Capítulo 3 O Caso Particular da Estação Entre Campos: as Obras de Bartolomeu Cid dos
3.2. O convite a Bartolomeu dos Santos, o projeto e os temas
Bartolomeu dos Santos foi um dos artistas que, nos anos 50 do seculo XX, saiu do país para desenvolver a sua formação artística198, distanciando-se do que considerava
195
Cfr. Arte no Metropolitano de Lisboa, in Maria Fernanda Rollo,Um Metro e uma Cidade, vol. 3, p. 140.
196
Cfr. Margarida Botelho in Do Canto da Água à Linguagem dos Painéis, in Margarida Botelho e Pina Cabral, O Novo Interface do Metro de Entrecampos, p. 3 (paginação atribuída pela autora).
197
José de Santa Bárbara apud Margarida Botelho, op. cit., p. 4.
198
Outros foram, em Londres, designadamente Paula Rego, Jorge Vieira, João Cutileiro, Rolando Sá Nogueira, Menez e João Vieira (cfr. João Lima Pinharanda, O Declínio das Vanguardas: dos Anos 50 ao Fim do Milénio, p. 608).
ser uma atmosfera cultural, política e social claustrofóbica199. Em 1956 ingressou na Slade School of Fine Arts, da University College de Londres, onde ficou até 1958, tendo estudando gravura com Antony Gross200 e contactado com uma forma de pensar e ensinar diametralmente oposta à que se cultivava em Portugal201. Voltou a Lisboa para terminar a licenciatura em Belas Artes, mas não se habituou à mentalidade vigente na Escola202 e ao ambiente cultural e artístico de então, nem a um país em que tudo o que não era permitido era proibido203. Por isso, em 1961 voltou a candidatar-se à Slade como estudante e, em troca, recebeu um convite para lecionar204, atividade que viria a desenvolver nos 35 anos seguintes205, até à sua aposentação em 1996206.
Assim, durante a maior parte da sua vida ativa, o artista desenvolveu a sua atividade exclusivamente fora de Portugal. É certo que nunca perdeu o contacto com o seu país de origem, aqui se deslocando duas ou três vezes por ano e fazendo uma exposição em Lisboa sensivelmente de dois em dois anos, com trabalhos feitos em Inglaterra207 e sendo representado pela Galeria 111. Manteve-se, contudo, alheado do contacto quotidiano com a vida artística e cultural portuguesa.
Em 1990 Bartolomeu dos Santos foi convidado pela ML para conceber o
tratamento plástico da renovada estação Entre Campos. De acordo com o contrato
assinado em 21 de fevereiro de 1991, tal tratamento deveria abranger as superfícies
internas da estação, com vista à valorização do ambiente do átrio, acessos e cais208. Assim, a sua obra veio a revestir praticamente todo o átrio sul, as escadas de acesso aos cais de embarque e estes próprios, tratando-se, portanto, de um trabalho enorme, dada a sua vasta dimensão.
199
Cfr. Inês Sarre, Entrevista ao Prof. Bartolomeu Cid dos Santos, p. 83.
200
Cfr. ibidem, p. 83.
201
Cfr. ibidem, p. 83.
202
Cfr. depoimento de Bartolomeu dos Santos in Jorge Silva Melo, Bartolomeu Cid dos Santos; Por Terras Devastadas, documentário em DVD, Midas Filmes / RTP, Portugal, 2009, 31:15.
203
Cfr. Rosemary Simmons, Bartolomeu dos Santos (entrevista), in Printmaking Today, vol. 5, nº 3, 1996, p. 7.
204
Cfr. ibidem, p. 7.
205
Cfr. Bartolomeu dos Santos, Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I, Cascais, 2001, s/ ISBN, p. 11 (paginação atribuída pela autora).
206
Cfr. Rosemary Simmons, op. cit., pp. 7-8.
207
Cfr. José Mário Silva, Bartolomeu dos Santos (entrevista), in DNA (suplemento de Sábado do Diário
de Notícias), ano 5, nº 223, 10/03/2001, p. 16.
