4 A AMOSTRA E OS PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
4.1 O conceito de “formas de tratamento” nesta pesquisa
Marcotulio (2010) levanta a discussão sobre o conceito de “formas de tratamento” e compara a a bordagem do assunto em algumas gramáticas do português. Em sua pesquisa, o autor opta por adotar a distinção entre “formas de tratamento de natureza pronominal – tu e vós – e formas de tratamento de natureza nominal – Você, Senhor(a) e Vossa + Nome” (MARCOTULIO, 2010, p. 22-3). Conforme o autor, nenhum dos gramáticos consultados emprega o termo “tratamento” ao descrever os usos dos pronomes pessoais, mas todos incluem as formas de tratamento de natureza nominal na seção que trata desses pronomes.
88 No original: “Entre las primeras cabe mencionar la construcción más cuidada de los mensajes emitidos en un medio estable y destinado a perdurar, como el escrito, frente a la espontaneidad y al carácter más flexible del discurso oral (cuyas expresiones pueden repetirse, dejarse sin terminar o reiniciarse sin que el éxito de la comunicación se vea afectado), o la capacidad de superar la ambigüedad en un medio oral que permite el recurso al contexto y a los interlocutores, frente al escrito, caracterizado por las relaciones diferidas entre producción y recepción y la ausencia de un contexto-situacional completo que especifique las circunstancias de su emisión”.
Brown e Gilman (1960), ao contrário, empregam o termo “pronomes de tratamento” (pronouns of address) referindo-se aos pronomes pessoais que alguém usa para dirigir-se a outrem.
Nesta pesquisa, considero “formas de tratamento” toda e qualquer forma de se referir ao interlocutor, incluindo os pronomes pessoais, em qualquer função sintática, não apenas na função de sujeito. A expressão não deve se confundir com “pronomes de tratamento”, termo comumente usado nas gramáticas escolares. Essa escolha conceitual encontra respaldo em alguns consagrados estudiosos da linguagem, como Said Ali (2006 [1975]) e Câmara Jr. (2015 [1970]).
Em Investigações filológicas, que é uma compilação de trabalhos esparsos e inéditos de Said Ali reunidos por Evanildo Bechara, há um capítulo sobre as formas de tratamento na língua portuguesa. Trata-se de um artigo publicado em 1937 cujo título é “De eu e tu a majestade (tratamentos de familiaridade e reverência).” Pelo título já se percebe que o filólogo brasileiro emprega o termo “tratamento” na acepção empregada aqui nesta pesquisa, uma vez que inclui tu como um tratamento de “familiaridade”. Nesse artigo, lê-se:
Se no trato com pessoa que merece nossa amizade hesitamos entre você e o senhor, valem-nos sempre os pronomes indiferentes lhe, o, seu, etc.; o verbo irá sem sujeito expresso: Quer ver o meu último trabalho? Já lhe mostrei o outro. Falta resolver o problema do complemento regido de preposição. Em Portugal, tomou-se para este efeito o reflexivo si de 3ª pessoa. Falávamos de si. É um presente para si, ofendem a pureza gramatical, mas dão a entender a intenção de ser amável, de agradar sem excesso de cerimônia nem abuso de familiaridade.” (SAID ALI, 2006 [1975], p. 113 – os grifos com sublinhado são meus).
Nesta passagem de Said Ali, vemos que o autor inclui oblíquos átonos (lhe, o), oblíquo tônico (si), possessivo (seus) e forma verbal como forma de tratamento, atribuindo a eles os traços de familiaridade e de cerimônia ao considerá-los expressão da moderação entre o tratamento muito cerimonioso e o tratamento muito íntimo.
Mais adiante, no mesmo capítulo, o filólogo comenta sobre os valores de expressões nominais no trato ao interlocutor: “Não menos delicado, porém de campo de ação mais restrito, é o tratamento de o amigo, o caro amigo, que em geral não se toma ao pé da letra.” (SAID ALI, 2006 [1975], p. 113 – grifo sublinhado meu). E inclui nos comentários formas como a menina, o pai, o senhor doutor, etc. Em todos os seus exemplos, são destacados como indicadores do tratamento ao interlocutor tanto os tradicionalmente chamados pronomes pessoais do caso reto quanto os do caso oblíquo, os possessivos e as expressões nominais em qualquer função sintática, inclusive no vocativo.
