2. CONQUISTA DO SERTÃO DA RESSACA
2.2 Os contornos familiares e o mando político
Em reconhecimento pelos grandes feitos e vitórias obtidas sobre os índios, Dom João “doou-lhe todo o terreno de caatingas, menos o do mato de cipó, que havia conhecido o valor de seu braço ou de seu facão” (VIANA, 1982, p. 68, vol. 1). Essas terras foram deixadas aos herdeiros de João Gonçalves da Costa, por meio de testamentos e inventários, conforme
14 Sousa (2001, p. 53) apresenta um trecho de uma carta do João Gonçalves enviada aos governadores, sobre a
presença de escravos fugitivos nas aldeias indígenas locais e que por esta razão não teria feito acordo de paz. Isso prova que a violenta perseguição se estendia aos negros (quilombolas ou aldeias indígenas).
descrição por Viana (1982, p. 69), dando início à formação dos núcleos familiares e seus domínios econômicos e de mando político local.
De acordo Sousa (2001), ao que tudo indica, João Gonçalves da Costa não teria sido uma figura que tivesse adentrado no processo da política local, ficando quase que exclusivamente dedicado às atividades de expansionismo territorial para a Coroa. Contudo, a mesma situação não se aplica aos seus descendentes, tendo seu filho – Antônio Dias de Miranda – ocupado o cargo de Juiz de Paz do arraial da Conquista. Mais tarde, o marido de sua neta – Luiz Fernandes de Oliveira - também ocuparia esse e posteriormente seria o 1º presidente da câmara municipal da Imperial Vila da Vitória.
Por ocasião da sua passagem pelo Sertão da Ressaca entre os anos de 1815 a 1817, o Príncipe Maximiliano de Wied Neuwied relata seu encontro com Miranda como o primeiro personagem com quem ele teve contato. Narra ainda, com entusiasmo, seu encontro com o Coronel João Gonçalves da Costa, pois já conhecia seus feitos de homem desbravador, responsável pelas primeiras “estradas praticáveis no sertão e que combateu os índios de todas as bandas” (WIED, 1940, p. 428).
Percebe-se que o legado estabelecido pela família Gonçalves da Costa abrange a economia e relações sociais da região e se estendeu às práticas políticas que influenciaram a condução da Imperial Vila da Vitória e posterior cidade de Vitória da Conquista. É um legado simbólico, marcado por uma política violenta, conservadora e autoritária (IVO, 2004).
A pesquisadora Isnara Pereira Ivo assegura que as famílias Ferraz de Araújo, Oliveira Freitas, Lopes Moitinho e Fernandes de Oliveira eram os detentores de diversos postos do poder local, e que todas elas vinham do mesmo tronco, o patriarca capitão-mor João Gonçalves da Costa. Ivo revela ainda que,
Da conquista e reocupação, resultaram a posse e o controle dos órgãos públicos por essas famílias, que eram representadas no legislativo, no executivo local, na justiça, enfim, em todas as instâncias de gerência da administração pública local. (...). Além de administradores locais, os membros dessas famílias foram, também, atores das diversas formas de manifestação do mandonismo (IVO, 2004, p. 22)
Embora a endogamia fosse usada como ferramenta de controle e contenção política e econômica, isso não impediu os conflitos entre famílias pela disputa por terras, ou pelo controle nas esferas executivas, legislativas ou jurídicas, sendo o mandonismo a característica marcante das práticas sócio-políticas de então.
Várias foram as lutas que eclodiram entre as famílias e que marcaram a história da região, como, por exemplo, a que ocorreu no ano de 1895 envolvendo as famílias da viúva Lourença de Oliveira Freitas e do Coronel Domingos Ferraz de Araújo, proprietário da Fazenda Tamanduá. Apesar de terem laços de parentescos, resultou no brutal assassinato de mais de vinte pessoas da família do Coronel e que ficou conhecido como a Tragédia do Tamanduá (IVO, 2004). Outra disputa que também ocorreu entre parentes pelo poder local envolveu a família do coronel Emiliano Moreira de Andrade e do Coronel José Fernandes de Oliveira Gugé, e que ficou conhecida como luta entre “Meletes e Peduros”, se deu no ano de 1919 e envolveu duas facções dos mandatários locais: o Coronel Gugé, representante do grupo político denominado “peduros”, e os “meletes”, grupo de oposição, chefiado pelos coronéis Pompílio Nunes e Manoel Emiliano Moreira de Andrade. Essa disputa foi encerrada com assinatura de um acordo de paz (IVO, 2004).
