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CAPÍTULO V – O PAPEL DO EDUCADOR SOCIAL NA INTERVENÇÃO EMOCIONAL E EDUCATIVA

5.2. O Educador Social Empreendedor e Impulsionador do Empreendorismo

Das três diferentes dimensões da intervenção social (assistencial, sócio-educativa e socio-política) entende-se que a dimensão sócio-educativa, isto é, “ajudar o sistema-

cliente a encetar um processo de ressocialização, aprendendo a identificar e utilizar

recursos próprios e do ambiente em que vive, de modo a desenvolver-se como pessoa, e a descobrir-se ele próprio como recurso para o desenvolvimento dos que o rodeiam”

Ao educador social, cabem duas funções que parecem paradoxais. Por um lado levar as pessoas a conformarem-se e adaptarem-se “aos padrões sociais dominantes” e por outro integrar as pessoas pela via da construção “da identidade e da dignidade

pessoais” (Carvalho & Baptista, 2004, p. 25). No entanto, entende-se que, este paradoxo

se esbate quando o interventor social age correctamente. Se por exemplo um jovem praticar uma religião completamente distinta da predominante, a escola deve respeitá-lo, nunca desprezando os seus valores, mas o jovem também deverá entender que embora tenha direito à diferença, também tem obrigação de respeitar as normas vigentes no meio em que está inserido.

A adaptação não tem necessariamente que ser conflituante com a dignidade pessoal, mas há que ressalvar que embora a ética preceda a moral, muitas vezes não basta interpelar para o respeito ao próximo. Se a moral condiciona a liberdade, uma vez que implica a obediência à formalidade das leis, em certas circunstâncias é necessária para que se definam fronteiras que imponham o respeito ao próximo. A ética baseada no sentimento de bondade muitas vezes não chega, pois nem sempre o indivíduo é portador desta consciência.

O educador social deverá assumir o compromisso profissional de que a “acção

supõe a “identificação”, a “observação”, bem como o “diagnóstico” e remete para um modo de conhecimento objectivo e sistemático que utiliza a medida” (Chopart, 2003, p.

247), pois só um trabalho consciente permitirá evitar erros, já que ser recebedor de ajuda poderá minar a auto-estima e a autoconfiança do utente, que se sente numa posição de fragilidade.

O educador social não deverá assumir o papel de entidade caridosa mas sim o papel de servidor da sociedade, isto é, compete-lhe uma “acção preventiva e de

recuperação com jovens marginalizados, assim como a acção socioeducativa em ambientes naturais, inserção de jovens na vida adulta, etc.” (Trilla et al., 2004, p. 31).

Ou seja, os jovens são detentores de direitos que estão garantidos na Constituição da República Portuguesa e que são colocados na prática através da prestação de um serviço por parte do profissional. Pertencendo ao profissional a obrigação de os consciencializar acerca dos seus deveres sociais.

Os valores e princípios da Declaração do Milénio das Nações Unidas, como liberdade, igualdade, solidariedade, tolerância, respeito pela natureza e responsabilidade comum, deverão ser cumpridas e incutidas nas camadas mais jovens uma vez que deles depende o futuro da humanidade. Ao educador social, no seu papel de interventor

social, cabe mais do que a quaisquer outros profissionais, o cumprimento de valores como o personalismo, a solidariedade e a qualidade de vida (Carmo, 2000).

Segundo Carmo (2000), o personalismo traduz-se na convicção de que o ser humano deve ser dono do seu próprio destino, podendo aperfeiçoar-se como pessoa. A solidariedade consiste no “instrumento de sobrevivência e de desenvolvimento” (idem, p. 68). A qualidade de vida está dependente do personalismo e da solidariedade, constituindo algo que vai muito além do ter, em que o saber ser e o saber conviver, respeitando o próximo, o ambiente e a sociedade, assumem uma importância primordial.