208
Cfr. cláusula 1ª do contrato, consultado pela autora aquando de um pequeno trabalho elaborado em 2003.
A ML deu total liberdade ao artista para escolher tanto a técnica como os temas209, pelo que o artista, adaptando a sua técnica habitual, concebeu painéis de pedra gravada a ácido, como se de uma chapa de gravura se tratasse. No entanto, neste caso, após a tintagem a vermelho e amarelo torrado, a própria pedra constitui a gravura, e não o seu negativo.
Bartolomeu dos Santos desenvolveu os estudos prévios da obra no verão de 1990210, o que resultou na apresentação à ML, em 25 de novembro de 1990211, de uma memória descritiva e um conjunto que, não sendo uma maqueta, serviu como tal: três pedras gravadas e uma colagem de fotocópias coloridas destas pedras, que permitia ter uma ideia clara de como o trabalho final resultaria212. A ML ainda guarda duas pedras: uma gravada a vermelho e outra a azul213.
O processo inicial de execução dos painéis, a par com a estabilização dos temas e da forma da obra, foi registado por Bartolomeu dos Santos num diário, que intitulou
Projecto Estação Metropolitano Entrecampos214, em que foi descrevendo as ideias e as dificuldades surgidas, as opções tomadas e o ambiente geral de toda a produção da obra. O diário termina pouco após a execução do primeiro painel — o da Biblioteca — com um apontamento sobre a direção finalmente seguida para a realização da obra.
Tendo em conta a proximidade da Biblioteca Nacional, Bartolomeu dos Santos escolheu como tema principal livros, escritores e bibliotecas215: a parede do cais de embarque nascente foi revestida com um painel alusivo à Ode Marítima, de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa (fig. 78), a do cais poente foi-o por um painel dos Lusíadas, de Luís Vaz de Camões (fig. 81), e na parede que fica de frente para quem se dirige ao exterior encontra-se um painel com uma enorme biblioteca, que conta a história da literatura portuguesa desde o século XIII até 1991, data de execução da obra (fig. 77). Para além disso, nos acessos que vão desde o átrio das bilheteiras até aos
209
Cfr. Bartolomeu dos Santos, An Etching, But Not a Print, in Printmaking Today, nº 4, outono de 1991, p. 9.
210
Cfr. Bartolomeu dos Santos, Projecto Estação Metropolitano Entrecampos, capa (paginação atribuída pela autora), in Vol. II, Anexo 3.
211
Cfr. cláusula 2ª do contrato referido na p. 67 supra.
212
Cfr. Bartolomeu dos Santos, An Etching, But Not a Print, e conversa com Bartolomeu dos Santos em 16/06/2003, in Vol. II, Anexo 4, p. 145.
213
Cfr. entrevista com Guilherme Rodrigues em 20/08/2012, in Vol. II, Anexo 4, p. 182.
214
Do Anexo 3 ao presente trabalho (in Vol. II) consta uma cópia de tal diário, gentilmente cedido por Fernanda Paixão dos Santos, viúva do artista, sendo que o mesmo foi expurgado das passagens de cariz pessoal, nos termos por ela autorizados.
215
cais de embarque, executou dois painéis com motivos vegetalistas e marinhos (figs. 79 e 80) e revestiu a parede do átrio que une os dois cais (do lado contrário ao painel da biblioteca) com um painel dedicado a Robert Motherwell (fig. 82), pintor norte-americano falecido enquanto Bartolomeu dos Santos executava a obra.
Relativamente aos painéis dos cais de embarque, Bartolomeu dos Santos teve em
mente, não só a criação de uma totalidade mas também de uma pormenorização que desperte interesse a quem estiver perto das paredes aguardando a chegada do metro216. Em entrevista a José Mário Silva explicou a sua visão sobre o que devem ser as características deste tipo de obra e quais foram os seus objetivos:
A ideia foi esta: se as pessoas estão ali pouquíssimo tempo — dois minutos, 30 segundos —, então vamos fazer uma coisa que tenha uma atmosfera que satisfaça as pessoas, que não seja agressiva, mas que permita, a quem tem tempo, o desfrutar de um fragmento. No dia seguinte, descobre outro fragmento. E tenho visto isso. No outro dia passei lá e ouvi alguém dizer, "Olha, isto é do Camões e aquilo é do Cesário", etc. Há sempre qualquer coisa para descobrir ali217.