O que tem em comum nos dois episódios é a mobilização de toda a sociedade a partir da “extrapolação dos limites que separam as instâncias públicas das estruturas do mundo privado, característica marcante da história política brasileira desde os tempos coloniais” (IVO, 2004, p. 219), sendo as disputas pessoais e/ou políticas encenadas em espaços públicos como ruas, praças, câmara, igrejas, e com uso de muita violência. Não havia limites no uso das instituições públicas para alcançar os fins desejados, uma vez que essas famílias representavam e controlavam essas instâncias.
Ivo (2004) aponta que o mandonismo local como característica política era um reflexo da estrutura-administrativa do Estado Imperial que “promoveu o amesquinhamento dos organismos da administração local, tutelando-os em benefício das províncias, fazendo deles centro de barganha política” (IVO, 2004, p. 74).
De acordo com Renata Ferreira de Oliveira (2012) e com João Diogenes Ferreira dos Santos (2007), o curso político da Imperial Vila da Vitória seguiu com a disputa e alternância entre esses núcleos familiares15, todos aparentados entre si e que naturalmente pertenciam ao mesmo grupo social, perpetuando uma governança distante da população, que era subjugada de forma autoritária e clientelista.
Essa situação política só começou a criar novos contornos com a instauração do Estado Novo, pois novos elementos adentraram a realidade social, afetando diretamente as disputas do comando local. Novos atores sociais sugiram a partir do processo migratório que se deu com a
15 Os troncos familiares mais importantes oriundos dos Gonçalves da Costa foram Fernandes de Oliveira, Oliveira
Freitas, Santos Silva, Lopes Moitinho, Gusmão e Ferraz, e estes nomes permearão toda a história política e social da cidade, permanecendo em importantes cargos representativos local, até os dias de hoje.
construção da Rodovia Rio-Bahia na década de 194016, vindo a desenvolver o comércio local e auxiliar na expansão da malha urbana. Mozart Tanajura nos esclarece que:
As disputas políticas já não se fazem apenas em torno das famílias dos coronéis. Surgem novos fatos sociais com a vinda de novos personagens: os migrantes que começam aparecer como força expressiva na comunidade no seu desenvolvimento sócio-cultural. (...) O núcleo urbano não para de crescer e seu contingente populacional, antes menor que da zona rural, vai-se aproximando dessa pelas constantes migrações (TANAJURA, 1992, p. 74).
A construção da BR Rio-Bahia sedimentava a comunicação entre o Nordeste e o Sudeste, e isso trouxe um fluxo contínuo e considerável de famílias que fugiam da seca e das disputas pela posse de terras promovidas pelos grandes latifundiários. Em busca de uma vida melhor, esses migrantes encontraram, em Vitória da Conquista, um lugar propício para se instalarem.
Desta forma, tem início uma reconfiguração das relações sociais, culturais e econômicas na cidade. Na política, não poderia ser diferente; afinal os migrantes não estavam submetidos ao mandonismo local, não possuíam nenhuma relação de favor com as famílias e coronéis da época.
Contudo, buscando se readequarem às novas configurações políticas e sociais vigentes nos planos estadual e federal, as famílias dominantes se reorganizaram em partidos e alianças. Campanhas eleitorais baseadas em trocas de favores e promessas de melhorias, de forma a se manterem no poder, como foi o caso do prefeito Gerson Gusmão Sales (1951-1955), que passou a ser correligionário do então governador Régis Pacheco, após este intervir no julgamento de Gerson Sales, sob acusação de assassinato. A intervenção resultou na absolvição do réu (MIRANDA, apud, SANTOS, 2007, p. 155). São as relações de favor e personalismos estabelecidas no âmbito da política e no trato da coisa pública, possibilitando a manutenção de um status quo.