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O S “ INIMIGOS ” COMUNS
Na realidade, toda a insegurança que então vinha afligindo muitos senhores e autoridades na Bahia dos anos 1820 não nascera a partir da proposta do recrutamento de escravos feita pelo General Labatut. Pelo menos desde o início do século, a crescente agitação da população escrava já causava sobressaltos. A maior parte deles, é bom que se diga, estava associada a uma série de levantes protagonizados por cativos de origem africana, que ainda eram maioria nas escravarias.461 Para João José Reis, seus atos de rebeldia evidenciavam os contornos de uma “tradição rebelde” que, a partir de então, vinha imprimindo feições bastante peculiares às relações escravistas na Bahia oitocentista.462
Nesse sentido, em meio ao clima de intensa inquietação social que marcara os fins de 1822, o alarmado e recém-constituído Conselho Interino de Governo se apressaria em estabelecer um conjunto de medidas com vistas ao aumento do controle sobre a população escrava. Tal como também destacado por Reis, a partir de então passavam a estar proibidos os batuques e demais tipos de reunião. Além disso, os senhores ficavam intimados a impedir que seus cativos guardassem qualquer tipo de arma de fogo nas senzalas – o mesmo valendo para os objetos cortantes. Entre estes últimos, aliás, sequer aqueles utilizados como instrumentos de trabalho (a exemplo de foices, machados e facões) deveriam ser permitidos. Doravante, os escravos também ficavam proibidos de circular fora das propriedades de seus respectivos senhores, salvo
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REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil..., p. 34. 460
GRINBERG, Keila. “Passado exposto pelo terremoto”. Disponível em: <http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/em-tempo/passado-exposto-pelo-terremoto>; acesso em junho de 2013.
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Cf: MATTOS, Hebe. “Africanos”. In: VAINFAS, Ronaldo (org.). Dicionário do Brasil Imperial...; Schwartz, Stuart. “Cantos e quilombo...”. In: REIS, João José & GOMES, Flávio dos Santos (org.). Liberdade por um fio...; REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil...
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121 quando trouxessem consigo uma permissão por escrito. Caso contrário, seriam presos e remetidos a seus donos para que fossem castigados. Mas mais ainda, as autoridades alertavam para o fato de que também não tolerariam o trânsito de cativos armados em qualquer localidade e sob pretexto algum. Os desobedientes seriam chicoteados cinquenta vezes e, só então, devolvidos aos proprietários. Por fim, no perímetro das vilas, seriam presos todos os escravos negros (os pardos estavam excluídos!) que andassem sem bilhete depois do toque de recolher, estabelecido em nove horas da noite. Cinquenta chibatadas era a punição destinada aos transgressores. Caso estivessem armados, receberiam duzentas.463
As determinações do Conselho eram precisas. Somadas aos vários protestos contra aquele exército de cativos “que o General tem formado e está disciplinando, com a mais crassa impolítica, e em notório dano a esta Província”464, elas decerto expressavam muito bem o estado de nervos em que se achavam muitos senhores ciosos pela preservação das bases políticas e materiais de suas posições e privilégios.
Aquele, todavia, não era o único ou o maior dos problemas. Naquela época, também os “ajuntamentos de negros fugidos”465 se multiplicavam e se espalhavam por diversas partes da província. Ao contrário do que por muito tempo se pensou, embora geralmente bem protegidos, eles não ficavam isolados, perdidos nos altos das serras e localizados além da sociedade envolvente.466 Muitos, na realidade, encontravam-se próximos a fazendas, engenhos, vilas, ou mesmo a alguns centros urbanos. Aliás, era desse modo que os chamados quilombolas transitavam por diversos espaços e mantinham relações com diferentes membros da sociedade baiana, muitas vezes diluindo-se no anonimato da massa de escravos e negros livres.467 Na visão de muitos senhores e governantes, também isto era motivo de grande preocupação. Para eles, o aquilombamento tornava-se um problema crônico. Ameaça efetiva ou, por vezes, muito mais simbólica, naquele contexto (e talvez mais do que nunca), aqueles “contínuos e numerosos agrupamentos de negros armados (...) com propósitos extremamente
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Ibidem, p. 97. 464
Carta do Conselho Interino de Governo da Bahia ao Ministro José Bonifácio... . 465
Cf: REIS, João José. “Quilombos e revoltas escravas no Brasil”. In: Revista USP. São Paulo, vol. 28, p. 14-39, 1995, p. 18.
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Ibidem. 467
REIS, João José e GOMES, Flávio dos Santos. “Introdução – Uma história da liberdade”. In: ___ (org.). Liberdade por um fio..., p. 9.
