A importância de se conhecer o contexto histórico de qualquer texto bíblico, para uma melhor compreensão do mesmo, não pode ser esquecida. O conhecimento ou não da época e de acontecimentos do ambiente em que foi produzido é fator determinante para a interpretação. Berkhof chega a afirmar que não se pode fazer uma interpretação correta sem que o autor seja visto atuando em suas próprias circunstâncias históricas.62
Desta forma, aqui será feita uma tentativa de demonstrar, dentro das limitações impostas pelo próprio tipo de literatura, o provável contexto histórico dos salmos que contêm maldições. A tarefa não é nada fácil. Ainda que se possa afirmar com certa segurança que o Saltério tenha recebido sua forma final na época do segundo templo,63 como será possível notar nas próximas linhas, as diferenças de opiniões entre os estudiosos se mostrarão muito grandes e claramente conflitantes.
62 Louis Berkhof, Princípios de interpretação bíblica, Rio de Janeiro, JUERP, 1981, p.120.
63 Diego Arenhoevel, O Período pós-exílico, período anônimo, em J. Schereiner (ed), Palavra e mensagem: introdução teológica e crítica aos problemas do AT, São Paulo, Edições Paulinas, 1987, p.355.
Para Rendtorff o Saltério, como se encontra hoje, assim como os hinários modernos, é resultado de uma longa história e se baseia aind a em coleções anteriores. Assim, o Livro de Salmos contém produções muito antigas e mais modernas, arranjados em um mesmo corpo. Isto dificulta ao intérprete o descobrimento da situação histórica de cada parte, não sendo possível, na maioria dos casos, fixar uma data segura da origem destes salmos. Para ele, Rendtorff, raras vezes pode-se encontrar indícios seguros da origem de um salmo como é o caso do 137 que, em sua opinião, deve ter surgido na época do cativeiro babilônico. Deve-se levar em conta ainda que a maioria dos salmos demonstra uma relação mais ou menos clara com o culto.64
Embora Rendtorff consiga ver indícios seguros no Salmo 137 para colocá-lo como fruto da época do cativeiro babilônico e seja seguido nesta opinião por outros como Archer65 e
Kidner, que também o consideram como sendo desta época,66 nem sempre esta sugestão é a que prevalece. Sellin, por exemplo, diz que este salmo é um lamento coletivo não cultual de época pós-exílica.67 Para uma verificação mais aprofundada sobre este assunto, deve-se avançar ao próximo capítulo desta pesquisa, onde a questão é discutida.
Para Anderson, determinar o contexto histórico de um salmo é tarefa difícil e de resultado incerto. Observando o Salmo 35 acha ser possível que ele tenha como pano de fundo, acusações falsas contra o salmista, na mesma linha do que aconteceu com Jó. Desta forma, o autor estaria pedindo a libertação de uma calamidade particular a qual estava sendo encarada pelos que com ele viviam como sendo resultado de seus pecados.68
64 Rolf Rendtorff, A formação do Antigo Testamento, São Leopoldo, Editora Sinodal, 1988, p.33.
65 Gleason. L. Archer, Jr., Merece confiança o Antigo Testamento?, São Paulo, Edições Vida Nova, 1986, p.397. 66 Derek Kidner, Salmos 73 -150: introdução e comentário, São Paulo, Edições Vida Nova, 1992, p.467.
67 Ernst Sellin e Georg Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, Edições Paulinas, 1977, p. 428. 68 A. A. Anderson, Psalms (1-72), em R. E. Clementes (ed.), The Book of Psalms, London, Marshall, Morgan & Scott Publ. Ltd., 1981, p.275. v.1.
Analisando a opinião de Anderson em relação a este salmo, percebe-se que para ele embora seja difícil determinar o contexto em que foi produzido o texto, há uma boa possibilidade de se chegar a alguma conclusão. Neste caso, o salmista estava usando a oração de forma individual com o objetivo de se livrar dos problemas que o atormentavam.
Weiser já é mais radical. Estudando o mesmo texto, afirma que não se pode estabelecer as circunstâncias pessoais em que surgiu este salmo. Contudo, opina que provavelmente é um apelo feito a Deus no santuário por um adorador que estava sendo acusado de maneira falsa por seus inimigos.69
Mowinckel seguindo a sua opinião cúltica da origem dos salmos do Saltério não vê dificuldades para dizer que mesmo as maldições encontradas neles têm seu fundo histórico no culto de Israel. Para ele, tanto a bênção quanto a maldição em nome de Iahweh são elementos usados no culto israelita desde os tempos do Templo de Jerusalém até mais tarde, nas sinagogas.70
Rendtorff segue o mesmo pensamento, opinando que os Salmos de Lamentação, onde se encontra a maioria das passagens de maldição do Saltério, possuem uma forma de expressão um tanto vaga. Quando alguém procura determinar quais são os problemas reais do salmista, geralmente não chega a uma conclusão segura. Isto se deve ao fato de que, em última análise, estes lamentos não são orações individuais que dizem respeito a uma determinada situação, mas orações destinadas ao uso no templo por aqueles que desejassem se lamentar diante de Deus.71
A opinião deste estudioso é muito interessante e, se fosse possível sustentá-la, acabaria com vários problemas na interpretação atual dos Salmos. Contudo outras sugestões devem ser
69 Artur Weiser, The Psalms: a Commentary, em G. E. Wright (ed.), The Old Testament Library, Philadelphia, The Westminster Press, 1962, p.302.
