A vivência da dor ainda levanta outra questão relevante para o tema da repetição: a temporalidade. O afeto proveniente da reativação da lembrança do objeto hostil conduz a uma experiência de desprazer, diferente, portanto da experiência de dor original.
Pesquisando sobre a histeria Freud constata que essa experiência é constituída em dois momentos ou tempos diferentes. Esses dois tempos “se sobrepõem na produção do trauma
não sendo percebidos como distintos. O sintoma realiza essa condensação temporal de algo que se repetiu” (SANTOS, 2002, op. cit., p. 31).
Na segunda parte do Projeto de 1895 ao tratar do “Próton Pseudos” na histeria Freud descreve um caso clínico, intitulado caso Emma, que se desenrola em duas cenas: A cena I, caracterizada como o segundo tempo e desencadeador do trauma, na qual Emma encontrava-se com 12 anos e, ao entrar desacompanhada em uma loja repara que dois vendedores estavam rindo, frente a essa situação Emma foge tomada por um crescente desprazer. No primeiro tempo designado por Freud como cena II, Emma, com oito anos de idade, encontra-se sozinha em uma loja de doces, então o confeiteiro toca seus órgãos genitais por cima de seu vestido e sorri.
A cena I provoca uma fobia que a impede de entrar sozinha em lojas, tendo sido relatada na análise como o evento responsável pelo sintoma. Durante o tratamento analítico a cena II, mais antiga que a cena I, vai ser trazida à luz: o riso dos vendedores da cena I evocou o riso do confeiteiro da cena II, bem como o fato de também na cena I Emma se encontrar sozinha tal como na cena II. Com essa lembrança veio outra, a do abuso que agora, na puberdade, ganhava significado sexual, se transformando em afeto de angústia, devido ao temor de que os vendedores pudessem repetir o abuso. As duas vivências foram condensadas em uma só.
Notamos aqui uma espécie de ação retardada, Freud acreditava que o ataque em si não havia despertado nenhum afeto, contudo a cena havia sido inscrita como uma representação-lembrança, que incluía o registro do abuso marcado por uma irritação genital. Quando Emma, quatro anos depois, entra em uma loja, as circunstâncias relativamente parecidas ligaram-se associativamente às representações-lembranças da primeira cena (do abuso), acionando agora a liberação afetiva devido à sua maturidade sexual.
Essa vinheta clínica serve perfeitamente para Freud explicar o a posteriori e a teoria da sedução, chave para entender a histeria neste período pré-psicanalítico, ou seja, a experiência sexual pode ocorrer num período pré-sexual, e neste tempo não pode ser compreendida. O a posteiori constitui a mola explicativa para a primeira teoria do trauma, fornecendo o motivo das forças recalcadoras serem tão poderosas em um tempo tão afastado da primeira cena. A lembrança da cena do abuso só é transformada em traumática a posteriori. Dessa forma temos um ponto importante a respeito da natureza do trauma na
teoria freudiana, neste período: todo sintoma, qualquer que seja ele, provém de uma experiência sexual factual.
A emblemática frase do artigo Comunicação Preliminar (FREUD & BREUER, 1893/1996) já afirmava que: “Os histéricos sofrem principalmente de reminiscências”
(p.43). Desdobrando a frase podemos extrair algumas considerações importantes sobre esse tema. Nesse período Freud estava às voltas com a teoria da sedução, com a qual procurava solucionar o mistério dos sintomas apresentados na histeria. Tal teoria baseava-se na concepção de que o indivíduo sofria uma irritação real nos órgãos genitais durante a infância, o abuso ficava gravado na memória como um corpo estranho ao sujeito, e não como um evento traumático devido à imaturidade sexual da criança. Cabe lembrar que nesta época Freud ainda não dispunha do conceito de sexualidade infantil, logo o desejo sexual era restrito ao adulto.
Somente após o advento da puberdade tais lembranças adquirem um valor de trauma, ou seja, não são as próprias experiências que agem traumaticamente, mas sua reminiscência. Reviver como recordações, após a maturidade sexual, o abuso experienciado passivamente conferia o valor de trauma à histeria. As lembranças vividas como experiência na infância ganham outra significação: pela retranscrição na memória, elas adquirem um valor traumático. Barrois (1998) acentua que o ponto comum das teorias histero-traumáticas e da sedução reside inicialmente na passividade da vítima, ou seja, temos aí uma força externa caracterizada pelo abuso de um adulto desejante e perverso que é despejada sobre uma criança frágil, não desejante e, sexualmente imatura.
