• Nenhum resultado encontrado

O V EREADOR F RANCISCO G OMES B RANDÃO

O CONSTITUCIONALISMO CONVERTE SE EM SEPARATISMO

Os conflitos em torno do reconhecimento da autoridade de d. Pedro tornavam-se uma das mais fortes marcas da nova realidade. E, “à medida que se aprofundava a incompreensão recíproca, a possibilidade de manter-se a união” entre Portugal e o Brasil tornava-se cada vez mais distante.353

A perseguição implacável de Madeira de Melo a seus opositores somada ao acirramento das hostilidades cotidianamente manifestas nas ruas e praças da capital

348

REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil..., pp. 47-48; 65. 349

REIS, João José. “O jogo duro do Dois de Julho...”, p. 84. 350

ARAÚJO, Ubiratan de Castro. “A Guerra da Bahia...”, p. 19. 351

Ofício de Madeira de Melo à Junta de Governo contra as medidas conciliatórias, em 9 de julho de 1822. Apud: SANTOS, Joel Rufino dos. O dia em que o povo ganhou..., p. 119.

352

REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil..., p. 47. 353

NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das, MACHADO, Humberto Fernandes. O Império do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, p. 83-84.

95 baiana fez com que também Francisco Gomes Brandão de lá partisse e seguisse às pressas para o Recôncavo, onde as armas do Brigadeiro e seu exército não alcançavam. É possível que a decisão não tenha sido das mais fáceis. No entanto, era isto ou continuar a arriscar a própria vida.

Já não mais como redator d’O Constitucional, na resistência organizada a partir das vilas do interior da província é que Brandão encontraria um meio de manter o lugar de destaque que vinha ocupando na cena política do período. A partir de então, ele continuaria a exercer sua influência graças à importante vitória numa eleição organizada para decidir quem ocuparia a posição de representante da vila da Cachoeira no novo

Conselho Interino de Governo, que nascia, sobretudo, com vistas a coordenar os

esforços militares contra as tropas portuguesas.

Para a grande maioria dos integrantes do Conselho – entre os quais o nosso Francisco Gomes Brandão –, a nova conjuntura vinha coroar uma já gradual desilusão com a ideia de um único império. Muitos, aliás, eram os que confessavam, mesmo diante de alguns colegas ainda um tanto hesitantes, já haverem abandonado “a esperança (...) de que o governo desta Província cooperasse conosco e de que viesse de Lisboa o remédio de nossos males”.354

Afinal, tudo o que de lá emanava há muito já vinha cheirando à recolonização. Aos poucos, o constitucionalismo se havia convertido em separatismo.355

Na realidade, desde a promessa de d. Pedro de convocar uma “assembleia brasílica”, de caráter legislativo, ainda em junho daquele ano, as vilas mais importantes do Recôncavo haviam declarado seu apoio e fidelidade ao governo do príncipe regente.356 Santo Amaro foi a primeira, sendo logo seguida pelas demais. Até o fim daquele mesmo mês, todas as vilas que constituíam o sistema da Bahia de Todos os Santos já estavam associadas em torno de um governo autônomo, isto é, independente da capital, e com sede em Cachoeira. Um governo, nas palavras de Luiz Henrique Dias

354

SILVA, Ignácio Accioli de Cerqueira e. Memórias Históricas e Políticas da Província da Bahia, vol. 3. Bahia: Imprensa Oficial do Estado, 1931, p. 376.

355

NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. “A ‘guerra de penas’...”, p. 42. 356

A ideia era constituir uma deputação que reunisse representantes de todas as províncias. Lutava-se pelo direito do reino do Brasil em fazer suas próprias leis. Nesse sentido, a assembleia constituir-se-ia num “tipo de poder legislativo em consonância com de Lisboa”. Diante das circunstâncias, acreditava- se ser aquela a melhor forma de se evitar uma possível separação do Reino Unido. NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. “A vida política...”, p. 95-96.

