4.1 O PODER DA PALAVRA NO ANTIGO TESTAMENTO
4.1.4 A Origem do Poder da Palavra
Não era só no pensamento hebraico que a palavra era tratada como algo possuidor de poder. Também não foi só entre os hebreus que a origem das bênçãos e das maldições foi atribuída à divindade. Por exemplo, G. del Olmo Lete chama a atenção para o fato de que nos mitos e lendas de Canaã, tanto bênçãos como maldições possuem a mesma fonte e origem, a divindade.212 Walther Eichrodt, por sua vez, afirma que a crença neste poder da palavra também estava presente na Babilônia e isto é visível nos hinos que celebram o poder das palavras proferidas pelos deuses. De forma semelhante, Egito era outro país que possuía uma tradição demonstrando este poder. Nele era defendida a criação do mundo pela força da palavra do deus Thoth.213
210 Ver no Anexo A, a relação dos inimigos citados nas maldições que se encontram no Livro de Salmos. 211 Sigmund Mowinckel, The Psalms in Israel’s Worship, Oxford, Basil Blackwell, 1962, p.44.
212 G. del Olmo Lete, Mitos y leyendas de Canaan: segun la tradicion de Ugarit, Madrid, Ediciones Cristandad, 1981, p.362.
Para Gerhard von Rad é fato comprovado que para muitas culturas antigas as palavras não serviam apenas para designar determinados objetos. Em algumas situações, elas podiam fazer surgir uma nova realidade, baseada apenas no poder misterioso que lhes era inerente. Elas tinham o poder de criar alguma coisa. Para von Rad a linguagem, ainda nos tempos modernos, possui este atributo criativo e pode ser encontrado de forma especial nas culturas do oriente antigo, nas bênçãos, maldições, celebrações do exorcismo e tradições especificamente teológicas.214
Israel estava inserido neste contexto do mundo antigo, onde era atribuído um poder mágico para as palavras pronunciadas com ênfase e propósitos bem definidos. Contudo, não se deve imaginar que em Israel este poder era encarado exatamente da mesma forma que pelos seus vizinhos.
Nota-se que no uso das palavras, em Israel, havia a crença de que o poder emanado por elas procedia de Iahweh. Para Rolf Rendtorff, por exemplo, no AT, a palavra profética nunca foi atribuída ao profeta mesmo, mas sim a Deus. Eles tinham esta consciência e são muitas as passagens bíblicas nas quais se expressam fazendo uso do “dito do mensageiro”, que é
introduzido pela frase hw;hy] rmæa; hKo (koh ’amar YHWH - assim disse Iahweh), no qual quem fala é o remetente e não o portador da mensagem, que no caso é apenas um porta voz daquele que o enviou.215
Em outras ocasiões, nota-se que “a palavra de Iahweh foi dirigida por intermédio do profeta...” (Ag 2,1), demonstrando que a autoridade desta palavra estava fundamentada em sua origem.
214 Gerhard von Rad, Teologia do Antigo Testamento: teologia das tradições históricas de Israel, São Paulo, ASTE, 1986, p.82.
215 Rolf Rendtorff, Formula do mensageiro e dito do mensageiro, em Profetismo: coletânea de estudos, São Leopoldo, Editora Sinodal, 1985, p.5
Como diz Taylor, “a palavra de Iahweh é uma extensão da personalidade divina, investida de autoridade”.216 Ela possui o poder de permane cer para sempre (Is 40,8) e depois de proferida não deixará de executar aquilo que é da vontade de Deus, como se pode confirmar em Is 55,10-11, que diz:
Como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam, sem terem regado a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, dando semente ao semeador e pão ao que come, tal ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não torna a mim sem fruto: antes, ela cumpre a minha vontade e assegura o êxito da missão para a qual a enviei.
Neste texto, a Palavra de Iahweh é comparada com a chuva e a neve. Da mesma forma como estes elementos, chuva e neve, cumprem a sua função, a qual, segundo o texto em questão, é de regar a terra, assim a palavra fará aquilo que lhe foi designado, ela tem em si a autoridade de quem a produziu.
De acordo com Georg Fohrer, ainda que a palavra profética venha precedida de um ato simbólico, o que faz com que ela deva ser levada muito a sério pelos seus ouvintes, pois em determinados casos o evento futuro está garantido por ela, não deve ser encarada como prática de magia. Mesmo que nestes atos simbólicos seguidos de uma palavra de interpretação possam existir resquícios de elementos mágicos, deve ser lembrado que sua poderosa força de ação está baseada em Iahweh.217
Walther Zimmerli é outro que vê restos de elementos mágicos em ditos usados pelos hebreus. Na opinião dele, as súplicas de bênçãos, bem como as de maldições, encontradas no AT, são o resultado de transformações que ocorreram progressivamente de antigas fórmulas
216 J. B. Taylor, Palavra, em J. D. Douglas (ed.), O novo dicionário da Bíblia, São Paulo, Edições Vida Nova, 1983, p.1178. v.2.
217 Georg Fohrer, O gênero dos relatos sobre atos simbólicos dos profetas, em Profetismo: coletânea de estudos. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1985, p.80-85.
mágicas.218 Werner H. Schmidt, por sua vez, ainda que não seja enfático, declara: “Parece que
por via de regra a maldição, originalmente talvez uma poderosa palavra mágica, é compreendida, no AT, como atuação de Deus”.219 Estas afirmações, contudo, não devem ser tomadas como provas definitivas de que os hebreus em geral imaginavam haver poder mágico em suas palavras, o que fica claro é que eles as relacionavam com Iahweh, na teologia deles o detentor de todo poder. Porém, sempre é bom diferenciar a religião oficial da popular, onde todo tipo de crenças estranhas tinham lugar.
