5. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
5.1 O CENTRO POP: APROXIMAÇÕES COM A REALIDADE DA
A formulação de ações de combate à pobreza e de políticas de proteção e seguridade são bastante recentes no Brasil, em especial no que se refere às políticas públicas de atendimento à população em situação de rua. Em 2004, a Política Nacional de Assistência Social (PNAS) reconheceu a atenção para esta população no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). A prerrogativa de que deve ser incluída a criação de programas destinados às pessoas que vivem nas ruas na organização dos serviços da Assistência Social foi preconizada na promulgação da Lei 11.258, de 30 de dezembro de 2005, que inclui esta população no 23º artigo da Lei Orgânica da Assistência Social (Lei 8.742, de 07 de dezembro de 1993).
O Centro Pop é previsto no Decreto nº 7.053/2009, que instituiu a Política Nacional para a População em Situação de Rua e o seu Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento, e na Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, constituindo-se em uma unidade de referência da Proteção Social Especial de Média Complexidade no âmbito do SUAS, de natureza pública e estatal voltado ao atendimento especializado à população em situação de rua. Ele oferta o “Serviço Especializado de Atenção às Pessoas em Situação de Rua”, cuja finalidade é assegurar atendimento com atividades direcionadas para o desenvolvimento de sociabilidades. Na perspectiva de construção de vínculos interpessoais e familiares, busca oportunizar a construção do processo de saída das ruas para pessoas que a utilizam como espaço de moradia e sobrevivência (BRASIL, 2011).
O serviçoproporciona trabalho técnico (atendimento psicossocial) para a análise das demandas dos usuários, orientação individual e grupal e encaminhamentos a outros serviços que possam contribuir na construção da autonomia, da inserção social e da proteção às situações de
violência. Além disso, promove o acesso a espaços de guarda de pertences (serviço não oferecido no Centro Pop estudado), higiene pessoal (espaço para banho, lavar roupas e escovar os dentes), alimentação (café da manhã e almoço, no caso do referido Centro Pop) e provisão de documentação civil (possibilitada no atendimento psicossocial). É também um endereço institucional para utilização como referência dos usuários e local de alimentação do sistema de registro dos dados de pessoas em situação de rua (BRASIL, 2011).
Os pressupostos acima elencados dão indicativos da forma como o serviço deve ser realizado, ou seja, as orientações técnicas para implantação e funcionamento do Centro Pop. No entanto, cabe informar acerca das condições precárias de funcionamento da política pública acessada no decorrer dos meses de levantamento de informações. Quanto à estrutura física do Centro Pop, pôde ser observado que a condição de “assegurar a provisão de espaço físico adequado e materiais necessários à execução das ações a serem desenvolvidas” (BRASIL 2011, p. 47-48) não vinha sendo garantida pela rede socioassistencial do município. Observou-se uma inadequada iluminação, ventilação, conservação, salubridade, limpeza, segurança, acessibilidade, infraestrutura física e recursos materiais. Seu funcionamento ocorria por 7 (sete) horas diárias , o que diverge da legislação, que preconiza que o Centro Pop “deve estar aberto para atendimento ao público, necessariamente nos dias úteis, no mínimo 5 (cinco) dias por semana, durante 8 (oito) horas diárias” (BRASIL, 2011, p. 51).
No período que antecedeu as entrevistas, o Serviço havia sido fechado repetidas vezes devido às condições inadequadas de funcionamento, conflitos, brigas e roubos ao espaço físico da unidade36. Essas informações são importantes porque dão indicativos sobre o local em que as informações foram produzidas e da realidade vivida pelos usuários no acesso à política pública e seus desdobramentos em ações. Narrativas vinculadas às condições físicas e a preocupação de novos fechamentos do serviço foram presentes em diversas entrevistas, tanto dos técnicos, como das pessoas em situação de rua.
5.1.1 Os trabalhadores do Centro Pop
Nas orientações técnicas para funcionamento do Centro Pop, é reforçado o papel dos trabalhadores “para a efetividade do trabalho social
36 Cerca de um mês após a finalização do levantamento de informações, o Centro Pop voltou a ser fechado sem previsão para reabertura.
e para a qualidade dos serviços prestados pelo Centro POP. Para a adequada composição da equipe da Unidade deve-se observar o prescrito na NOB/RH/2006, e, ainda, na Resolução do CNAS nº 17/2011” (BRASIL, 2011, p. 53). A equipe do Centro Pop, no momento do levantamento de informações, era constituída por trabalhadores da área de serviços gerais, manutenção, motorista e técnicos de nível superior.
A constituição da equipe técnica do serviço contava com um psicólogo, uma assistente social e uma coordenadora. A equipe possuía ainda uma estagiária em serviço social. Dessa forma, essa composição não assegura o previsto na legislação para o atendimento de 80 (oitenta) casos (famílias ou indivíduos/mês) em Centros Pop – como é o caso do serviço37. A tipificação prevê a presença de um(a) c oordenador(a), dois psicólogos(as) e dois assistentes sociais, além de outros profissionais para oficinas e auxiliares administrativos, o que não havia no serviço no momento do levantamento de informações. Como pode ser observado na tabela a seguir, toda a equipe técnica trabalha há menos de um ano no serviço, com exceção da estagiária, esta que já foi acompanhada por vários supervisores ao longo da vigência do estagiário.
Tabela 01: Caracterização dos/a profissionais do Centro Pop
Cargo Idade Escolaridade Tempo no Centro Pop
Coordenadora 58 Graduação em
Serviço Social 9 meses Estagiária 47 Estudante de Serviço
Social 1 ano e 2 meses Assistente social 50 Graduação em
Serviço Social 3 meses Psicólogo 37 Graduação em
Psicologia 9 meses
Fonte: Elaboração do autor (2016).
Cabe destacar que o psicólogo e a assistente social foram contratados por meio de processo seletivo simplificado, ou seja, não possuem vínculo como funcionários públicos concursados38. A única pessoa concursada da equipe é a coordenadora que, antes de desenvolver
37 Os técnicos não informaram com precisão quantos casos eram atendidos pelo Centro Pop. É notório, no entanto, que o número de usuários é superior a 80 casos. No horário de almoço, por exemplo, observava-se diariamente a circulação de mais de 50 pessoas pelo equipamento.
38 Logo após a finalização do levantamento de informações, todos os técnicos foram novamente substituídos.
as atuais atividades, realizava atendimento psicossocial como assistente social do Centro Pop. Desde a inauguração do serviço no município estudado, o Centro Pop conta com alta rotatividade de profissionais, sendo que, nos últimos quatro anos, quatro coordenadores assumiram essa função. Todos esses elementos potencialmente trazem dificuldades para o efetivo funcionamento do Centro Pop e da continuidade dos atendimentos junto aos usuários do local.
As informações levantadas na pesquisa serão apresentadas em sequência, inicialmente com uma breve caracterização da singularidade de cada sujeito quanto a sua história de vida e de trabalho atravessada pelas vivências na rua. Em continuidade estão os principais conteúdos sobre as vivências que levaram à vida na rua, cotidiano de trabalho, trajetórias laborais e sentidos do trabalho em suas interconexões com o contexto da rua.
5.2 DESCRIÇÂO DA HISTÓRIA DE VIDA E DE TRABALHO DOS