Entendia que não é para ser visto tudo de uma vez, mas antes que dá pano para
mangas. É para ser visto bocadinho por bocadinho. Tinha consciência de que há quem
nem sequer olhe, pelo que às vezes recorro a uma aproximação mais directa. Na
estação de comboios da Reboleira, por exemplo, recorri a painéis de azulejos com áreas grandes e muita cor. Sabia que trabalhava para um público muito diferente do que
frequenta as galerias e que é o maior público que se pode ter. Por isso, quando estava a
montar os azulejos da Reboleira, perguntava sempre aos operários cabo-verdianos o que é que achavam daquilo. E quando não gostavam, geralmente tinham razão.
Considerava que este tipo de obra tem de ser feita de forma inteligente. Porque também
não se pode cair numa qualquer forma de populismo fácil. O ideal é criar vários níveis de leitura, que podem agradar de formas diferentes e pessoas diferentes218.
Os temas e o desenho da obra não estavam, contudo, definidos aquando da apresentação do projeto à ML, nem sequer quando Bartolomeu dos Santos iniciou a execução dos painéis. De facto, quando Bartolomeu dos Santos convidou Max Werner219 para o trabalho, em outubro/novembro de 1990, transmitiu-lhe que aceitei
216
Apud Margarida Botelho, O Novo Interface do Metro de Entrecampos, p. 5.
217
Cfr. Bartolomeu dos Santos, in DNA, p. 19.
218
Cfr. ibidem, p. 19.
219
Max Werner, artista de origem belga, estudou na California College of Arts and Crafts e na Byam Shaw School of Art, tendo concluído estudos pós-graduados na Slade School of Fine Art. A partir de 1985 foi técnico de gravura na Byam Shaw e depois passou a assistente de Bartolomeu dos Santos na
uma encomenda muito importante em Portugal. É para fazer a decoração de uma estação de metro inteira. Aceitei mas não tenho ideia de qual será o tema, mas será uma espécie de gravura em pedra calcária220. Já em 11 abril de 1991, quando
Bartolomeu dos Santos (acompanhado de Max Werner e John Aiken221) iniciou a obra
nos estaleiros da Graniver, apenas tinha a ideia de desenhar uma biblioteca em que se
encontrem todas as obras importantes da literatura portuguesa. Luís de Sousa Rebelo, em Londres e a meu pedido, fez uma lista. São cerca de 600 autores! Terá pois de haver uma selecção222. Não estavam, por isso, definidos os autores nem as obras — tudo foi sendo criado no processo.
Os outros painéis nem tema tinham ainda. Só no princípio de maio surgem no Diário de Bartolomeu dos Santos as primeiras ideias para os painéis das plataformas:
O projecto evolui na minha cabeça. Nas paredes das plataformas já não haverá cabeças, ficarão só duas, enormes, no começo das escadas. Essas duas paredes vão começar a ser como estratos arqueológicos. O que existe e se encontra no subsolo de uma cidade milenária. Mais um exercício de tempo! Assim também conceptualmente joga com a biblioteca. Ideias: Nas paredes das plataformas: como um corte arqueológico, com muitas texturas, algumas zonas lisas. Aqui e ali adivinham-se sugestões de objectos, mesmo marcas de mãos. Riscos, graffittis. Será possível passar para serigrafia pedaços de textos de livros e transferi-las para a pedra, tintando com verniz?223.
Slade, que influenciou enormemente o seu trabalho de gravura. Em 1990 montou o seu próprio atelier de gravura, onde trabalhou e ensinou até 1997. Neste ano mudou-se para a Argentina e dedicou-se à pintura em acrílico sobre tela, tendo-se mudado para o nordeste dos Estados Unidos da América em 2003. Apresentou o seu trabalho em várias exposições individuais, estando representado em muitas instituições públicas e privadas de vários países.