Câmara Jr. (2015 [1975], p. 119) afirma que a P5 (vós) passou a ser usada com referência a um só interlocutor “para assinalar, em contraste com a série tu, uma atitude de distanciamento e acatamento social para com um único ouvinte.” O que o autor chama de “série” é o conjunto de formas que constituem as pessoas gramaticais: P2 – tu, te, ti, teu; P5 – vós, vos, vosso, etc. Segundo ele,
Uma segunda grande modificação é a substituição da série vós, para o ouvinte (singular e plural) por um tratamento de terceira pessoa, em que se eliminam as formas verbais correspondentes à P5. Em vez da forma pronominal reta, correspondente a essa pessoa, o ouvinte é tratado, isoladamente ou como sujeito, por uma locução, em que, no tratamento de vós para P2, nos dirigimos a uma qualidade sua, com a matização do tratamento e da hierarquia social expressa pela escolha de um substantivo adequado.: Vossa Alteza, Vossa Excelência, Vossa Senhoria, etc. Em vez das formas oblíquas, aparecem as mesmas locuções ou os pronomes oblíquos adverbais de terceira pessoa (o, a; lhe; ou, no plural, os, as, lhes).
Esse sistema de tratamento do ouvinte, que elimina as formas pronominais retas e a forma verbal de P5, funciona num registro altamente formal, quer da língua oral, quer da língua escrita.(CÂMARA Jr., 2015 [1975], p. 119 – sublinhados meus).
Está claro na passagem acima que, assim como Said Ali, Câmara Jr. também entende que oblíquos com valor de P2 funcionam como formas de tratamento: se vós e vos caíram em desuso como forma de assinalar “uma atitude de distanciamento e acatamento social para com um único ouvinte”, respectivamente na função de sujeito e na função de complemento, as formas que os substituíram ― uma “locução” na função de sujeito ou isoladamente, e os pronomes o e lhe na função de complemento ― são, igualmente, formas de tratamento.
Mesmo na gramática normativa, infere-se que as formas oblíquas e possessivas compõem com as expressões tratamentais arroladas conforme o cargo que o interlocutor ocupa (Vossa Excelência, Vossa Alteza, Vossa Magnificência etc.) uma série tratamental. Assim é em Cunha (1986, p. 287), que destaca em seus exemplos do tratamento cerimonioso por vós as formas oblíqua (vos) e possessiva (vosso), e dá exemplos do tratamento com a expressão nominal o senhor fora da função de sujeito.
Raposo (2013, p. 900) inclui entre as “formas com funcionamento muito próximo do de um pronome pessoal” o senhor, o menino e Vossa Excelência. Assim, se Vossa Excelência é uma forma de tratamento, então, o senhor e o menino também o são.
Lobo (2013, p. 2220) aponta o oblíquo tônico si como um “pronome dêitico remetendo para uma segunda pessoa de cerimônia” no variedade europeia do português. E o que é “segunda pessoa de cerimônia” senão uma forma de tratamento?
se o interlocutor for tratado por tu, o verbo deverá ser de 2ª pessoa do singular e os referentes a ela os pronomes oblíquos (te, ti, contigo) e os possessivos (teu, tua, teus,
tuas). Da mesma forma, se o tratamento escolhido for o pronome vós, em
concordância com ele deverão estar o verbo (2ª pessoa do plural), os pronomes oblíquos (vos, convosco) e os pronomes possessivos (vosso, vossa, vossos, vossas). (HAUY, 2014, p. 680 ― sublinhados meus).
Infere-se do trecho acima que, se as formas tu e vós são formas de tratamento, seus oblíquos e possessivos correspondentes também o são. Estendendo o raciocínio, se tu e vós comportam traços de intimidade e cerimônia, respectivamente, seus oblíquos e possessivos correspondentes também o comportam. Afinal, como considerar que vós com valor de P2 conota respeito e cerimônia e que vos e vosso não têm essa conotação quando seu referente é um só interlocutor?
