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4.1 O PODER DA PALAVRA NO ANTIGO TESTAMENTO

4.1.3 O Poder da Palavra de Maldição

Da mesma forma como a palavra de bênção, também a palavra de maldição, originalmente representava uma palavra poderosa.202 Ela é encontrada em diversas partes do AT e, se não for levado em conta a crença no poder que se cria haver nestas palavras, dificilmente alguém encontrará utilidade prática para elas.

Aage Bentzen define maldição como “uma palavra poderosa que tem por escopo criar algo”.203 J. Scharbert, também, não tem dúvida quanto a este poder. Para ele, em todo o Oriente Antigo, inclusive em Israel, a maldição está ligada à crença no poder da palavra falada. Em sua opinião, as maldições tinham o objetivo de proteger inscrições e documentos contra possíveis alterações ou falsificações, de proteger túmulos e edifícios de uso sagrado contra profanações e, além disso, serviam para confirmar contratos e leis. Seu poder era tido como muito grande e capaz de destruir tanto a pessoa do inimigo, ou transgressor, quanto a sua família, e até mesmo suas gerações posteriores.204

Diante de um perigo tão real, provavelmente, na maioria dos casos, as maldições cumpriam o seu papel de proteção e de fazer valer as leis e contratos, pois ninguém gostaria de sofrer tais sanções com conseqüências terríveis para si mesmos e seus familiares.

202 Werner H. Schmidt, A fé no Antigo Testamento, São Leopoldo, Sinodal, 2004, p.133. 203 Aage Bentzen, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, ASTE, 1968, p.142. v.1.

204 J. Sharbert, Maldição, em J. B. Bauer (ed.), Dicionário de teologia bíblica, São Paulo, Edições Loyola, 1973, p.654.

Ao que parece, era reputado um poder tão grande para a palavra de maldição que a lei em Lv 19,14 proíbe que o mudo seja amaldiçoado, provavelmente pela impossibilidade deste se defender apelando para uma contramaldição, ou uma bênção da parte de Deus.205

O paralelismo contido neste texto de Lv 19,14 (“não amaldiçoarás um mudo e não porás obstáculo diante de um cego...”) parece mostrar que a maldição proferida contra um surdo era tão perigosa e eficaz quanto o tropeço colocado na frente do cego. Isto porque nenhum deles teria qualquer chance de escapar de suas conseqüências, seriam vítimas indefesas de tais armas, não teriam como evitá-las, o que seria uma total falta de humanidade da parte daquele que usasse tais recursos.206

Para J. Scharbert, a ma ldição poderia ser usada tanto contra coisas como pessoas. No caso de coisas amaldiçoadas, aquele que viesse a fazer uso delas sofreria as conseqüências da maldição e no caso de pessoas serem amaldiçoadas elas mesmas sofreriam o dano, pois o amaldiçoador estaria, com suas palavras, destruindo a felicidade do amaldiçoado, tirando-lhe as bênçãos e lançando-lhe a desgraça.207

Sendo a maldição uma arma tão perigosa aos olhos do povo de Israel, devia ser proibida em alguns casos. Um dos usos proibidos já foi visto, é contra o surdo, outro é contra os próprios pais. Não deveria haver desculpas para um ato tão horrendo como este. O texto é claro: “quem amaldiçoar o seu pai ou a sua mãe, será morto” (Ex 21,17). Roy L. Honeycutt ao comentar este versículo de Êxodo 21,17 afirma que, na forma de pensar das pessoas que viveram naquela época do mundo antigo, a maldição tinha um poder de liberar forças hostis, quem sabe até demoníacas, contra os outros. Para ele, este costume de amaldiçoar se

205 J. A. Motyer, Maldição, em J. A. Douglas (ed.), O novo dicionário da bíblia, São Paulo, Edições Vida Nova, 1983, p. 987. v.2.

206 Roland K. Harrison, Levítico: introdução e comentário, São Paulo, Edições Vida Nova, 1989, p. 183.

207 J. Sharbert, Maldição, em J. B. Bauer (ed.), Dicionário de teologia bíblica, São Paulo, Edições Loyola, 1973, p.652.

aproximava do vodu e era muito usado tanto a nível pessoal como nacional. Daí a palavra tão forte contra praticantes de tais coisas malignas contra os pais.208

Parece que Roy L. Honeycutt foi um tanto duro e generalizador em seu comentário, colocando a possibilidade de atuação de forças demoníacas na maldição, pois deve ser levado em conta, inclusive, a presença delas no Saltério. Embora na mente do povo em geral, desconhecedor de Iahweh e suas leis, possa haver esta possibilidade, não se deve achar que também os escritores bíblicos pensavam assim. Como será visto mais adiante, na próxima divisão deste capítulo, eles atribuíam também a Deus este poder. Para eles não existiam fontes diversas de onde pudessem ser invocadas forças destruidoras ou construtoras, somente Iahweh detinha este poder.

Gordon J. Wenhan, ao comentar outro episódio bíblico, o de Balaão e Balaque, afirma que o rei estaria interessado em alguém que pudesse amaldiçoar a Israel de tal forma que Israel fosse levado à derrota. Neste caso então ele queria usar a maldição como uma arma de guerra. Para ele, Wenhan, a Bíblia do começo ao fim afirma ser a maldição, da mesma forma que a bênção, desde que pronunciadas de maneira correta, um instrumento eficaz para mudar situações.209

Desta forma, a maldição tem alguma semelhança com a bênção. A semelhança está no poder inerente que há de levar a cabo a sua tarefa. Assim, não é de admirar, como será visto no próximo capítulo, que também no Salmo 137 as duas, bênção e maldição, estão presentes.

Esta semelhança pode ser notada também em outras partes do Saltério. Nele existem salmos que contêm bênçãos para a congregação e também para pessoas individuais (Sl 118,26; 122,8.9; 119,12-15; 128,91 e outros) bem como maldições contra os inimigos do

208 Roy L. Honeycutt, Jr., Êxodo, em Allen Clifton (ed.), Comentário bíblico Broadman: Velho Testamento, 2.ed., Rio de Janeiro, JUERP, 1986, p.497. v.1.

povo e contra pecadores em geral210 que podem abalar a felicidade da comunidade (Sl 35,26;

40,15; 55,16; 108,6 ss; 129,5 ss e outros). Sigmund Mowinckel em seu livro, The Psalms in

Israel’s Worship, apresenta-os em um mesmo capítulo, em conjunto, e assim chama a atenção

do leitor para a semelhança existente entre eles. Ambos estão baseados na crença do poder criador da palavra proferida, seja para construir ou destruir.211

A crença no poder da palavra pode mesmo ser visto no uso da palavra profética, na palavra de bênção e na palavra de maldição. Falta agora verificar mais de perto de onde eles criam vir este poder. Este é o tema do próximo tópico.