220
Mensagem de correio electrónico enviada em 18/06/2010 por Max Werner a António Canau Espadinha in Desenhar com os Ácidos: a Obra de Bartolomeu Cid dos Santos, Tese de Doutoramento policopiada, vol. I, Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, 2011, s/ ISBN, pp. 286-287 (tradução da autora).
221
John Aiken (n. 1950), estudou escultura na Chelsea School of Art (atual Chelsea College of Art and Design), da University of the Arts de Londres. Estudou e trabalhou como bolseiro de escultura na British School de Roma, tendo iniciado a sua atividade como docente no Art and Design Centre da Universidade do Ulster. Ensinou em várias universidades e escolas do Reino Unido e o estrangeiro, tanto de forma regular como na qualidade de professor ou artista convidado. Em 1982 ingressou como docente na Slade School of Fine Art da University College London, tendo em 2000 ascendido à cátedra de Belas Artes (Fine Art). Em 2012 ingressou na Academy of Visual Arts da Hong Kong Baptist University. Foi um dos membros fundadores da European Art Research Network (EARN). Como artista, participou em muitas exposições coletivas e individuais em vários países, tendo mostrado instalações de grandes dimensões em galerias como o Institute of Contemporary Arts (ICA), a Sepentine Gallery e a Hayward Gallery, em Londres, e executado várias peças de arte pública. Em Portugal teve duas exposições individuais, uma em 1995, no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, em Lisboa (que tinha também uma segunda parte na Tate Gallery St. Ives, na Cornualha), e outra em 2010, no Centro Cultural de Cascais. Comissariou a exposição Bartolomeu XXI, relativa à obra do Bartolomeu dos Santos, na Casa das Artes de Tavira, em agosto de 2008 (a que o artista já não assistiu) e colaborou na exposição A Biblioteca de Bartolomeu, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, em 2010.
222
Cfr. Bartolomeu dos Santos, Projecto Estação Metropolitano Entrecampos, p. 4, in Vol. II, Anexo 3.
223
Em 24 de maio regista no Diário a mudança de sentido destes painéis e a fixação dos temas definitivos:
A ideia para as plataformas da "arqueologia da cidade" era interessante mas um pouco vaga. Como se entenderiam os meus futuros assistentes com tal tema? Anteriormente tinha pensado em grandes cabeças à romana, numa atitude puramente decorativa. Mas isso realmente não sou eu... Preciso sempre de uma motivação, de um tema, de uma razão à roda da qual o trabalho se estrutura. Assim, no Sábado, sem notícias do Schalk, e sem pedras, fiquei em casa a pensar, não na proverbial "morte da bezerra", mas na questão da decoração das plataformas. Ideia puxa ideia, e assim decidi que estas seriam a continuação, melhor, o prolongamento natural do tema da biblioteca do hall. Assim cada plataforma será dedicada a um poeta, obviamente os nossos melhores, que é como dizer, Camões e Pessoa, ou "Lusíadas" e "Ode Marítima" a qual para mim é a versão metafísica dos Lusíadas224.
A conceção destes dois painéis só ficou resolvida, porém, no início do desenho do painel dos Lusíadas, que foi o primeiro a ser executado. Bartolomeu dos Santos e Max Werner desenharam um elefante cada um e
o do Max saiu parecido com um elefante tal como nós o conhecemos, o meu like "a mythical beast", e saiu melhor! (fig. 84) Percebi então que a chave para o painel era a de o considerar como um enorme grafiti. A partir de aí não houve mais problemas conceptuais. Houve só problemas temáticos e formais225.
A obra deveria estar pronta, nos termos do contrato226, em 30 de setembro de 1991. Contudo, como se mencionou, veio a ser inaugurada apenas em 11 de dezembro de 1993. Bartolomeu dos Santos não esteve presente, pois a inauguração teve apenas em conta uma data política (uma semana antes das eleições) e não o adequado acabamento dos trabalhos.