É sabido que gênero e sexualidade são categorias analíticas complexamente imbricadas e socialmente construídas. De modo especial, nesta pesquisa, isso implica a compreensão de que a noção de mulher lésbica, por exemplo, é atravessada por relações de gênero e sexualidade que se sustentam, mas que também se fragilizam. Dizendo de outro modo, a lesbianidade se constitui a partir de um corpo tornado sujeito do feminino – mesmo que esse corpo tenha sido, em algum momento, convocado pelo gênero masculino, como no caso de mulheres transexuais lésbicas – e é daí que emerge a interdependência entre gênero e sexualidade.
Contudo, conforme mostrou Adrienne Rich (2010) ao desenvolver o conceito de heterossexualidade compulsória – de forma a nomear e qualificar a ordem dominante pela qual mulheres e homens se veem convocados a serem heterossexuais – como vetor pulsante da lógica do gênero, tornar-se “sujeita” do feminino implica, consequentemente, tornar-se “sujeita” heterossexual, o que constitui uma ampla rede discursiva bastante presente e atuante nas sociedades hegemônicas ocidentais e algumas orientais. Nesse sentido, tal como propõe a autora, a lesbianidade em um corpo, a priori, produziria um vetor desestabilizador tanto do gênero como da sexualidade. Ou seja, mesmo uma mulher feminizada, ao ter seu desejo afetivo- sexual voltado para outras mulheres, já desestabilizaria, nessa concepção e em alguma medida, a própria normalização do gênero que a interpela. Essa compreensão, contudo, não implicaria efetivamente que tal “sujeita” perdesse aí sua inteligibilidade enquanto mulher, nem mesmo como mulher feminina (e heterossexual); mas disso resultaria, pelo menos, uma desestabilização da verdade heterossexual que também sustenta a norma de gênero.
Tal relação de profunda dependência acaba por emergir, ao mesmo tempo, como limitação ao gênero e à sexualidade, mas também como condição que fragiliza sua efetivação enquanto norma que produz e organiza nossas relações sociais. Exemplos da íntima relação do gênero com a sexualidade enquanto matriz podem ser infinitamente descritos e atravessam nosso cotidiano mais prosaico de distintas formas. Como no caso, já utilizado e “usurpado” por mim na introdução desta tese, de Kate22.
22 Em Everything Sucks (2018), série da Netflix cuja história narra a vida de alguns adolescentes nos anos 1990,
Kate23 encontra-se sozinha em seu quarto, folheando uma revista de nudez feminina. Visivelmente constrangida e excitada, coloca uma de suas mãos dentro da calça, com a intenção de masturbar-se, quando é surpreendida por seu pai, que invade seu quarto sem sequer pedir licença. Ao visualizar a cena, o pai de Kate oferece sua interpretação para o acontecimento que se materializa em sua frente: ao abrir a porta, ele senta ao lado da filha e começa a falar sobre o quanto aquelas imagens da revista são fantasiosas, que ela não deveria se preocupar em parecer com elas, pois “homens de verdade” não colocam a beleza em primeiro lugar.
Figura 2 - Kate em Everything Sucks
62 Tanto no caso de Kate quanto no caso de Jenny, que compõe a epígrafe deste texto, o gênero como poder institui limites e possibilidades, forjando sentidos diversos para uma mesma situação. O gênero feminino limita e produz: limita a possibilidade de se reconhecer, nessas personagens, o desejo por mulheres; produz, consequentemente, expectativas heterossexuais sobre seus corpos, com base justamente nas suas expressões de gênero e, no caso de Kate, de sua idade.
Neste sentido, entender o gênero como poder emerge como crucial para a teorização de Butler (2014). Para a autora, gênero não pode ser compreendido como algo anterior a suas formas de regulação, mas sim como produto delas, a partir de um processo de sujeição que não é outra coisa senão gênero. Consequentemente, gênero emerge como uma das formas que o poder assume; seu aparato regulador e disciplinar é ele próprio generificado, de modo que a “sujeita” não pode ser produzida fora da norma de gênero.
