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2 – Redefinindo o trauma

Capítulo III – Os limites da representação

III. 2 – Redefinindo o trauma

Para explicar o funcionamento de algo fora desta tendência ao prazer, Freud se utiliza do exemplo do trauma, que ressurge em outro modelo teórico, seguindo os indícios da neurose traumática, bastante comuns no período do final da primeira guerra (1914-18).

Tais neuroses consistiam na fixação da vivência traumática e a repetição da mesma experiência sob a forma de sonhos. Essas repetições envolvendo situações extremamente penosas são revividas alucinatoriamente através dos sonhos e, parecem pouco compreensíveis sob a luz do princípio de prazer. Os sonhos das neuroses traumáticas forçam Freud a reconhecer, pela primeira vez, uma exceção a regra de que todo sonho é uma realização de desejo, na medida em que tais sonhos evidenciam uma compulsão repetitiva de uma vivência dolorosa, não abarcando uma possibilidade de prazer para o sujeito.

Primo Levi (1990), em seu livro “Os afogados e os sobreviventes” questiona, justamente, essa compulsão a repetir que ocorre nos sonhos: “Curiosamente, esse pensamento (“mesmo se contarmos, não nos acreditarão”) brotava repetidamente, sob a forma de um sonho noturno, do desespero dos prisioneiros” (p. 1). Essa observação expressa, para além da narrativa, o temor em relação à recusa dos outros de escutar o que os sobreviventes dos acontecimentos traumáticos viveram nos campos de concentração,

essa recusa fecharia a possibilidade de se sair deste processo repetitivo, que condena o sobrevivente à repetição mortífera do trauma. Neste sentido vemos como o outro, ao escutar o sobrevivente pode dar suporte à narração da dor. O fato do outro não permanecer indiferente torna possível a retomada reflexiva do passado, possibilitando a transmissão do testemunho; conferindo, assim, um sentido, tanto histórico quanto temporal, à experiência traumática (Gagnebin, 2006). Em contrapartida, podemos dizer que a compulsão à repetição via sonhos é uma forma, ainda que precária, de narrativa; bastante diversa da narrativa tradicional, visto que o trauma cortou do sujeito o acesso ao simbólico. Contudo essa repetição da cena traumática, que provocou tanta dor, funciona como um esforço para conter a experiência de horror que devido à violência de seu excesso se tornou impossível de narrar pelas vias tradicionais.

Para explicitar como ocorre esse impacto traumático sobre o aparato psíquico seguimos os passos de Freud (1920/2006, op. cit.) que buscou elementos na biologia, especialmente através de A. Weismann, descrevendo a história de uma vesícula indiferenciada que é estimulada por fora e por dentro. Ele se serve deste exemplo para mostrar a genealogia do aparato e neste ponto se aproxima dos temas tratados no Projeto de 1895, propondo uma estrutura cuja função principal se refere à defesa frente às estimulações oriundas do exterior. Laplanche (1993) afirma que o modelo da vesícula tomada emprestado da biologia por Freud, pode ser compreendido em três níveis: 1) modelo de um corpo caracterizado por uma “Gestalt que define o interior, em relação ao exterior, um certo nível energético” (p. 208); 2) um aparato psíquico; 3) O eu.

Tendo em vista esses modelos, a vesícula conta com um escudo protetor evitando que a ação de estímulos incida diretamente sobre seu interior – “a função do escudo protetor é quase mais importante do que a recepção do estímulo” (FREUD, 1920/2006, op.

cit., p. 152). A neurose traumática, ou melhor, a ruptura que ocorre no escudo protetor coloca o aparato em perigo, pois a energia que aflui pela ruptura viola o equilíbrio homeostático do aparato psíquico.

Contudo, tal como no Projeto de 1895, não há proteção contra as excitações endógenas. Dentro desta perspectiva entendemos as pulsões como um excesso do qual o aparato precisa se defender. Até aqui, tudo se passa de forma semelhante à vivência da dor tal como descrita em 1895: o trauma atinge o aparato como um raio, provocando uma espécie de curto circuito no mesmo. No Projeto de 1895 o domínio pelo eu sobre o montante de energia resultante de uma vivência de dor é muito mais difícil de ser

alcançado do que em relação às experiências envolvendo satisfação. Só com repetidas tentativas seria possível subjugar o montante de excitação nos casos em que a dor está envolvida; enquanto essa energia não é dominada pelo eu, permanece – seguindo a expressão usada por Freud (1895[1950]1996 op. cit.) – “indomada” (p. 436). Desta forma depois de 25 anos, começa a ser retomada, em uma tentativa de elucidar e indicar um processo que anteceda o princípio de prazer, uma experiência que em sua origem causa desprazer e mesmo assim continua a se repetir.