Um pouco mais adiante (p. 682), a autora acrescenta: “Há três maneiras para tratar as pessoas com quem conversamos (de forma oral ou escrita)” (sublinhado meu) e relaciona as três maneiras como sendo:
a) por tu (+ verbo na 2ª p. sing.), te, ti, contigo, teu(s)/tua(s); b) por vós (+ verbo na 2ª p. pl.), vos, convosco, vosso(a)(s);
c) por pronomes de tratamento (você, senhor(a), senhorita, dom, dona) ou expressões de tratamento (Vossa Senhoria, Vossa Excelência, etc.) + verbo na 3ª p. sing., se, si, consigo, o(a)(s), lhe(s), seu(s), sua(s).
Vê-se que, para a autora, também as formas oblíquas e possessivas constituem com as formas retas um conjunto tratamental.
Esse conceito de “tratamento” é adotado na maioria das gramáticas descritivas das línguas indo-europeias que apresentam duplo sistema de formas de se dirigir ao interlocutor, uma para as relações simétricas de intimidade/familiaridade e outra para as relações assimétricas ou simétricas de formalidade, como o francês (tu/vous), o espanhol (tu/usted), o italiano (tu/Lei), o alemão (du/Sie) etc. As formas objetivas e possessivas desses pares de pronomes compõem com as nominativas (retas) uma só forma de tratamento, portanto são também formas de tratamento e carregam os traços de intimidade e formalidade tanto quanto as formas retas.
Camargo (2004), descrevendo a língua alemã para estudantes brasileiros, afirma que
Sie é a maneira formal de nos dirigirmos às pessoas. É usado com referência à
pessoa com quem falamos e corresponde a o senhor/a senhora, os senhores/as senhoras (singular ou plural, masculino ou feminino). Embora se refira a uma segunda pessoa (singular ou plural), é sempre acompanhado de um verbo conjugado na terceira pessoa do plural. É escrito com letra maiúscula, em todos os casos e declinações, inclusive no possessivo. Apenas com o pronome reflexivo “sich” usa- se letra minúscula. (CAMARGO, 2004, p. 76 – grifos da autora, com negrito no original).
Note-se que a autora compreende Sie como forma polida de tramento “em todos os casos e declinações, inclusive no possessivo”. Assim, não só Sie (suj./NOM) é uma forma de tramento, mas também suas formas casuais sie (obj. dir./ACUS), ihnen (obj. ind./DAT), sich (REFL) e ihr (POSS).
É a esse conjunto de formas que Brown e Gilman (1960) designam por T e V, e não apenas as formas com função de sujeito. Os autores também incluem entre os equivalentes ou substitutos dos pronomes V (de tratamento polido, reverencial) os honoríficos (como Mr. antes do nome próprio, no caso do tratamento aos brancos pelos negros nos estados norte-americanos do sul) e os vocativos (como Baas, no caso dos negros ao se dirigirem aos brancos na África do Sul), e entre os equivalentes aos pronomes T (de intimidade ou solidariedade) os hipocorísticos ― como exemplo, eles citam Jim, hipocorístico de James, no tratamento dado ao filho pelo pai na família norte-americana.
Além disso, Brown e Gilman (1960) questionam se há diferença entre expressar a assimetria de poder através de pronomes e expressá-la através da escolha de um título ou nome próprio. Para eles, parece tratar-se de uma questão de compulsão linguística. Os autores admitem que, no tratamento face a face, é mais fácil evitar títulos ou nomes do que pronomes e, mesmo quando destes estão implícitos, são inferíveis a partir da forma verbal, como na frase francesa que eles dão como exemplo (Dites quelques chose – “Diga alguma coisa”), em que está subentendido o tratamento por vous (Vous dites).
Definido o conceito que dá título aesta tese, passo agora a apresentar a descrição do conjunto de cartas em que investiguei as formas de tratamento ao interlocutor.