O educador social deve encorajar o espírito crítico e tentar despertar a curiosidade pelo saber, obrigando o próprio a ser criativo, e a possuir “capacidades de

adaptação activa que não são compatíveis com atitudes mecânicas de rotina ou aceitação passiva de normas de intervenção” (Carvalho & Baptista, 2004, p. 17). Cabe-

lhe esbater a fronteira entre o formal e o informal. Educar não corresponde a modelar hábitos, nem a regularizar comportamentos ou diminuir as diferenças. Educar será antes, o acto de fornecer as condições que possibilitam a sua realização humana. Cabe ao educador social ajudar a alteridade, isto é, o próximo (completamente distinto do eu) segundo a sua condição.

Na escola poderá ser uma presença relevante na educação para o “saber ser” e “saber conviver”, promovendo acções extracurriculares que permitam ao jovem crescer enquanto pessoa, como por exemplo sessões de literacia emocional, e organizando acções de animação sociocultural desenvolvendo competências sociais e empreendedoras.

O educador social deve educar para a preocupação com o ambiente, já que o desrespeito pela natureza, tem provocado uma degradação ambiental que se traduz nas alterações climatéricas, na perda da biodiversidade, no surgimento de novas doenças, no aumento do consumo e consequentemente dos desperdícios que inevitavelmente constituem um perigo grave para a sobrevivência colectiva. Só educando a sociedade para o respeito pela natureza é possível o desenvolvimento sustentado (Steger, 2006). No princípio quarto da Declaração sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento resultante da conferência realizada no Rio de Janeiro em 1992, defende-se que “para

alcançar o desenvolvimento sustentável, a protecção ambiental deve constituir parte integrante do processo de desenvolvimento, e não pode ser considerada isoladamente deste”.

Ao assumir o compromisso de intervir com os outros, o educador social não se deverá esquecer que “o mundo cívico justifica a acção e a atitude esperada por parte

da população marginalizada, mas torna problemática a posição do interveniente social que é exterior à população e mantém com ela uma relação de alteridade” (Chopart et.

al., 2003, p.245), a sua acção deverá ter por base o espírito de empowerment respeitando a vontade dos jovens e “privilegiando as actividades de prevenção e de inserção em

(…) lugar da repressão e da indiferença” (Carvalho, 2004, p. 11).

No entanto, não bastará que o educador social passe a fazer parte do staff da escola é necessário que o mesmo: conheça os pressupostos e fundamentos teóricos da intervenção socioeducativa e seus âmbitos de actuação; conheça as políticas de bem- estar social e a legislação que sustenta os processos de intervenção socioeducativa; conheça os factores biológicos, ecológicos e ambientais que afectam os processos socioeducativos; conheça as características fundamentais e os contornos sociais de intervenção; conheça o estádio evolutivo da população com que trabalha; e conheça os pressupostos pedagógicos, psicológicos e sociológicos que estão na base dos processos de intervenção social (ANECA, 2005).

Segundo a ANECA (2005), o educador social deverá possuir competências que vão desde o saber, ao saber fazer e ao saber ser. Neste estudo consideramos essenciais algumas das competências mencionadas pela ANECA, tais com:

• Capacidade de análise e síntese;

• Capacidade de organização e planificação; • Resolução de problemas e tomada de decisões; • Capacidade de integração, adaptação e comunicação; • Respeito pela diversidade;

• Criatividade;

• Cumprimento dos compromissos éticos; • Iniciativa e espírito empreendedor;

• Abertura face à aprendizagem ao longo de toda a vida;

• Saber utilizar os procedimentos e técnicas socio-pedagógicas para a intervenção, mediação e análise da realidade pessoal, familiar e social;

• Saber utilizar técnicas concretas de intervenção sócio-educativa e comunitária (dinâmicas de grupo, motivação, negociação, assertividade); • Mostrar uma atitude empática, de respeito, solidária e de confiança.

Em suma, ao analisar o papel e as competências do educador social, facilmente depreendemos que se revela uma figura essencial para a promoção do empreendorismo na escola e para o desenvolvimento do espírito empreendedor nos alunos. No entanto, entende-se que todos os interventores sociais (professor, auxiliares, psicólogo, etc.) são relevantes para alcançar a eficácia, razão pela qual no ponto seguinte se menciona a sua importância e a vantagem das actividades extracurriculares como meio de acção.