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3 O CRÉDITO FUNDIÁRIO COMO POLÍTICA DE ACESSO À TERRA

3.1 O CONTEXTO DE IMPLANTAÇÃO DO CF NO BRASIL

Foi numa conjuntura de crescente pressão social e elevada demanda por terra no meio rural brasileiro que surgem as primeiras experiências de CF na década de 1990. A base para sustentação desta política pública foi o programa “Novo Mundo Rural8” que buscava integrar ao capital uma maior parte dos agricultores de baixa renda (sem terra ou com pouca terra), seguindo as orientações do Banco Mundial.

A ideia norteadora dos organismos internacionais e dos setores governamentais que implantaram a política de CF foi de complementariedade à reforma agrária. “Desse modo, a reforma agrária começa a ter como instrumento de acesso à terra o suporte gradativo de mecanismos de compra e venda de áreas que não podiam ser adquiridas pelo processo de desapropriação social” (SARTORI e RIBEIRO FILHO, 2015, p. 270).

Historicamente, no Brasil, a dificuldade de acesso à terra por parte da população mais pobre agrava a situação de miserabilidade das famílias rurais, necessitando e justificando as ações concretas que promovam mudanças na estrutura fundiária. Entretanto, a estratégia proposta pelo Banco Mundial foi composta de um conjunto integrado de políticas, tendo por objetivo central a redução da pobreza rural. Além do acesso à terra, esta estratégia oferecia várias opções para a população rural “escapar da pobreza”, adaptando-se de acordo com a realidade local.

No final dos anos 1990, o governo brasileiro construiu forte parceria com o Banco Mundial para por em prática esta estratégia, através de políticas públicas, que seguiam cinco

8 Programa do Governo Federal com ações voltadas a questão agrária cujas mudanças apregoadas teriam como

fundamento a introdução de tecnologias modernas, a emergência de atividades alternativas no meio rural e o surgimento de novas configurações sociais (SARTORI e RIBEIRO FILHO, 2015, p. 271).

pontos fundamentais, quais sejam: a) intensificação da agricultura no setor de pequenas propriedades rurais; b) construção de um setor agrícola comercial mais dinâmico; c) estimular o crescimento do setor rural não agrícola; d) migração de jovens; e) oferecer uma rede de segurança para as pessoas “aprisionadas” na pobreza (BANCO MUNDIAL, 2001). Sendo considerada como área fundamental para a implantação destas políticas a reforma dos mercados financeiro rural e de terras, que incidiria diretamente nos dois primeiros pontos.

O Banco Mundial (2001, p. 45) acreditava que,

Os mercados de terras podem ser úteis na redução da pobreza rural. Em princípio, a terra completará os ativos fixos das famílias, visto que um melhor acesso a esse bem permitirá que o agricultor de baixa renda utilize de maneira mais produtiva a mão- de-obra familiar, provendo alguma segurança aos pobres contra a volatilidade do mercado de trabalho e, por fim, aumentando o rendimento real.

Desta forma, a implantação de diferentes programas de CF no Brasil e em outros países seguiram os conceitos e o entendimento anunciado nos documentos publicados pelo Banco Mundial. Tendo como objetivo dinamizar o mercado de terras, criar ativos e melhorar a produção no setor da agricultura familiar, objetivando combater a pobreza rural (BANCO MUNDIAL, 2001; PEREIRA, 2004; DESER, 2011).

O pressuposto é que os programas de CF estruturados permitem ao agricultor o acesso à propriedade da terra de forma segura. Segundo Deininger (2003), a propriedade da terra pode melhorar o bem-estar dos pobres, particularmente através do aumento da base de ativos daqueles cujos direitos são, muitas vezes, ignorados, como é o caso das mulheres e jovens. Ao mesmo tempo, a obtenção da propriedade da terra permite acessar de melhor forma os incentivos necessários para o investimento em infraestrutura produtiva nos imóveis rurais, que é um elemento chave para o desenvolvimento econômico sustentável.

De acordo com a concepção do Banco Mundial, facilitar as vendas e a distribuição da terra, seja como ativo circulante ou serviços, a baixo custo, através de canais de mercado, é essencial para abreviar o processo de acesso à terra ao agricultor “produtivo”, acelerando o desenvolvimento dos mercados financeiros que dependem da utilização de terra como garantia (DEININGER, 2003).

Importante salientar que nesta estratégia, de potencializar o mercado de terras, os governos têm um papel central. Devem promover o aquecimento do mercado e contribuir para a alocação socialmente desejável da terra, bem como o seu uso de forma sustentável (BANCO MUNDIAL, 2001; DEININGER, 2003).

terra, através da Lei 160, de 1994, seguindo um conjunto de reformas neoliberais propostas pelo BM. Esse “pioneirismo” foi seguido pela África do Sul (1995) e, como vimos, também pelo Brasil (1997). Segundo Pereira e Fajardo (2015) o objetivo era adequar o setor agrário à abertura comercial e à globalização em vários países da América Latina, África e Ásia.

