Na década de 90, com a queda dos investimentos federais em habitação social e a incapacidade econômica da Cohab-LD de viabilizar novos empreendimentos, a administração de caráter populista que se sustentava com as negociações dos conjuntos habitacionais da Cohab-LD se reinventou e passou a remover as famílias de fundos de vale para assentamentos em terrenos da Cohab-LD com características muito semelhantes às das favelas, sem infraestrutura e equipamentos, e barracos precários.
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Apesar do discurso do desfavelamento normalmente estar associado à remoção de famílias residentes em favelas para conjuntos habitacionais, sobretudo durante a vigência dos financiamentos do BNH, em Londrina foram poucos os conjuntos habitacionais construídos com este objetivo.
Tabela 2 – Unidades habitacionais destinadas ao desfavelamento em Londrina entre 1970 e 1991
Fonte: Martins (2007).
Por outro lado, surgiram os assentamentos promovidos pela Cohab-LD.
(...) o termo ‘assentamentos urbanos’ foi criado pelo, então prefeito, Antônio Casemiro Belinati, como uma forma de conquistar votos da população assentada, pois, eram apenas retiradas as famílias das áreas consideradas ilegais de ocupação, ou que estavam sendo reclamadas judicialmente por seus proprietários, e levadas para estas áreas concedidas pela Prefeitura Municipal, sem qualquer infra-estrutura, possuindo as características semelhantes as das favelas, mas a população assentada acreditava estar melhorando de vida. 89
Devido a esse uso da habitação social como forma de promover os políticos, Melchior e Asari (2003, p.546) argumentam que as migrações campo-cidade e de cidades
89 Silva e Melchior (2002). Com a criação dos Assentamentos, a Cohab-LD passou a diferenciar nos
documentos oficiais: Assentamentos precários: “assentamentos” de famílias (famílias que são assentadas pela Cohab-LD) removidas de outras ocupações para áreas da Cohab-LD ou que serão negociadas pela Cohab-LD para moradia desta população. Essas áreas não possuem infraestrutura urbana e, por isso são denominados “precários; Ocupações irregulares: áreas públicas ou particulares que foram ocupadas por famílias de baixa renda sem o auxílio da Cohab-LD. Para fins de regularização fundiária apenas os assentamentos precários podem ser regularizados.
menores da região para Londrina foram intensificadas pela crença de que em Londrina o poder público municipal dava garantias para a aquisição de um terreno próprio ou de uma unidade habitacional.
De todos os assentamentos estudados pelas autoras, (João Turquino, São Jorge, União da Vitória e Santa Fé), foi observado um padrão de deslocamento das famílias. Grande parte saiu do campo – decorrente da mecanização, substituição da mão de obra por maquinário – migrou para cidades menores e depois para Londrina, ou direto para Londrina. Dentro de Londrina começaram no aluguel, mas a progressão do aluguel e a instabilidade dos empregos e os baixos salários levaram, após morarem em diferentes bairros em busca de aluguéis mais baratos, às ocupações e/ou assentamentos.
O levantamento de 2003 mostra que a maioria (supera os 60%) dos moradores dos assentamentos teve origem na zona rural, fato que decorre do perfil econômico da região norte do Paraná e da permanência das atividades agropecuárias, e com índices de industrialização medianos. Ao serem direcionados para os assentamentos, as famílias passavam a pagar a prestação para a Cohab-LD, mesmo sem nenhuma infraestrutura no bairro, como redes de água, luz e de esgoto. Portanto, tratava-se de uma transferência da favela, mas com a possibilidade de compra.
As autoras argumentam que quanto mais promoveram o reassentamento, mais populares os governantes ficaram. No momento da pesquisa constataram a alta popularidade do prefeito Antônio Belinati, reconhecido pelo programa de bases populistas.
Já durante o governo de Cheida (1993-1996) foram realizadas obras de urbanização90 em vários assentamentos precários que foram removidos na gestão
90 Foram realizados dois programas em sequência: O Programa Morar Melhor (1993-1996) visava
promover a urbanização de favelas e a regularização fundiária para população com renda inferior a três salários mínimos, residentes de favelas e assentamentos precários. Atendeu um total de 4.608 famílias. Também foram entregues “kits” de materiais de construção (tábua, prego e telha) para a construção de um módulo 3 x 3m, em terrenos dotados de infraestrutura. A urbanização das favelas procurava manter o maior número de famílias no local, sempre que possível, exceto quando as áreas eram consideradas inadequadas, de risco ou de fundo de vales. O lote mínimo para este Programa possuía 120,00m², com 8,00 metros de frente e 15,00 metros de profundidade. O programa foi criticado com o argumento de que como a urbanização ocorria no local da ocupação original, legitimou as ocupações em locais considerados inadequados como praças, por exemplo. Como foi descrito, em entrevistas foram relatados os acordos
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anterior. O investimento de maior peso da administração petista foi na área de saneamento. As obras de urbanização também geraram remoções e novamente houve uma série de deslocamentos populacionais. Foi nesta administração que foi realizado o primeiro levantamento oficial da situação habitacional de Londrina91.
Nesta administração a lógica da mercadoria política se mantém por meio de acordos entre a gestão da Cohab-LD e movimentos sociais de moradia. A Cohab-LD fornecia informações sobre a localização dos terrenos da Companhia para os movimentos organizarem ocupações planejadas de um modo em que a Cohab-LD conseguia viabilizar a regularização das áreas92. Com o intervalo da gestão do Belinati
até 2000, o então Presidente da Cohab-LD na gestão Cheida – Nedson Micheleti – foi eleito prefeito e um dos diretores – André Vargas – foi eleito vereador em 2000, deputado estadual em 2002 e deputado federal em 200693.
Na gestão Belinati de 1997 a 2000 – gestão em que foi cassado – foi criado o projeto Renascer com o objetivo de implementar uma política habitacional no município. O projeto era constituído por programas94 que visavam levantar recursos
financeiros pelas famílias inscritas no programa no modelo de poupança e firmando parcerias com o setor privado (principalmente construtoras).
O interesse político sobre essas áreas está pautado na cessão de favores que têm um custo financeiro baixo e atinge grande número de pessoas que incorporam o jogo político configurando uma relação de reciprocidade, de cumplicidade95.
entre a Cohab-LD e os movimentos sociais neste período; o Programa Vida Melhor (1995-1999), que depois passou a se chamar Habitar Londrina (possivelmente como forma de desvincular da gestão anterior) consistia no fomento à construção de novas unidade habitacionais em parceria com a iniciativa privada. Destinava-se a famílias com renda de três a dez salários mínimos (PEMAS, 2002).
91 O Documento resultante deste levantamento consiste em IPPUL (1996).
92 Informações obtidas a partir de entrevistas com diferentes funcionários de carreira e cargos
administrativos da Cohab-LD.
93 Foi preso em 2015 devido ao envolvimento nos escândalos de corrupção na chamada “Operação Lava-
Jato”, e cumpre a pena em condicional desde 2018.
94 O principal programa foi o Poupalar (1998-2000), em que a Cohab-LD realizava para o interessado a
abertura de uma caderneta de poupança na Caixa Econômica Federal, sem comprovação de renda, orientando que poupasse 10% de sua renda para aquisição da habitação. No caso de desistência a poupança era resgatada mediante a retenção de uma “taxa de desistência” (PEMAS, 2002).