Visando a questão da defesa contra as grandes quantidades provenientes do exterior o escudo serve para proteger e manter uma diferença de nível, entre o externo e o interno.

Temos, então, um escudo funcionando como uma espécie de barreira fiscal localizada na fronteira de dois países, no caso do aparato psíquico essa barreira limita a entrada de energia exterior, estrangeira e estranha ao aparato, para o interior. Portanto, o escudo protetor não só tem uma importante significação econômica, mas é vital para a sobrevivência do aparato psíquico. A finalidade de tal escudo é evitar que grandes montantes quantitativos afluam para o interior sem alguma moderação e, com isso desestabilizem o nível constante da quantidade no interior do organismo.

O que se apresenta, assim, é uma concepção de aparato psíquico baseado na homeostase, expliquemos melhor: há uma necessidade em manter a energia no aparato constante, para que isso seja possível há um incessante empenho do eu em restaurar e, caso ela seja alterada, manter esse nível de constância energética. Esse empenho do eu nada mais é do que dominar a energia pulsional que não cessa de brotar do interior do organismo e, que também, pode afluir do exterior se formos tomados como objeto por um terceiro. Para isso o escudo quebra a energia proveniente do exterior em parcelas que poderão ser dominadas mais facilmente pelo contra-investimento do eu.

Caso o escudo protetor seja rompido, em uma pequena extensão, entra no aparato um montante de energia que é sentido como dor, mas que é diferente do desprazer. Já vimos quando tratamos dos temas do Projeto de 1895 que dor e desprazer são conceitos diferentes no pensamento de Freud daquele período. Temos, entretanto um ponto em comum entre a dor e o desprazer: ambos estão relacionados com os movimentos da quantidade, ou seja, se referem à economia psíquica. Mas a semelhança para por aí;

segundo Laplanche (1993 op. cit.) o desprazer está sempre vinculado a noção de prazer, já a dor não possui um correspondente e, ademais, é preciso que exista um corpo delimitado para haver dor. Desta maneira a segunda tópica será estabelecida precisamente sob a

ameaça de esfacelamento do eu, conceituado como uma projeção sob uma superfície – um eu corporal (FREUD 1923/1996). A dor corresponde, tal como no Projeto de 1895, à invasão de grandes quantidades não dominadas de energia que romperam o escudo de proteção e assim ameaçam a integridade egóica.

Como no Projeto de 1895 a dor é resultado de uma efração do para-excitação, isso significa que a dor é uma ruptura do escudo protetor em uma área limitada, rompimento que levará a um aumento brutal de tensão no interior do aparato. É importante observar que Freud (1920/2006 op. cit.) caracteriza a neurose traumática como uma ruptura limitada, como rompimento de uma pequena parte do escudo, é nessa brecha aberta na defesa que a energia externa afluirá para o interior. A dor proveniente dessa ruptura constituir-se-á como uma fonte emissora de excitação, motivo pelo qual Freud (1915/2006) chamou a dor de pseudo-pulsão. Isto porque a dor passa a se comportar como uma fonte interna e, sendo assim torna-se impossível empreender uma fuga. Essa pseudo-pulsão desorganiza o aparato e o faz mobilizar energia de outras áreas para tentar parar esse afluxo; o contra-investimento tem como finalidade imobilizar a energia que invade o aparato – à dominação da energia em estado livre Freud chama de ligação.

O trauma é definido como uma ruptura no escudo protetor, e com isso “o princípio de prazer é, logo no início, colocado fora de ação” (FREUD, 1920/2006, op. cit., p. 154).

Assim o problema principal do aparato psíquico é capturar a energia livre invasora, a partir disso Freud nos indica um modo de funcionamento do aparato fora do princípio de prazer, se servindo para isso, da tese de Breuer (FREUD & BREUER, 1895/1996, op. cit.) que admite duas formas distintas de energia nos sistemas psíquicos: cargas de investimentos que “fluem livremente e que pressionam para a descarga e cargas de investimento em repouso” (FREUD, 1920/2006, op., cit., p. 155).

