4 A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
4.2 A BUSCA PELA REALIZAÇÃO DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA
4.2.3 O Neoconstitucionalismo e as conquistas voltadas para Honra
Após um período de ditadura militar, em que havia uma séria de privações desde reuniões em praças, à liberdade de expressão ou de imprensa, além do desrespeito à dignidade humana, a Constituição Federal de 1988 trouxe um novo panorama uma vez que uma séria de direitos e garantias que foram conquistados pela sociedade que lutava incessantemente por mudar aquele cenário.
Na referida carta magna, uma série de demandas sociais foram efetivadas, a exemplo de direitos trabalhistas e sociais. O direito ao voto aos maiores de 16 anos,
124 “A essência da Constituição está nos Fatores Reais do Poder que regem uma nação que quando
escritos em folha de papel acabam por receber expressão escrita. A partir desse momento, incorporamos a um papel não são simplesmente fatores reais do poder, mas sim o verdadeiro direito”. Para ler mais verificar em LASSALLE, Ferdinand. A Essência da Constituição. 9ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009. p. 20.
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REZENDE, Maria José de. A Ditadura Militar no Brasil: Repressão e Pretensão de Legitimidade. 1964-1984. Londrina : Eduel, 2013. p.89.
reduções nas jornadas de trabalho de 48 para 44 horas semanais, o direito de greve, mesmo que ainda não regulamentado, licenças maternidade e paternidade, dentre outros diretos representaram exemplos de conquistas sociais daquele momento.
Com o advento da Constituição de 1988, deixou-se para traz uma fase obscura e passou-se a ter liberdades, tanto de expressão, como de imprensa, além do que, uma grande conquista foi a dignidade da pessoa humana. A nação passou a ter o poder de exigir do Estado contraprestações para garantia da saúde, educação, segurança, trabalho e até mesmo lazer.
Com isso o ser humano passou a ser considerado e seus valores morais dignificados de maneira que abusos que anteriormente eram cometidos, a exemplo da tortura e do racismo, passaram a serem crimes inafiançáveis.
Conforme explicita Soares126, a dignidade da pessoa humana tornou-se principio basilar da Constituição Federal de 1988, que se tornou a norma principal de onde irradiam todas as demais e referencia para os direitos fundamentais, de forma que, com essa conquista, a qualidade moral do indivíduo também passa a ser valorizada cada vez mais.
Citado autor menciona que o legislador brasileiro conferiu à ideia de dignidade da pessoa humana a qualidade de norma embasadora de todo o sistema constitucional, e este princípio reflete-se sobre os direitos individuais, tais como à vida, a liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, além disso, irradia-se sobre direitos sociais como educação, a saúde, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, à assistência aos desamparados; os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais; os direitos da nacionalidade; os direitos políticos e os direitos difusos, regulados em diversos preceitos da Carta Magna.
A Constituição Federal de 1988 representou não somente o fim da ditadura militar, mas também a conquista da redemocratização do país, de forma que, o brasileiro passou a participar mais ativamente da vida política nacional a ponto de até mesmo retirar do poder seus representantes políticos que não correspondam aos anseios da nação.
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SOARES, Ricardo Maurício Freire. O Princípio Constitucional da Dignidade da Pessoa Humana. 1ª ed. São Paulo: Saraiva, 2010, p.135.
Diante disso, pessoas que não possuíam moradia se reuniram em movimentos sociais ganhando proteção, políticas sociais mais direcionadas foram aplicadas, edificou-se um novo modelo de Estado Social buscando o bem estar da comunidade.
Nesse diapasão, conforme elucida Barroso127, a Constituição Federal de 1988 além de ser o símbolo maior de uma história de sucesso, representou a transição de um Estado autoritário, quando uma série de abusos eram cometidos, com uso de intolerância e violência, passando a ser um Estado Democrático de Direito, definindo então o referido autor que “A Constituição de 1988 foi o rito de passagem para a maturidade institucional brasileira.”
Com as conquistas oriundas da Constituição Federal de 1988, a referida Carta Magna passou a ter supremacia normativa acima de todas as demais normas, de forma que, a mesma passou a irradiar as diretrizes a serem miradas por todos os outros instrumentos normativos.
De acordo com Barroso128, “[...] a Constituição promoveu uma transição democrática bem sucedida e assegurou ao país estabilidade institucional mesmo em momentos de crise aguda.” O direito Constitucional passou então para o ápice das normas.
Hoje se fala em Direito Civil Constitucional, em Direito Empresarial Constitucional e outros ramos do Direito que foram constitucionalizados, uma vez que agora os mesmos seguem os ditames da Constituição Federal de 1988, o que representou um novo pensamento constitucional voltado a reconhecer a supremacia axiológica da Constituição.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a teoria jurídica era influenciada pelo Estado Legislativo de Direito, ou seja, valia o que estava positivado, sem se analisar juízos de valores acerca da aplicação real da justiça ao caso concreto.
O novo direito constitucional pondera as normas à luz de princípios norteadores que traduzem as situações concretas em conformidade com os princípios que buscam justamente a efetivação da justiça.
127
BARROSO, Luis Roberto. O Constitucionalismo Democrático no Brasil: Crônica de um Sucesso
Imprevisto. Revista Neoconstitucionalismo em Perspectiva. Viçosa: UFG, 2014.p. 28.
128
De acordo com Soares129, um ponto que marca o neoconstitucionalismo é a frequente utilização de princípios jurídicos embasando processos hermenêuticos e decisórios conciliando ideias de justiça com exigências de segurança e legalidade.
No Neoconstitucionalismo, o poder emana do povo através de seus representantes legais e os valores explícitos na nova Constituição são frutos de reflexões e visão histórica objetivando o aprimoramento de processos de controle do poder com a finalidade de aprimoramento da convivência social e política.
Assim, observa-se que o Neoconstitucionalismo é fruto de um esforço da coletividade que abarcou na nova Constituição seus anseios onde a analise legal deixa de limitar-se à letra morta da lei, mas sim, seu real sentido busca pela justiça, análise por princípios e alcance da realização dos direitos fundamentais.
Por derradeiro, a Constituição tornou-se a norma superior a todas as demais, atribuindo poder imperativo a ela sobre os demais institutos, sob pena de sanção. Deste modo, no constitucionalismo moderno a Nova Constitucional nasceu para edificar o Estado de Direto.