No contexto brasileiro os documentos do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) descrevem claramente as etapas e as parceiras para a implantação do CF no país:

O Projeto de Crédito Fundiário e Combate à Pobreza surge como uma iniciativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário, com apoio do Banco Mundial, e que vem contando, desde a sua origem, com a participação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura CONTAG, que reivindicava, há longos anos, um programa de Crédito Fundiário, complementar aos programas tradicionais de reforma agrária e de apoio à agricultura familiar (MDA, 2001, p. 4).

Desta forma, atender a reivindicação da criação de uma política de financiamento de terras, era estratégico para o governo federal, pois promoveria as acomodações necessárias das organizações do campo (PEREIRA e SAUER, 2011).

A demanda por terra no Brasil é um fato concreto há vários séculos. No Grito da Terra de 1996, a CONTAG apontou para a necessidade da criação de uma política de acesso à terra, além da política de assentamentos rurais promovida pelo INCRA. E deveria focar pincipalmente os jovens e os agricultores familiares que possuíssem áreas insuficientes para garantir o sustento da família. Estes argumentos baseavam-se nos dados da realidade da estrutura fundiária que evidenciavam uma grande concentração de terras no Brasil e a existência de regiões com predominância de minifúndios. Também, buscava apoio legal para a proposta no Estatuto da Terra, que previa a realização de políticas de reordenamento fundiário. Assim, a CONTAG justificava a participação na elaboração e na execução dos projetos de CF através da demanda de milhares de agricultores familiares que necessitavam ter acesso à terra. Que poderia ser através de um mecanismo complementar aos programas tradicionais de reforma agrária e de apoio à agricultura familiar.

Por outro lado, a atuação da CONTAG legitimou a implantação dos projetos de CF, alinhada a política do Banco Mundial, contrariando a posição de outros movimentos sociais, como o MST, que percebiam estes projetos como parte de uma reforma agrária de mercado, que serviria apenas para desmobilizar a implantação da reforma agrária através da desapropriação de terras improdutivas (PEREIRA, 2005; PEREIRA, 2006; SAUER; PEREIRA, 2006; SAUER, 2010; PEREIRA e SAUER, 2011).

da política oficial de CF no Brasil, dois merecem destaque: primeiro, a afirmação que este é um modelo de acesso à terra que permite a desburocratização do processo de desapropriação da terra para a reforma agrária; segundo, que é uma forma pacífica do trabalhador rural acessar à terra, diminuindo os conflitos, muito presentes neste período (década de 1990).

Entretanto, para o MST o verdadeiro motivo de implantar o CF no Brasil era o de desmobilizar as “frentes de massa”, que era a mobilização dos agricultores sem ou com pouca terra para aderir às ações do movimento. Durante as décadas de 80 e 90, do século passado, as “frentes de massa” do MST ocorriam nas regiões onde predominavam os minifúndios, “coincidentemente” são estes os locais que passaram a ter prioridade na execução dos programas de CF.

Da mesma forma, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) esboçou sua posição crítica ao CF. A CPT era uma organização com origem na Igreja Católica, mas com passar dos anos adquiriu um caráter ecumênico. O argumento principal da CPT era que o CF, da forma como estava sendo implementado, seria um vetor de esvaziamento e de despolitização das organizações que reivindicam a reforma agrária ampla, através das desapropriações dos latifúndios (DA ROS, 2006; SAUER, 2010).

A Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (FETRAF) tinha uma posição contrária à política de CF durante os governos de FHC (1994 a 2002). Contudo, com a chegada de Lula à presidência do Brasil, ocorre uma mudança no posicionamento da FETRAF, passando a apoiar o chamado “novo” PNCF, inclusive auxiliando na operacionalização. Posicionamento que a CONTAG já tinha desde as primeiras experiências de CF, e continuou neste período.

Outro argumento muito recorrente neste debate é que “o CF é visto como um reforma agrária de mercado pelos seus opositores”. No entanto, os próprios documentos que embasaram a implantação do CF no Brasil (Banco Mundial, 2001) tratam o CF como sendo uma política que objetivava o incremento do mercado de terras, tendo ações complementares a reforma agrária, que tinha como foco os assentamentos em terras desapropriadas para este fim. Como já foi debatido no capítulo anterior, num livre mercado a tendência é a concentração de terras nas mãos dos agricultores que estão mais capitalizados.