Com essas observações podemos referenciar um modelo de temporalidade que toca a questão da repetição. Knobloch (1998, op. cit) chama atenção para uma temporalidade que não a do acontecimento, pois é preciso o ganho de sentido sexual através da puberdade, ou seja, é no a posteriori que o efeito traumático irá ser produzido e não na experiência original, vivida na infância. Assim uma cena do passado é compreendida no presente, constituindo-se assim, uma confusão temporal, é como se este passado não pudesse passar.
O abuso, a cena que dará origem ao trauma, é um corpo estranho, sem significação traumática constituindo-se como um “tempo aberto”, usando a expressão de Barrois (1998, op. cit.), sendo suscetível de oferecer um ponto de chamada ao trauma na idade adulta. Em outras palavras, ele permanece apto a eclodir diante de uma circunstância que toque a rede de associações da qual faz parte, desde que se tenha atingido a puberdade. Desta forma o
“tempo aberto” encaixa-se no tempo histórico e, ao mesmo tempo, rompe o curso deste,
inserindo-se em uma confusão temporal marcada pela presentificação do passado e pela repetição.
O valor patogênico reside na lembrança do abuso sexual e não na experiência; o trauma é póstumo e, isso se deve a capacidade de retranscrição dos traços mnêmicos. Na puberdade, o segundo tempo do trauma, as barreiras morais, conforme esclarecem Carvalho & Ribeiro (2006), foram erigidas de tal maneira que as lembranças ao serem despertadas sofrerão uma repulsa do eu e serão recalcadas. Temos, então, a vinculação entre trauma, repetição e memória; pois a sintomatologia apresentada na histeria só pode se manifestar a partir das lembranças do abuso ressignificado após a maturação sexual, ressignificação desencadeada pela repetição de uma circunstância que evoque a recordação do abuso. O fator econômico tem um peso importante nesta formulação, pois diante da recordação que validará o trauma notamos a incapacidade do sujeito em efetuar uma
“atitude compensatória na medida da agressão” (BARROIS, 1998, op. cit., p. 208,)3; significa que a energia quiescente do eu é pequena em relação à energia proveniente do trauma. Como vimos acima, essa idéia encontrará eco nas formulações sobre o trauma a partir de 1920.
Em meados de 1897 Freud vai descartar essa explicação, abandonando a teoria da sedução. Passando a considerar que estes abusos sofridos na infância e contados por seus pacientes não correspondiam necessariamente à realidade. Freud vai considerar que se trata, na maioria dos casos, de situações fantasiadas. Desta forma Lejarraga (1996) pontua que a fantasia ganha um lugar de maior destaque na produção das neuroses, ou seja, a realidade factual cede lugar a um fator interno. A “realidade objetiva da cena traumática é substituída pela realidade psíquica dos desejos e fantasias inconscientes” (Id., Ibid., p. 21).
A partir da nova relação estabelecida entre fantasia e trauma, o fator interno, no sentido de uma realidade interna, ganha mais relevo que a realidade objetiva, lugar por excelência da cena de sedução. Vemos assim o peso dado à questão da fantasia que acaba deslocando a importância da realidade, limitando por um lado a concepção de que o trauma provém do exterior, e, por outro, abrindo novas possibilidades para explicar a neurose a partir do conflito entre os desejos inconscientes e a consciência moral.
Esta reformulação não significa que a realidade externa e a fantasmática sejam desconexas, pelo contrário, há uma implicação de uma sobre a outra. Entendemos, assim como Uchitel (2001), que o trauma caracterizado por uma violência externa não age sobre
3 Tradução nossa.
nós sem nos causar implicações fantasmáticas. De forma que a apreensão da realidade externa não é ausentada de fantasia; nem a fantasia abstrai-se totalmente da realidade externa para constituir-se, existindo implicações de uma sobre a outra. Esse deslocamento, do externo para o interno, levará consequentemente a um novo modelo explicativo de neurose: a sexualidade recalcada, referida não somente ao orgânico, mas ao campo das fantasias e desejos e, o conflito moral advindo desses desejos sexuais que não podem aflorar à consciência passarão a explicar a sintomatologia neurótica.
