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O infanticídio segundo a Antropologia Forense

Legal I: Traumatologia Forense, p 859 Para aprofundamento de um procedimento geral da autópsia e

5.2.4. O infanticídio segundo a Antropologia Forense

Antes de mais, há que esclarecer que o objectivo fundamental desta ciência é “a identificação de esqueletos, corpos em adiantado estado de decomposição, carbonizados ou mumificados e restos mortais não identificados, contribuindo deste modo para a investigação criminal e civil”.651

A Antropologia Forense pode, e deve, ser uma mais- valia na investigação da prática de crime de infanticídio – talvez não tanto quanto à análise da influência perturbadora do parto, mas sim no estudo do cadáver do bebé. Em caso de despedeçamento de cadáver652, primeiramente deve ser constituída uma equipa médico-legal proporcional ao número de vítimas.653 Seguem-se a recolha dos restos mortais e a tentativa de reunir as diversas partes e vestuário (se existir) dos corpos, de modo a possibilitar a sua reconstituição e identificação654, sendo as vítimas carbonizadas as últimas a ser examinadas, uma vez que estas entram mais tardiamente em putrefacção.655 Nos meios hospitalares, pode verificar-se despedeçamento nas intervenções obstétricas, nas quais é necessário proceder a uma basiotripsia (fragmentação do feto).656

A causa da morte e o estado físico do corpo no momento da morte exercem, igualmente, uma grande influência na velocidade de decomposição, constatando-se que os corpos de indivíduos debilitados ou que morreram de doença (como a septicemia) decompõem mais rapidamente que os corpos de indivíduos saudáveis. Os corpos que tenham lesões provocadas antes, durante e depois da morte também se decompõem mais facilmente, uma vez que essas aberturas constituem meios de entrada e de proliferação de fungos e bactérias. Já os indivíduos que sofreram envenenamento entram em putrefacção mais tardiamente. Os recém-nascidos que não chegaram a ser alimentados, uma vez que possuem poucos microorganismos nos intestinos e pulmões, constituem indivíduos cuja decomposição será lenta.657

651

CUNHA, Armando Santinho; ANTUNES-FERREIRA, Nathalie – Antropologia Forense, p. 7.

652

O qual, se intencional, designa-se espostejamento. Deve ter-se em atenção o facto de as feridas infligidas por animais provocarem, por vezes, lesões muito semelhantes às de origem criminosa, pelo que há que distingui-las. E, conforme as situações (enforcamento e sua exposição durante muito tempo – o que resulta na putrefacção ao ar livre – e o afogamento), igualmente existem sinais que podem levar o investigador ao engano. Cfr. CUNHA, Armando Santinho; ANTUNES-FERREIRA, Nathalie –

Antropologia Forense, p. 26.

653

Contando-se, pelo menos, cinco investigadores para cinquenta sinistrados. Cfr. CUNHA, Armando Santinho; ANTUNES-FERREIRA, Nathalie – Op. cit., p. 23.

654

CUNHA, Armando Santinho; ANTUNES-FERREIRA, Nathalie – Op. cit., p. 24.

655

Idem – Op. cit., p. 25.

656

Idem – Op. cit., p. 26.

657

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Quanto ao meio onde se encontra o corpo, por regra a decomposição é mais rápida no mar que em terra – dependendo, igualmente, das características da água (quente ou fria, agitadas ou calmas, entre outras).658

Por seu turno, a cremação do corpo provoca a destruição quase completa do cadáver, encontrando-se, geralmente, pequenos fragmentos de ossos e dentes queimados, enquanto a incineração reduz toda a estrutura biológica a cinzas, não se encontrando qualquer fragmento de osso ou de dente. “O calor produz vários efeitos sobre os ossos e dentes, designadamente na sua estrutura e coloração”, dependendo estas da sua intensidade, temperatura, tempo de exposição, localização da combustão no esqueleto, do tipo de osso e do peso e volume do corpo. “Os ossos de uma cremação vão exibindo tonalidades que vão desde o negro até ao branco”, sendo a cor branca a evidência da calcinação, indicando que a cremação foi mais intensa. Contudo, os ossos queimados preservam-se, normalmente, melhor que os intactos, uma vez que as temperaturas elevadas abrandam o processo de decomposição.659