Como efeito, gênero enquanto poder é constituído como algo mais amplo do que as práticas que ele institui. Mesmo que ele seja o resultado das suas próprias formas de regulação, ele pode delas desprender-se (Butler, 2000). Dizendo de outra forma, no lugar de pensar a hegemonização de masculinidades e feminilidades, entende-se que as formas de fazer gênero não são o gênero, mas sim o meio pelo qual ele permanece produzido dentro de uma relação binária e limitada. Suas práticas, portanto, assim como se aproximam de sua idealização, podem dela se afastar, produzindo algo outro que não aquilo que idealizamos como gênero.
Entretanto, se essas práticas são o meio pelo qual o gênero é sustentado e reiterado, não há como pensar as duas instâncias – isto é, a do fazer e a do ser – de forma independente: o gênero enquanto poder emerge como produto de suas práticas, mas essas práticas podem contribuir ativamente para realocar as fronteiras que ele institui (Butler, 2000).
Para desenvolver o tema da força regulatória das práticas de gênero sobre os corpos, Butler (2013) propõe o conceito de performatividade. Para tanto, a autora recupera a noção de “performativo”, conforme desenvolvida pelo linguista Austin, e enfatiza o aspecto construído do gênero e do sexo, assim como seu caráter (re)citacional, tal como proposto por Derrida. Butler (Ibidem) argumenta que é por meio da repetição de atos estilizados que o gênero é (re)produzido num corpo e, mais do que isso, que o indivíduo se torna “sujeita”/o. Nesse sentido, a/o “sujeita”/o emerge como produto da performatividade, ao invés de ser dela produtor/a. Se interpelado, o indivíduo passa a reconhecer-se como pertencente a um gênero- sexo em detrimento do outro, e isso é reiterado constantemente em/por seu corpo, produzindo, assim, alguém de determinado gênero. O que se enfatiza aqui, portanto, é que o gênero é um
naturalizada. Destaca-se ainda que o conceito de Butler rejeita a ideia de que há um gênero estático e anacrônico que simplesmente recai sobre o indivíduo. Ao contrário, ao performativizar o gênero, o indivíduo é convocado a repetir – algo que jamais poderá ser feito com perfeição e exatidão – e é nessa dinâmica que a autora aponta para uma fundamental possibilidade de resistência, já que tal repetição e citacionalidade estão irremediavelmente destinadas ao fracasso (Salih, 2013), ou seja, destinadas a atualizar o próprio gênero, ainda que como dimensão de poder.
Butler (2013), de fato, desenvolve o conceito de performatividade para discutir o efeito e a constituição de corpos generificados, alinhando-se com perspectivas refratárias ao reducionismo do gênero aos processos biológicos. No entanto, pouco discute a questão da sexualidade no que diz respeito a este conceito especificamente. Consequentemente, é imperativo para esta tese questionar qual o lugar da sexualidade na performatividade, uma vez que a pesquisa dedica-se também a discutir esta relação (sexualidade e performatividade). De fato, independentemente dos limites impostos pela teorização de Butler, seu conceito de performatividade tem sido uma importante ferramenta teórico-metodológica para problematizar não apenas o gênero, mas também a sexualidade e a raça. Anselmo Alós (2013), por meio justamente do conceito de performatividade, problematiza a obra El Beso de la Mujer Araña24 a partir de dois grandes pilares. O primeiro propõe uma interpretação alternativa sobre a relação que se estabelece entre duas personagens do livro: Molina e Valentin. A partir da performatividade, o trabalho indica a ressignificação de Molina enquanto revolucionário em três grandes âmbitos: no gênero, na sexualidade e na política. O segundo pilar classifica como paródico e subversivo o fato de Manuel Puig (autor da obra) recorrer, em algumas notas de rodapé, a um conhecimento que se diz científico, mas que, na verdade, é uma invenção do próprio autor. Destaco nesse artifício narrativo a paródia científica sobre a homossexualidade, que, com seu efeito performativo, constitui-se em prescritiva e indubitável, mas que, ao revelar- se ficção (porque enquanto efeito performativo pode ser parodiada), tensiona a legitimidade do próprio discurso científico enquanto produtor de verdades sobre a homossexualidade.
