comunidade de contato lingüístico e outra sem contato lingüístico
P ARÂMETRO ACÚSTICO I MPRESSÃO AUDITIVA
5 Procedimentos metodológicos
5.1 O perfil empírico deste estudo
Gostaríamos de retomar o perfil que apresentamos na introdução (capítulo 1) deste trabalho, desta vez, com base na discussão exposta ao longo dos capítulos 2 a 4. Na introdução, propusemos o seguinte perfil de análise:
1. Objeto de estudo: Os róticos intervocálicos do PB na fala de indivíduos de Blumenau em comparação com falantes de Lages.
2. Questão norteadora: Como se dá o mapeamento das formas fonéticas dentro da gramática individual? Quais formas há, como se relacionam uma com a outra e qual é o comportamento fonológico delas?
3. Objetivo principal: Descrever dos róticos mostrando a sua gama de propriedades auditivas e acústicas e analisar os princípios organizadores da gramática de cada indivíduo, apoiando nessa premissa uma proposta de re-interpretação dos róticos no PB em geral.
4. Embasamento teórico: A abordagem fonético-fonológica complexa emergente, baseada na teoria da gramática individual e na fonologia funcional conforme expostas no capítulo 4.
i) Avaliação fonética com base em uma análise auditiva e acústica, bem como categorização dos dados através de um processo gradativo e aberto, conforme a grounded theory (STRAUSS, CORBIN, 1990).
ii) Comparação das gramáticas individuais dos falantes de Blumenau e Lages. 6. Base empírica formada com os dados disponibilizados pelo projeto VARSUL, considerando os fatores intrínsecos das palavras constituintes da amostra, a saber, a posição do acento, a classe de palavra e os itens lexicais mais freqüentes em cada indivíduo.
Após a apresentação da diversidade das formas fonéticas dos róticos no PB descrita na literatura afim (capítulo 2); da exemplificação das variedades de origem dos falantes, sendo a primeira uma variedade em contato com o alemão e a segunda uma variedade sem contato lingüístico presente atualmente (capítulo 3); e da discussão da nossa abordagem teórica no capítulo anterior (4), chegamos então à questão da avaliação empírica. Em seguida, gostaríamos de justificar o
procedimento exposto nesta seção, segundo as necessidades e exigências
conseqüentes dos nossos objetivos e da escolha de abordagem adotada. Conforme antecipado, um dos desencadeadores de nosso interesse pelos róticos e sua (não-) distinção intervocálica pelos falantes de Blumenau e Lages originou-se em uma pequena pesquisa por nós realizada101 sobre os róticos na fala de Blumenau. Na ocasião, nossos resultados confirmaram parcialmente os de Monaretto (1997), ou seja, a aparente falta de distinção entre o r-simples e o r-duplo intervocálicos pelos falantes de Blumenau, ao menos de acordo com a categorização fonética
exclusivamente auditiva e a aplicação do modelo quantitativo laboviano. No
entanto, também transpareceu que alguma dimensão da realidade dos róticos não estava bem modelada dentro da metodologia aplicada naquele trabalho, motivo pelo qual um estudo funcional é uma chance de fornecer uma compreensão mais rica e aprofundada do fenômeno. Desse modo, o desejo de desenvolver um modelo mais capaz de captar o comportamento dos róticos na fala dos indivíduos em questão, e que respondesse mais detalhadamente à questão da (não-)distinção entre os dois contextos intervocálicos motivou a realização do presente estudo.
A idéia condutora inicial para este trabalho era de comparar os falantes de
Blumenau com falantes de outra cidade do Sul que não estivesse em contato com o
alemão. Escolhemos a cidade de Lages por ser uma das comunidades
representadas no banco de dados do VARSUL, com material empírico coletado dentro da mesma metodologia aplicada em Blumenau e por se tratar de uma região que, no VARSUL, não representa uma comunidade de contato lingüístico, ao que resumimos a principal diferença interessante para o nosso caso.
A diferença qualitativa entre o levantamento e a categorização dos dados do trabalho anterior e da presente pesquisa está nos seguintes aspectos. O primeiro concerne à avaliação fonética. Os dados neste trabalho são analisados não somente auditiva, mas também acusticamente e sem categorização prévia de variantes. O segundo aspecto diz respeito à concepção de gramática individual. Investigamos a organização das variantes na fala de cada falante individualmente. O foco do nosso estudo está na gramática individual, além do mais, como detalharemos na seção 5.3, os nossos dados não satisfazem às exigências de uma análise segundo a metodologia clássica da sociolingüística quantitativa. Contudo, levantamos os fatores intrínsecos das palavras que constituem o corpus para analisar a sua
influência sobre o fenômeno em questão. Comparamos, como única instância acima do indivíduo, os dois conjuntos de falantes, tomando o fator “região” como pista paralela para observar de que modo efeitos individuais poderiam se manifestar na comunidade, embora o nosso objetivo não seja exatamente a descrição da variedade de uma comunidade de fala. Esse levantamento, em relação à análise auditiva e acústica bem como ao procedimento interpretativo, é o tema desenvolvido na seqüência deste capítulo.
Na realização de nossa análise, deparamo-nos com problemas concernentes à escolha da abordagem teórico-metodológica, conforme exposto no capítulo anterior. Do ponto de vista fonético, a limitação do nosso material encontra-se no fato de as gravações disponíveis no corpus do projeto VARSUL refletirem pouco o aspecto dialógico, por se tratarem de entrevistas orientadas pela metodologia da
sociolingüística variacionista102, normalmente realizadas por entrevistadores
oriundos de fora da comunidade de fala em questão. Portanto, a nossa investigação limita-se à descrição e à análise da organização da gramática individual. Conforme
102 Os informantes são conduzidos a falar, tanto quanto possível, sem interferência do entrevistador já que o que se busca, na metodologia laboviana, é captar o vernáculo, ou seja, a fala mais natural e espontânea possível, à qual é dispensado o mínimo de atenção. As narrativas de experiências pessoais são os tipos de seqüências textuais que predominam na amostra do VARSUL.
explicamos no capítulo 4, excluímos a parte da interação que, segundo o nosso conceito da língua, é o constituinte da língua como fenômeno supra-individual.
Na seção a seguir detalhamos os princípios metodológicos da grounded theory.