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2.3 O PODER

2.3.1 O jogo do poder, suas bases e os principais jogadores

Para Mintzberg (1983a), o comportamento organizacional é um jogo de poder no qual vários jogadores/influenciadores procuram controlar as decisões e ações da organização. A organização aparece quando um grupo inicial de influenciadores se reúne para perseguir uma missão comum. Outros influenciadores são atraídos para a organização, procurando a satisfação de suas necessidades. Uma vez que as necessidades dos influenciadores variam, cada um tenta usar sua própria alavanca de força - meios e sistemas de influência - para controlar decisões e ações. Assim, para compreender o comportamento da organização é necessário entender quais os influenciadores presentes, quais as necessidades que cada um procura preencher na organização e como cada um é hábil para exercitar plenamente as suas influências. Certamente não é só a força que determina o que uma organização realiza, mas é a força que interessa quando se exibe um desejo de poder.

A fim de explicar as ações dos atores das coalizões, Mintzberg (1983a) resgata Hirschman, que afirma que os participantes, em qualquer sistema, têm três opções: Quadro 06: Opções básicas dos participantes no sistema organizacional

LEALDADE

Quando fica e contribui com o esperado.

– Calo-me e trabalho!

SAÍDA

Quando não concorda com algo e opta por sair.

– Pego minhas ferramentas e saio!

USO DA VOZ

Quando fica e tenta mudar o sistema.

– Prefiro lutar que abandonar! Fonte: Adaptado de Hirschman (apud Mintzberg, 1983a)

Aqueles que decidem usar a voz se tornam o que Mintzberg (1983a) chama de influenciadores. Aqueles que saem – como o cliente que pára de comprar ou o

empregado que procura trabalho em outro lugar – deixam de ser influenciadores. E aqueles que escolherem lealdade – o cliente que compra sem questionar, o empregado que não questiona – escolhem não participar como influenciador ativo.

Diferente de Hirschman, para Russel (1979), aqueles que optam pela lealdade (subordinar-se a alguém) e não usar a voz diretamente, também buscam certo poder, pois eles acreditam que o triunfo do seu líder se reverte em poder para o grupo e, por conseguinte, para ele que participa do grupo. A opção de seguidor está associada à sensação que grande parte das pessoas têm de acreditar que não possui competência para conduzir o seu grupo.

Para aqueles que ficam e lutam, o que dá poder para suas vozes? Essencialmente, ser influenciador requer alguma fonte ou base de poder, aliada ao dispêndio de energia em uma política habilidosa, sempre que necessário.

Os estudos de French e Raven (1959), citados por Bowditch e Buono (1992), Wagner III e Hollenbeck (1999) e Robbins (1999), propuseram a existência de cinco bases de poder:

Quadro 07: As cinco bases de poder apresentadas por French e Raven

Poder Coercitivo As pessoas se conformam com os desejos de outros mediante a

ameaça de alguma forma de punição. Esta base explora o medo da punição.

Poder de Recompensa

As pessoas concordam com os desejos de outros porque isso produz benefícios positivos. Também conhecido como “poder premiador”.

Poder Legítimo Baseia-se na crença de que certos indivíduos possuem o direito

formal de exercer influência.

Poder de Competência

É a influência exercida com base na especialização, habilidades especiais, experiências e conhecimentos.

Poder de Referência Base de poder obtida por indivíduo admirado, estimado que serve

de referência para o comportamento de outros. Em certo sentido, aproxima-se do conceito de carisma.

Fonte: Adaptado de French e Raven (1959)

Para Mintzberg (1983a), o poder do indivíduo na ou sobre a organização acontece devido a alguma dependência que ela tem dele. O autor apresenta cinco bases de poder. Contudo, alerta que para exercer uma das três primeiras bases é preciso atender a três condições básicas, que são apresentadas ao lado.

