5. GESTÃO PT – 2007 a 2016 – Mudanças no Estado da Bahia e o alinhamento político
5.4 Conjunto de ações desenvolvidas (ou não)
5.4.1 O Festival de Cenas Curtas – um caso digno de nota
Em 2011, Patrícia Moreira que cursava Cinema na UESB, produziu um vídeo como parte de suas atividades acadêmicas, cujo tema era “políticas culturais para o teatro” em Vitória da Conquista.
O vídeo foi feito em parceria com a Companhia Operakata de Teatro, que cedeu os direitos autorais de um espetáculo do seu repertório chamado NÓS, que tinha como mote o dilema de um grupo de atores sobre permanecer com o seu trabalho artístico ou abandonar tudo devido as dificuldades de sobrevivência. Era um texto metalinguístico e que foi incorporado a
produção do documentário com diversos depoimentos de artistas locais que relatavam suas angústias quanto a total ausência de projetos na área de teatro na cidade até aquele momento.
Na ocasião, o próprio Teatro Carlos Jehovah não possuía uma identificação. Isso só foi feito, depois que a proposta de intervenção artística na área externa no teatro, feita pelo o artista plástico Arisson Sena, ganhou a premiação do Edital Calendário das Artes da Fundação Cultural do Estado da Bahia.
O resultado do vídeo foi um grito de indignação documentado em 45 minutos, dado pelos artistas que tiveram que sair da cidade para continuarem trabalhando com o teatro, como Roberto de Abreu, Kécia Prado e o próprio Gilsergio Botelho. Nas palavras de Patrícia Moreira, um vídeo altamente político e que, por isso mesmo, nunca conseguiu ser exibido na própria Mostra de Cinema da cidade.
Ao perceberem a potência do documentário, o secretário de cultura foi convidado por Patrícia Moreira para assisti ao filme numa exibição no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima e com a presença de vários artistas, para uma conversa logo após sobre o mesmo e o levantamento de propostas para as artes cênicas.
Depois do atraso de uma hora, o secretário e o coordenador de cultura apareceram no local, onde cerca de 40 artistas os esperavam. Após a exibição do filme e muita discussão, uma provocação foi lançada por Gildelson Felício: a de que a Sectel não fazia nada em relação ao teatro por culpa dos próprios artistas que não lhe mostravam propostas.
Isso levantou muitos questionamentos, mas o resultado final de tal provocação foi a proposta de um Festival de Cenas Curtas elaborada por Gilsergio Botelho e Vitória Vieira. Tratava-se de uma ação simples, porém muito potente, onde os grupos inscreveriam suas cenas de até 15 minutos, para uma seleção. Os selecionados apresentariam suas cenas, que seriam julgadas e votadas por uma comissão formadas por pessoas da área teatral. As categorias premiadas eram: melhor espetáculo, melhor ator e atriz, melhor figurino e melhor cenografia.
A primeira edição aconteceu em 2012 e lotou o Teatro Carlos Jehovah por três noites consecutivas. Sobre aquele momento, Gilsergio que levou o projeto e dialogou com Gildelson relata,
contamos com a sensibilidade de Gildelson para fazer o primeiro Festival de Cenas Curtas na cidade. O festival mostrou claramente que só faltava uma ação simples para os artistas, até porque duvidava-se muito desse festival e à medida que o festival foi recebendo inscrições e que o [Teatro] Carlos Jehovah ficou pequeno, à medida que abria as portas para as pessoas ficarem do lado de fora assistindo, porque de fato não conseguiam assistir diante do sucesso que foram os trabalhos apresentados nesse projeto. E eu me lembro muito da fala de Gildelson para com Paulo Mascena [então Coordenador do Centro de Cultura], que precisava ver já para o ano seguinte a transferência para o Centro
de Cultura, porque ali não cabe mais, ou seja... Um festival com um recurso muito pequeno, premiações pequenas e fato curioso, não existia nem um troféu, não tinha nada, além de um cachê dissolvido a medida que você tinha ainda uma contrapartida, pois você tinha que apresentar no Natal da Cidade.