Quanto à datação da altura da morte, esta depende muito do local e momento em que o cadáver é encontrado, sendo, por isso, uma tarefa muito difícil e complexa. Existem inúmeros factores que podem comprometer toda a prova em estudo – o comprometimento da decomposição dos tecidos moles e duros. A título exemplificativo, segundo Krogman e Iscan, a exposição ao ar, o vento, a água, a temperatura elevada e humidade relativamente alta, a temperatura baixa e humidade relativamente alta, a acidez do solo, e a inumação sem caixão, são factores altamente determinantes na velocidade de descomposição.660 É por isso de extrema importância a avaliação do contexto em que foram encontrados os restos mortais e examinar cuidadosamente todos os objectos que possam existir em seu redor e/ou da sua pertença.661

As estimativas do sexo e da idade à morte são igualmente essenciais, existindo diversos métodos para a sua descoberta. Os relativos ao sexo baseiam-se no dimorfismo sexual, uma vez que, ainda durante o desenvolvimento fetal, começam a desenvolver-se diferenças morfológicas no esqueleto, sendo a partir dos 18 anos de idade que as mesmas se encontram bem definidas. Tais diferenças manifestam-se sobretudo no

658

Idem – Op. cit., p. 39-40.

659

Idem – Op. cit., p. 41.

660

KROGMAN; ISCAN, apud. CUNHA, Armando Santinho; ANTUNES-FERREIRA, Nathalie –

Antropologia Forense, p. 43.

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tamanho dos elementos ósseos e na sua relação função-forma, podendo existir, todavia, e a considerar sempre, algumas variações no padrão.

Contudo, “o dimorfismo sexual nos indivíduos imaturos é muito leve, sendo quase imperceptível ao nível do esqueleto”, sendo sugerida por vários autores a não realização da diagnose sexual dos indivíduos deste grupo etário. Porém, tal discriminação é fundamental nas situações forenses em que é essencial identificar os restos ósseos encontrados.

Quanto à idade à morte, raramente é possível estimar a idade real do indivíduo quando a sua identidade é desconhecida, uma vez que os métodos desenvolvidos baseiam-se na idade biológica, a qual encontra-se relacionada com a senescência do organismo, e não na idade cronológica, a qual é o número de anos vividos desde o nascimento.

Apesar disto, a determinação da idade dos indivíduos não-adultos é mais precisa que a dos adultos, contrariamente à diagnose sexual, uma vez que as idades biológica e cronológica, nestes casos, aproximam-se. Naqueles, as alterações morfológicas ao nível do esqueleto são rápidas e específicas, sendo o conhecimento das taxas de desenvolvimento dos dentes e dos ossos relacionadas com a idade à morte do indivíduo de enorme valor. “O desenvolvimento dentário, a ossificação do crânio, o comprimenjto das diáfises dos ossos longos e a união epifesial constituem os principais critérios na avaliação da idade à morte neste grupo etário”. A calcificação dos dentes deciduais inicia-se entre a vigésima e a vigésima oitava semanas de gestação, sendo que, após o nascimento, continuam a crescer e inicia-se a erupção dos dentes a partir dos sete meses. Estes crescimento e erupção dos dentes deciduais continuam até ao fim do desenvolvimento do 2.º molar decidual, que é o último dente decidual a formar-se (por volta dos 3 ou 4 anos de idade).662

Já a ossificação do crânio é, assumidamente, um critério utilizado para estimar a idade à morte de não-adultos com menos de dois anos – se bem que não é muito preciso, devendo ser empregue apenas quando não são recuperados dentes. Aqui, analisam-se as fontanelas, a sutura metópica, a fusão da mandíbula e os ossos da base do crânio. Pelo contrário, o comprimento das diáfises dos ossos longos (como o úmero, o rádio, o cúbito, o fémur, a tíbia, o perónio, e o ílio/osso ilíaco) é particularmente fiável na determinação da idade de fetos e crianças muito novas.663

662

Idem – Op. cit., p. 55-59.

663

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Por fim, a análise dos traumatismos ósseos é uma boa fonte para a compreensão da (possível) causa da morte dos indivíduos, ou até de alguns momentos das suas vidas – referimo-nos a fracturas, deslocações, miosites ossificantes, traumas ósseos por motivos diversos, amputações, decapitações, estrangulamentos e enforcamentos, trepanações.664 Dado o exposto, é possível concluir-se, na esteira de Mendes Corrêa, que “a ficha individual do criminoso deve ser feita em estreita colaboração do antropologista e do médico, ou por médicos que tenham uma especial preparação antropológica”665

– bem como a “ficha” das vítimas, acrescentamos nós.

5.2.5. O contributo da Criminologia para o estudo do infanticídio e da influência

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