A respeito disso Carvalho & Ribeiro (2006 op. cit.,) clarificam que tal concepção de trauma que se constitui no momento em que antigas impressões são ressignificadas, não é outra coisa senão a construção de uma fantasia. Na teoria da sedução, o “fundamento da fantasia é o fato real do atentado sexual, enquanto que na teorização subsequente seu fundamento será a sexualidade infantil e seu substrato pulsional” (Id., Ibid., p. 6).
Contudo vale determo-nos na descrição do aparato neuronal feito no Projeto de 1895 que pode comportar o registro do abuso sexual, a partir da idéia de um corpo estranho que se encontre presente. São registros mantidos fora dos investimentos do eu, portanto, indomados, uma vez que não foram submetidos ao processo secundário. E por se tratar de lembranças que envolvem a sexualidade são carregadas de uma intensidade especial.
Na terceira parte do Projeto (1895[1950]/1996, op. cit.), Freud ressalta que o rememorar envolve um processo de pensamento regressivo, “retrocedendo, possivelmente até uma percepção” (Id., Ibid., p. 435), sendo que o pensamento pode “levar ao desprazer”
(loc. cit.) se nesse curso regressivo esbarrar em lembranças ainda indomadas. São justamente essas lembranças, de ordem sexual, que se tornarão patogênicas ou traumáticas a posteriori.
Para essas ocasiões o aparato conta com uma defesa especial: a defesa patológica ou recalcamento. Na carta 52 (1896/1996 op. cit.), Freud indica que a defesa patológica ocorre contra um traço de memória de uma fase anterior, que ainda não foi traduzido. Nos casos de ordem sexual há um crescente desprazer porque as magnitudes das excitações causadas pelo abuso aumentam ou ganham mais força com o tempo, devido ao desenvolvimento sexual do indivíduo. Nesta lógica um evento sexual anterior (na infância) atua sobre a fase seguinte (da maturação sexual) como se fosse atual; o fato que determina o recalcamento, portanto, “é a natureza sexual do evento e sua ocorrência numa fase anterior” (Id., Ibid., p.
284).
No rascunho K (1896/1996) Freud é taxativo quanto a essas ideias, apontando que basta a puberdade se colocar entre a vivência factual do abuso e sua repetição na lembrança, para que o trauma seja desencadeado. E conclui: “para que a pessoa esteja livre da neurose, a precondição necessária é que antes da puberdade não tenha ocorrido nenhuma estimulação sexual de maior significação” (Id., Ibid., p. 268).
O recalcamento será um meio de evitar que as lembranças carregadas de afeto produzam desprazer, retirando seu investimento e deslocando-o para outras representações que tenham uma ligação fortuita com o evento de ordem sexual. Toda vez que algo relacionado ao trauma for evocado, a lembrança fortuita irá aparecer no lugar da experiência sexual traumática. Contudo a defesa patológica não anula o poder patogênico da lembrança traumática, apenas a enfraquece deslocando sua energia.
“Porém, só se pode fugir de uma representação para outra, nisso consiste a formação do sintoma” (SANTOS, 2006, op. cit., p. 36). Por esse motivo Freud conclui que toda compulsão corresponde a um recalcamento, e como neste processo há deslocamento da energia de uma representação para outra, toda emergência na consciência da representação traumática corresponde a uma amnésia, uma lacuna na memória. O „a posteriori‟ implica a repetição; a esse respeito Gondar (1995) salienta não ser preciso ocorrer uma reprodução exata para haver enlace entre duas representações. Basta que existam traços comuns a ambas; porém é necessário que essa repetição insira um novo elemento, capaz de conferir à primeira recordação um sentido que não lhe havia sido dado. Uma experiência fortuita vivida após a puberdade desencadearia a produção sintomática; o trauma, portanto não é produzido no passado, mas através do enlace entre duas representações dadas em tempos diferentes.
Através destes processos que envolvem a representação-lembrança, sobretudo na experiência de dor, “a psicanálise pode suspeitar da existência de uma força que enquanto silenciosa, foge à detecção, mas cuja potência pode ser inferida a partir dos efeitos que produz” (Id., ibid., p.83). Os estímulos endógenos, originados nas “células do corpo” e criadores das grandes necessidades (os precursores do que será chamado de pulsão) têm por característica organizar-se em torno de um objeto utilizado para obter satisfação por meio da descarga da excitação. Como essas estimulações não cessam sua atividade, uma vez realizada a descarga o processo recomeça, denotando um processo repetitivo que está no cerne do conceito de pulsão.