Apesar da repercussão e até do envio para o secretário de uma avaliação do festival escrito pela própria Operakata com sugestões do que poderia ser melhorado na segunda edição do festival em 2013, nada foi modificado. A segunda edição aconteceu com uma estrutura de divulgação e de apoio institucional menor do que o ano anterior, sendo a última.
Para fechar esse item, vale a pena lermos as considerações do artista Gilsergio Botelho, Algo que me chamava muita atenção era que parte das pessoas que ocuparam as suas funções, esses cargos eram artistas também. Particularmente para mim foi uma grande frustração, pouco se fez. E ai, claro, dentro do meu lugar de fala, pouco se fez pelo teatro, pela dança, artes plásticas. (...) Parece que tinha uma questão do Poder Público de não acreditar no potencial de seus artistas, porque quando se fala em valorização, se pega esses ícones, pega Glauber Rocha, Elomar ..., ou seja, a coisa está pautada ai. A gente não vê outra coisa.
Nesse sentido, a percepção de Gilmar Dantas se aproxima bastante,
O que parecia, olhando para a ação da gestão anterior, fazendo uma análise bem grosseira da coisa, parecia que as gestões do PT tinham a certeza que tinha que levar a ‘boa cultura’ para o povo, que política cultural era levar uma orquestra para tocar na praça, era para levar um show de Milton Nascimento, uma apresentação da orquestra Neojiba e música erudita para o povo que não tinha acesso a esse tipo de cultura. Era essa a grande missão das gestões anteriores. Não podiam trabalhar com o que eles achavam ser cultura de baixo nível. Coisa que eu discordo completamente, acho que tudo tem que ser trabalhado, quando se trabalha com cultura.
A esse respeito, buscamos, mais uma vez, a crítica que Marilena Chauí fez sobre muitos dirigentes petistas em relação à cultura, quanto emprego do conceito de cultura somente ao campo das belas-artes, em detrimento das demais manifestações e como um saber de especialistas, onde alguns fazem e outros só recebem. Foi na direção contrária que Chauí construiu o seu plano de gestão de Cidadania Cultural em 1989, determinando que a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo não seria produtora de cultura e não adotaria a divisão entre cultura de elite e cultura popular, mas que a ela caberia estimular e promover as condições para que a população da cidade criasse e usufruísse a invenção cultural (CHAUI, 2010, p. 71). Para que essa diretriz se efetivasse, uma política pensada em torno de ações de formação e fomento de caráter continuado foi construída e executada. No caso do município em estudo, isso não foi cogitado.
Outro ponto a ser observado, é quanto à presença de artistas ocupando cargos comissionados na área da cultura: João Omar que foi Coordenador de Cultura é filho de Elomar Figueira e maestro; Nagib Barroso, nomeado secretário em 2014 e Carlos Moreira Ribeiro são cantores; Gildelson Felício foi coordenador da organização geral da micareta durante muitos anos durante a gestão do PT, mas já era organizador de blocos da mesma festa antes de entrar na gestão municipal.
José Carlos Durand defende que, para o florescimento de uma política cultural democrática, faz-se necessário, entre outros fatores, técnico e dirigentes profissionais da área e que isso não condiz com a nomeação de pessoas tomando como critério ser artista de prestígio em sua área de atuação. Para ele os governantes os escolhem com objetivo de ‘“dar brilho” a uma equipe de governo ou ‘impor-se perante’ a comunidade artística” (DURAND, 2013, p. 40) e que geralmente, por não terem habilidade nem conhecimento dos processos burocráticos, limitam o uso dos cargos para realização de projetos pessoais ou delegam suas obrigações a subordinados.
De fato, percebemos que a presença de artistas na Sectel não se converteu em políticas culturais de formação de público e de outros artistas, de fomento com estruturas eficientes, de reconhecimento efetivo dos valores artísticos e culturais da cidade de maneira democrática e cidadã; uma política que possibilitasse algo mais que os eventos; uma política que proporcionasse, minimamente, continuidade.