Falando da bênção, Sigmund Mowinckel diz que ela é um poder criador, o qual dá ao seu receptor vida longa, felicidade, segurança, fertilidade e bens materiais. Sendo um poder criativo é normal para o israelita achar que ele vem da deidade. Por isso, na palavra de bênção, o nome de Iahweh é mencionado. Por esta invocação do nome de Iahweh através de uma fórmula ritual é feita a transferência da bênção a alguém. Seu poder, o de Iahweh, é incluso na bênção, mas sem obrigá-lo a agir, pois ele está acima de obrigações e, em última instância, abençoa a quem quer.220
O texto de Ml 2,2b mostra que o poder inerente à palavra de bênção não é algo mágico e a quem ele esta subordinado. Nele se encontra a seguinte mensagem aos sacerdotes: “Disse Iahweh dos Exércitos -, mandarei contra vós a maldição e amaldiçoarei a vossa bênção”. Ou seja, Iahweh dos Exércitos pode mudar as bênçãos proferidas pelos sacerdotes, ainda que ritualmente perfeitas (Nm 6,22-27), afinal eram ditas por profissionais de religião, em maldições, porque elas estão debaixo de sua autoridade.221 Neste texto de Malaquias bênçãos
218 Walther Zimmerli, Manual de teologia del Antiguo Testamento, Madrid, Ediciones Cristandad, 1980, p.174. 219 Werner H. Schmidt, Introdução ao Antigo Testamento, São Leopoldo, Sinodal, 1994, p.113.
220 Sigmund Mowinckel, The Psalms in Israel’s Worship, Oxford, Basil Blackwell, 1962, p.45-48. 221 Herbert Wolf, Ageu e Malaquias, Miami, Editora Vida, 1986, p. 84.
podem ter, também, o sentido de recursos, os quais os sacerdotes recebiam. Seja como for, isto não muda a situação, fica claro que Iahweh tem pleno poder sobre elas.222
As maldições também estão sujeitas a Iahweh. J. Scharbert diz que, embora a maldição esteja ligada à crença no poder da palavra falada, em Israel, em contraste com outros povos do oriente, ela não tem um poder mágico que venha a obrigar Deus a interferir. Ela é uma súplica a Deus, para que este aplique as sanções previstas, ou seja, faça justiça,223 informação
importante para o que se está defendendo nesta tese que destaca o conteúdo do Salmo 137.
Sigmund Mowinckel raciocina de forma semelhante e ao falar dos lamentos, que são no Saltério as maiores fontes de maldições, diz que se encontram neles um eco de antigas fórmulas mágicas, mas que de fato são orações dirigidas a Deus.224
Sendo Iahweh a fonte de onde provem a maldição, se esta for injusta não terá nenhum efeito, ou pode até mesmo recair sobre o maldizente (Sl 10,7-15; 109,16-19).225 Ou, ainda, como esperava Davi, poderia ser mudada em bênção, como está registrado em 2 Sm 16,12: “Talvez Iahweh considere a minha miséria e me restitua o bem pelas maldições de hoje”.
Para Walther Eichrodt, as principais características dos encantamentos são três: a pronúncia mágica do nome de Deus; a repetição da oração em termos idênticos; e uma maneira especial de recitar em forma de murmúrio. A ausência destes detalhes nas orações em Israel são significativas e mostram que Iahweh não era manipulado. A maldição era pronunciada em seu nome porque, na mente deles, era ele quem tinha o poder de amaldiçoar. Seu poder estava acima do poder intrínseco da maldição. Ele podia aplicar a maldição para
222 Joyce G. Baldwin, Ageu, Zacarias e Malaquias: introdução e comentário, São Paulo, Edições Vida Nova, 1991, p.195.
223 J. Sharbert, Maldição, em J. B. Bauer (ed.), Dicionário de teologia bíblica, São Paulo, Edições Loyola, 1973, p.655-656. v.2.
224 Sigmund Mowinckel, The Psalms in Israel’s Worship, Oxford, Basil Blackwell, 1962, p.203.
225 J. Sharbert, Maldição, em J. B. Bauer (ed.), Dicionário de teologia bíblica, São Paulo, Edições Loyola, 1973, p.655-656. v.2.
fins diferentes daqueles esperados por quem a proferiu e, até mesmo, torná-la totalmente ineficiente.226
Como foi visto até aqui, Israel bem como seus vizinhos davam um grande valor à palavra proferida. Para eles, ela possuía um poder intrínseco capaz de criar uma nova realidade. Sendo assim, para que se possa obter uma interpretação adequada dos textos bíblicos que contêm alguma palavra profética, acompanhada ou não de ato simbólico, palavra de bênção ou de maldição, deve-se levar em conta que, na mentalidade daquele que as proferiu, elas eram muito mais do que meras palavras e que tinham sido empregadas com o objetivo de realizar aquilo para que foram enviadas.
Mesmo na interpretação das maldições que aparecem no Saltério isto não deve ser esquecido. Certamente, também os salmistas criam neste poder, e poderiam usá-lo contra seus inimigos, conscientes de que não se tratavam de fórmulas mágicas, mas sim de apelos a Iahweh, a única fonte deste poder, para que seus opressores fossem castigados e as leis de Iahweh fossem cumpridas.
A próxima divisão deste capítulo tratará de alguns dos usos de maldições por Israel e seus vizinhos fora do Saltério. Isto deverá lançar mais alguma luz a respeito da maneira como se entender as maldições contidas nos Salmos em geral e no Salmo 137 em particular.