Quadro 08: As cinco bases de poder apresentadas por Mintzberg

BASES DE PODER CONDIÇÕES PARA EXERCÊ-LAS

1 Controle de Recursos Ser essencial para o funcionamento da organização 2 Habilidade Técnica Estar concentrado em poucas pessoas

3 Corpo de Conhecimento Crítico Ser insubstituível

4 Prerrogativas Legais: é o poder formal, garantido pela posição que se ocupa. 5 Acesso Privilegiado: a alguém que detenha alguma das outras quatro bases. Fonte: Adaptado de Mintzberg (1983a)

Segundo Mintzberg (1983a), ter uma base de poder não é suficiente. O indivíduo precisa desenvolver capacidade política e tornar-se um influenciador. Capacidade política significa a habilidade para usar, efetivamente, as bases de poder.

Borenstein (1996) destaca que a tipologia adotada por Mintzberg (1983a) não conflita com a de French e Raven (1959), porque:

• poder coercitivo e de recompensa são adotados, formalmente, por aqueles que possuem prerrogativas legais e, informalmente, por quem controla recursos críticos;

• poder legítimo corresponde à existência de prerrogativas legais;

• poder de competência corresponde à posse de conhecimentos especializados críticos para a organização; e

• poder de referência se relaciona com os recursos políticos.

Quando a base é formal, pequenos esforços precisam ser realizados para poder usá-los. Muitos governos fazem legislações que nunca são cumpridas, por não se darem ao trabalho de estabelecer uma agência forte o bastante para forçar o seu cumprimento. Da mesma forma, os gerentes descobrem que seu poder para dar ordens é pequeno, quando não tem mecanismos de acompanhamento para garantir que as decisões sejam de fato cumpridas. Por outro lado, quando a base do poder é informal, muito esforço pode ser requerido para usá-la. Se ordens não podem ser dadas, existem batalhas a serem vencidas. Nas universidades, por exemplo, o poder freqüentemente flui para aqueles que participam dos comitês criados para solucionar problemas.

Zaleznik (1986, p. 37) declara que "um elemento crítico é o risco no uso do poder. O indivíduo precisa realizar e obter resultados. Caso deixe de conseguir um dos

dois, ocorrerá um desgaste em sua base de poder, diretamente proporcional às dúvidas que outras pessoas nutriam em suas avaliações anteriores a seu respeito".

O conjunto de características intrínsecas de lideranças - charme, força física, atratividade, é chamado de recursos pessoais. Carisma é o rótulo para qualidades místicas que atraem seguidores para o indivíduo. Algumas pessoas se tornam poderosas simplesmente porque outras pessoas garantem; os seguidores garantem lealdade para uma voz singular. Então, poder deriva de alguma base, associada aos efeitos e habilidades para usá-la.

Assim, torna-se importante olhar mais concretamente os canais pelos quais o poder é exercido, que Mintzberg (1983a) chama de “o significado do sistema de influência” - os instrumentos específicos que habilitam os influenciadores para resultados efetivos.

Mintzberg (1983a) distingue os influenciadores externos e os internos. Os influenciadores internos são os empregados de tempo integral; aquelas pessoas encarregadas de tomar decisão e agir permanentemente; a base regular. São eles que determinam os resultados, que expressam as metas perseguidas pela organização. Os influenciadores externos não são empregados e usam suas bases para influenciar e tentar afetar o comportamento dos empregados.

O jogo do poder inclui nove grupos de possíveis influenciadores, listados abaixo na ordem de seu aparecimento. Os primeiros quatro são encontrados na coalizão externa, enquanto a coalizão interna compreende outros cinco grupos de influenciadores.

Finalmente, existe um décimo ator no sistema de poder da organização, que é tecnicamente inanimado, mas que de fato tem vida própria: a ideologia da organização - o conjunto de crenças moldado pelos influenciadores internos que distinguem uma organização das demais.

Cada um destes grupos de participantes do jogo do poder organizacional tende a disputas, utilizando-se dos meios de influência que se encontram a sua disposição.