Rafael Cesar (2018), por sua vez, utiliza o conceito de performatividade para discutir gênero e raça a partir de uma performance de Nina Simone da música Pirate Jenny. Ele indica que a cantora aplica expressões específicas à música, que modificam excertos de forma a aproximar a canção do dialeto afro-americano, consequentemente aproximando-a da situação
24 O livro narra a história de Molina, um jovem homossexual e que se refere a si mesmo no feminino, encarcerado
64 vivida por negras/os nos Estados Unidos dos anos 1960. Como efeito, segundo Cesar (Ibidem), Nina Simone opera a interpretação de uma canção que não é sua e que não tinha como tema as opressões vividas por uma mulher negra, tornando seu corpo e sua performance no palco fontes de ressignificação política da canção. Assim, o autor propõe que as subjetivações de raça e de gênero trabalham de forma interdependente e performativa, e para tornar visíveis essas operações investiga a figura de Nina Simone (sua história enquanto pianista erudita e crítica das formas populares de música, mas que submete-se a estas enquanto mulher negra por seu potencial político), sua performance (corporal e política) e o público da performance em questão (Londres da década de 1960).
Em um sentido aproximado dos dois trabalhos referenciados, procuro entender a relação entre gênero e sexualidade como interdependente. Resgato, portanto, a lógica de manutenção entre gênero e sexualidade enquanto matriz. Como efeito, a performatividade de gênero implicaria uma performatividade de sexualidade, e vice-versa, ainda que tais conceitos não possam ser reduzidos um ao outro. Retomando o diálogo do início desta seção, e que remonta à série The L World, é possível identificar que tal marco normativo é pano de fundo para Jenny e seu corte de cabelo, já que se tem, nessa disposição, um elemento a partir do qual sustenta-se sua pressuposição do que é realmente “parecer” uma lésbica. Obviamente que a própria lesbianidade (ainda) necessita do gênero feminino para se sustentar. Por outro lado, tal constituição não assegura um lugar estável; antes, implica um processo de negociação constante, em que com frequência os lugares de gênero e sexualidade desestabilizam-se mutuamente na medida em que estão fadados a relacionarem-se com a matriz heterossexual para ganharem inteligibilidade. Voltando à Jenny: é sua própria constituição enquanto mulher produzida a partir de um marco normativo de feminilidade que, de certa forma, impede Mark – e ela mesma – de reconhecê-la como lésbica.
Importa assumir, também, que sexualidade não diz respeito apenas à homo/bi/hetero e demais nomenclaturas que falam daquela/e para a/o qual dirigimos nosso desejo. Sexualidade compreende o âmbito do que pode ou não um corpo, quais os limites de uma expressão sexual que não é reprovável – sendo que tais limites, em um marco normativo, são inevitavelmente atravessados por vetores de gênero. Resgatando o cotidiano de Kate, pode-se dizer que os limites de seu desejo são determinados pelo seu gênero, mas, mais do que isso, a cena oferece uma leitura em que gênero emerge, ao mesmo tempo, como causa e efeito. Causa e efeito da leitura do pai de Kate - afinal, a interpretação desvelada diz respeito sobretudo a gênero e, consequentemente, à sexualidade, uma vez que, a partir dela, a adolescente estaria desejando ser como as mulheres da revista (gênero) para fazer-se desejável aos olhos masculinos
(sexualidade). No entanto, e ainda assim, Kate resiste enquanto mulher que deseja outras mulheres, o que, por certo, resulta em disputas sociais importantes que expõem o quanto tais limites são constantemente negociados e questionados.
Ao dizer isso, enfatizo também que a relação entre gênero e sexualidade por meio da performatividade funciona como desestabilizadora da própria performatividade. Jenny, por exemplo, enquanto mulher que performatiza feminilidade e, portanto é “percebida” como heterossexual, não tem seu corpo interpelado, de todo, pela norma de gênero: resiste e existe enquanto corpo feminino, efeminado e lésbico. Por outro lado, quando corta o cabelo, antes de adequar-se a outro marco normativo, para ser “percebida” como lésbica, está, de fato, em tensão (já que resistente) com a performatividade de gênero feminina.
Contudo, apesar de a sexualidade ter relação direta com a questão da performatividade – tanto em termos normativos como em termos de ela ser também uma expressão passível de expor a precariedade da força performativa que interpela os corpos –, existem outras questões a respeito da performatividade que merecem atenção particular. Trata-se, nesse caso, de algumas críticas ao próprio conceito, que vêm sendo efetuadas no interior do campo dos estudos feministas e que, tal como elaboradas, vêm permitindo que outras dimensões de análise possam ser dinamizadas.