96 Tavares, cuja forma e composição social e política “reuniu confiança suficiente para exercer autoridade” em boa parte da província.357

Em meio a um milhão de promessas aparentemente fugazes, a união de boa parte da população baiana contra os rumos imprimidos pelas Cortes ao processo de reforma política passava a assumir, definitivamente, a forma de tensões sociais que não haveriam de ser tão facilmente serenadas. Sobretudo após a constituição do novo Conselho de Governo, para muita gente, era para valer: já passava da hora de dar adeus à ideia de um grande e fortemente unido império luso-brasileiro.

A impressão era a de que tudo estava acontecendo bem depressa. De fato, fevereiro ainda não parecia estar tão longe. E talvez nem pudesse. Tratara-se de um período incomum, quando a substituição do Brigadeiro Guimarães no comando das Armas havia desencadeado os primeiros grandes tumultos, cujas repercussões pareciam cada vez mais difíceis de esquecer. De todo modo, com o passar do tempo a ideia de um governo centralizado na figura do príncipe regente, em clara sintonia com o projeto político costurado pelas elites do sul, foi ganhando novos contornos e aguçando, ainda mais, uma série de dissensões. Em apenas alguns meses, a aclamação de d. Pedro como imperador do Brasil, já em fins de 1822, representaria uma espécie de segundo clímax na complexa trama vivenciada pelos habitantes da província da Bahia. Afinal, como muitos possivelmente suspeitavam e até mesmo desejavam, após o rompimento definitivo com a antiga metrópole, não havia mais volta atrás. Por todos os cantos, fosse na própria Cidade do Salvador, ou ainda em algumas vilas do interior, o que se começava a ver eram os sinais da montagem de um cenário de batalha de proporções ainda maiores do que aquelas vistas até então.

Pois a partir da nova ordem de coisas que se desenhava a partir do Sudeste, o ainda recém-constituído Conselho Interino de Governo não hesitaria em dirigir-se mais firmemente às Câmaras de toda a província exigindo votos de fidelidade e obediência. Organizaria batalhões, reunindo e distribuindo armas e munições para todos aqueles dispostos a partirem em defesa da “Causa do Brasil”.358

Àquela altura, todos já estavam convencidos de que, para se chegar a um desfecho político, fazia-se necessário alcançar, primeiro, uma definição militar.

357

TAVARES, Luís Henrique Dias. Independência do Brasil na Bahia..., p. 104. 358

TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 3ª. Edição revista e ampliada. São Paulo: UNESP, 2008, p. 239.

97 E como forma de coadjuvar as lutas que passavam a acentuar, ainda mais, a divisão da população e da própria província, d. Pedro não demorou a enviar para lá algumas tropas lideradas por um oficial estrangeiro que ele próprio havia contratado: o francês Pedro Labatut. Partindo do Rio, o General seguia para o norte com um ultimato para que Madeira de Melo evacuasse imediatamente a capital ocupada.359 Mas, como a resistência era a postura esperada, Labatut também levava ordens expressas para transformar os grupos armados que então se achavam sob o comando de civis em um exército disciplinado, leal ao novo Império, e em condições operacionais de vencer as forças sob comando do Governador das Armas.360

Mas a missão era difícil. Entre os combatentes baianos, estavam reunidos elementos bastante heterogêneos e despreparados. Além disso, a falta de armas e de equipamentos era visível, constituindo uma carência, nas convenientes palavras de Hendrik Kraay, que “nenhum acúmulo de entusiasmo era capaz de compensar”.361

De todo modo, como bem destacado por Ubiratan Araújo, a chegada do General mudaria todo o curso da guerra na Bahia. E, com certeza, também o da vida de Francisco Gomes Brandão.

359

Era, em certa medida, um reforço à determinação do então príncipe regente, que “desejando pôr a salvo os habitantes desta província dos gravíssimos males que têm sofrido e que hão de sofrer enquanto aí existirem os que deles foram causa”, meses antes já havia ordenado que o Brigadeiro e seus homens retornassem a Portugal. Carta do Regente à Junta de Governo, participando a expulsão de Madeira, em 15 de junho de 1822. Apud: SANTOS, Joel Rufino dos. O dia em que o povo ganhou..., p. 79-80.

360

ARAÚJO, Ubiratan de Castro. “A Guerra da Bahia...”, p. 23. 361

98

C

APÍTULO

4

E

M TEMPOS DE GUERRA