Portanto o trauma ressurge em um outro modelo teórico, como ressaltam Ribeiro &

Carvalho (2006, op. cit.): “Tal como na teoria da sedução, situa-se no momento mesmo da vivência” (p. 9). Contudo, o trauma é definido como proveniente de experiências muito assustadoras e, em tais experiências não encontramos qualquer referência imediata à sexualidade. Assim a etiologia sexual das neuroses de transferência e a teoria da libido não encontram uma aplicação direta nesses casos. Freud buscará aproximar as neuroses traumáticas (cujo paradigma é a neurose de guerra, que se caracteriza por traumas ocorridos no momento da experiência, portanto sem referência a um conflito psíquico ou à sexualidade) das neuroses de transferência, em uma tentativa de estender às primeiras a

teoria da libido. Para buscar elucidar essa aproximação no artigo “A psicanálise e as neuroses de guerra” de 1919 é iniciada a investigação “das relações que sem dúvida existem entre o medo, angústia e a libido narcísica” (p. 225), que será plenamente desenvolvida em “Inibições, sintomas e ansiedade” (1926[1925]/1996).

Dois fatores são determinantes para surgir uma neurose traumática: o susto e a ausência de ferimento grave. Freud (1920/2006 op. cit.) distingue três termos – susto (Schreck), medo (Furcht) e angústia (Angst) – diferenciação que trará luz à questão da nova disposição do trauma. Angústia designa uma expectativa para o perigo e a preparação para algum tipo de impacto mesmo que o esperado figure desconhecido, denotando que não há uma relação direta com o objeto. O medo, por sua vez, pressupõe um objeto definido o qual se teme. O susto designa um estado no qual se adentra em uma situação de risco que não era esperada, de forma que o sujeito é tomado pela surpresa do evento. O fator surpresa presente no susto implica a falta de contra-investimento para suportar o impacto traumático; assim há uma inundação de energia no aparato enquanto o princípio de prazer é colocado fora de ação. Um ferimento grave diminui as chances de se contrair uma neurose traumática, pois implica um recolhimento narcísico da libido; a libido sai de posições ocupadas previamente e é realocada novamente no eu. Neste caso há uma certa paralisia ou diminuição do resto das atividades psíquicas, todos os outros sistemas psíquicos se empobrecem, pois enviam reforços energéticos para conter a dor.

O susto se caracteriza pela ausência de angústia, isso significa que não há uma expectativa de perigo; a angústia já é um sinal do hiperinvestimento dos sistemas receptivos, que significa aumento da energia ligada, como tropas militares esperando um ataque iminente. Frente à ausência de preparo ocorre a invasão energética que origina o trauma. Nestes casos a repetição se configura como uma forma de obter controle da situação, e também, preparar o indivíduo para o trauma, dotando-o da capacidade de desenvolver angústia e desta forma prevenindo-o contra o fator surpresa (HERZOG, 1994, op. cit.).

O trauma ocorre justamente porque não houve a angústia – sinal. Ao que parece ocorreu uma falha no mecanismo da atenção, a qual tem por função regular os deslocamentos dos investimentos do eu, tal como discutido no Projeto de 1895 e em Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911/2006 op. cit.), principalmente. Se o mecanismo de atenção falhar tais investimentos encontrar-se-ão ausentes no momento do trauma. Nessa perspectiva os sonhos das neuroses traumáticas

repetem a mesma cena em um esforço para o desenvolvimento retroativo da angústia, sem ela o eu é pego de surpresa por uma vivência excessiva que facilmente rompe suas proteções desencadeando a compulsão à repetição.

Ligar a energia em representações constitui a possibilidade de empreender um destino a essa energia diferente da compulsão à repetição – seja sublimá-la, investi-la em algum objeto, recalcar ou transformá-la em seu contrário (FREUD, 1915/2006, op. cit.).

Frente à impossibilidade de proceder tais destinos o evento traumático é apartado da consciência, é clivado do eu. No entanto, clivar não subtrai do trauma sua força. O trauma se faz perceber através da compulsão à repetição, que é, por assim dizer, um sinal ou a expressão de uma energia não dominada no interior do aparato.

Freud (Ibid.) nota um fenômeno análogo à compulsão à repetição das neuroses traumáticas nas brincadeiras infantis, nas quais a repetição de um intenso sofrimento é reproduzida. Observa o neto em um estranho jogo, incansavelmente repetido durante a ausência da mãe, no qual atirava objetos para um canto do berço e os apanhava novamente, pronunciando um sonoro o-o-o-ó, nos arremessos, e acompanhado de grande satisfação quando os encontrava. Ao conversar com sua filha sobre a brincadeira, depreendeu que não era uma simples interjeição, mas tratava-se da palavra alemã Fort (lá). Uma observação posterior confirmou a dedução, a criança jogava um carretel de madeira amarrado com um cordão que era arremessado sobre a borda do berço, saindo, deste modo, do seu campo de visão e, ao mesmo tempo, um sonoro o-o-o-ó era emitido. Então puxava o cordão fazendo com que a parte escondida retornasse e o saudava com um alegre da (ali).