122 perigosos”468
– para usar um sugestivo testemunho da época – vinham encarnar os piores pesadelos das elites baianas, “fustigando com insistência desconcertante”, tal como bem pontuou João José Reis, o regime escravista.469
Pois já no início do ano seguinte, na Sala das Sessões da sede do governo instalado na vila da Cachoeira, na presença de Francisco Gomes Brandão e algumas das outras principais lideranças políticas do momento, Miguel Calmon du Pin de Almeida terminava de redigir um Relatório a ser enviado aos cuidados de José Bonifácio de Andrada e Silva, que então dirigia o novo Ministério escolhido por D. Pedro. Naquele documento, o então Presidente do Conselho Interino de Governo se propunha a discutir algumas questões relacionadas ao estado de alerta em que se encontravam os proprietários da província. O motivo não se constituía, propriamente, numa novidade: tratava-se do medo provocado pela ameaça de uma grande “sublevação dos escravos”. Em face do problema, Almeida destacava as “medidas preservativas” levadas a cabo pelo mesmo Conselho em resposta às “repetidas denúncias e participações de Autoridades” acerca da “existência de quilombos” e da “fuga de muitos escravos do poder dos senhores”. Reconhecia que aquilo, “junto à certeza” de que “Portugueses [ora] derramados pelos campos”, ora escondidos pelas vilas, “chamavam os pretos à rebelião”, “aliciando-os”, feito “catequistas”, para o seu “[nefasto]” fim, acabava por tornar aquele um “negócio da maior transcendência e magnitude”.470
De certa forma, as palavras de Miguel Almeida corporificavam alguns fantasmas que andavam rondando as mentes dos homens mais influentes da Bahia naqueles dias de guerra, incluindo-se aí o nosso Francisco Gomes Brandão. Mais especificamente, elas evidenciavam dois dos grandes desafios ao projeto de independência em torno do qual aquele pequeno grupo de indivíduos se achava articulado. Tratava-se da expulsão dos “portugueses” da cidade sitiada e do controle sobre a população negra escravizada.471 Através deles, aqueles homens desejavam lutar por uma causa que não apenas não
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Ministère des Affaires Etrangères/ Correspondance Commerciale et Consulaire, Consulat de Bahia, vol. 1 (1673-1824) - Cônsul Jacques Guinebaud. Arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros da França. Quay D’Orsay, fl. 196. Apud: ARAÚJO, Ubiratan de Castro. “A Guerra da Bahia...”, p. 19.
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REIS, João José. “Quilombos e revoltas escravas no Brasil...”, p. 18. 470
ALMEIDA, Miguel Calmon du Pin e. Relatório dos Trabalhos do Conselho Interino de Governo da Província da Bahia. Salvador: Typographia Nacional, 1823, p. 16.
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No caso deste último, tomando sempre o cuidado para que as novas ideias de libertação não alcançassem os ajuntamentos e senzalas, e deste modo recebessem interpretações consideradas “impróprias” ou “equivocadas”. A este respeito, veja-se: REIS, João José. “O jogo duro do Dois de Julho...”, p. 88-98.
123 viesse a pôr em risco suas propriedades e posições, mas que também pudesse garantir- lhes o acesso a futuros ganhos políticos numa ordem que já lhes parecia ser bem mais do que algo meramente anunciado.472
E é nesse sentido em que salta aos olhos uma curiosa semelhança entre os argumentos presentes no Relatório e aqueles utilizados pelo General Labatut para justificar, entre outras ações, o fuzilamento dos “pretos aquilombados”473
outrora envolvidos no ataque às tropas brasileiras nas proximidades de Salvador.
Na realidade, apenas alguns poucos meses antes, o Conselho já havia remetido um Ofício ao Rio de Janeiro noticiando o fato de muitos combatentes brasileiros serem frequentemente “tripudiados por escravos aliciados e chamados pelo infame Madeira, que os tem armado contra seus Senhores”.474
Em direção semelhante, também o General Labatut, numa outra oportunidade, lembrava que, conforme “confessavam as folhas públicas”, tão logo ele pusera os pés na província da Bahia, o Recôncavo já se achava “ameaçado (...) por uma sublevação de Escravos” também “manejada pelo Madeira”.475
Difícil dizer se, de fato, o governador das Armas incitara, ele próprio, uma ou mais rebeliões escravas. Apesar disso, as muitas ações que liderou com o claro objetivo de desarticular as tropas “brasileiras” e pôr termo à resistência por elas organizada eram já bastante conhecidas. Sobretudo sob esse ângulo, é possível que as acusações desferidas pelo General e mesmo pelo Conselho Interino de Governo não fossem lá de todo disparatadas.
De qualquer maneira, quanto mais o tempo passava, mais frequentes se tornavam as insinuações daquele tipo. Naqueles dias, portugueses e, basicamente, africanos escravizados, sobretudo quando fora do alcance das vistas das autoridades, passavam a representar duas grandes possíveis ameaças à ordem e à própria causa da independência, tal como defendida pelas elites locais. No entanto, ainda que a transformação daqueles dois “estrangeiros” cotidianos em inimigos em potencial de certa forma viesse a representar um ponto de acordo entre os membros do Conselho e o polêmico General, os ditos “despotismos” por ele cometidos continuavam a falar mais alto. No fundo, e tal como veremos a seguir, nem mesmo preocupações e percepções
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REIS, João José. “O jogo duro do Dois de Julho...”, p. 82. 473
Declaração franca que faz o General Labatut..., p. 36. 474
Ofício do Conselho Interino de Governo da Bahia dirigido a Francisco Gomes Brandão Montezuma... 475
124 aparentemente partilhadas pareciam ser capazes de extinguir certas divergências ainda persistentemente cultivadas.
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