A dor, dentro da perspectiva apresentada no Projeto de 1895, aparece como uma falha dos dispositivos de proteção do aparato e aponta para um processo que mesmo envolvendo o desprazer continua se repetindo, trata-se de um mecanismo que se encontra fora do princípio do prazer e aponta para a compulsão à repetição (Caropreso & Simanke, op. cit., 2006).
Somente em 1920, no texto “Além do princípio de prazer”, a questão da dor é retomada por Freud, numa concepção muito próxima do Projeto, mas certamente em outro nível de elaboração conceitual. Ela se caracteriza por uma ruptura no escudo protetor contra estímulos, que protege o aparato das excitações. Diante da ruptura do para-excitação o aparato é inundado por um excesso pulsional, que coloca de lado o funcionamento do princípio do prazer, para realizar uma tarefa mais fundamental: dominar a excitação excessiva. Quando ocorre uma falha na tarefa de dominar a excitação, inicia-se um processo repetitivo, que não envolve qualquer possibilidade de prazer, denominado:
compulsão à repetição.
I.6. Vivência original de satisfação e o abandono da vivência de dor
Apesar da importância das questões em torno da vivência de dor é a vivência de satisfação que ganha destaque crescente após o engavetamento do Projeto de 1895. Dessa vivência resulta um resto: estado desiderativo. Na Interpretação dos Sonhos (1900/1996 op. cit.) esse mesmo resíduo será denominado desejo; Freud se serve, neste texto de 1900, do mesmo exemplo apresentado no Manuscrito de 1895: o choro (de fome) do bebê é aplacado pelo cuidador, ou seja, o aparato procura repetir a experiência primária de satisfação, na qual obteve prazer através da descarga das excitações. Contudo Freud abandona a possibilidade de estabelecer uma base anatômica para o aparato psíquico antes dividido em sistemas neuronais.
Há uma importante articulação que se mantém entre a repetição e os estados desiderativos: o objetivo do desejo é reproduzir uma identidade perceptiva, ou seja,
“repetir a vivência de satisfação, que envolveu um decréscimo da excitação e foi sentido como prazer” (FREUD, 1900/1996, op. cit., p. 624). Nesse sentido Prata (1992) ressalta que o reafloramento desiderativo pode ser entendido como algo da ordem de uma repetição, a qual se manifesta como uma força que impele o sujeito à determinada direção.
Dentro deste quadro “a repetição é, portanto, originária do desejo e está nos fundamentos da concepção do inconsciente” (Id., Ibid., p. 8) e do próprio conceito de pulsão.
Dentro dessa perspectiva a repetição consiste numa busca constante em reencontrar o objeto perdido da experiência de satisfação original; contudo o objeto encontrado nunca coincide totalmente com o objeto da satisfação primeira. Freud indica com clareza essa posição ao explicar “o reconhecer e o pensar reprodutivo” na primeira parte do Projeto de 1895, e a retoma, dentro de outro contexto conceitual, em 1905 nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade ao afirmar que o encontro com o objeto “é, na verdade, um reencontro” (p. 210), portanto repetição de um prazer já experienciado.
Distintamente da vivência de satisfação, a vivência de dor não aparece na Interpretação dos Sonhos (1900/1996 op. cit.). Essa omissão faz com que os polos desprazer-prazer e dor, deem lugar a dois novos polos que serão centrais na primeira tópica: o prazer de um lado, e o desprazer, de outro. Desaparece, como consequência, a ideia de um processo primário que possa levar o aparelho psíquico a reativar representações desprazerosas, provenientes da experiência de dor, produzindo afeto e defesa, que seria dominado aos poucos com reiteradas repetições visando ligar a quantidade excessiva que ocuparam as representações hostis.
Aubert (1996, op. cit.) vê na recusa de Freud em tratar o pesadelo em sua teoria sobre a interpretação dos sonhos, um claro sinal do descartamento da questão da vivência de dor.
Os sonhos desprazerosos e de punição não são mais referidos à dor, mas são explicados a partir do princípio de desprazer-prazer que tem como fundamento a vivência de satisfação.
Dessa forma, o que é operado nesse tipo de sonhos é um “desejo do sonhador de ser punido por uma moção de desejo recalcada e proibida” (FREUD, 1900/1966, op. cit., p. 587).