Freud supôs que a angústia sentida por seu neto se devia a um transbordamento, ocasionado pela privação do objeto de satisfação, no caso: a mãe. A saída da mãe do campo de visão do bebê é interpretada por ele como uma perda; é essa privação que acarreta um acúmulo libidinal – libido que seria investida no objeto – e não achando o meio de descarga usual (mãe) se apresenta sob a forma de angústia para a criança. Quando a criança encontra no jogo do Fort-Da um meio de descarregar esse acúmulo, Freud (Ibid.) alega que a brincadeira remete a uma aquisição cultural como consequência da renúncia da satisfação pulsional; ou seja, permitir a saída da mãe, deixá-la ir, agora não mais passivamente, mas como agente; já que o contrário, vivido de forma passiva, certamente, causava desprazer.

O jogo compensa esse afastamento através da atuação, onde se passa de passivo para agente da ação, determinando o momento do afastamento e do retorno, evitando a surpresa

do abandono. Seguramente esse exemplo evidencia-se como uma forma de domínio do desprazer, onde o controle da situação e do objeto são fatores que evitariam a experiência traumática. Essas observações sobre o jogo infantil nos trazem uma importante questão – o prazer do bebê em se tornar o agente que determina a cena e domina a ação do objeto, remete à onipotência narcísica. O susto, no caso do Fort-Da proporcionado pelas saídas da mãe do campo de visão do bebê, coloca em xeque justamente a onipotência narcísica do sujeito. Dominar a energia livre significa, a partir disso, restaurar a onipotência narcísica – a integridade egóica.

Freud (1917/2006), ao tratar do luto já aponta a dor como uma reação normal à perda do objeto; a acumulação energética proveniente da perda objetal provoca as mesmas condições econômicas, ou seja, os mesmos movimentos energéticos de contra-investimento que buscam conter a efração em um corpo lesado. Podemos notar que em ambos os casos temos um acúmulo energético, o qual não pode ser mais ligado devido ao desaparecimento do objeto, que se traduz como dor. A dor funciona, então, como um sinal de alarme da presença de uma energia não contida (estrangeira) circulando pelo aparato;

sinal que dispara o contra-investimento de contenção, procedimento defensivo que esvazia o eu.

Devido à perda do objeto inicia-se um lento processo de reinvestimento para transformar a passividade proveniente desta falta sofrida em atividade, com o intuito de nos tornarmos senhores da situação (controlar as idas e vindas do objeto). A necessidade de passar da posição passiva para a ativa significa que o sujeito ainda está sob o domínio do excesso pulsional. Tudo se passa de forma análoga aos sonhos traumáticos, onde há uma espécie de agenciamento – o sonhador é o autor da cena agora, embora nada seja modificado e o sujeito acorde tomado pelo mesmo terror da vivência real; trata-se, aqui, do mecanismo de transformação em seu contrário (redirecionamento da pulsão da atividade para a passividade).

Dentro dessa série que envolve situações desprazerosas repetidas, encontram-se as neuroses de destino, nas quais o sujeito é acometido pela repetição de eventos que terminam sempre com o mesmo fim trágico, em uma inescapável trama do destino que parece não oferecer qualquer outra saída. Esse eterno retorno do mesmo surpreende os casos em que o sujeito parece experimentar passivamente a mesma experiência, como se fossem “perseguidas por um destino maligno, isto é, de haver algo demoníaco em suas vidas” (Id., Ibid., p. 147). Tais pessoas, que parecem ser castigadas por forças invisíveis, na

verdade, são inconscientemente levadas para tal desfecho, movidas por experiências traumáticas, em uma compulsão à repetição trágica, por assim dizer. O que corrobora a ideia da compulsão à repetição ser um dispositivo, que visa sinalizar ao eu um perigo eminente e, assim torná-lo apto a dominar o montante energético que se aproxima; para isso a compulsão à repetição recoloca o sujeito na mesma situação para que ele possa dar um outro desfecho a experiência vivida como traumática.

Algo parecido se passa durante as análises, nas quais os pacientes repetem experiências dolorosas, provenientes do complexo de Édipo. A repetição, agora, aparece sob uma forma compulsiva de origem inconsciente que leva o sujeito a reviver repetidamente essas experiências precoces da sexualidade infantil. Durante a análise os pacientes repetem via ato todas essas situações aflitivas, relacionadas aos tempos edípicos.

Tais situações apontam traços mnêmicos provenientes de antigas experiências edípicas, que não foram ligadas, portanto ainda estão inaptas ao processo secundário; por isso, reaparecem sob a forma de uma compulsão à repetição. Todas essas situações apresentadas colocaram à prova a onipotência narcísica do sujeito.