70 Sigmund Mowinckel, The Psalms in Israel’s Worship, Oxford, Basil Blackwell, 1962, p.50. 71 Rolf Rendtorff, A formação do Antigo Testamento, São Leopoldo, Editora Sinodal, 1988, p.36.
ouvidas entre elas a de Kidner que diz: “Setenta e três dos salmos, no entanto, que consistem em quase metade do saltério, se introduzem com a fórmula: ‘De Davi’, e quatorze destes são vinculados a episódios na sua carreira, a maioria deles sendo dos dias em que era perseguido. Tomando-os por aquilo que se declaram ser, portanto, estes são salmos tirados diretamente da vida: do campo de batalha ou ‘na caverna’, não do santuário nem do drama cúltico. As direções musicais, no entanto, bem como as alusões ‘ao mestre de cântico’ (conforme usualmente se traduz este termo), mostra que foram colecionados, e, onde necessário, adaptados, para o emprego no culto”.72
Deve ser levado em conta, porém, quanto à autoria dos Salmos, como é o caso dos vários que trazem o nome de Davi, que isto não é um indício seguro de quem seja o autor. A
preposição hebraica l ( l ), neles utilizada, pode significar, simplesmente, que o salmo em questão é de autoria “de”, ou pode ter sido escrito “para”, ou foi dedicado “a” alguém.73
Outro fator que também não deve ser desprezado pelo intérprete são os títulos dos salmos do Saltério. Segundo Gleason L. Archer Jr. eles devem ser analisados com cuidado, pois existe a possibilidade de terem sido acrescentados mais tarde sim, já que não fazem parte da composição. Mas, por outro lado, não devem ser ignorados imediatamente como se não tivessem nenhum valor para esclarecer o contexto. Eles são muito antigos e alguns podem perfeitamente estar descrevendo a situação original do salmo. Eles são tão antigos que muitos de seus termos técnicos foram traduzidos de forma errônea para a LXX, demonstrando assim que na época desta importante tradução tais termos já haviam caído em desuso.74 Talvez Archer tenha exagerado a importância destes títulos, ao tratar da possibilidade deles descreverem a situação original do salmo, mas o fato deles constarem de uma tradução tão
72 Derek Kidner, Salmos 1-72: introdução e comentário, São Paulo, Edições Vida Nova, 1981, p.28.
73 Henry H. Halley, Manual bíblico: um comentário abreviado da Bíblia, São Paulo, Edições Vida Nova, 1987, p.226.
74 Gleason L. Archer, Jr., Merece confiança o Antigo Testamento?, São Paulo, Edições Vida Nova, 1986 p.394- 396.
antiga quanto a LXX não deve ser desprezado. Algumas pistas podem ser tiradas de alguns deles.
A questão do contexto histórico dos Salmos realmente é complicada, basta observar as listas de Henry H. Halley e de Ernest Sellin apresentadas ao final deste trabalho, como Anexos C e D, para se perceberem várias divergências. Por exemplo, o Salmo 143, para Henry H. Halley, pode ter como contexto histórico a revolta de Absalão, já Ernest Sellin o apresenta como um salmo pós-exílico, de muitos anos à frente da época de Absalão.75 Estes dois autores foram utilizados nos anexos que tratam dos contextos dos Salmos exatamente pela grande diferença de opiniões que apresentam. Nenhum deles, com suas idéias tão divergentes sobre este tema, representa a opinião do autor desta tese.
Sendo assim, todo cuidado é pouco na interpretação, mas no caso das maldições, seja qual for o contexto em que tenham surgido, deve-se levar em conta o seu poder de causar danos ao adversário. Tenha surgido no culto ou em várias ocasiões da vida dos salmistas, provavelmente, elas eram utilizadas da mesma forma como estavam sendo fora deste livro. Isto será visto em mais detalhes no próximo ponto.
Na opinião de Sellin, não se referindo aos Salmos, as narrativas referentes a Balaão em Nm 22-24, são as melhores fontes para se ver o Sitz im Lebem dos Cânticos de Bênçãos ou de Maldições. Ali pode ser visto que um homem possuidor da força divina deveria amaldiçoar os inimigos e abençoar os amigos para com isto assegurar a vitória no combate.76 A lembrança deste fato, na hora de interpretar as maldições nos Salmos pode ser fundamental para uma boa compreensão.
75 Há uma diferença de cerca da 600 anos na opinião destes autores.
2.4 A DIFICULDADE PARA UMA INTERPRETAÇÃO CRISTÃ DAS MALDIÇÕES