Freud (Ibid.) se volta para a questão do conflito entre consciente e inconsciente, e para a oposição prazer – desprazer. Somente após a eclosão da primeira guerra mundial (1914-1918) e diante de alguns problemas conceituais – os pesadelos dos sobreviventes dos campos de batalha – são retomados sob o ponto de vista da vivência de dor em 1920.
Na verdade Freud (1900/1996, op., cit.) chega a supor que sobre o aparato primitivo incide um estímulo perceptivo que funciona como a fonte de uma excitação dolorosa.
Sobrevêm, com isso, manifestações motoras desordenadas, até que uma delas faça com que o aparato se retraia da percepção e, ao mesmo tempo, da dor. Quando a percepção reaparece o movimento é repetido. “Neste caso, não resta nenhuma inclinação a recatexizar a percepção da fonte de dor, alucinatoriamente ou de qualquer outra maneira” (Id., Ibid., p.
626). Neste ponto Freud interrompe a exposição e afirma que pelo contrário, haverá no aparelho primitivo uma inclinação a abandonar imediatamente a imagem aflitiva, justamente pela razão dela provocar desprazer. A evitação de qualquer coisa que foi aflitiva é “feita sem esforço e com regularidade pelo processo psíquico” (loc. cit.); isso fornecerá o protótipo e o primeiro exemplo de recalcamento.
Nada é falado sobre esse funcionamento primário, acionado por quantidades excessivas provenientes da vivência de dor, que insiste em repetir-se enquanto a energia não é ligada como vimos no Projeto de 1895. Nas palavras de Freud (1900/1996, op. cit.):
essa evitação da lembrança de qualquer coisa que um dia foi aflitiva se dá (...) em conseqüência do princípio de desprazer, portanto, o primeiro sistema- psi () é totalmente incapaz de introduzir qualquer coisa desagradável no contexto de seus pensamentos. Ele não pode fazer nada senão desejar (Id., Ibid., p. 627).
Haveria, portanto, no aparelho, desde sua origem uma inclinação a abandonar imediatamente as representações aflitivas. O sistema consciente só pode investir uma representação se estiver apto a inibir o possível desenvolvimento do desprazer que dela provir. “A inibição do desprazer, contudo, não precisa ser completa: o início dele tem de ser permitido, já que é isso que informa ao segundo sistema a natureza da lembrança em questão e sua possível inadequação ao fim visado pelo processo de pensamento” (Loc. cit).
A partir de 1900 o conceito de processo primário tal como apresentado no Projeto de 1895 e as consequências relativas à vivência de dor são excluídos. Freud não dá maiores explicações de como uma energia em estado livre pode evitar, e mesmo inibir representações desprazerosas. Evitar, inibir, mediar são funções do processo secundário, alcançada a duras penas pelo eu devido à invasão de grandes intensidades, característica dos processos que envolvem a dor. É complicado pensar como isso seria alcançado por esta outra forma, tendo em vista que o funcionamento do aparato tal como descrito no Projeto de 1895 não parece ter-se modificado na Interpretação dos Sonhos (1900/1996, op.
cit..), em relação ao processo primário - energia livre, e o secundário – energia ligada.
De 1900 até 1920, Freud vai considerar a experiência de satisfação como originária da estruturação do aparato psíquico. Assim a primeira tópica vai ser pensada a partir do desejo, mais especificamente sobre o desejo sexual recalcado, conforme lembra Herzog (2001, op. cit.). Disposição que irá conferir especificidade ao conceito de inconsciente como objeto de investigação e à pulsão como um conceito fundamental.
Vimos que a experiência primária de satisfação é a base da formulação freudiana sobre o desejo. Como consequência disso qualquer acúmulo de excitação colocará o
aparato em ação para repetí-la. A corrente que se inicia no desprazer e tem o prazer como finalidade é o que Freud chamará de desejo; é sobre a descrição realizada a partir da vivência de satisfação que serão criadas “facilitações que servem de roteiro, para aquilo que mais tarde será chamado de pulsões sexuais” (MALDONADO, 2005, p. 22). Serão esses circuitos instalados a partir das primeiras experiências de prazer, que darão lugar aos chamados circuitos pulsionais.
Com esses argumentos podemos concluir que a dor aponta para um processo repetitivo envolvendo o desprazer e nos dá indícios que levam em direção à compulsão à
Com esses argumentos podemos concluir que a dor aponta para um processo repetitivo envolvendo o desprazer e nos dá indícios que levam em direção à compulsão à