dois conceitos fazem parte das considerações de Searle sobre a filosofia da mente e a construção social da realidade. Agora eles desempenham uma função importante na construção de uma teoria da percepção. Além do mais, na relação entre a ontologia do objetivo e subjetivo deve haver uma relação causal por meio da qual a realidade objetiva causa a experiência subjetiva. No capítulo anterior vimos como Searle lida com essa questão através da causação intencional na percepção e na ação. Sobre a causação intencional na percepção iremos retomar no capítulo 4 (seção 4.1.4) onde apresentaremos a explicação de como a intencionalidade perceptual funciona. De acordo com Searle, tudo isso já conhecemos antes mesmo de começarmos a teorizar sobre percepção.167
Algumas entidades - montanhas, moléculas e placas tectônicas, por exemplo - possuem uma existência independente de qualquer experiência. Elas são ontologicamente objetivas. Mas outras - dores, cócegas e coceiras, por exemplo - existem apenas na medida em que são experimentadas por um sujeito humano ou animal. Elas são ontologicamente subjetivas. (SEARLE, 2015, p. 16).
E o que dizer sobre nossas descrições de percepções? Um truísmo importante é que se tentarmos descrever a realidade objetiva juntamente com seus estados de coisas e depois tentarmos descrever nossa experiência subjetiva correspondente àquilo que estamos vendo, não teríamos nenhuma surpresa, uma vez que as duas descrições serão praticamente as mesmas. Eu poderia, por
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Nem sempre o que possui existência ontológica subjetiva possui uma relação causal direta de estados de coisas no mundo, um bom exemplo disto é a alucinação. No decorrer do capítulo teremos uma secção para discutirmos este ponto.
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exemplo, descrever uma cena objetiva dizendo “há um notebook preto sobre a mesa branca” e por outro lado eu também poderia descrever minha experiência visual subjetiva dizendo “eu vejo um notebook preto sobre a mesa branca”. “A experiência subjetiva tem um conteúdo, o que os filósofos chamam um conteúdo intencional, e a especificação do conteúdo intencional é o mesmo que a descrição do estado de coisas que o conteúdo intencional apresenta” (SEARLE, 2015, p. 12-13). .
Em outras palavras, a especificação da minha crença de que está fazendo mais de 25° de temperatura em Recife, usa, de acordo com Searle, as mesmas palavras na mesma ordem da descrição do fato no mundo que minha crença representa, a saber: Está fazendo mais de 25° de temperatura em Recife. O conteúdo intencional da experiência subjetiva tem um estado de coisas correspondente no mundo, isto é, uma relação entre percepção e objeto que qualquer pessoa em condições semelhantes de percepção descreveria quase que com as mesmas palavras o que estaríamos percebendo.
Quando a visão está fazendo corretamente seu trabalho biológico, a descrição do conteúdo intencional e a descrição do estado de coisas que é apresentado deve ser a mesma, porque uma crucial [main] função biológica da experiência perceptiva é fonercer a você conhecimento sobre o mundo real. (SEARLE, 2015, p. 13).
Na passagem acima temos algo que a essa altura já está claro, isto é, a postura naturalista de Searle. A percepção assim como a intencionalidade está ancorada numa condição biológica onde tal condição biológica, de um ponto de vista evolutivo, tratou de estabelecer um vínculo relacional entre o fenômeno da experiência visual e o mundo com seus inúmeros objetos. Portanto, nesse jogo evolutivo de objetos e conteúdos da percepção temos uma relação direta com a realidade. O Bad Argument, como foi descrito acima, seria uma errônea maneira de descrever nossas relações perceptuais com o mundo. Retomaremos as considerações de Searle sobre o Bad Argument na seção 3.8 deste capítulo.